{"id":2333,"date":"2006-11-24T00:00:00","date_gmt":"2006-11-24T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2333"},"modified":"2006-11-24T00:00:00","modified_gmt":"2006-11-24T00:00:00","slug":"colmbia-megaporto-versus-megadiversidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/11\/america-latina\/colmbia-megaporto-versus-megadiversidade\/","title":{"rendered":"Col&ocirc;mbia: Megaporto versus megadiversidade"},"content":{"rendered":"<p>La Plata, Col&ocirc;mbia, 24\/11\/2006 &ndash; A paradis&iacute;aca Ba&iacute;a M&aacute;laga da costa colombiana no Pac&iacute;fico, no megadiverso Choc&oacute; Biogeogr&aacute;fico, ser&aacute; o novo cen&aacute;rio na luta global entre o desenvolvimento e a conserva&ccedil;&atilde;o da natureza. <!--more--> Est&atilde;o em jogo nessa &aacute;rea uma cultura, um entorno rico em &aacute;gua doce e, como se na bastasse, o local preferido para acasalamento das baleias jubarte (Megaptera novaengliae) no planeta. O direitista presidente colombiano &Aacute;lvaro Uribe confirmou, no final de outubro, que a ba&iacute;a onde a cada ano nasce a quarta parte das baleias jubarte ser&aacute; transformada em um porto para navios de grande calado e transfer&ecirc;ncia internacional de cont&ecirc;ineres.<\/p>\n<p>O lugar escolhido est&aacute; na zona mais de maior &iacute;ndice pluviom&eacute;trico do mundo. As chuvas torrenciais e apenas suas cinco principais correntes internas fornecem a esta ba&iacute;a 4,1 milh&otilde;es de metros c&uacute;bicos di&aacute;rios de &aacute;gua doce. Os Centros de Transbordo Internacional, ou \u201cportos hub\u201d, est&atilde;o na moda. Ficam em pontos estrat&eacute;gicos das principais rotas do com&eacute;rcio mar&iacute;timo mundial. S&atilde;o os principais pontos de uma rede global de portos especializados no manejo de cont&ecirc;ineres, que representa 45% da carga mar&iacute;tima. Nestes portos gigantes ocorre o transbordo dos cont&ecirc;ineres entre navios de grande capacidade, que precisam de &aacute;guas profundas, para barcos menores que distribuem e coletam a carga em n&iacute;vel regional.<\/p>\n<p>A protegida Ba&iacute;a M&aacute;laga, no departamento do Valle do Cauca, &eacute; extensa e profunda e nela desembocam rios que geram sedimenta&ccedil;&atilde;o, o que economiza os altos custos de dragagem. Permite manobrar comodamente navios de terceira gera&ccedil;&atilde;o, que podem transportar cinco mil cont&ecirc;ineres e que hoje n&atilde;o podem passar pelo Canal do Panam&aacute;, chamados post-panamax, e os que tampouco podem ser recebidos no porto de Buenaventura, cerca de 27 milhas n&aacute;uticas ao sul da Ba&iacute;a M&aacute;laga. Por Buenaventura, e tamb&eacute;m pelo Valle do Cauca, circulam 53% do com&eacute;rcio exterior da Col&ocirc;mbia, incluindo 80% do caf&eacute; exportado.<\/p>\n<p>Este porto maneja nove mil cont&ecirc;ineres por dia, com pouca margem atualmente para a expans&atilde;o, enquanto o com&eacute;rcio exterior colombiano cresce ao ritmo pr&oacute;ximo dos 7%, segundo dados oficiais. A Sociedade Portu&aacute;ria de Buenaventura (SPB) calcula que este porto chegar&aacute; a 2010 no topo de sua capacidade (10,2 milh&otilde;es de toneladas\/ano), enquanto estima-se que a demanda para 2020 ficar&aacute; entre 22 milh&otilde;es e 25 milh&otilde;es de toneladas. Essa capacidade, para a SPB, pode ser alcan&ccedil;ada por meio de ambiciosas obras e adequa&ccedil;&otilde;es do porto e zona vizinha.<\/p>\n<p>Por&eacute;m, Ba&iacute;a M&aacute;laga j&aacute; foi inclu&iacute;da no Plano de Expans&atilde;o Portu&aacute;ria 2005-2006 como assunto priorit&aacute;rio de m&eacute;dio prazo para o governo, e recebeu car&aacute;ter de urg&ecirc;ncia em maio do ano passado. O porto hub, primeira etapa do megaprojeto em Ba&iacute;a M&aacute;laga, tem custo estimado em US$ 300 milh&otilde;es, segundo o Minist&eacute;rio dos Transportes. A segunda &eacute; um porto multiprop&oacute;sito para o manejo de todo tipo de carga, como o de Buenaventura. Inclui um poliduto de 204 quil&ocirc;metros desde Buga, no leste, com capacidade para 40 mil barris di&aacute;rios de bombeamento, bem como um terminal petrol&iacute;fero apto para armazenar 700 mil barris de gasolina e combust&iacute;vel para motores a diesel, al&eacute;m de 40 mil de g&aacute;s liquefeito. Tamb&eacute;m inclui uma rodovia e uma zona franca tur&iacute;stica.<\/p>\n<p>A inclus&atilde;o na rede mundial de portos hub n&atilde;o &eacute; autom&aacute;tica, sendo decidida por um punhado de companhias multinacionais de navega&ccedil;&atilde;o. Na regi&atilde;o, tr&ecirc;s portos no Panam&aacute;; o de Manta, no Equador, e o de Callao, no Peru, tamb&eacute;m est&atilde;o sendo promovidos para se converterem em hub, afirma um estudo do Fundo Mundial para a Vida Silvestre (WWF). Mas a Col&ocirc;mbia, principal aliada dos Estados Unidos na regi&atilde;o, quer seu pr&oacute;prio porto moderno, enquanto lidera a id&eacute;ia de formar um bloco de livre com&eacute;rcio na bacia latino-americana do Pac&iacute;fico, do M&eacute;xico at&eacute; o Chile. A pergunta &eacute; por que Ba&iacute;a M&aacute;laga, e n&atilde;o Buenaventura.<\/p>\n<p>Ba&iacute;a M&aacute;laga \u201c&eacute; um porto militarmente estrat&eacute;gico. Por que mais importante do que Buenaventura? Porque eles (as for&ccedil;as governamentais) t&ecirc;m o controle militar sobre Ba&iacute;a M&aacute;laga, mas n&atilde;o sobre Buenaventura que, por sua localiza&ccedil;&atilde;o, tem zonas rurais incontrol&aacute;veis militarmente\u201d, disse &agrave; IPS o soci&oacute;logo Jimmy Viera, assessor da senadora liberal de oposi&ccedil;&atilde;o, Piedad C&oacute;rdoba. As for&ccedil;as de seguran&ccedil;a do Estado, apoiadas desde 1982 por grupos paramilitares de ultradireita ligadas a chefes do narcotr&aacute;fico, que se desmobilizaram parcialmente, luta desde 1954 com guerrilhas esquerdistas.<\/p>\n<p>No dia 27 de outubro, 14 horas depois de uma sabotagem rebelde a 27 quil&ocirc;metros do porto, na nevr&aacute;lgica via que une Buenaventura com os centros industriais e de consumo do pa&iacute;s, a IPS viu um caminh&atilde;o com reboque ainda fumegante, outro totalmente queimado e outro incendiado, al&eacute;m de quatro caminh&otilde;es com todos os pneus furados, embora o tr&aacute;fego j&aacute; circulasse. No momento, cerca de dois mil militares e civis vivem na Base Naval do Pac&iacute;fico, em contraste com 3,5 mil habitantes das comunidades vizinhas, 90% deles de cultura negra tradicional.<\/p>\n<p>A base foi enclavada ali no come&ccedil;o dos anos 80, quando ainda n&atilde;o vigoravam direitos especiais para estas minorias formadas por quase 1,5 milh&atilde;o de pessoas neste pa&iacute;s de 42 milh&otilde;es de habitantes. A comunidade tem acesso regular ao servi&ccedil;o m&eacute;dico militar. Se o porto for constru&iacute;do, muitas baleias morrer&atilde;o ao colidirem com navios, j&aacute; que o tr&aacute;fego mar&iacute;timo ir&aacute; disparar. Al&eacute;m disso, esses animais s&atilde;o afetados pelo barulho, alertou a bi&oacute;loga Patr&iacute;cia Falk, da Funda&ccedil;&atilde;o Jubarte, que este ano informou sobre uma pesquisa a respeito das causas de sete mortes na costa colombiana, dos quais apenas uma baleia era animal adulto.<\/p>\n<p>\u201cQualquer animal que morra afeta um pouco a popula&ccedil;&atilde;o\u201d, disse Falk &agrave; IPS. A esp&eacute;cie est&aacute; classificada como \u201cvulner&aacute;vel de conserva&ccedil;&atilde;o\u201d, segundo a Uni&atilde;o Internacional para a Conserva&ccedil;&atilde;o da Natureza (UICN). Desde 1966, quando se calculou que somente sobreviviam 5% da popula&ccedil;&atilde;o, sua ca&ccedil;a foi internacionalmente proibida. O Jap&atilde;o, que n&atilde;o compartilha dessa proibi&ccedil;&atilde;o, afirma que as colis&otilde;es com esses cet&aacute;ceos mostram que sua popula&ccedil;&atilde;o foi recuperada. O impacto afetara tr&ecirc;s ou quatro gera&ccedil;&otilde;es, que depois buscar&atilde;o locais mais seguros, segundo Falk. &Eacute; o que teme L&iacute;dia D&iacute;az, moradora de La Plata, uma localidade situada no costado norte do interior da Ba&iacute;a M&aacute;laga que se op&otilde;e ao porto. \u201cAs baleias n&atilde;o voltar&atilde;o e o turista n&atilde;o vir&aacute; para v&ecirc;-las\u201d, lamentou.<\/p>\n<p>Comunidades divididas<\/p>\n<p>Os que ap&oacute;iam o projeto s&atilde;o sobretudo os jovens de Juanchaco e Ladrilleros, com praias e um prec&aacute;rio turismo regional, e com a perspectiva de que a estatal Universidade do Valle construa um campus ali. Enquanto em La Plata os homens se dedicam, com fazem h&aacute; centenas de anos, primordialmente &agrave; pesca artesanal, as mulheres colhem piangua (Anadara tuberculosa), um molusco bivalvo muito apreciado no Pac&iacute;fico colombiano e no Equador que vive no barro das ra&iacute;zes do mangue, um arbusto t&iacute;pico.<\/p>\n<p>As duas atividades sofreram queda de 50% nos &uacute;ltimos cinco anos, ao que parece pelo corte do mangue e pela superexplora&ccedil;&atilde;o. Tamb&eacute;m semeiam banana, cana, mandioca, pupunha (um fruto nutritivo de palma que se cozinha e come com sal) e outros produtos de subsist&ecirc;ncia. \u201cEssa &eacute; nossa seguran&ccedil;a alimentar\u201d, disse Adolfo Valencia, outro morador. \u201cEm La Plata n&atilde;o concordamos com este porto. Porque, se for constru&iacute;do, perderemos todos os recursos econ&ocirc;micos\u201d, disse &agrave; IPS Ana Paz, de 56 anos, com uma bisneta de dois anos.<\/p>\n<p>E embora o Conv&ecirc;nio 169 da Organiza&ccedil;&atilde;o Internacional do Trabalho e a Constitui&ccedil;&atilde;o da Col&ocirc;mbia prevejam o tr&acirc;mite obrigat&oacute;rio de \u201cconsulta pr&eacute;via\u201d em decis&otilde;es que afetem a forma de vida das comunidades negras, cujo territ&oacute;rio &eacute; inalien&aacute;vel, imprescrit&iacute;vel e imbarg&aacute;vel, ningu&eacute;m perguntou sobre o porto aos habitantes que sonham viver do ecoturismo. \u201cApenas os jornalistas, apesar de sermos os primeiros afetados\u201d, dizem membros do Conselho Comunit&aacute;rio de La Plata, formado em 1999 e que j&aacute; pediu em duas comunica&ccedil;&otilde;es ao Minist&eacute;rio do Meio Ambiente que inclua a &aacute;rea no Sistema de Parques Nacionais.<\/p>\n<p>O t&iacute;tulo coletivo atual, reconhecido oficialmente desde 2003 tem 7.703 hectares. A comunidade espera que em dezembro seja titulada toda a ba&iacute;a, um total de 36,6 mil quil&ocirc;metros. Ov&iacute;dio D&iacute;az, irm&atilde;o de L&iacute;dia, pescador de 39 anos e coordenador de controle e vigil&acirc;ncia territorial do Conselho de La Plata, diz que o principal &eacute; \u201caprender a negociar com o governo. Sabemos que muita fauna vai desaparecer. A piangua, as aves migrat&oacute;rias. A estrada vai nos afetar\u201d, afirmou. A pergunta &eacute; o que o governo de Uribe vai negociar em troca com as comunidades. Porque \u201co ovo n&atilde;o pode com a pedra\u201d, afirmou um morador. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>La Plata, Col&ocirc;mbia, 24\/11\/2006 &ndash; A paradis&iacute;aca Ba&iacute;a M&aacute;laga da costa colombiana no Pac&iacute;fico, no megadiverso Choc&oacute; Biogeogr&aacute;fico, ser&aacute; o novo cen&aacute;rio na luta global entre o desenvolvimento e a conserva&ccedil;&atilde;o da natureza. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/11\/america-latina\/colmbia-megaporto-versus-megadiversidade\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":44,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,12],"tags":[],"class_list":["post-2333","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-desenvolvimento"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2333","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/44"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2333"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2333\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2333"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2333"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2333"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}