{"id":2278,"date":"2006-11-09T00:00:00","date_gmt":"2006-11-09T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2278"},"modified":"2006-11-09T00:00:00","modified_gmt":"2006-11-09T00:00:00","slug":"bolvia-a-guerra-da-gua-expulsa-multinacionais-e-deixa-feridos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/11\/america-latina\/bolvia-a-guerra-da-gua-expulsa-multinacionais-e-deixa-feridos\/","title":{"rendered":"Bol&iacute;via: A guerra da &aacute;gua expulsa multinacionais e deixa feridos"},"content":{"rendered":"<p>La Paz, 09\/11\/2006 &ndash; Quando se fala na cidade boliviana de Cochabamba sobre a \u201cguerra da &aacute;gua\u201d de 2000, escritores, pesquisadores e estudantes se entranham no relato de uma epop&eacute;ia, que terminou com a expuls&atilde;o de uma multinacional. <!--more--> A capital do vale boliviano, 400 quil&ocirc;metros a sudeste de La Paz, &eacute; a cidade das caixas d\u2019agua elevadas e das bombas d\u2019&aacute;gua domiciliares para puxar o pouco l&iacute;quido que &eacute; distribu&iacute;do apenas cinco dias por semana. Nos intervalos costuma circular apenas ar pelas tubula&ccedil;&otilde;es, e com tanta press&atilde;o que &eacute; capaz de quebrar as agulhas dos hidr&ocirc;metros.<\/p>\n<p>A arquitetura republicana, que contrasta com avan&ccedil;ados projetos de edif&iacute;cios criados para bancos e com&eacute;rcio de uma cidade habitada por cerca de 900 mil pessoas, mant&eacute;m frescas as marcas da pior batalha travada em suas ruas, quando pneus eram queimados e barricadas eram levantadas contra a empresa &Aacute;guas do Tunari, propriedade da norte-americana Bechtel; a italiana Edison e a espanhola Abengoa, com uma m&iacute;nima participa&ccedil;&atilde;o privada nacional.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m est&aacute; muito longe a imagem de Hugo Daza, jovem de 17 anos que acabou com a fronte atravessada pela bala disparada por um franco-atirador, &uacute;nica v&iacute;tima da guerra da &aacute;gua iniciada nos primeiros dias de abril de 2000 e que esteve a ponto de provocar a queda do segundo governo de Hugo Banzer (1997-2001), responsabilizado por seguir &agrave;s cegas a pol&iacute;tica de privatiza&ccedil;&atilde;o do Banco Mundial. Est&aacute; institui&ccedil;&atilde;o incentivou, em 1999, a entrega do Servi&ccedil;o Municipal de &Aacute;gua Pot&aacute;vel e Esgoto (Semapa) de Cochabamba para a International Water, cons&oacute;rcio formado pela Bechtel e Edison e Abengoa, que unidas a capitais nacionais formaram a &Aacute;guas do Tunari.<\/p>\n<p>Um aumento das tarifas de 200% fortaleceu a resist&ecirc;ncia de organiza&ccedil;&otilde;es agrupadas na Coordenadora Departamental da &Aacute;gua e da Vida, convertida em instrumento social e pol&iacute;tico que, al&eacute;m de derrubar a &Aacute;guas do Tunari, se transformou em s&iacute;mbolo da luta contra o modelo econ&ocirc;mico de ajuste estrutural e difundiu seu exemplo a outras cidades da regi&atilde;o, como Buenos Aires, e no sub&uacute;rbio de El Alto, perto de La Paz.<\/p>\n<p>Em abril de 2000, as autoridades rescindiram o contrato com a &Aacute;guas do Tunari e a empresa recorreu &agrave; arbitragem internacional. Em janeiro deste ano, as duas partes chegaram a um entendimento, sem pagamento de nenhum tipo de compensa&ccedil;&atilde;o. O Estado boliviano admitiu que a rescis&atilde;o aconteceu somente devido &agrave; situa&ccedil;&atilde;o de efervesc&ecirc;ncia social e n&atilde;o a falhas na presta&ccedil;&atilde;o do servi&ccedil;o. Depois da for&ccedil;ada partida da &Aacute;guas do Tunari, a Semapa retornou. No entanto, debilitada, sem recursos financeiros e com poucas expectativas de se converter no modelo exigido pelos autonomeados \u201cguerreiros da &aacute;gua\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA Semapa n&atilde;o atende &agrave; demanda de &aacute;gua, apesar de contar com diretores-cidad&atilde;os (do movimento social). Caiu nas m&atilde;os de pol&iacute;ticos que distorceram a guerra da &aacute;gua\u201d, disse &aacute; IPS um dos fundadores da Coordenadora, o engenheiro h&iacute;drico Gonzalo Maldonado, escritor de alguns livros sobre o problema. Uma moradora do central de Cochabamba, Amparo Valda, contou &agrave; IPS que precisa armazenar &aacute;gua na previs&atilde;o dos habituais cortes pelo menos dois dias na semana. A duvidosa qualidade do l&iacute;quido a obriga a comprar &aacute;gua engarrafada para beber e preparar alimentos.<\/p>\n<p>\u201cEmbora n&atilde;o se tenha chegado a um resultado &oacute;timo com o processo de mobiliza&ccedil;&atilde;o social, a distribui&ccedil;&atilde;o de &aacute;gua melhorou bastante. Falta, no entanto, o compromisso dos cidad&atilde;os em participar na condu&ccedil;&atilde;o da empresa municipal\u201d, disse &agrave; IPS o tamb&eacute;m fundador da Coordenadora e atual deputado nacional Gabriel Herbas. O analista independente Vincente G&oacute;mez-Garc&iacute;ca, explicou &agrave; IPS que a guerra da &aacute;gua agravou os problemas de inefici&ecirc;ncia e m&aacute; administra&ccedil;&atilde;o do Semapa devido &agrave; forte politiza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Ao contr&aacute;rio do que ocorre com a atual empresa, antes do conflito de abril de 2000 houve uma tentativa de institucionalizar a qualificar sua ger&ecirc;ncia, mas, em seguida dominou o discurso pol&iacute;tico, e os grupos promotores da guerra da &aacute;gua reclamaram espa&ccedil;os dentro da administra&ccedil;&atilde;o, disse G&oacute;mez-Garc&iacute;a. Est&aacute; opini&atilde;o &eacute; compartilhada por Maldonado, que detectou problemas profundos na empresa municipal, como a perda de 50% da &aacute;gua por causa de uma rede deficiente de distribui&ccedil;&atilde;o; por roubos e pelo tratamento privilegiado dado a algumas pessoas com influencia pol&iacute;tica.<\/p>\n<p>A contrata&ccedil;&atilde;o de at&eacute; 700 empregados, em lugar dos 270 necess&aacute;rios; disputas pela distribui&ccedil;&atilde;o de empregos entre os diretores-cidad&atilde;os e a falta de um registro de instala&ccedil;&otilde;es s&atilde;o outras dificuldades identificadas por Maldonado, que sugere investimentos imediatos no valor de US$ 120 milh&otilde;es para resolver os problemas urgentes de capta&ccedil;&atilde;o de &aacute;gua e extens&atilde;o da rede de distribui&ccedil;&atilde;o. Na p&aacute;gina do Semapa, criado em 1928, admite-se que o \u201cservi&ccedil;o n&atilde;o &eacute; cont&iacute;nuo e mostra um acentuado racionamento que foi costumeiro no in&iacute;cio do servi&ccedil;o de &aacute;gua, produto de um clima semi-&aacute;rido; constante crescimento da popula&ccedil;&atilde;o e infra-estrutura insuficiente para a distribui&ccedil;&atilde;o de &aacute;gua aos centros de consumo\u201d.<\/p>\n<p>Talvez, est&aacute; realidade de uma empresa que deveria ser um exemplo de administra&ccedil;&atilde;o tenha sido a raz&atilde;o pela qual o l&iacute;der da rebeli&atilde;o, o oper&aacute;rio Oscar Olivera, se recusou em duas oportunidades a conceder entrevistas e at&eacute; mesmo evitar responder um curto question&aacute;rio da IPS. Herbas resgata como &ecirc;xito da gest&atilde;o popular o escasso aumento das tarifas, longe das porcentagens que &Aacute;guas do Tunari tentou aplicar, mas se queixa porque as pessoas adotaram uma atitude conformista e reticente quanto a participar das decis&otilde;es da empresa.<\/p>\n<p>De um ponto de vista diferente, Maldonado prop&otilde;e a cria&ccedil;&atilde;o de uma Associa&ccedil;&atilde;o de Usu&aacute;rios com atua&ccedil;&atilde;o dos 58 mil beneficiados pelo servi&ccedil;o e contribui&ccedil;&otilde;es em dinheiro para fortalecer uma nova empresa tendo por base a atual, da qual n&atilde;o estaria exclu&iacute;do o setor privado como acionista. Sua proposta tamb&eacute;m compreende a inclus&atilde;o das pequenas cidades que rodeiam Cochabamba para evitar no futuro enfrentamentos internos que poderiam levar ao fechamento das fontes de &aacute;gua localizadas pr&oacute;ximas dessas localidades. \u201cA l&oacute;gica econ&ocirc;mico-financeira &eacute; fria, e n&atilde;o h&aacute; outro caminho para sustentar os investimentos que n&atilde;o o aumento das tarifas\u201d, disse Gomez-Garc&iacute;a.<\/p>\n<p>O reajuste de 5%, aplicado em maio, compreende as tarifas domiciliares que oscilam entre US$ 2 e US$ 15,6, de acordo com uma categoria que tarifa com maior valor as zonas habitadas por pessoas de renda maior. O reajuste foi aplicado em cumprimento a acordos entre o Semapa e o Banco Interamericano de Desenvolvimento, que aceitou emprestar US$ 11,5 milh&otilde;es para obras de amplia&ccedil;&atilde;o das redes de fornecimento para bairros pobres.<\/p>\n<p>A imagem difundida &eacute;, e continuar&aacute; sendo, a da luta de um povo que se levantou contra o capitalismo global, da qual extraem m&eacute;todos que s&atilde;o difundidos via Internet, com a tomada simb&oacute;lica de Cochabamba, a queima p&uacute;blica de contas, os grafites nos muros, as marchas e a consulta popular. Desde a sede do governo nacional se acompanha com aten&ccedil;&atilde;o a Semapa, porque no &uacute;ltimo dia do ano a corpora&ccedil;&atilde;o francesa Suez, dona da empresa &Aacute;guas do Illimani, que atende &agrave;s cidades de La Paz e El Alto, dever&aacute; deixar o pa&iacute;s, porque outra guerra h&iacute;drica, travada em janeiro de 2005, assim determinou. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>La Paz, 09\/11\/2006 &ndash; Quando se fala na cidade boliviana de Cochabamba sobre a \u201cguerra da &aacute;gua\u201d de 2000, escritores, pesquisadores e estudantes se entranham no relato de uma epop&eacute;ia, que terminou com a expuls&atilde;o de uma multinacional. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/11\/america-latina\/bolvia-a-guerra-da-gua-expulsa-multinacionais-e-deixa-feridos\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":421,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,2],"tags":[],"class_list":["post-2278","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-america-latina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2278","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/421"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2278"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2278\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2278"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2278"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2278"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}