{"id":2443,"date":"2006-12-19T17:52:13","date_gmt":"2006-12-19T17:52:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2443"},"modified":"2006-12-19T17:52:13","modified_gmt":"2006-12-19T17:52:13","slug":"america-do-sul-a-militarizacao-embaixo-do-tapete","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/12\/america-latina\/america-do-sul-a-militarizacao-embaixo-do-tapete\/","title":{"rendered":"Am\u00e9rica do Sul: A militariza\u00e7\u00e3o embaixo do tapete"},"content":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 19\/12\/2006 &ndash; Embora a integra\u00e7\u00e3o regional seja o ponto principal da atual agenda pol\u00edtica sul-americana, feridas abertas impedem aprofundar esse debate. <!--more--> Entre os assuntos deixados de lado est\u00e3o a ocupa\u00e7\u00e3o do Haiti por tropas de paz da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, sob a lideran\u00e7a militar do Brasil e a lideran\u00e7a pol\u00edtica do Chile, e a presen\u00e7a armada norte-americana, tanto com tropas regulares como com agentes terceirizados (os contratistas) em 10 das 12 na\u00e7\u00f5es da Am\u00e9rica do Sul, com as exce\u00e7\u00f5es brasileira e venezuelana. Apesar da import\u00e2ncia desses assuntos, a maioria dos governos oscila entre e vaga men\u00e7\u00e3o e a omiss\u00e3o deles.<\/p>\n<p>Essa t\u00f4nica se mant\u00e9m inclusive ap\u00f3s a chegada de presidentes esquerdistas ou progressistas em v\u00e1rios pa\u00edses, iniciada em 1999 com Hugo Ch\u00e1vez na Venezuela e completada com a vit\u00f3ria no m\u00eas passado de Rafael Correa no Equador. Este \u00faltimo, que tomar\u00e1 posse em janeiro, informou que em 2009 seu pa\u00eds n\u00e3o renovar\u00e1 o acordo com os Estados Unidos que permite a Washington manter na cidade portu\u00e1ria de Manta sua maior base militar na Am\u00e9rica do Sul. Durante as d\u00e9cadas de influ\u00eancia neoliberal de 1980 a 1990 os Estados Unidos aprofundaram sua tradicional estrat\u00e9gia de combinar finan\u00e7as e diplomacia com expans\u00e3o de poderio militar.<\/p>\n<p>Enquanto Washington utilizava sua hegemonia em institui\u00e7\u00f5es financeiras como o Banco Mundial, o Fundo Monet\u00e1rio Internacional e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para exigir a redu\u00e7\u00e3o dos aparelhos estatais em troca de empr\u00e9stimos, aproveitava sua proximidade com os governantes latino-americanos e caribenhos, com exce\u00e7\u00e3o de Cuba, para semear bases militares na regi\u00e3o. Agora mesmo, sem contar com apoio un\u00e2nime, Washington mant\u00e9m diferentes formas de presen\u00e7a militar, um fen\u00f4meno que nem mesmo se discute nos f\u00f3runs regionais e n\u00e3o \u00e9 priorit\u00e1rio nos debates sobre integra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A invisibilidade desses dois problemas ficou evidente durante a II C\u00fapula da Comunidade Sul-americana de Na\u00e7\u00f5es, realizadas nos dias 8 e 9 deste m\u00eas na cidade boliviana de Cochabamba e fortemente estimulada pelo Brasil, pa\u00eds que responde por quase 40% da economia regional. Nenhum mandat\u00e1rio falou desses assuntos. As declara\u00e7\u00f5es finais do encontro n\u00e3o registraram nem uma refer\u00eancia. Inclusive, a declara\u00e7\u00e3o da C\u00fapula Social pela Integra\u00e7\u00e3o dos Povos, realizada por movimentos sociais e populares em paralelo \u00e0 reuni\u00e3o oficial, n\u00e3o se referiu a essas quest\u00f5es em seu corpo principal, relegando-os a um subcap\u00edtulo.<\/p>\n<p>\u201cEntendo a l\u00f3gica da posi\u00e7\u00e3o brasileira, embora n\u00e3o concorde com ela. O Brasil n\u00e3o confronta com a pol\u00edtica externa dos Estados Unidos nem tem uma base estrangeira em seu territ\u00f3rio. Por isso n\u00e3o se refere ao assunto\u201d, afirma a economista Sandra Quintela, da organiza\u00e7\u00e3o Pol\u00edticas Alternativas para o Cone Sul, com sede no Rio de Janeiro. Quintela faz parte de uma campanha internacional pela retirada das tropas internacionais do Haiti e pelo cancelamento da d\u00edvida externa desse pa\u00eds. Por outro lado, \u201cn\u00e3o compreendo o motivo de o presidente Evo Morales (da Bol\u00edvia) e Ch\u00e1vez n\u00e3o tocarem no assunto\u201d, questiona a economista.<\/p>\n<p>A professora Maria Regina Lima, do Instituto Universit\u00e1rio de Pesquisas do Rio de Janeiro, concorda que \u201c\u00e9 muito delicado para o Brasil abordar a quest\u00e3o (das bases militares) j\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 diretamente afetado\u201d. Mas quanto ao Haiti, o problema \u00e9 diferente. O Brasil mant\u00e9m nesse pa\u00eds 1.200 soldados e comanda a Miss\u00e3o de Estabiliza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (Minustah, sigla em franc\u00eas) formada por 6.780 efetivos, desde junho de 2004, meses depois que o presidente constitucional Jean-Bertrand Aristide ter sido deposto por um golpe de Estado do qual tomou parte um comando franco-norte-americano.<\/p>\n<p>A Minustah tem mandato at\u00e9 30 de junho de 2007, mas em fevereiro as Na\u00e7\u00f5es Unidas poder\u00e3o prorrog\u00e1-lo. \u201cDos 20 membros do comando maior da Minustah apenas dois s\u00e3o sul-americanos. Os demais s\u00e3o norte-americanos, franceses, italianos e canadenses\u201d, afirma a ativista Camille Chalmer, da rede Plataforma Haitiana para um Desenvolvimento Alternativo (Papda, sigla em franc\u00eas), com sede em Porto Pr\u00edncipe. \u201cWashington controla a intelig\u00eancia militar e n\u00e3o compartilha informa\u00e7\u00f5es nem mesmo com o comandante-geral\u201d da miss\u00e3o, afirmou.<\/p>\n<p>Assim, por que Bras\u00edlia se desgasta politicamente para manter no Caribe o que o argentino e pr\u00eamio Nobel da Paz Adolfo P\u00e9rez Esquivel chama de \u201cinterven\u00e7\u00e3o terceirizada dos Estados Unidos\u201d? \u201cSe n\u00e3o estiv\u00e9ssemos l\u00e1, seria pior\u201d, costuma dizer Ant\u00f4nio Patriota, rec\u00e9m-nomeado embaixador brasileiro nos Estados Unidos. \u201cA agenda do Brasil para o continente \u00e9 essencialmente econ\u00f4mica. Por isso n\u00e3o trata sobre militariza\u00e7\u00e3o\u201d, explica a brasileira Maria Luisa Mendon\u00e7a, da Rede Social de Organiza\u00e7\u00f5es N\u00e3o-governamentais de Justi\u00e7a e Direitos Humanos. A respeito da dissemina\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a militar norte-americana na Am\u00e9rica do Sul, a chancelaria brasileira considera que \u00e9 um assunto interno de cada pa\u00eds. \u201cS\u00f3 existe uma base militar, Manta\u201d, responde o diplomata Joel Sampaio.<\/p>\n<p>O Centro de Intelig\u00eancia do Ex\u00e9rcito (CIE) do Brasil estima que \u201ccerca de 6.300 militares norte-americanos, sem contar os soldados de ag\u00eancias n\u00e3o-governamentais contratados pelo governo dos Estados Unidos, estiveram destinados ou realizaram opera\u00e7\u00f5es na regi\u00e3o Amaz\u00f4nica entre 2001 e 2002\u201d, segundo divulgou a ag\u00eancia Radiobras. De acordo com o CIE, os Estados Unidos mant\u00eam uma presen\u00e7a sob diferentes formas, tanto atrav\u00e9s de bases militares convencionais quanto por meio de uma quantidade imprecisa de oficiais, radares e pistas de pouso. No total, essas presen\u00e7as somam 23. S\u00f3 no Peru haveria oito pontos, e outros seis na Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>A Col\u00f4mbia tem quase meio s\u00e9culo de guerra civil, que hoje envolve duas grandes guerrilhas de esquerda (as For\u00e7as Armadas Revolucion\u00e1rias da Col\u00f4mbia e o Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional), paramilitares envolvidos em um pol\u00eamico processo de desmobiliza\u00e7\u00e3o e o ex\u00e9rcito regular, que recebeu v\u00e1rios bilh\u00f5es de d\u00f3lares de Washington dentro do Plano Col\u00f4mbia antidrogas e contra-insurgente.<\/p>\n<p>No Brasil, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2003), Washington tentou instalar uma base na cidade de Alc\u00e2ntara, no Maranh\u00e3o, onde fica a base de lan\u00e7amento de sat\u00e9lites brasileiros. Essa regi\u00e3o \u00e9 considerada a de melhor localiza\u00e7\u00e3o em todo o planeta para atividades desse tipo, por sua proximidade com a linha do equador. Mas devido \u00e0 ampla rejei\u00e7\u00e3o social, o acordo entre os dois pa\u00edses para construir a base nunca foi assinado. De acordo com a economista Ana Esther Cece\u00f1a, professora da Universidade Aut\u00f4noma do M\u00e9xico, a \u00e1rea de todos esses pontos de presen\u00e7a militar alcan\u00e7aria as regi\u00f5es de maior aparecimento de recursos naturais estrat\u00e9gicos, como \u00e1gua, diversidade biol\u00f3gica, g\u00e1s natural e petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>A IPS p\u00f4de comprovar que h\u00e1 uma coincid\u00eancia entre o mapa dos recursos naturais, o da presen\u00e7a militar norte-americana e o dos projetos da Iniciativa de Integra\u00e7\u00e3o da Infra-estrutura da Regi\u00e3o Sul-americana (Iirsa), coordenada t\u00e9cnica e economicamente pelo BID. A Iirsa pretende implantar normas legais comuns para o com\u00e9rcio dos 12 pa\u00edses da regi\u00e3o e desenvolver mais 300 projetos de hidrovias, centrais hidrel\u00e9tricas e estradas, principalmente na regi\u00e3o amaz\u00f4nica. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 19\/12\/2006 &ndash; Embora a integra\u00e7\u00e3o regional seja o ponto principal da atual agenda pol\u00edtica sul-americana, feridas abertas impedem aprofundar esse debate. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/12\/america-latina\/america-do-sul-a-militarizacao-embaixo-do-tapete\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1508,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,5,11],"tags":[],"class_list":["post-2443","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-economia","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2443","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1508"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2443"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2443\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2443"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2443"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2443"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}