{"id":2231,"date":"2006-10-20T00:00:00","date_gmt":"2006-10-20T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2231"},"modified":"2006-10-20T00:00:00","modified_gmt":"2006-10-20T00:00:00","slug":"alimentao-fome-a-vergonha-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/10\/mundo\/alimentao-fome-a-vergonha-do-mundo\/","title":{"rendered":"Alimenta&ccedil;&atilde;o: Fome, a vergonha do mundo"},"content":{"rendered":"<p>Na&ccedil;&otilde;es Unidas, 20\/10\/2006 &ndash; A comunidade internacional est&aacute; violando o direito &agrave; alimenta&ccedil;&atilde;o, uma das garantias b&aacute;sicas da humanidade, pois a fome continua afetando grandes popula&ccedil;&otilde;es na &Aacute;sia e &Aacute;frica, segundo informe da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas. <!--more--> \u201cApesar das promessas de erradicar a fome, poucos progressos foram conseguidos na redu&ccedil;&atilde;o do n&uacute;mero de suas v&iacute;timas\u201d, disse Jean Ziegler, relator especial para o direito &agrave; alimenta&ccedil;&atilde;o e autor do documento. Mais de 852 milh&otilde;es de pessoas (cerca de 13% da popula&ccedil;&atilde;o mundial) n&atilde;o tem alimento di&aacute;rio suficiente para ter uma vida s&atilde;, de acordo com a Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para a Agricultura e a Alimenta&ccedil;&atilde;o (FAO), com sede em Roma.<\/p>\n<p>Dessa quantidade, cerca de 815 milh&otilde;es vivem em pa&iacute;ses em desenvolvimento, 28 milh&otilde;es nas chamadas na&ccedil;&otilde;es em transi&ccedil;&atilde;o da Europa oriental e da extinta Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica, e aproximadamente nove milh&otilde;es no mundo industrializado. \u201c&Eacute; uma vergonha para a humanidade que no mundo, agora mais rico do que nunca, seis milh&otilde;es de ciran&ccedil;as morram antes dos 5 anos de idade por causa da desnutri&ccedil;&atilde;o e de doen&ccedil;as decorrentes\u201d, disse Ziegler. O estudo, apresentado na atual 61&ordf; sess&atilde;o da Assembl&eacute;ia Geral da ONU, destaca que a maioria dos que sofrem fome vive na &Aacute;sia e &Aacute;frica, 80% deles em &aacute;reas rurais e dependentes da agricultura e do pastoreio. \u201cEles passam fome porque n&atilde;o h&aacute; suficiente trabalho ou acesso a recursos produtivos com a &aacute;gua para alimentar suas fam&iacute;lias\u201d, disse o especialista.<\/p>\n<p>Em uma declara&ccedil;&atilde;o divulgada segunda-feira para celebrar simultaneamente o Dia Mundial da alimenta&ccedil;&atilde;o (16 de outubro) e o Dia Internacional pela Erradica&ccedil;&atilde;o da Pobreza (dia 17), o secret&aacute;rio-geral das Na&ccedil;&otilde;es Unidas, Kofi Annan, disse que o mundo conta com os recursos e o conhecimento para eliminar a fome. \u201cO que precisamos &eacute; vontade pol&iacute;tica e determina&ccedil;&atilde;o\u201d, ressaltou. Anna acrescentou que uma d&eacute;cada depois que os l&iacute;deres do mundo prometeram na C&uacute;pula Mundial da Alimenta&ccedil;&atilde;o reduzir pela metade o n&uacute;mero de desnutridos cr&ocirc;nicos at&eacute; 2015, \u201cesse n&uacute;mero, na realidade, cresceu\u201d.<\/p>\n<p>O estudo de Ziegler recorda que todos os seres humanos t&ecirc;m direito a viver dignamente e livres de fome. \u201cO direito &agrave; alimenta&ccedil;&atilde;o &eacute; um direito humano\u201d, destacou. O relator tamb&eacute;m criticou a \u201cinaceit&aacute;vel falta de financiamento\u201d de programas da ONU, especialmente na regi&atilde;o ocidental sudanesa de Darfur, no Sahe (regi&atilde;o ao sul do deserto do Saara que compreende Maurit&acirc;nia, Senegal, Mal&iacute;, Guin&eacute;, Burkina Faso, N&iacute;ger, Nig&eacute;ria, Camar&otilde;es, Chade e Sud&atilde;o) e no Chifre da &Aacute;frica (Djibuti, Eit&oacute;pia, Eritr&eacute;ia, Som&aacute;lia e partes do Qu&ecirc;nia). Fora da &Aacute;frica, a fome e a escassez de alimentos afeta pa&iacute;ses como Afeganist&atilde;o e Cor&eacute;ia do Norte. \u201cTodos os governos t&ecirc;m responsabilidade na resposta aos chamados de urg&ecirc;ncia feitos pela ONU diante da crise de alimentos\u201d, recordou Ziegler.<\/p>\n<p>Frederic Mousseau, consultor de seguran&ccedil;a alimentar de organiza&ccedil;&otilde;es socorristas internacionais, como M&eacute;dicos Sem Fronteiras e A&ccedil;&atilde;o Contra a Fome, disse que as conven&ccedil;&otilde;es de Genebra, que regem o tratamento de prisioneiros de guerra, estabelecem que milh&otilde;es de refugiados em Darfur devem receber alimenta&ccedil;&atilde;o adequada e ajuda. \u201cA comunidade internacional tem a obriga&ccedil;&atilde;o legal de dar ajuda de emerg&ecirc;ncia nessa situa&ccedil;&atilde;o. Infelizmente, est&aacute; forma de assist&ecirc;ncia tem, em geral, poucos recursos econ&ocirc;micos na maioria das zonas em conflito\u201d, disse Mousseau &agrave; IPS. &Eacute; comum o Programa Mundial de Alimentos da ONU ter de reduzir as ra&ccedil;&otilde;es ao meio ou adiar sua distribui&ccedil;&atilde;o por falta de recursos, acrescentou.<\/p>\n<p>\u201cIsto &eacute; inaceit&aacute;vel, porque as pessoas que perderam suas terras ou seus empregos n&atilde;o t&ecirc;m outra op&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o seja a ajuda externa para sobreviver\u201d, disse Mousseau, co-autor do novo informe \u201cSahel: prisioneiro da fome?\u201d, divulgado pelo n&atilde;o-governamental Oakland Institute, com sede na cidade norte-americana de S&atilde;o Francisco. Nos casos do Sahel e do Chifre da &Aacute;frica, onde \u2013 com exce&ccedil;&atilde;o da Som&aacute;lia \u2013 n&atilde;o h&aacute; pa&iacute;ses em guerra, o problema &eacute; mais amplo. Por um lado, a ajuda de emerg&ecirc;ncia est&aacute; sem financiamento. A demora de oito meses por parte dos pa&iacute;ses doadores durante a crise alimentar em N&iacute;ger de 2005 Levou &agrave; fome 3,6 milh&otilde;es de pessoas, disse Mousseau.<\/p>\n<p>\u201cPor&eacute;m, &eacute; mais importante examinarmos os fatores que levam a semelhantes crises alimentares\u201d, acrescentou. Uma das razoes fundamentais &eacute; a falta de pol&iacute;ticas destinadas a fornecer apoio para o desenvolvimento rural e a pequena agricultura, que assegurem a longo prazo a exist&ecirc;ncia de alimentos. As ag&ecirc;ncias financeiras internacionais e os pa&iacute;ses doadores impedem muitas na&ccedil;&otilde;es de aplicar pol&iacute;ticas econ&ocirc;micas e comerciais destinadas a apoiar os produtores locais e seus mercados, o que impediria a indig&ecirc;ncia e a fome, afirmou Mousseau.<\/p>\n<p>Em seu estudo, Ziegler assinala que o \u201cdumping\u201d, a competi&ccedil;&atilde;o desleal que implica a superprodu&ccedil;&atilde;o de alimentos a pre&ccedil;os baixos no mundo rico, \u201cn&atilde;o deve ser permitido quando causa a perda do sustento, especialmente em paises onde a maior parte da popula&ccedil;&atilde;o ainda depende da agricultura para garantir seu direito ao alimento\u201d. A diretora-executiva do Oakland Institute, Anuradha Mittal, disse que com suas subven&ccedil;&otilde;es intactas os Estados Unidos inundam de alimentos baratos e subsidiados as na&ccedil;&otilde;es em desenvolvimento, destruindo a produ&ccedil;&atilde;o dos pequenos agricultores desses pa&iacute;ses.<\/p>\n<p>O M&eacute;xico, por exemplo cultiva milho por mais de dez mil anos. Mas em raz&atilde;o do Tratado de Livre Com&eacute;rcio da Am&eacute;rica do Norte, que se supunha igualaria o campo da competi&ccedil;&atilde;o comercial, abriu seus mercados para as importa&ccedil;&otilde;es norte-americanas, incluindo o milho. \u201cOs produtores mexicanos, a maioria &agrave; frente de propriedades familiares, n&atilde;o puderam competir contra os gigantes produtores de milho dos Estados Unidos\u201d, disse Mittal &agrave; IPS. Esses grandes agricultores s&atilde;o o destino da maior parte dos subs&iacute;dios governamentais norte-americanos, cerca de US$ 10 bilh&otilde;es, equivalentes a dez vezes o or&ccedil;amento do setor agr&aacute;rio total do M&eacute;xico em 2000.<\/p>\n<p>Assim, n&atilde;o surpreende que as exporta&ccedil;&otilde;es de milho norte-americano para o M&eacute;xico tenham triplicado e representem quase um ter&ccedil;o do mercado interno mexicano, levando a uma grave crise o setor local. O dumping do milho subsidiado dos Estados Unidos no M&eacute;xico reduziu o pre&ccedil;o real do produto mexicano em mais de 70%, disse Mittal. Como resultado, milh&otilde;es de agricultores pobres abandonaram suas terras. Em 1997, 47% da popula&ccedil;&atilde;o mexicana estava ligada &agrave; agricultura, segundo a FAO. Em 2010, essa propor&ccedil;&atilde;o ter&aacute; ca&iacute;do para 18%.<\/p>\n<p>H&aacute; dez anos, na C&uacute;pula Mundial da Alimenta&ccedil;&atilde;o, 186 chefes de Estado e de governo apresentaram sua meta de reduzir a quantidade de famintos (815 milh&otilde;es) pela metade at&eacute; 2015. Hoje, a FAO estima que os que est&atilde;o nessa situa&ccedil;&atilde;o cheguem a 852 milh&otilde;es, recordou Mittal. \u201cNa medida em que a fome n&atilde;o &eacute; vista como um massacre silencioso, causador da morte de milh&otilde;es de pessoas por ano, enquanto n&atilde;o for vista como uma viola&ccedil;&atilde;o aos direitos humanos, n&atilde;o conseguiremos por-lhe um freio\u201d, acrescentou. Como mostra o novo estudo do Oakland Institute, o direito &agrave; alimenta&ccedil;&atilde;o e a estar livre da fome n&atilde;o &eacute; um conceito novo no ordenamento internacional. Foi reconhecido e reafirmado em v&aacute;rios documentos e compromissos de direitos humanos.<\/p>\n<p>Entretanto, &eacute; muito importante assinalar as pautas divulgadas pela FAO em 2004, nas quais se reconhece que as condi&ccedil;&otilde;es internacionais, como o livre com&eacute;rcio e as pol&iacute;ticas de ajuste estrutural, podem influir na capacidade das na&ccedil;&otilde;es para garantir o direito &agrave; alimenta&ccedil;&atilde;o, acrescentou Mittal. Por exemplo, a capacidade de N&iacute;ger de lutar contra a inseguran&ccedil;a alimentar esteve e est&aacute; amea&ccedil;ada pela liberaliza&ccedil;&atilde;o do com&eacute;rcio agr&iacute;cola, privatiza&ccedil;&atilde;o de ag&ecirc;ncias e servi&ccedil;os agr&aacute;rios do Estado e pela redu&ccedil;&atilde;o das tarifas de importa&ccedil;&atilde;o e exporta&ccedil;&atilde;o. Todas estas medidas impostas por ag&ecirc;ncias financeiras multilaterais, especialmente Banco Mundial e Fundo Monet&aacute;rio Internacional, e por compromissos assumidos na Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial do Com&eacute;rcio, entre outros acordos comerciais, finalizou Mittal. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na&ccedil;&otilde;es Unidas, 20\/10\/2006 &ndash; A comunidade internacional est&aacute; violando o direito &agrave; alimenta&ccedil;&atilde;o, uma das garantias b&aacute;sicas da humanidade, pois a fome continua afetando grandes popula&ccedil;&otilde;es na &Aacute;sia e &Aacute;frica, segundo informe da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/10\/mundo\/alimentao-fome-a-vergonha-do-mundo\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":202,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6,4],"tags":[21],"class_list":["post-2231","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-direitos-humanos","category-mundo","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2231","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/202"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2231"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2231\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2231"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2231"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2231"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}