{"id":22373,"date":"2019-01-21T13:17:34","date_gmt":"2019-01-21T13:17:34","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.cartacapital.com.br\/?p=234092"},"modified":"2019-03-14T16:32:00","modified_gmt":"2019-03-14T16:32:00","slug":"a-retirada-das-tropas-dos-eua-da-siria-do-vazio-da-superpotencia-para-o-conflito-regional-por-influencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2019\/01\/ultimas-noticias\/a-retirada-das-tropas-dos-eua-da-siria-do-vazio-da-superpotencia-para-o-conflito-regional-por-influencia\/","title":{"rendered":"A retirada das tropas dos EUA da S\u00edria: do vazio da superpot\u00eancia para o conflito regional por influ\u00eancia?"},"content":{"rendered":"<p><em><strong><img class=\"alignleft wp-image-219749 size-full\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/ODS16.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/>Por Pedro Guedes, Augusto Col\u00f3rio e Bruno lima Rocha*, do Jornal GGN &#8211;\u00a0<\/strong><\/em><\/p>\r\n<p>Nos \u00faltimos tr\u00eas anos, a Guerra Civil s\u00edria, que at\u00e9 o momento caracterizava-se por um conflito regionalmente contido, no que se refere ao envolvimento dos vizinhos Estados nas hostilidades, tornou-se um conflito com a interven\u00e7\u00e3o direta das principais pot\u00eancias do Sistema Internacional. Isso ocorreu com a interven\u00e7\u00e3o de R\u00fassia (e sua for\u00e7a expedicion\u00e1ria) e Estados Unidos (Cerca de 2000 Marines, em apoio \u00e0 coaliz\u00e3o Curdo-\u00c1rabe contra o Estado Isl\u00e2mico, DAESH, ISIS ou ISIL)\u00a0no conflito, em que mesmo em lado a princ\u00edpio, opostos, n\u00e3o chegaram a combater diretamente um contra o outro com suas for\u00e7as regulares. A elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump, em 2017, iniciou um novo progn\u00f3stico no conflito, j\u00e1 que os Estados Unidos, sob seu comando, mostravam-se cada vez mais inclinados a uma menor participa\u00e7\u00e3o no conflito. Com a perda de territ\u00f3rio por parte do DAESH e o enfraquecimento do grupo (acr\u00f4nimo de Estado Isl\u00e2mico), Trump pressionava cada vez mais a c\u00fapula militar do seu pa\u00eds (o Pent\u00e1gono e seu Estado-Maior) para retirar os cerca de dois mil fuzileiros navais do pa\u00eds levantino. Como se sabe, a presen\u00e7a de soldados profissionais estadunidenses em terra \u00e9 vista como presa, sendo a captura ou morte destes militares, um trunfo para as organiza\u00e7\u00f5es inimigas e um custo pol\u00edtico alto para a administra\u00e7\u00e3o que os enviou.<\/p>\r\n<p>Em 19 de dezembro de 2018, os Estados Unidos anunciam a retirada de suas for\u00e7as da S\u00edria, em um movimento que chocou aliados e colocou uma s\u00e9rie de pontos de interroga\u00e7\u00e3o sobre o conflito. Nesse breve artigo, gostar\u00edamos de avaliar as consequ\u00eancias da a\u00e7\u00e3o dos EUA para os atores envolvidos e para o futuro da Guerra na S\u00edria. Em um primeiro momento, a partir desse movimento, entendemos que os EUA perdem influ\u00eancia nos rumos do conflito, com Washington se colocando \u00e0 margem das negocia\u00e7\u00f5es pol\u00edticas (como nas negocia\u00e7\u00f5es de Astana, capital do Cazaquist\u00e3o, que envolvem R\u00fassia, Ir\u00e3 e Turquia apenas), e no desenvolvimento das a\u00e7\u00f5es em campo de combate, com apenas R\u00fassia, Ir\u00e3 e Turquia (novamente), al\u00e9m de uma presen\u00e7a lateral de Ar\u00e1bia Saudita e Qatar, com for\u00e7as regulares a aliados nativos agindo no pa\u00eds. Dessa forma, pode-se ponderar quais podem ser os efeitos da estrat\u00e9gia norte-americana para os atores envolvidos<a title=\"\" href=\"https:\/\/jornalggn.com.br\/blog\/bruno-lima-rocha\/a-retirada-das-tropas-dos-eua-da-siria-do-vazio-da-superpotencia-para-o-conflito-regional-por-influencia#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\r\n<p>Entendemos que de todos os grupos implicados, quem fica mais vulner\u00e1vel s\u00e3o as for\u00e7as de autodefesa do Curdist\u00e3o s\u00edrio<a title=\"\" href=\"https:\/\/jornalggn.com.br\/blog\/bruno-lima-rocha\/a-retirada-das-tropas-dos-eua-da-siria-do-vazio-da-superpotencia-para-o-conflito-regional-por-influencia#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>\u00a0(tamb\u00e9m conhecida como Rojava), que com o apoio dos EUA, juntaram-se em coaliz\u00e3o com tribos \u00e1rabes do Norte da S\u00edria e demais grupos \u00e9tnicos minorit\u00e1rios (como turcomenos, alevis, sir\u00edacos, caldeus e y\u00e1zidis) \u00a0para formar as For\u00e7as Democr\u00e1ticas S\u00edrias (SDF em ingl\u00eas) e combater o DAESH, coisa que os grupos de autodefesa curdos YPG (Unidades de Prote\u00e7\u00e3o Popular) e YPJ ( Unidades de Prote\u00e7\u00e3o das Mulheres) faziam sozinhos desde 2014. Essa vulnerabilidade ocorre dado o fato de que o apoio dos EUA protegia os territ\u00f3rios curdos, (mais notadamente os cant\u00f5es de Kobane, Jazira e as \u00e1reas adjacentes retomadas do DAESH ao longo dos \u00faltimos 4 anos, compondo a regi\u00e3o ao Norte do Rio Eufrates) de uma poss\u00edvel agress\u00e3o turca em larga escala.<\/p>\r\n<p>Essa prote\u00e7\u00e3o ocorre a partir da legitima\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que o apoio dos EUA aos grupos curdos a partir do bom desempenho na luta contra o DAESH. Tamb\u00e9m h\u00e1 o fato de que efetivos das for\u00e7as especiais estadunidenses operam sob as mesmas bandeiras que as for\u00e7as da SDF. Assim, em caso de ataque turco, Ancara correria o risco de atingir for\u00e7as estadunidenses, o que causaria constrangimento internacional. Um poss\u00edvel ataque turco ocorreria dado o fato do governo turco considerar as for\u00e7as e administra\u00e7\u00e3o curda como uma extens\u00e3o do Partido dos Trabalhadores do Curdist\u00e3o, que Ancara considera como grupo terrorista, e, contraditoriamente, Washington tamb\u00e9m.<\/p>\r\n<p>Para tentar se proteger de uma poss\u00edvel (e j\u00e1 anunciada) opera\u00e7\u00e3o militar expandida da Turquia, as lideran\u00e7as pol\u00edticas de Rojava j\u00e1 anunciaram tratativas de negocia\u00e7\u00e3o com as autoridades legalistas em Damasco<a title=\"\" href=\"https:\/\/jornalggn.com.br\/blog\/bruno-lima-rocha\/a-retirada-das-tropas-dos-eua-da-siria-do-vazio-da-superpotencia-para-o-conflito-regional-por-influencia#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. H\u00e1 um evidente conflito de interesses nessa aproxima\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m um choque de vers\u00f5es. Em um primeiro momento, as for\u00e7as curdas da SDF dividiriam com Damasco o controle do tr\u00e1fego de estradas e movimentos nos territ\u00f3rios e acessos \u00e0s cidades sob controle da Federa\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica do Norte da S\u00edria (DFNS da sigla em ingl\u00eas). Assad em troca garantiria prote\u00e7\u00e3o ante uma agress\u00e3o turca. Ainda que um poss\u00edvel acordo proteja as popula\u00e7\u00f5es curdas e de deslocados internos que vivem em Rojava, o projeto de Confederalismo Democr\u00e1tico implementado pelos \u00f3rg\u00e3os pol\u00edticos curdos nos \u00faltimos anos seria soterrado pela centralidade baathista de Assad. Isso se o acordo for de fato, nos termos de Damasco. Se a DFNS fazer valer o pr\u00e9-acordo diplom\u00e1tico e estabelecido como diretriz na constitui\u00e7\u00e3o de Rojava, o controle territorial passa a ser regional, reconhecendo um status de regi\u00e3o aut\u00f4noma para a Federa\u00e7\u00e3o.<\/p>\r\n<p>Outro ator que, em teoria, pode perder com a retirada das for\u00e7as dos Estados Unidos \u00e9 Israel. Isso acontece pelo fato de Tel Aviv entender que o v\u00e1cuo deixado pelos EUA seria aproveitado pelo Ir\u00e3 para aumentar suas capacidades de proje\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o do Oriente M\u00e9dio, o que colocaria as for\u00e7as regulares iraquianas e seus proxies, mais notadamente o Hezbollah liban\u00eas, perto das Colinas de Gol\u00e3 (fronteira sir\u00edaca-israelense), o que seria uma grande amea\u00e7a \u00e0 seguran\u00e7a de Israel. Como outro resultado, Tel Aviv perderia ainda mais a liberdade de a\u00e7\u00e3o que tem nos c\u00e9us s\u00edrios, o que limitaria a capacidade de sabotar a transfer\u00eancia de armas e tecnologia de Teer\u00e3 para o Hezbollah liban\u00eas.<\/p>\r\n<p>No entanto, devido \u00e0 influ\u00eancia dos interesses de Israel dentro do Governo Trump, causa estranheza a pol\u00edtica de retirada das tropas da S\u00edria. Como se sabe, Tel Aviv procura, via lobby (ver aipac.org), influenciar Washington a tomar uma posi\u00e7\u00e3o mais hostil em rela\u00e7\u00e3o ao Ir\u00e3 e seu projeto de lideran\u00e7a regional para o Oriente M\u00e9dio. O pr\u00f3prio secret\u00e1rio de Estado dos EUA, Mike Pompeo, \u00e9 um entusiasta das rela\u00e7\u00f5es entre EUA e Israel e um dos arquitetos da retirada dos EUA do acordo nuclear com o Ir\u00e3. Pode-se supor que para agradar Israel, o caminho escolhido por Washington seja de aumentar as san\u00e7\u00f5es contra Teer\u00e3 para enfraquecer a economia persa.<\/p>\r\n<p>Se a retirada das tropas americanas prejudica os Curdos e Israel, ela acaba por favorecer outros atores na regi\u00e3o. Al\u00e9m do pr\u00f3prio governo Assad, a R\u00fassia e a Turquia s\u00e3o favorecidos com a decis\u00e3o do Governo Trump. Ainda que a Ancara n\u00e3o seja oficialmente aliada de Moscou ou Assad, n\u00e3o teria mais o desconforto de ver o membro mais importante da Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (OTAN) apoiando e protegendo os grupos que consideram como terroristas. Por outro lado, a Turquia n\u00e3o se mostra disposta em entrar em \u00a0conflito com as for\u00e7as regulares s\u00edrias e a For\u00e7a A\u00e9rea russa em caso de acordo entre a SDF e Assad. Para evitar isso, o presidente turco, Recep Erdogan j\u00e1 fez quest\u00e3o de se alinhar politicamente com o eixo Damasco-Teer\u00e3-Bagd\u00e1 para tentar isolar a SDF. Simultaneamente, as for\u00e7as militares da Turquia amea\u00e7am manobras e avan\u00e7am sobre territ\u00f3rio soberano s\u00edrio, a exemplo do que fizeram na ofensiva militar contra Afrin (um dos tr\u00eas cant\u00f5es de Rojava), invadido em mar\u00e7o de 2018.<\/p>\r\n<p>Outro Estado que v\u00ea com bons olhos a retra\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos \u00e9 a R\u00fassia. Isso ocorre principalmente pelo fato de que sem os EUA, Moscou consegue se impor como o principal agente conciliat\u00f3rio do conflito, com toda a negocia\u00e7\u00e3o entre as partes beligerantes passando quase que obrigatoriamente pelas suas m\u00e3os. Conseguindo essa posi\u00e7\u00e3o no conflito sem ter que tomar nenhuma decis\u00e3o arriscada ap\u00f3s tr\u00eas anos de interven\u00e7\u00e3o aeronaval, com cerca de cinco mil soldados e algumas dezenas de aeronaves \u00e9 um ganho consider\u00e1vel para manter as ambi\u00e7\u00f5es de Moscou em ser reconhecida como uma grande pot\u00eancia no Sistema Internacional. O \u00fanico ponto de preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 projetar como pa\u00edses como o Ir\u00e3 e a Turquia \u2013 al\u00e9m da sempre presente Ar\u00e1bia Saudita, e seu rival Qatar &#8211; agir\u00e3o nesse v\u00e1cuo criado por Washington. Por mais habilidosa que seja, a chancelaria russa n\u00e3o consegue controlar toda a mesa de discuss\u00f5es. Logo se n\u00e3o houver consenso entre os beligerantes (o que \u00e9 quase imposs\u00edvel), Putin e Lavrov ter\u00e3o dificuldades em obter um denominador que agrade a todos<a title=\"\" href=\"https:\/\/jornalggn.com.br\/blog\/bruno-lima-rocha\/a-retirada-das-tropas-dos-eua-da-siria-do-vazio-da-superpotencia-para-o-conflito-regional-por-influencia#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, ou que ao menos seja aceito por todos.<\/p>\r\n<p>Pelo fato da China n\u00e3o ter participado do conflito na S\u00edria, a retirada das tropas norte-americanas do Oriente M\u00e9dio \u00e9 uma boa not\u00edcia para Pequim. Como pode ser visto em outros casos (Venezuela, R\u00fassia, Ir\u00e3), a pol\u00edtica externa chinesa se aproveita das linhas de menor resist\u00eancia para servir como uma alternativa ao papel dos EUA. N\u00e3o estranha, portanto, a fun\u00e7\u00e3o que Pequim dever\u00e1 exercer como respons\u00e1vel pela reconstru\u00e7\u00e3o da S\u00edria. \u00c9 importante ressaltar que a S\u00edria faz parte da Nova Rota da Seda, e com a redu\u00e7\u00e3o do papel norte-americano no Oriente M\u00e9dio, Pequim apresenta-se como um parceiro vi\u00e1vel e com grandes interesses estrat\u00e9gicos na regi\u00e3o. Em 2018, por exemplo, a China apresentou o \u201cPlano de Reconstru\u00e7\u00e3o da S\u00edria\u201d que compreende um fundo de dois bilh\u00f5es de d\u00f3lares para a constru\u00e7\u00e3o de uma \u00e1rea industrial capaz de hospedar mais de 150 companhias chinesas. No entanto, se por um lado o afastamento norte-americano do Oriente M\u00e9dio representa oportunidades para a China, pode tamb\u00e9m sinalizar o redirecionamento das for\u00e7as norte-americanas para a conten\u00e7\u00e3o da China na regi\u00e3o da \u00c1sia-Pac\u00edfico em uma mudan\u00e7a do pensamento estrat\u00e9gico dos formuladores de pol\u00edtica da Casa Branca.<\/p>\r\n<p>J\u00e1 o Ir\u00e3, enxerga de maneira positiva a presente situa\u00e7\u00e3o no conflito s\u00edrio. Com grande quantidade de efetivos (regulares e irregulares) e equipamentos militares, Teer\u00e3 n\u00e3o teria dificuldade em direcionar o governo s\u00edrio para retomar essas localidades com o uso da for\u00e7a. Outro ponto de interesse \u00e9 na possibilidade de Teer\u00e3, via a falta de um advers\u00e1rio na regi\u00e3o Norte da S\u00edria, de com facilidade, conectar por via terrestre, todos os membros do chamado \u201cEixo de Resist\u00eancia\u201d (Ir\u00e3, S\u00edria e Hezbollah, utilizando o Iraque como liga\u00e7\u00e3o e que tamb\u00e9m possui grande popula\u00e7\u00e3o xiita), para a implementa\u00e7\u00e3o das opera\u00e7\u00f5es de resist\u00eancia contra Israel, inimigo estrat\u00e9gico do Governo Iraniano.<\/p>\r\n<p>Por outro lado, Teer\u00e3 considera a retirada das for\u00e7as estadunidenses da S\u00edria como um primeiro passo para que outras na\u00e7\u00f5es \u00e1rabes tentem projetar sua influ\u00eancia dentro da S\u00edria. Isso ocorreria com a reaproxima\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses \u00e1rabes que isolaram Damasco no in\u00edcio da Guerra Civil. Na \u00faltima semana, os Emirados \u00c1rabes Unidos reabriram sua embaixada no pa\u00eds, sinalizando que outros pa\u00edses \u00e1rabes, como a Ar\u00e1bia Saudita, futuramente o \u00a0fa\u00e7am. Como os pa\u00edses do Golfo possuem mais recursos financeiros que o Ir\u00e3, estes poderiam tentar cooptar Assad a n\u00e3o cooperar com os iranianos. Essa preocupa\u00e7\u00e3o decorre do fato de que mesmos aliados, a S\u00edria permaneceu pr\u00f3ximo ao Ir\u00e3 n\u00e3o apenas pela proximidade entre as popula\u00e7\u00f5es alauita s\u00edria e xiita iraniana, mas tamb\u00e9m porque n\u00e3o havia ningu\u00e9m mais na regi\u00e3o pronto a ajudar Assad a vencer a guerra<a title=\"\" href=\"https:\/\/jornalggn.com.br\/blog\/bruno-lima-rocha\/a-retirada-das-tropas-dos-eua-da-siria-do-vazio-da-superpotencia-para-o-conflito-regional-por-influencia#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Considerando a proje\u00e7\u00e3o de poder saudita sobre o L\u00edbano, \u00e9 de se presumir que os pa\u00edses do Golfo v\u00e3o tentar servir como fiadores de um novo pacto de Assad com a maioria sunita do pa\u00eds.<\/p>\r\n<p>Para o governo s\u00edrio, em Damasco, a retirada das for\u00e7as estadunidenses foi uma not\u00edcia muito boa e isso acontece por dois distintos motivos. O primeiro \u00e9 que a sa\u00edda dos estadunidenses enfraquece os grupos opositores, que hoje est\u00e3o encapsulados no Norte do pa\u00eds, e que contavam com a presen\u00e7a dos EUA para \u201cconstranger\u201d as a\u00e7\u00f5es das for\u00e7as legalistas e seus aliados iranianos e russos. Tamb\u00e9m pode vir a baixar a moral das for\u00e7as da SDF, que com medo de uma invas\u00e3o turca, viriam at\u00e9 Assad para negociar, de prefer\u00eancia sob termos lucrativos para Damasco, como o abandono da ideia de federaliza\u00e7\u00e3o da S\u00edria. O segundo motivo \u00e9 que o recuo das for\u00e7as estadunidenses sinalizaria aos Estados que financiam a oposi\u00e7\u00e3o, de que Assad venceu (ou vencer\u00e1) logo o conflito, e que \u00e9 hora de restabelecer la\u00e7os \u00a0pol\u00edticos e econ\u00f4micos. Isso praticamente isola Israel na regi\u00e3o (que ainda demanda a deposi\u00e7\u00e3o de Assad) e de quebra, permitir\u00e1 a Assad escolher em quais termos ir\u00e1 se engajar com os seus vizinhos no m\u00e9dio prazo<a title=\"\" href=\"https:\/\/jornalggn.com.br\/blog\/bruno-lima-rocha\/a-retirada-das-tropas-dos-eua-da-siria-do-vazio-da-superpotencia-para-o-conflito-regional-por-influencia#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\r\n<p>Por fim, parece que se inicia uma nova fase do conflito na S\u00edria. As raz\u00f5es da decis\u00e3o do Governo Trump de retirar as tropas do Oriente M\u00e9dio ainda n\u00e3o est\u00e3o evidentes e qualquer afirma\u00e7\u00e3o pode ser precipitada. No entanto, cabe avaliar no futuro, se a decis\u00e3o do Governo Trump n\u00e3o estaria ligada a uma sa\u00edda do conflito que sirva como instrumento pol\u00edtico para as elei\u00e7\u00f5es de 2020. Al\u00e9m disso, outra an\u00e1lise poss\u00edvel \u00e9 o do reordenamento estrat\u00e9gico da pol\u00edtica externa norte-americana focando na conten\u00e7\u00e3o da China e apontando baterias para o eixo \u00c1sia-Pac\u00edfico. O certo \u00e9 que o Governo Trump, ao contrariar o desejo de aliados regionais e favorecer os advers\u00e1rios com interesse na S\u00edria, parece demonstrar mais um sintoma da queda da proje\u00e7\u00e3o global de for\u00e7a dos EUA. A atual administra\u00e7\u00e3o parece tentar tamb\u00e9m solucionar conflitos dom\u00e9sticos operando com o intuito de atingir os interesses da elite pol\u00edtica e econ\u00f4mica presentes dentro do seu governo. \u00a0Por consequ\u00eancia, h\u00e1 no Oriente M\u00e9dio menos excedentes de poder f\u00e1ticos, duros, da Superpot\u00eancia (e seus ex-aliados ou quase-aliados europeus) diante do aumento da import\u00e2ncia dos pot\u00eancias regionais (Israel, Turquia, Ar\u00e1bia Saudita e Ir\u00e3), al\u00e9m da evidente presen\u00e7a quase como \u00e1rbitra de conflitos por parte da R\u00fassia.<\/p>\r\n<p>Ressaltamos que toda \u201can\u00e1lise internacional\u201d quase sempre enxerga o \u201ctabuleiro\u201d de cima para baixo, mimetizando o comportamento, ou a proje\u00e7\u00e3o de mentalidades das Pot\u00eancia, fazendo uma constru\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica hegem\u00f4nica com apar\u00eancia de \u201cleitura geopol\u00edtica\u201d. Tentamos fugir destes clich\u00eas colonizados, mas observando o comportamento dos EUA, isso nem sempre \u00e9 poss\u00edvel. No cen\u00e1rio concreto e complexo da Guerra da S\u00edria, do Grande Oriente M\u00e9dio, do Mundo \u00c1rabe, Mundo Isl\u00e2mico e \u00c1sia Central, uma afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 certa: as pot\u00eancias, a Superpot\u00eancia, tem capacidade de instabilizar, de gerar caos, mas nunca uma nova ordem, menos ainda um ordenamento que favore\u00e7a o conjunto de agrupamentos \u00e9tnicos, religiosos e culturais, qui\u00e7\u00e1 uma ordem econ\u00f4mica menos injusta. A sa\u00edda na S\u00edria se encontra nos poderes locais, onde h\u00e1 permeabilidade das demandas sociais, a come\u00e7ar pela pr\u00f3pria exist\u00eancia da DFNS, ou seja, da resist\u00eancia democr\u00e1tica, pluri\u00e9tnica, igualit\u00e1ria e n\u00e3o sect\u00e1ria de Rojava. Se Damasco conseguir conviver com isso, o conflito est\u00e1 \u201csolucionado\u201d, restando \u201capenas\u201d o impasse atrav\u00e9s da imposi\u00e7\u00e3o de derrotas militares sobre a segunda maior for\u00e7a militar ainda na OTAN, a Turquia sob ditadura constitucional de Recep Tayyip Erdogan e seu projeto neo-otomano imperial.<\/p>\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n<p><em>*Pedro Guedes \u00e9 graduado em rela\u00e7\u00f5es internacionais e acad\u00eamico de direito; Augusto Col\u00f3rio \u00e9 graduado em rela\u00e7\u00f5es internacionais e mestrando na \u00e1rea; Bruno Lima Rocha \u00e9 professor de rela\u00e7\u00f5es internacionais e de jornalismo, doutor em ci\u00eancia pol\u00edtica e especialista em Oriente M\u00e9dio. Todos s\u00e3o membros do Grupo de Pesquisa Capital e Estado (<a href=\"http:\/\/capetacapitaleestado.wordpress.com\/\">capetacapitaleestado.wordpress.com<\/a>)\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\r\n<p>(#Envolverde)<\/p>\r\n<p>O post <a rel=\"nofollow\" href=\"http:\/\/envolverde.cartacapital.com.br\/a-retirada-das-tropas-dos-eua-da-siria-do-vazio-da-superpotencia-para-o-conflito-regional-por-influencia\/\">A retirada das tropas dos EUA da S\u00edria: do vazio da superpot\u00eancia para o conflito regional por influ\u00eancia?<\/a> apareceu primeiro em <a rel=\"nofollow\" href=\"http:\/\/envolverde.cartacapital.com.br\/\">Envolverde - Revista Digital<\/a>.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Pedro Guedes, Augusto Col\u00f3rio e Bruno lima Rocha*, do Jornal GGN &#8211;\u00a0 Nos \u00faltimos tr\u00eas anos, a Guerra Civil s\u00edria, que at\u00e9 o momento caracterizava-se por um conflito regionalmente contido, no que se refere ao envolvimento dos vizinhos Estados&hellip; <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2019\/01\/ultimas-noticias\/a-retirada-das-tropas-dos-eua-da-siria-do-vazio-da-superpotencia-para-o-conflito-regional-por-influencia\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":421,"featured_media":22465,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[1571,3043,3143],"class_list":["post-22373","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias","tag-guerra","tag-mundo-inter-press-service","tag-ods16"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22373","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/421"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22373"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22373\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22416,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22373\/revisions\/22416"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media\/22465"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22373"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22373"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22373"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}