{"id":2437,"date":"2006-12-18T15:19:56","date_gmt":"2006-12-18T15:19:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2437"},"modified":"2006-12-18T15:19:56","modified_gmt":"2006-12-18T15:19:56","slug":"chile-a-marca-de-pinochet","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/12\/america-latina\/chile-a-marca-de-pinochet\/","title":{"rendered":"Chile: A marca de Pinochet"},"content":{"rendered":"<p>Santiago, 18\/12\/2006 &ndash; O corpo do ex-ditador Augusto Pinochet est\u00e1 reduzido a um punhado de cinzas guardadas em uma das resid\u00eancias da fam\u00edlia. Mas apesar de sua figura ser irrelevante no concerto pol\u00edtico na hora de sua morte, seu legado de divis\u00e3o e viol\u00eancia continuar\u00e1 marcando a sociedade chilena. <!--more--> O general Pinochet provocar\u00e1 dram\u00e1ticas divis\u00f5es por v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es no Chile, segundo analistas e observadores comuns, como indicam as demonstra\u00e7\u00f5es que se seguiram ao seu falecimento, no \u00faltimo dia 10. Mais de 50 mil pessoas se reuniram diante da Escola Militar para participar do funeral de quem encabe\u00e7ou a ditadura de 17 anos.<\/p>\n<p>Paralelamente, outros milhares se reuniram para comemorar diante da est\u00e1tua do socialista Salvador Allende, o presidente democr\u00e1tico derrubado no dia 11 de setembro de 1973 a sangue e fogo pelas for\u00e7as militares lideradas por Pinochet. A figura de Allende, morto em seu escrit\u00f3rio enquanto a sede do governo era bombardeada, fica na entrada de tr\u00e1s do reconstru\u00eddo pal\u00e1cio de La Moneda, junto \u00e0s de outros mandat\u00e1rios eleitos democraticamente como Jorge Alessandri Rodr\u00edguez (1958-1964) e Eduardo Frei Montalva (1964-1970).<\/p>\n<p>Elizabeth, uma analista de sistemas de computa\u00e7\u00e3o de 35 anos acredita que a polariza\u00e7\u00e3o em torno da figura do ex-ditador nunca acabar\u00e1 totalmente, \u201cporque nenhum dos dois lados perdoa\u201d. Uma \u00fanica alternativa para fechar as feridas \u00e9 que \u201capare\u00e7am os presos-desparecidos\u201d, diz, em alus\u00e3o \u00e0s 1.119 pessoas assassinadas cujos corpos n\u00e3o foram encontrados, que se somam ao saldo fatal da ditadura de outros 1.800 opositores assassinados, 35 mil torturados e oito mil for\u00e7ados a partirem para o ex\u00edlio, entre eles a hoje presidente do Chile, Michelle Bachelet.<\/p>\n<p>\u201cEnquanto n\u00e3o forem encontrados, o pesar sempre existir\u00e1 e isso se transmite de gera\u00e7\u00e3o para gera\u00e7\u00e3o\u201d, disse Elizabeth \u00e0 IPS. Precisamente, as associa\u00e7\u00f5es de familiares das v\u00edtimas de viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos entendem que a morte de Pinochet n\u00e3o significa o fim dos julgamentos em andamento relacionados a estes crimes, como os que continuam por corrup\u00e7\u00e3o durante o regime. Tamb\u00e9m Alfredo, um declarado \u201cpinochetista\u201d de 31 anos, pensa que a sociedade chilena continuar\u00e1 fragmentada por muitos anos, embora tenha uma vis\u00e3o diferente.<\/p>\n<p>\u201cPara acabar com a divis\u00e3o \u00e9 preciso que os dois lados reconhe\u00e7am seus erros e fa\u00e7am gestos reais de unidade, como uma verdadeira lei de anistia\u201d, disse \u00e0 IPS este estudante de engenharia, que no entanto reconhece que para alguns militares faltou a vontade de revelar o destino dos desaparecidos. Ele nega que os seguidores de Pinochet sejam fan\u00e1ticos. \u201cSe trata apenas de enaltecer a figura de um her\u00f3i, do \u00fanico libertador do marxismo no mundo\u201d, justificou.<\/p>\n<p>A presidente Bachelet se referiu pela primeira vez \u00e0 morte do ex-ditador tr\u00eas dias ap\u00f3s ter ocorrido, dizendo que \u201csimboliza a partida de uma refer\u00eancia de um clima no pa\u00eds de divis\u00f5es, \u00f3dio e viol\u00eancia\u201d. Mas afirmou que o desaparecimento f\u00edsico de Pinochet n\u00e3o d\u00e1 lugar a outra era. \u201cA nova etapa vivida pelo Chile come\u00e7ou em 1990, quando reconquistamos a democracia\u201d, afirmou a mandat\u00e1ria, que foi apoiada em seu discurso pela Concerta\u00e7\u00e3o de Partidos pela Democracia, a coaliz\u00e3o de centro-esquerda que re\u00fane quatro coletividades e que governa o Chile h\u00e1 16 anos.<\/p>\n<p>Entre os fatos ocorridos ap\u00f3s a morte de Pinochet e que os analistas situam com ilustrativos est\u00e1 a atitude de seu neto, Augusto Pinochet Molina, que lhe valeu baixa do Ex\u00e9rcito. O agora ex-capit\u00e3o, de 33 anos, justificou a ditadura em um discurso fora de programa ao terminar a cerim\u00f4nia f\u00fanebre, dizendo que seu av\u00f4 foi \u201cum dos l\u00edderes mais proeminentes do mundo em sua \u00e9poca, um homem que derrotou em plena Guerra Fria o modelo marxista que pretendia impor seu modelo diretamente pela a\u00e7\u00e3o armada\u201d.<\/p>\n<p>Pinochet \u201cteve de ver como sua mulher e sua fam\u00edlia sentiam-se vexados por ju\u00edzes que buscavam mais a fama do que a justi\u00e7a\u201d, disse em seu discurso se referindo ao juiz chileno Juan Guzm\u00e1n Tapia, hoje aposentado, que esteve prestes a conden\u00e1-lo, e ao espanhol Baltasar Garz\u00f3n, que em 1998 pediu sua extradi\u00e7\u00e3o \u00e0 Espanha. Poucas horas depois e ap\u00f3s uma dura declara\u00e7\u00e3o de Bachelet, foi expulso do Ex\u00e9rcito. Outro neto, este do assassinado general Carlos Prats, ex-comandante-em-chefe do Ex\u00e9rcito durante o governo de Allende, teve uma atitude totalmente oposta. P\u00f4de se aproximar do caix\u00e3o do ex-ditador e cuspir sobre ele na madrugada do dia 12, quando era velado na Escola Militar.<\/p>\n<p>Francisco Cuadrado Prats, um artista pl\u00e1stico, esperou pacientemente v\u00e1rias horas cercado de pinochetistas para poder descarregar dessa forma sua f\u00faria pelo atentado que custou a vida de seus av\u00f3s. Pratis e sua mulher, Sofia Cuthbert, cometido em 1976 em Buenos Aires por agentes da extinta Dire\u00e7\u00e3o de Intelig\u00eancia Nacional (Dina) do regime ditatorial chileno. Mas tamb\u00e9m se sucederam an\u00e1lises sobre a incid\u00eancia da morte do ex-ditador no futuro pol\u00edtico do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Em outra reflex\u00e3o, o soci\u00f3logo Rodrigo Ba\u00f1o, da Universidade do Chile, disse \u00e0 IPS que Pinochet n\u00e3o s\u00f3 divide os chilenos em mat\u00e9ria de pol\u00edtica ideol\u00f3gica, como tamb\u00e9m social. \u201cOs seguidores de Pinochet e seus cr\u00edticos s\u00e3o socialmente muito diferentes\u201d, disse o acad\u00eamico, explicando que o empresariado e a classe alta, que chegaram em massa ao funeral, ap\u00f3iam o falecido militar, enquanto as camadas mais populares, majoritariamente, o repudiam.<\/p>\n<p>Ba\u00f1o explica que a divis\u00e3o social come\u00e7ou durante o governo de Allende e se agravou na ditadura, situa\u00e7\u00e3o que se mant\u00e9m at\u00e9 hoje e que \u00e9 muito complicado de corrigir. Por est\u00e1 raz\u00e3o, n\u00e3o pode estimar o tempo que a sociedade chilena continuar\u00e1 dividida por obra do ex-ditador. \u201cDepende do processo pol\u00edtico e do grau de integra\u00e7\u00e3o que se alcance\u201d, afirmou. Entretanto, acredita que diante de uma crise econ\u00f4mica, momentos em que se agravam as contradi\u00e7\u00f5es, pode surgir outra lideran\u00e7a, que substitua a de Pinochet. \u201cA vincula\u00e7\u00e3o (da direita a Pinochet) se manter\u00e1 at\u00e9 aparecer uma nova alternativa\u201d, acrescentou. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Santiago, 18\/12\/2006 &ndash; O corpo do ex-ditador Augusto Pinochet est\u00e1 reduzido a um punhado de cinzas guardadas em uma das resid\u00eancias da fam\u00edlia. 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