{"id":2448,"date":"2006-12-21T14:06:44","date_gmt":"2006-12-21T14:06:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2448"},"modified":"2006-12-21T14:06:44","modified_gmt":"2006-12-21T14:06:44","slug":"pobreza-eua-preocupacao-com-o-fim-do-sonho-americano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/12\/economia\/pobreza-eua-preocupacao-com-o-fim-do-sonho-americano\/","title":{"rendered":"Pobreza-EUA: Preocupa\u00e7\u00e3o com o fim do sonho americano"},"content":{"rendered":"<p>Nova York, 21\/12\/2006 &ndash; O banqueiro dos pobres, o economista Muhammad Yunus, ganhador do pr\u00eamio Nobel da Paz 2006, tem raz\u00e3o ao defender um \u201cmercado de valores social\u201d, pois sua aus\u00eancia est\u00e1 minando o famoso \u201csonho americano\u201d nos Estados Unidos, afirmam alguns. <!--more--> Este pa\u00eds, que conta com o \u201cmercado mais livre e rico\u201d do planeta, n\u00e3o est\u00e1 proporcionando \u201cassist\u00eancia social a um quinto de sua popula\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou Yunus ao receber o pr\u00eamio na cidade de Oslo no come\u00e7o deste m\u00eas.<\/p>\n<p>Alguns norte-americanos admitem que come\u00e7am a sentir estes e outros apertos e a se preocupar com o gradual desaparecimento do \u201csonho americano\u201d, porque cada vez mais diminuem as op\u00e7\u00f5es de alcan\u00e7\u00e1-lo, embora muitos imigrantes n\u00e3o compartilhem dessa opini\u00e3o. A pobreza nos Estados Unidos, mal justificada pela crescente imigra\u00e7\u00e3o, est\u00e1 aumentando, disse em uma entrevista \u00e0 IPS Walter Michaels, professor da Universidade de Illinois e autor do pol\u00eamico livro \u201cThe Trouble with Diversity\u201d (O problema com a diversidade), rec\u00e9m-publicado pela Metropolitan Books, parte da editora Henry Holt and Company, de Nova York.<\/p>\n<p>A obra, uma demolidora cr\u00edtica \u00e0 obsess\u00e3o dos Estados Unidos pelas identidades e a cegueira diante das desigualdades, afirma que n\u00e3o \u00e9 a imigra\u00e7\u00e3o que est\u00e1 causando mais pobreza, mas as pol\u00edticas neoliberais que afetam tanto as minorias \u00e9tnicas quanto os cidad\u00e3os norte-americanos de origem europ\u00e9ia. \u201cAs pessoas est\u00e3o preocupadas, e com muita raz\u00e3o, pelo desaparecimento do sonho americano&#8221;, pois as possibilidades de sair da base e chegar ao cume da pir\u00e2mide social s\u00e3o escassas e cada vez menores. A mobilidade social diminui, e muitos dos que se viam como membros de uma c\u00f4moda classe m\u00e9dia hoje est\u00e3o mais perto da pobreza\u201d, diz Michaels.<\/p>\n<p>Isso se evidencia em parte, na sua opini\u00e3o, na ansiedade que provoca a imigra\u00e7\u00e3o ilegal e que se devem entre outras coisas, ao fato de o trabalho barato oferecido pelos imigrantes beneficiar economicamente sobretudo os norte-americanos de classe m\u00e9dia alta que os contratam e, por isso, eles respondem com acusa\u00e7\u00f5es de racismo aos que se op\u00f5em \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o. \u201cSem d\u00favida, alguns deles s\u00e3o racistas, mas o problema econ\u00f4mico \u00e9 o principal fundamento e as acusa\u00e7\u00f5es de racismo n\u00e3o far\u00e3o com que desapare\u00e7a\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>O autor trata de explicar em seu livro porque \u201ca constante celebra\u00e7\u00e3o da diversidade na vida norte-americana se converteu em uma forma de aceitar a pobreza e a desigualdade\u201d. Paradoxalmente, o respeito \u00e0 diferen\u00e7a \u00e9 \u201cuma ferramenta poderosa para que os gerentes empresariais, que entendem seu neg\u00f3cio, busquem, por conveni\u00eancia econ\u00f4mica e n\u00e3o por outras raz\u00f5es, o respeito \u00e0s diversidades ou \u00e0s minorias\u201d, argumenta.<\/p>\n<p>Grande parte dos empregos humildes em Nova York s\u00e3o realizados por imigrantes que s\u00e3o, por exemplo, a maioria dos vendedores ambulantes ou do setor de limpeza que trabalham em restaurantes populares ou nas lojas de rua da Broadway, o cora\u00e7\u00e3o da Grande Ma\u00e7\u00e3. Muitos imigrantes admitem que existe racismo e discrimina\u00e7\u00e3o. Mas o soci\u00f3logo Gustavo G\u00f3mez, de origem latino-americana, afirma que \u201co sonho americano\u201d continua em vigor para eles. \u201cEste \u00e9 um dos poucos pa\u00edses do mundo onde as pessoas come\u00e7am de baixo e podem terminar no topo em 10 anos, ou, pelo menos, melhorar notavelmente a qualidade de vida que tinham em seus pa\u00edses de origem. Conhe\u00e7o, inclusive, imigrantes ilegais que conseguiram isso\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Edgard Montoya, imigrante de 30 anos natural de Honduras, confirma essa vis\u00e3o, mas alerta que \u201ca grande explora\u00e7\u00e3o acontece, em geral, quando os ilegais s\u00e3o contratados por imigrantes legais. Muitas vezes, lhes roubam at\u00e9 dias de trabalho\u201d, afirma. No Queens, em Manhattan e outros distritos novaiorquinos, os imigrantes com ou sem documentos se re\u00fanem diariamente em esquinas ou centros comerciais em busca de empregos na constru\u00e7\u00e3o civil, pintura, limpeza e outros. \u201cQuem tiver sorte, sobrevive. Pode ganhar at\u00e9 US$ 150 di\u00e1rios\u201d, afirma Montoya.<\/p>\n<p>Mas Michaels insiste, embora o trabalho para os imigrantes e \u201ca defesa das identidades e dos direitos civis sejam importantes, n\u00e3o \u00e9 o que vai resolver a crescente pobreza\u201d. Talvez por essa raz\u00e3o procurou no subt\u00edtulo de seu livro explicar \u201ccomo aprendemos (os norte-americanos) a amar a identidade e ignorar a desigualdade\u201d. Neste pa\u00eds, \u201catualmente cada empresa tem um compromisso com a diversidade, que algumas vezes cumpre e outras n\u00e3o. Quando algu\u00e9m se op\u00f5e a este compromisso, em geral o faz porque considera ser uma forma de discrimina\u00e7\u00e3o ao contr\u00e1rio, que vitimiza os brancos, e porque estima que o car\u00e1ter do indiv\u00edduo \u00e9 subordinado ao do grupo\u201d, explica Michaels. Mas esclarece que sua cr\u00edtica \u00e0 diversidade n\u00e3o obedece a essas raz\u00f5es. \u201cMinha cr\u00edtica \u00e9 de que n\u00e3o \u00e9 boa para os pobres, o grupo que mais precisa de ajuda\u201d.<\/p>\n<p>Essa obsess\u00e3o pela diversidade \u201cest\u00e1 reduzindo a justi\u00e7a social \u00e0 premissa de que tudo est\u00e1 bem se a identidade de todos \u00e9 respeitada, o que \u00e9 uma reflex\u00e3o, mas n\u00e3o uma cr\u00edtica aos valores do neoliberalismo\u201d, os principais respons\u00e1veis pela pobreza, argumenta Michaels. O respeito aos direitos dos afro-norte-americanos a ter sua pr\u00f3pria identidade, expressar suas diferen\u00e7as culturais e seus fatos diferenciais, n\u00e3o resolve a quest\u00e3o da desigualdade econ\u00f4mica, mas de alguma forma, a facilita, alega o autor.<\/p>\n<p>\u201cCom o compromisso com a diversidade o que se busca n\u00e3o \u00e9 uma sociedade na qual n\u00e3o haja pobres, mas que os pobres \u2013 como os negros, judeus ou asi\u00e1ticos \u2013 mere\u00e7am nosso respeito\u201d, diz o autor. Michaels decidiu escrever seu livro porque \u201cconsidera que a esquerda dos Estados Unidos parece muito mais interessada em combater o racismo do que se opor ao neoliberalismo e porque, embora seja importante lutar contra o racismo, \u00e9 muito mais ver que \u00e9 o neoliberalismo, e n\u00e3o aquele, que est\u00e1 causando a desigualdade na sociedade americana\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO racismo n\u00e3o \u00e9 respons\u00e1vel, por exemplo, pelo fato de pobres, brancos ou negros n\u00e3o poderem ter hoje uma educa\u00e7\u00e3o decente nos Estados Unidos, mas a culpa est\u00e1 no fato de termos abandonado o compromisso de criar escolas p\u00fablicas e a id\u00e9ia de que o Estado deve ter um papel crucial para garantir a todos igualdade de oportunidades. O abandono dessa responsabilidade \u00e9 o que conhecemos como neoliberalismo\u201d, afirma Michaels na entrevista.<\/p>\n<p>O autor tamb\u00e9m recordou que, \u201ccomo todos os grandes l\u00edderes dos direitos civis, Martin Luther King sabia muito bem que o movimento que liderava n\u00e3o estava concebido nem equipado para combater a pobreza. Um ou dois anos antes de ser assassinado, King chamou a aten\u00e7\u00e3o para a grande quantidade de pessoas brancas e pobres, recordando-lhes que sua pobreza \u2013 a pobreza do branco \u2013 n\u00e3o tinha nada a ver com a discrimina\u00e7\u00e3o\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>Michaels recordou que King \u201cprop\u00f4s um sal\u00e1rio m\u00ednimo garantido e afirmou que o mesmo n\u00e3o tinha a ver com o programa de direitos civis, mas que estava concebido para beneficiar os pobres, sem importar se eram v\u00edtimas da discrimina\u00e7\u00e3o\u201d. Nosso problema hoje \u00e9 \u201cque ainda n\u00e3o consideramos o argumento de King. Ele sabia que lidar com o problema das minorias n\u00e3o era uma maneira de lidar com a pobreza, que agora est\u00e1 se tornando um problema da maioria\u201d nos Estados Unidos, afirma.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de pol\u00eamica e problem\u00e1tica, a tese de Michaels \u00e9 complicada \u201cporque \u00e9 uma faca de dois gumes\u201d, diz a psic\u00f3loga \u201clatina\u201d M\u00f4nica Arango, que exercenos Estados Unidos sua profiss\u00e3o com licen\u00e7a do Estado de Nova York. \u201cSeus arrazoados se desenvolvem sobre um fina linha onde qualquer movimento pode refor\u00e7ar o racismo e a discrimina\u00e7\u00e3o ou amea\u00e7ar os direitos civis, as conquistas das minorias e a grande estima que os norte-americanos sentem por seu pa\u00eds\u201d, diz Arango.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o parece se complicar mais, se a isso somar-se o fato de os Estados Unidos, deslumbrado por seu pr\u00f3prio mito de ascens\u00e3o social, ser incapaz de reconhecer suas pr\u00f3prias falhas, como exp\u00f4s a revista Newsweek em uma edi\u00e7\u00e3o deste ano na qual avaliou com crueza o \u201csonho americano\u201d. O seman\u00e1rio concluiu que os norte-americanos vivem em um mundo de sonho, e mostrou que a boa imagem que este pa\u00eds tem de si mesmo \u00e9, em geral, contr\u00e1ria \u00e0 que tem o resto do mundo.<\/p>\n<p>O certo \u00e9 que hoje n\u00e3o h\u00e1 boas previs\u00f5es. Enquanto um em cada 800 lares em Nova York tem renda anual superior a US$ 2 milh\u00f5es, 60% dos norte-americanos \u2013 incluindo crian\u00e7as \u2013 recebem uma renda m\u00e9dia inferior a US$ 7 por dia, segundo um artigo publicado no jornal The New York Times no dia 28 de novembro. O crescimento da pobreza \u00e9 um fato, e agora, segundo a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, tamb\u00e9m a mais grave das viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos, segundo afirmou no come\u00e7o deste m\u00eas Louis Arbour, alta comiss\u00e1ria das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Direitos Humanos.<\/p>\n<p>Apesar de todos esses alarmes e cr\u00edticas internas e externas, os norte-americanos n\u00e3o parecem aceitar a realidade. Setenta e um por cento dos consultados v\u00eaem seu pa\u00eds como uma fonte de bondade no mundo, e mais da metade considera que a reelei\u00e7\u00e3o do presidente George W. Bush \u00e9 algo positivo para a seguran\u00e7a mundial, de acordo com a pesquisa feita pela rede de televis\u00e3o brit\u00e2nica BBC, em 2006. Em outro estudo, citado pela Newsweek, 70% dos pesquisados expressam f\u00e9 em suas institui\u00e7\u00f5es e quase 80% acreditam que \u201cas id\u00e9ias e os costumes norte-americanos\u201d devem estender-se globalmente. Michaels admite que com seu livro procura \u201caterrissar\u201d seus compatriotas, mas, adverte que embora \u201cseja politicamente poss\u00edvel mudar as coisas, isso n\u00e3o acontecer\u00e1 at\u00e9 que o debate sobre a diversidade se converta em um debate sobre a desigualdade\u201d.<\/p>\n<p>(*) Gloria Helena Rey trabalha h\u00e1 25 anos como correspondente estrangeira na Am\u00e9rica Latina e na Europa. Recebeu v\u00e1rios pr\u00eamios nacionais e internacionais. Atualmente, colabora com o jornal El Peri\u00f3dico, da Catalunha, e Leituras de Fim de Semana, do jornal El Tiempo, de Bogot\u00e1. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nova York, 21\/12\/2006 &ndash; O banqueiro dos pobres, o economista Muhammad Yunus, ganhador do pr\u00eamio Nobel da Paz 2006, tem raz\u00e3o ao defender um \u201cmercado de valores social\u201d, pois sua aus\u00eancia est\u00e1 minando o famoso \u201csonho americano\u201d nos Estados Unidos, afirmam alguns. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/12\/economia\/pobreza-eua-preocupacao-com-o-fim-do-sonho-americano\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":677,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12,5,11],"tags":[14,21],"class_list":["post-2448","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-desenvolvimento","category-economia","category-politica","tag-america-do-norte","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2448","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/677"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2448"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2448\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2448"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2448"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2448"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}