{"id":2249,"date":"2006-10-30T00:00:00","date_gmt":"2006-10-30T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2249"},"modified":"2006-10-30T00:00:00","modified_gmt":"2006-10-30T00:00:00","slug":"eua-uma-hegemonia-que-se-desfaz-no-oriente-mdio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/10\/mundo\/eua-uma-hegemonia-que-se-desfaz-no-oriente-mdio\/","title":{"rendered":"EUA: Uma hegemonia que se desfaz no Oriente M&eacute;dio"},"content":{"rendered":"<p>Washington, 30\/10\/2006 &ndash; O 50&ordm; anivers&aacute;rio da crise de Suez, &uacute;ltimo estertor do colonialismo europeu no Oriente M&eacute;dio, parece coincidir com o fim de meio s&eacute;culo de hegemonia dos Estados Unidos na regi&atilde;o. <!--more--> No domingo foi completado mais um anivers&aacute;rio da invas&atilde;o de Israel em Gaza e no Sinai e do posterior avan&ccedil;o para o canal de Suez, opera&ccedil;&atilde;o que contou com cumplicidade europ&eacute;ia e que foi desativada depois pelo presidente norte-americano Dwight Eisenhower. Este acontecimento hist&oacute;rico representou para os Estados Unidos uma demonstra&ccedil;&atilde;o de boa vontade em rela&ccedil;&atilde;o aos pa&iacute;ses &aacute;rabes e inaugurou o prolongado per&iacute;odo de seu dom&iacute;nio na regi&atilde;o. Mas, agora a situa&ccedil;&atilde;o &eacute; muito diferente.<\/p>\n<p>A invas&atilde;o e ocupa&ccedil;&atilde;o do Iraque em 2003 infligiram s&eacute;rios danos &agrave; posi&ccedil;&atilde;o de Washington no Oriente M&eacute;dio. Nesse pa&iacute;s h&aacute; mais de 140 mil soldados norte-americanos. Apesar dessa presen&ccedil;a, parecem cada vez mais in&uacute;teis os esfor&ccedil;os para sufocar a insurg&ecirc;ncia sunita e impedir uma guerra civil de enormes dimens&otilde;es entre comunidades &eacute;tnicas e religiosas iraquianas. Por outro lado, o governo do presidente George W. Bush n&atilde;o conseguiu, por sua passividade ou por sua teimosia, reanimar o processo de paz &aacute;rabe-israelense. A guerra de julho entre Israel e o partido isl&acirc;mico xiita liban&ecirc;s Hezbollah e a deteriora&ccedil;&atilde;o da Autoridade Nacional Palestina deterioraram nessa regi&atilde;o a imagem de influ&ecirc;ncia de Washington, que se encontra em seu ponto mais baixo hist&oacute;rico.<\/p>\n<p>\u201cA pol&iacute;tica externa norte-americana no Oriente M&eacute;dio se aproxima de uma crise muito seria\u201d, advertiu Zbigniew Brzezinski, conselheiro de Seguran&ccedil;a Nacional do governo de Jimmy Carter (1977-1981), em um jantar realizado na semana passada quando destacou que a crise de 1956 marcou \u201co in&iacute;cio do dom&iacute;nio\u201d norte-americano no Oriente M&eacute;dio. \u201cEnfrentamos a possibilidade de sermos literalmente expulsos da regi&atilde;o\u201d, advertiu. Somente uma grande mudan&ccedil;a na pol&iacute;tica norte-americana, particularmente com rela&ccedil;&atilde;o ao processo de paz entre Israel e Palestina, pode reverter a tend&ecirc;ncia atual, ressaltou. Outros analistas insistem em dizer que o car&aacute;ter de superpot&ecirc;ncia mundial dos Estados Unidos e sua forte depend&ecirc;ncia do petr&oacute;leo do Oriente M&eacute;dio asseguram sua influ&ecirc;ncia na regi&atilde;o.<\/p>\n<p>Por&eacute;m, a maioria dos especialistas em Washington concorda que sua capacidade para afetar acontecimentos na regi&atilde;o caiu substancialmente. \u201cO dom&iacute;nio norte-americano no Oriente M&eacute;dio acabou, e uma nova era come&ccedil;ou na hist&oacute;ria moderna da regi&atilde;o\u201d, escreveu Richard Haass, presidente do influente Conselho de Rela&ccedil;&otilde;es Exteriores e assessor do governo de George W. Bush, em uma an&aacute;lise publicada na &uacute;ltima edi&ccedil;&atilde;o da revista Foreign Affairs. \u201cOs Estados Unidos continuar&atilde;o tendo mais influ&ecirc;ncia do que qualquer outra pot&ecirc;ncia, mas, reduzida, em compara&ccedil;&atilde;o com a que tinha antes\u201d, acrescentou. Nesta \u201cnova era, os atores externos &agrave; regi&atilde;o t&ecirc;m um impacto relativamente modesto e as for&ccedil;as locais levam vantagem. Mas, os atores locais que ganham poder s&atilde;o radicais comprometidos com a mudan&ccedil;a do statu quo\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>A coincid&ecirc;ncia do surgimento deste \u201cNovo Oriente M&eacute;dio\u201d, como Haass intitulou seu artigo, com o 50&ordm; anivers&aacute;rio da crise de Suez n&atilde;o &eacute; um dado menor. Estes destacam que, mais do que qualquer outro fato, foi o papel de Washington na crise que impulsionou sua imagem com for&ccedil;a para a liberta&ccedil;&atilde;o e posicionou os Estados Unidos como um mediador honesto entre &aacute;rabes e Israel. No dia 29 de outubro de 1965, Israel ocupou dois territ&oacute;rios do Egito, Gaza (hoje controlada pela ANP) e a pen&iacute;nsula do Sinai. Alguns dias depois ocupou a zona do canal de Suez, rec&eacute;m-nacionalizado pelo governo do presidente eg&iacute;pcio Gamal Abdel Nasser (1956-1970).<\/p>\n<p>De acordo com o plano secreto estabelecido antes com os governos da Gr&atilde;-Bretanha e Fran&ccedil;a, Israel convidou esses dois pa&iacute;ses a enviarem para a &aacute;rea for&ccedil;as de manuten&ccedil;&atilde;o da paz. Mas, quando Nasser rejeitou essa \u201coferta\u201d, de todo modo Londres e Paris invadiram. O presidente Eisenhower (1953-1961), que ignorava os planos de Israel, Fran&ccedil;a e Gr&atilde;-Bretanha, respondeu amea&ccedil;ando \u201ctirar do suporte\u201d da libra brit&acirc;nica e, inclusive, eliminar a prote&ccedil;&atilde;o nuclear norte-americana aos tr&ecirc;s pa&iacute;ses se n&atilde;o pusessem fim &agrave; opera&ccedil;&atilde;o e se comprometessem a se retirar rapidamente, o que ocorreu no come&ccedil;o de 1957. Para a maioria dos historiadores, a crise e a humilha&ccedil;&atilde;o infligida &agrave;s pot&ecirc;ncias invasoras significou o fim do colonialismo da Europa ocidental no Oriente M&eacute;dio.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m sup&ocirc;s o advento da hegemonia dos Estados Unidos, que se fortaleceu com acontecimentos posteriores, especialmente depois da guerra &aacute;rabe-israelense de 1973 (do Iom Kippur), dos acordos de Camp David de 1978 (que selaram a paz entre Israel e Egito) e o fim da Guerra Fria, uma d&eacute;cada depois. \u201cCertamente, em termos de prest&iacute;gio e imagem no Oriente M&eacute;dio nem &eacute; preciso dizer que Suez foi o ponto alto para os Estados Unidos\u201d, segundo Chris Toensing, editor do Middle East Report (MER), uma publica&ccedil;&atilde;o de Washington. \u201cOs Estados Unidos foram vistos n&atilde;o apenas como um pa&iacute;s que saiu do jugo do colonialismo, mas disposto a ajudar outros pa&iacute;ses a fazerem o mesmo\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Se isso ajudou a estabelecer o \u201cpoder brando\u201d de Washington na regi&atilde;o, tamb&eacute;m demonstrou aos &aacute;rabes que os Estados Unidos n&atilde;o tinham influ&ecirc;ncia somente sobre Israel, mas que estavam disposto a us&aacute;-la acima das obje&ccedil;&otilde;es desse pa&iacute;s e do cada vez mais influente grupo interno de press&atilde;o pr&oacute;-israelense. \u201c&Eacute; o fato de termos feito com que Israel se retirasse do Sinai, o que nos estabeleceu como um mediador honesto\u201d entre Israel e os &aacute;rabes, assegurou Richard Parker, ex-embaixador na Arg&eacute;lia, no Marrocos e no L&iacute;bano nos anos 70. \u201cDesde o Sinai, essa sempre foi uma carta triunfal na regi&atilde;o. \u201cMas, 50 anos mais tarde, tanto o poder brando dos Estados Unidos quanto seu status de mediador honesto est&atilde;o em seu ponto mais baixo e, nas palavras de Toensing, \u201cafundando ainda mais\u201d. Desde 2002, quando os Estados Unidos consentiram na campanha militar de Israel contra a intifada (revolta popular palestina contra a ocupa&ccedil;&atilde;o), a desaprova&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o aos Estados Unidos disparou no mundo &aacute;rabe, de acordo com pesquisas da &eacute;poca.<\/p>\n<p>Estas mostravam uma deteriora&ccedil;&atilde;o ainda maior depois da invas&atilde;o do Iraque em 2003 e do esc&acirc;ndalo de viola&ccedil;&otilde;es de direitos humanos na pris&atilde;o de Abu Ghraib no ano seguinte. \u201cOs Estados Unidos chegaram a ser vistos como a pot&ecirc;ncia colonial por excel&ecirc;ncia (&#8230;) pior do que as velhas (pot&ecirc;ncias europ&eacute;ias), porque sobre elas se considerou que tinham uma agenda econ&ocirc;mica \u2013 a extra&ccedil;&atilde;o de recursos \u2013 enquanto que os Estados Unidos tamb&eacute;m apresentava, al&eacute;m disso, uma agenda ideol&oacute;gica, segundo Toensing. Al&eacute;m disso, Bush n&atilde;o fez nenhuma press&atilde;o sobre Israel para comprometer esse pa&iacute;s em um processo de paz com os palestinos e apoiou o Estado judeu em sua ofensiva militar e seus bombardeios no L&iacute;bano, o que destruiu a imagem de mediador honesto de Washington. \u201cNosso ponto forte sempre foi o fato de que &eacute;ramos a &uacute;nica pot&ecirc;ncia que podia fazer algo com os israelenses. Ainda temos essa influ&ecirc;ncia, mas a chave &eacute; se estamos dispostos a us&aacute;-la\u201d, disse Parker. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Washington, 30\/10\/2006 &ndash; O 50&ordm; anivers&aacute;rio da crise de Suez, &uacute;ltimo estertor do colonialismo europeu no Oriente M&eacute;dio, parece coincidir com o fim de meio s&eacute;culo de hegemonia dos Estados Unidos na regi&atilde;o. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/10\/mundo\/eua-uma-hegemonia-que-se-desfaz-no-oriente-mdio\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":104,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4,11],"tags":[16],"class_list":["post-2249","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mundo","category-politica","tag-oriente-medio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2249","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/104"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2249"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2249\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2249"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2249"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2249"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}