{"id":22388,"date":"2019-03-14T12:26:36","date_gmt":"2019-03-14T12:26:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=22388"},"modified":"2019-03-15T21:48:52","modified_gmt":"2019-03-15T21:48:52","slug":"na-america-latina-permanece-um-fardo-simbolico-e-biblico-contra-a-lepra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2019\/03\/ultimas-noticias\/na-america-latina-permanece-um-fardo-simbolico-e-biblico-contra-a-lepra\/","title":{"rendered":"Na Am\u00e9rica Latina permanece um fardo simb\u00f3lico e b\u00edblico contra a lepra"},"content":{"rendered":"<p>RIO DE JANEIRO, 13 de mar\u00e7o de 2019 (IPS) \u2013 Cientificamente conhecida como doen\u00e7a de Hansen, a hansen\u00edase carrega uma carga simb\u00f3lica do passado, que hoje os afetados e especialistas no assunto da Am\u00e9rica Latina buscam derrubar, inclusive no uso da linguagem.<!--more--><\/p>\n<p>O debate ocorreu no \u00e2mbito do I Encontro Latino-Americano e Caribenho de Entidades de Pessoas Afetadas pela Doen\u00e7a de Hansen, realizado na cidade brasileira do Rio de Janeiro, entre os dias 12 e 14 de mar\u00e7o, em um painel chamado Hansean\u00edase <i>versus<\/i> Lepra.<\/p>\n<p>\u201cAs pessoas ainda usam o termo lepra como um forte instrumento de preconceito e discrimina\u00e7\u00e3o, o que faz com que os afetados tenham medo e n\u00e3o busquem aten\u00e7\u00e3o m\u00e9dica e tratamento precoce\u201d, explicou \u00e0 IPS Francisco Faustino, um brasileiro tratado e curado da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>O ativista faz parte do Movimento de Reintegra\u00e7\u00e3o de Pessoas Afetadas pela Hansen\u00edase (Morhan), que organizou o Encontro junto com a Federaci\u00f3n de Entidades de Personas Afectadas por la Lepra, da Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>O evento re\u00fane institui\u00e7\u00f5es internacionais e representantes de sete pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, juntamente com outros do Norte industrial e conta com o apoio especial do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade brasileiro e da Funda\u00e7\u00e3o Nippon, que acompanha o processo de encontros regionais para um Congresso Mundial sobre a doen\u00e7a, a ser realizado nas Filipinas, em setembro.<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 o \u00fanico pa\u00eds que substituiu a palavra lepra em suas campanhas de sa\u00fade. Doen\u00e7a de Hansen ou hansen\u00edase \u00e9 normalmente utilizada como terminologia oficial na maioria dos pa\u00edses, juntamente com a de lepra, enquanto a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) usa doen\u00e7a de Hansen como segunda denomina\u00e7\u00e3o, mas ainda privilegiando o nome mais tradicional.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de sua denomina\u00e7\u00e3o, o Brasil \u00e9 o \u00fanico pa\u00eds das Am\u00e9ricas que, de acordo com dados oficiais, n\u00e3o eliminou a doen\u00e7a e concentra 95% dos cerca de 30 mil novos diagn\u00f3sticos por ano no continente. Entidades como a Sociedade Brasileira de Hansenologia consideram que pode haver quatro ou cinco vezes mais novos casos por ano sem registro, enquanto a OMS considera erradicada a doen\u00e7a quando detectado menos de um caso por dez mil habitantes.<\/p>\n<p>Faustino atribui isto, em grande medida, ao \u201cpreconceito que ainda existe nesse termo\u201d. \u201cEsperamos que a comunidade de sa\u00fade mude sua posi\u00e7\u00e3o e que comece a tratar a doen\u00e7a como uma patologia que tem diagn\u00f3stico, tem tratamento, tem cura\u201d, incentivou. A pessoa continua sofrendo os estigmas e discrimina\u00e7\u00f5es, mesmo quando est\u00e1 curada. \u201cAinda se pensa que \u00e9 uma doen\u00e7a contagiosa apenas com o contato, pela aproxima\u00e7\u00e3o\u201d, destacou a t\u00edtulo de exemplo.<\/p>\n<p>Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Pan-Americana da Sa\u00fade (OPS), essa doen\u00e7a \u201cn\u00e3o \u00e9 muito contagiosa\u201d e \u201c\u00e9 transmitida pelas got\u00edculas nasais e orais em contatos pr\u00f3ximos e frequentes com casos n\u00e3o tratados\u201d. A OMS e a OPS explicam em fasc\u00edculos informativos conjuntos que a lepra \u00e9 causada pela bact\u00e9ria <i>Mycobacterium lepra<\/i>, tamb\u00e9m conhecida como bacilo de Hansen, \u00e9 infecciosa e cr\u00f4nica, evolui lentamente, com um tempo m\u00e9dio de incuba\u00e7\u00e3o de cinco anos e sintomas que podem aparecer at\u00e9 20 anos depois.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_22390\" style=\"width: 650px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/46456496115_ac63ee1857_z.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-22390\" class=\"size-full wp-image-22390\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/46456496115_ac63ee1857_z.jpg\" alt=\"O brasileiro Francisco Faustino, que tinha lepra e curou-se completamente, \u00e9 um ativista para substituir esse termo por hansen\u00edase, por causa da carga simb\u00f3lica do nome tradicional, como prop\u00f4s durante um painel especial no I Encontro Latino-Americano e Caribenho de Entidades de Pessoas Afetadas pela Doen\u00e7a de Hansen, realizado na cidade brasileira do Rio de Janeiro. Cr\u00e9dito: Fabiana Frayssinet\/IPS\" width=\"640\" height=\"386\" srcset=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/46456496115_ac63ee1857_z.jpg 640w, https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/46456496115_ac63ee1857_z-300x181.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-22390\" class=\"wp-caption-text\">O brasileiro Francisco Faustino, que tinha lepra e curou-se completamente, \u00e9 um ativista para substituir esse termo por hansen\u00edase, por causa da carga simb\u00f3lica do nome tradicional, como prop\u00f4s durante um painel especial no I Encontro Latino-Americano e Caribenho de Entidades de Pessoas Afetadas pela Doen\u00e7a de Hansen, realizado na cidade brasileira do Rio de Janeiro. Cr\u00e9dito: Fabiana Frayssinet\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A doen\u00e7a afeta principalmente a pele, os nervos perif\u00e9ricos, a mucosa das vias respirat\u00f3rias e os olhos, podendo causar les\u00f5es progressivas e permanentes nessas \u00e1reas se n\u00e3o for tratada. Artur Cust\u00f3dio, coordenador da brasileira Morhan, lembrou que, na antiguidade, era considerada como lepra um conjunto de doen\u00e7as como s\u00edfilis, elefant\u00edase, vitiligo e a hoje chamada hansen\u00edase.<\/p>\n<p>\u201cA lepra b\u00edblica refere-se \u00e0 escama\u00e7\u00e3o, sujeira, pecado, e a hansen\u00edase n\u00e3o \u00e9 nada disso. Temos que dar um novo significado a essa doen\u00e7a para enfrentar e combater o estigma. A palavra tem for\u00e7a\u201d, argumentou Cust\u00f3dio em di\u00e1logo com a IPS. \u201cN\u00f3s n\u00e3o vamos mudar os conceitos dos filmes de Hollywood sobre leprosos, ou as hist\u00f3rias b\u00edblicas. O que temos que mudar tamb\u00e9m s\u00e3o as atitudes. \u00c9 como se tiv\u00e9ssemos que criar um novo conceito, trabalhar um novo produto. Nenhum banco seria chamado de \u2018banco falido sociedade an\u00f4nima\u2019 porque todos estariam com medo de colocar dinheiro nesse banco\u201d, comparou.<\/p>\n<p>Para Cust\u00f3dio, essa discuss\u00e3o sobre o nome e o \u00f4nus de seu significado tamb\u00e9m ocorre em pa\u00edses como a Col\u00f4mbia, o Jap\u00e3o ou os Estados Unidos. \u201cEste \u00e9 um movimento importante. As palavras trazem estigma. O nome \u00e9 uma estrat\u00e9gia\u201d, resumiu.<\/p>\n<p>O tamb\u00e9m brasileiro Luciano Curi, do governamental Instituto Federal do Tri\u00e2ngulo Mineiro, fez uma pesquisa para seu doutorado sobre a hist\u00f3ria da lepra \u2013 antiga, medieval e moderna \u2013 que o levou a estar \u201cconvencido\u201d de que essa imagem n\u00e3o se refere \u00e0 hansen\u00edase atual.<\/p>\n<p>\u201cEssa abordagem como sin\u00f4nimo, al\u00e9m de n\u00e3o ter um fundamento hist\u00f3rico e cient\u00edfico, \u00e9 muito perigosa. A lepra do mundo antigo e medieval era pensada a partir de uma matriz religiosa. Correspondia ao impuro. E hansen\u00edase foi pensada a partir do pensamento m\u00e9dico. As primeiras obras m\u00e9dicas datam do s\u00e9culo 19, quando a doen\u00e7a come\u00e7ou a ser compreendida cientificamente\u201d, explicou Curi \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Uma imagem, lembrou Curi, existia em v\u00e1rias popula\u00e7\u00f5es antigas da regi\u00e3o mesopot\u00e2mica, no Egito e tamb\u00e9m entre os hebreus, atribuindo &#8220;algum tipo de contamina\u00e7\u00e3o espiritual&#8221; e designando um padre para expuls\u00e1-la.<\/p>\n<p>No Brasil e em outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, essa defini\u00e7\u00e3o levou-os da exclus\u00e3o ao isolamento em lepros\u00e1rios, separados de todos, inclusive de suas fam\u00edlias, at\u00e9 meados do s\u00e9culo 20.<br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/cRcH7EDYLic\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>Segundo Curi, a \u201cmudan\u00e7a de terminologia \u00e9 urgente e necess\u00e1ria\u201d. Nesse sentido, apontou que o Brasil foi pioneiro ao mudar outras terminologias. \u201cN\u00e3o dizemos mais loucura, dizemos doen\u00e7a mental, n\u00e3o dizemos mais peste. Esse esfor\u00e7o em todo o mundo \u00e9 importante. O nome n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o menor\u201d, resumiu.<\/p>\n<p>Jorge Dom\u00ednguez, representante do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade do Peru, tamb\u00e9m opinou \u00e0 IPS que o nome \u201clepra\u201d n\u00e3o contribui para a ida espont\u00e2nea dos pacientes aos postos de sa\u00fade. Em seu trabalho de dez anos como coordenador regional de hansen\u00edase, na prov\u00edncia de Alto Amazonas, na fronteira com o Equador, ele testemunhou in\u00fameros casos de pessoas \u201cescondendo-se\u201d das autoridades de sa\u00fade por medo de serem enviadas para os \u201clepros\u00e1rios\u201d, como eram chamadas essas institui\u00e7\u00f5es j\u00e1 abolidas em alguns pa\u00edses latino-americanos.<\/p>\n<p>\u201cA mesma coisa foi vivida nos tempos de Cristo, quando os leprosos eram banidos e isolados. O mesmo aconteceu na selva. Quando fui trabalhar, uma vez fiz uma visita e havia uma pessoa que tinha lepra e sua fam\u00edlia a discriminava. Havia sido feito um quarto e passavam a comida por baixo da porta\u201d, contou Dom\u00ednguez, que \u00e9 enfermeiro.<\/p>\n<p>\u201cA falta de conhecimento das pessoas com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 doen\u00e7a era muito grande\u201d, apontou Dom\u00ednguez, acrescentando que, em sua rede de sa\u00fade, come\u00e7aram a trabalhar \u201cessa quest\u00e3o do estigma e da rejei\u00e7\u00e3o\u201d, treinando em primeiro lugar m\u00e9dicos e enfermeiros, \u201cporque havia alguns que, quando viam um paciente com lepra, escondiam-se\u201d.<\/p>\n<p>Essa campanha diminuiu a ocorr\u00eancia de hansen\u00edase registrada em sua regi\u00e3o, de 35 a 45 no ano passado, para entre oito e dez novos casos hoje. \u201cPor mais que tenhamos divulgado por meio da m\u00eddia, muitas pessoas ainda se assustam. Mudar a terminologia ajudaria as pessoas a n\u00e3o serem mais discriminadas\u201d, disse Dom\u00ednguez.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, al\u00e9m da linguagem, Dom\u00ednguez acredita que a pesquisa sobre essa doen\u00e7a, da qual sabe-se muito pouco, deve ser refor\u00e7ada. \u201cPor que afeta algumas pessoas mais do que outras? Por que no Brasil h\u00e1 tantos casos e s\u00e3o t\u00e3o poucos no Peru e n\u00e3o se contagiam mesmo estando em lugares da fronteira comum?\u201d, questionou.<\/p>\n<p>\u201cTamb\u00e9m \u00e9 importante fortalecer a comunica\u00e7\u00e3o, a informa\u00e7\u00e3o para a popula\u00e7\u00e3o. A hansen\u00edase tem tratamento gratuito de seis meses a um ano, tem cura e at\u00e9 pessoas que chegam com sequelas podem ameniz\u00e1-las\u201d, concluiu Cust\u00f3dio.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>RIO DE JANEIRO, 13 de mar\u00e7o de 2019 (IPS) \u2013 Cientificamente conhecida como doen\u00e7a de Hansen, a hansen\u00edase carrega uma carga simb\u00f3lica do passado, que hoje os afetados e especialistas no assunto da Am\u00e9rica Latina buscam derrubar, inclusive no uso&hellip; <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2019\/03\/ultimas-noticias\/na-america-latina-permanece-um-fardo-simbolico-e-biblico-contra-a-lepra\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":421,"featured_media":22389,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,7,1],"tags":[3170,3172,3171],"class_list":["post-22388","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-america-latina","category-saude","category-ultimas-noticias","tag-doenca-de-hansen","tag-hanseniase","tag-lepra"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22388","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/421"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22388"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22388\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22489,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22388\/revisions\/22489"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media\/22389"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22388"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22388"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22388"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}