{"id":2423,"date":"2006-12-13T14:03:39","date_gmt":"2006-12-13T14:03:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2423"},"modified":"2006-12-13T14:03:39","modified_gmt":"2006-12-13T14:03:39","slug":"infancia-africa-e-uma-terra-de-orfaos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/12\/africa\/infancia-africa-e-uma-terra-de-orfaos\/","title":{"rendered":"Inf\u00e2ncia: \u00c1frica \u00e9 uma terra de \u00f3rf\u00e3os"},"content":{"rendered":"<p>Lisboa, 13\/12\/2006 &ndash; As guerras, a aids, a mal\u00e1ria, o c\u00f3lera e a desnutri\u00e7\u00e3o est\u00e3o convertendo gradualmente a \u00c1frica em um territ\u00f3rio de meninos, meninas e adolescentes sem pais. <!--more--> Os \u00faltimos dados divulgados pelo Fundo das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Inf\u00e2ncia, (Unicef) e pelo Programa Conjunto das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre o HIV\/aids (Onusida) indicam que ao sul do deserto do Saara existem 48,3 milh\u00f5es de \u00f3rf\u00e3os, um quarto deles devido \u00e0 perda de seus pais por causa da aids (s\u00edndrome de defici\u00eancia imunol\u00f3gica adquirida).<\/p>\n<p>Entre 1990 e 2000 aumentou de 30,9 milh\u00f5es para 41,5 milh\u00f5es o n\u00famero de \u00f3rf\u00e3os na \u00c1frica e de 330 mil para sete milh\u00f5es o n\u00famero dos que ficaram nesta situa\u00e7\u00e3o por causa da aids. As proje\u00e7\u00f5es das duas ag\u00eancias da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas indicam que em 2010 ser\u00e3o 53,1 milh\u00f5es de menores sem pa\u00eds, 15,7 milh\u00f5es devido \u00e0 doen\u00e7a causada pelo v\u00edrus HIV.<\/p>\n<p>Diante de cifras contundentes, as autoridades de Portugal informaram que este pa\u00eds mant\u00e9m uma forte liga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica com a \u00c1frica. Por isso, o ministro do Interior, Antonio Santos da Costa, solicitou ao Comit\u00ea Portugu\u00eas para os Refugiados a cria\u00e7\u00e3o de um centro destinado exclusivamente para receber meninos e meninas africanos que chegarem ao pa\u00eds desacompanhados. O desafio do ministro foi imediatamente aceito pela presidente do CPR, Maria Teresa Tito de Morais, apesar de at\u00e9 agora, por falta de meios materiais adequados, \u201cser pouco comum a chegada de menores sem acompanhantes a Portugal\u201d, como explicou \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>As arrepiantes cifras a respeito dos \u00f3rf\u00e3os africanos colocam nesta situa\u00e7\u00e3o 170 mil menores na Maurit\u00e2nia, 710 mil em Mal\u00ed, 800 mil no N\u00edger, 600 mil no Chade, 1,7 milh\u00f5es no Sud\u00e3o, 280 mil na Eritr\u00e9ia, 48 mil no Djibuti, 4,8 milh\u00f5es na Eti\u00f3pia, 630 mil na Som\u00e1lia, 560 mil no Senegal, 710 mil em Burkina-Faso, 370 mil em Benin, 64 mil em G\u00e2mbia, 100 mil na Guin\u00e9-Bissau e 370 mil na Guin\u00e9.<\/p>\n<p>Na medida em que se vai descendo para o sul, temos Nig\u00e9ria com 8,6 milh\u00f5es, Costa do marfim 1,4 milh\u00e3o, Lib\u00e9ria com 250 mil, Serra Leoa e Rep\u00fablica Centro-Africana 340 mil cada, Gana e Camar\u00f5es com um milh\u00e3o cada, Guin\u00e9 Equatorial 29 mil, Gab\u00e3o 65 mil, Rep\u00fablica do Congo 270 mil, Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo 4,2 milh\u00f5es, Ruanda 820 mil e Burundi 600 mil \u00f3rf\u00e3os.<\/p>\n<p>Por sua vez, Uganda e Qu\u00eania t\u00eam, cada um, 2,3 milh\u00f5es de \u00f3rf\u00e3os, Tanz\u00e2nia 2,4 milh\u00f5es, Angola e Z\u00e2mbia 1,2 milh\u00e3o cada, Comoras 33 mil, Malawi 950 mil, Nam\u00edbia 140 mil, Botswana 150 mil, Zimb\u00e1bue 1,4 milh\u00e3o, Mo\u00e7ambique 1,5 milh\u00e3o, Madagascar 900 mil, Lesoto 150 mil, Suazil\u00e2ndia e \u00c1frica do Sul 2,5 milh\u00f5es cada.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o do Centro de Recep\u00e7\u00e3o, que ser\u00e1 constru\u00eddo no norte de Portugal, vai permitir \u201cacolher menores \u00f3rf\u00e3os que ainda est\u00e3o em outros pa\u00edses, em alguns casos nos de origem, \u00e0 espera de um destino, evitando, por exemplo, que se convertam em soldados\u201d, disse Tito de Morais \u00e0 IPS. At\u00e9 agora, e apesar de seus la\u00e7os privilegiados com a \u00c1frica, \u201cPortugal n\u00e3o tem uma grande tradi\u00e7\u00e3o em receber menores desacompanhados\u201d, acrescentou. \u201cEm 2006, registramos apenas 10 casos, mas, j\u00e1 come\u00e7amos a trabalhar para que dentro de dois anos, ou dois anos e meio, possamos ter esse centro\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Em uma primeira etapa, \u201cpoderemos receber 40 menores divididos em quatro grupos, desde rec\u00e9m-nascidos at\u00e9 3 anos; de 4 a 6, de 7 a 10 e de 10 a 12 anos\u201d, acrescentou Tito de Morais. No entanto, a presidente do CPR revelou que \u201cem nosso centro atual foi incorporado um espa\u00e7o dedicado \u00e0 inf\u00e2ncia e j\u00e1 estamos trabalhando junto ao Alto Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Refugiados para identificar meninos e meninas que necessitam de prote\u00e7\u00e3o internacional, as que poder\u00e3o eventualmente chegar antes que o novo centro esteja conclu\u00eddo\u201d.<\/p>\n<p>Por outro lado, \u201cem janeiro come\u00e7aremos os contatos com alguns prefeitos do norte do pa\u00eds, porque o compromisso dos munic\u00edpios \u00e9 essencial, j\u00e1 que conseguir o terreno para a constru\u00e7\u00e3o \u00e9 o ponto de partida para essa colabora\u00e7\u00e3o\u201d, disse Tito de Morais. Durante as primeiras guerras dos Balc\u00e3s, coincidentes com as de Angola e Mo\u00e7ambique, no come\u00e7o da d\u00e9cada de 90, Portugal recebeu \u00f3rf\u00e3os, especialmente da B\u00f3snia. Na oportunidade, foi feita uma pesquisa entre potenciais casais interessados em seguir o caminho da ado\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O resultado foi que a imensa maioria dos entrevistados preferiu adotar um menor luso-africano do que um ex-iugoslavo, e a explica\u00e7\u00e3o era sempre a mesma: a identifica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, ling\u00fc\u00edstica e cultural com angolanos e mo\u00e7ambicanos. Consultado sobre este resultado, que n\u00e3o coincide com o sentimento majorit\u00e1rio do resto da Europa, Tito de Morais disse que, \u201cindependentemente de sua ra\u00e7a ou origem, o povo portugu\u00eas tem uma sensibilidade particular para receber menores desprotegidos, e de acordo com a nossa experi\u00eancia as meninas e os meninos africanos jamais ser\u00e3o exclu\u00eddos\u201d.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o com a \u00c1frica, muitas vezes traum\u00e1tica, foi para Portugal um elemento fundamental em sua hist\u00f3ria dos \u00faltimos seis s\u00e9culos. Entre os europeus, foi o precursor, ao fundar os primeiros dom\u00ednios na \u00c1frica, em 1415, e ser praticamente o \u00faltimo a sair, em 1975. Em nossos dias, Portugal segue sob a sombra do que alguns historiadores e analistas definem como o dever de \u201cpagar a fatura colonial\u201d, uma esp\u00e9cie de \u201ccomplexo do imp\u00e9rio\u201d.<\/p>\n<p>O escritor brasileiro Gilberto Freyre (1900-1987) foi mais benevolente em sua obra intitulada \u201cO mundo que o portugu\u00eas criou\u201d (1940), onde explica a abertura para a \u00c1frica, o Brasil e as ex-possess\u00f5es asi\u00e1ticas, como resultado de uma sociedade secularmente multicultural e multirracial. Este fen\u00f4meno o autor descreve como \u201clusotropicalismo\u201d, que mais tarde aprofundou no ensaio chamado \u201cIntegra\u00e7\u00e3o portuguesa nos tr\u00f3picos (1958). As primeiras sementes desta sociedade foram semeadas no s\u00e9culo XVI por dom Afonso de Albuquerque, governador da \u00cdndia Portuguesa, ao proclamar que \u201ca mesti\u00e7agem \u00e9 o dicion\u00e1rio privilegiado das culturas\u201d.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 que hoje Portugal \u201c\u00e9 o pa\u00eds mais heterog\u00eaneo da Europa e, ao viajar pelas ex-col\u00f4nias africanas, se verifica que h\u00e1 brancos africanos, e ao fazer o mesmo neste pa\u00eds se comprova que h\u00e1 negros portugueses\u201d, disse \u00e0 IPS Silvio Manuel de Paula, um aviador portugu\u00eas nascido em Angola. \u201cIsso, e somente isso, bastaria para explicar a abertura dos portugueses para acolher e tamb\u00e9m adotar \u00f3rf\u00e3os africanos\u201d, acrescentou. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lisboa, 13\/12\/2006 &ndash; As guerras, a aids, a mal\u00e1ria, o c\u00f3lera e a desnutri\u00e7\u00e3o est\u00e3o convertendo gradualmente a \u00c1frica em um territ\u00f3rio de meninos, meninas e adolescentes sem pais. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/12\/africa\/infancia-africa-e-uma-terra-de-orfaos\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":256,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,6,11,7],"tags":[21],"class_list":["post-2423","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa","category-direitos-humanos","category-politica","category-saude","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2423","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/256"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2423"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2423\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2423"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2423"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2423"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}