{"id":2456,"date":"2006-12-22T15:14:50","date_gmt":"2006-12-22T15:14:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2456"},"modified":"2006-12-22T15:14:50","modified_gmt":"2006-12-22T15:14:50","slug":"desafios-2006-2007-haiti-violencia-sem-fim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/12\/america-latina\/desafios-2006-2007-haiti-violencia-sem-fim\/","title":{"rendered":"Desafios 2006-2007: Haiti, viol\u00eancia sem fim"},"content":{"rendered":"<p>Porto Pr\u00edncipe, 22\/12\/2006 &ndash; Basta uma volta pelo centro da capital do Haiti para descobrir uma cidade em situa\u00e7\u00e3o calamitosa. As escolas est\u00e3o vazias porque as autoridades decidiram suspender as aulas devido a uma onda de seq\u00fcestros. H\u00e1 doentes, feridos e mortos abandonados nos hospitais p\u00fablicos desde meados de novembro, devido a uma greve do pessoal da sa\u00fade contra o governo por causa de seis meses de sal\u00e1rios atrasados. <!--more--> Al\u00e9m disso, os vendedores ambulantes dizem que ganham menos dinheiro do que nunca e temem ser v\u00edtimas de crimes violentos. Mas se o apoio internacional ao novo governo \u00e9 genu\u00edno, os haitianos logo poder\u00e3o ver algumas melhoras.<\/p>\n<p>Em uma confer\u00eancia de doadores feita em julho, tr\u00eas meses depois da posse do presidente Ren\u00e9 Pr\u00e9val, a comunidade internacional prometeu US$ 750 milh\u00f5es para consolidar a recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do pa\u00eds. Essa quantia se soma \u00e0 de US$ 1 bilh\u00e3o prometido h\u00e1 dois anos. No m\u00eas passado, o Banco Mundial e o Fundo Monet\u00e1rio Internacional anunciaram que o Haiti poderia se beneficiar de uma redu\u00e7\u00e3o superior a 15% dos US$ 1,3 bilh\u00f5es que lhes deve. Por sua vez, o Banco Interamericano de Desenvolvimento tamb\u00e9m anunciou a elabora\u00e7\u00e3o de um plano de al\u00edvio.<\/p>\n<p>Na semana passada, o Congresso dos Estados Unidos aprovou, ap\u00f3s d\u00e9cadas de frustradas tentativas, a lei de Oportunidade Haitiana mediante o Incentivo \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o (Hope). Essa lei permite aumentar as exporta\u00e7\u00f5es de bens haitianos para esse pa\u00eds, livre de impostos. Os empres\u00e1rios consideram que essa norma, defendida pelo pr\u00f3prio Pr\u00e9val perante os congressistas, pode criar dezenas de milhares de empregos. O apoio internacional que o governo haitiano tem \u00e9 muito raro na hist\u00f3ria do Haiti, que come\u00e7ou sendo a primeira rep\u00fablica negra do mundo, ap\u00f3s sua declara\u00e7\u00e3o de independ\u00eancia em 1804, fortemente endividado com a Fran\u00e7a e economicamente isolado dos pa\u00edses mais desenvolvidos e racistas.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, a comunidade internacional imp\u00f4s san\u00e7\u00f5es a brutais regimes militares e depois retirou os cr\u00e9ditos e a ajuda ao governo de Jean-Bertrand Aristide, pela corrup\u00e7\u00e3o existente, pelas irregularidades eleitorais e pela d\u00edvida pendente. Somente depois que Pr\u00e9val se imp\u00f4s a outros 32 candidatos com quase 50% dos votos, em uma elei\u00e7\u00e3o com amplo comparecimento \u00e0s urnas, as na\u00e7\u00f5es ocidentais deram seu aval ao governo haitiano. Por que a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o v\u00ea todo esse progresso? A hist\u00f3ria do Haiti indica que se algo pode sair errado, sair\u00e1 errado, e n\u00e3o fica clara a sinceridade professada pela comunidade internacional.<\/p>\n<p>Foi entregue apenas uma pequena por\u00e7\u00e3o dos US$ 1,5 bilh\u00e3o prometido, e a maior parte do al\u00edvio da d\u00edvida depende de o governo haitiano impulsionar certas reformas e programas para combater a pobreza. Mas os potenciais est\u00edmulos econ\u00f4micos com a Hope enfrentam uma for\u00e7a contr\u00e1ria que parece incontrol\u00e1vel: a viol\u00eancia. Desde que Aristide foi deposto pela \u00faltima vez em 2004 as for\u00e7as estrangeiras no Haiti aumentaram de forma constante, chegando a cerca de oito mil soldados das for\u00e7as de paz da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, civis de Porto Pr\u00edncipe possuem cada vez mais armas de guerra, como fuzil Kalashnikov e metralhadoras M-16. Enquanto em um bairro da cidade as tropas da ONU combatem as gangues, na outra ponta estas se enfrentam entre si. A princ\u00edpio, a pol\u00edcia n\u00e3o se atrevia a entrar sem os soldados da ONU. Depois, tamb\u00e9m se viu envolvida em atividades il\u00edcitas. Ricos e pobres, meninos e meninas e idosos sofreram seq\u00fcestros por resgate e, \u00e0s vezes, coisas piores. O programa da ONU de Desarmamento e Reintegra\u00e7\u00e3o n\u00e3o conseguiu muito.<\/p>\n<p>Dezenas de integrantes de gangues participaram do plano que os capacitava em direitos humanos e responsabilidade civil e lhes facilitava um emprego. Mas, a maioria n\u00e3o deixou as armas e, inclusive, uns poucos chegaram a participar de seq\u00fcestros pouco depois de terem sa\u00eddo das gangues. Em outra iniciativa, o presidente negociou com os l\u00edderes desses grupos, mas a tentativa, duramente criticada por organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil haitiana e um especialista em direitos humanos da ONU, parece n\u00e3o ter tido nenhum \u00eaxito.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a teve um efeito devastador para a economia. Desde a \u00faltima queda de Aristide, a quantidade de f\u00e1bricas de Porto Pr\u00edncipe diminuiu em ritmo constante. A conhecida favela de Cit\u00e9 Soleil, onde os grupos enfrentam as for\u00e7as da ONU, cresceu quando foi criada uma zona de livre com\u00e9rcio no limite da capital h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas. Uma enxurrada de camponeses chegou \u00e0 cidade em busca de trabalho e ali se instalaram. Mas quando a economia caiu, esse bairro se tornou um reduto de desempregados.<\/p>\n<p>As f\u00e1bricas sobreviventes ficaram a merc\u00ea dos jovens raivosos da favela provocando o fechamento de muitas ap\u00f3s m\u00faltiplos seq\u00fcestros de seus empregados, chegando at\u00e9 a serem queimados e assaltados. Nos \u00faltimos anos, os empres\u00e1rios organizaram v\u00e1rias formas de protesto contra a inefic\u00e1cia da ONU para resolver o assunto. Agora, fazem o mesmo contra o governo por n\u00e3o enfrentar a situa\u00e7\u00e3o como deveria. Para alguns a seguran\u00e7a \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para o crescimento da economia, mas, para outros, vale o inverso.<\/p>\n<p>Outra favela do centro da capital, Bel Air, \u00e9 uma zona que no ano passado se beneficiou da presen\u00e7a de soldados da ONU. Em certa \u00e9poca esteve totalmente paralisada pelas gangues, mas, agora reabriram os com\u00e9rcios e as escolas e o tr\u00e2nsito circula lentamente por suas ruas. Mas segundo Jean-Baptiste Sarol, porta-voz de uma organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria que ajuda crian\u00e7as de rua, sem trabalho, \u00e9 apenas quest\u00e3o de tempo antes de as armas reaparecerem. O mesmo pensam os l\u00edderes das gangues que amea\u00e7aram o governo, pelo r\u00e1dio, caso este gerasse postos de trabalho para eles.<\/p>\n<p>Muitos moradores dessas favelas que tinham trabalho no governo de Aristide ficaram desempregados ap\u00f3s sua derrubada. V\u00e1rios especialistas da miss\u00e3o de paz da ONU insistiram no mesmo, que os problemas de seguran\u00e7a no Haiti t\u00eam uma origem amplamente econ\u00f4mica que deve ser enfrentada com tal. A parlamentar norte-americana por Chicago Jan Schakowsky disse \u00e0 IPS quando visitou o pa\u00eds que o mundo n\u00e3o podia esperar pelo fim da viol\u00eancia sem um progresso econ\u00f4mico paralelo. A favor da Hope, Schakowsky disse que \u201cno curto prazo, caso se espere pela seguran\u00e7a fora uma melhoria dr\u00e1stica no pa\u00eds, incluindo Porto Pr\u00edncipe, ser\u00e1 muito dif\u00edcil seguir adiante\u201d. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Porto Pr\u00edncipe, 22\/12\/2006 &ndash; Basta uma volta pelo centro da capital do Haiti para descobrir uma cidade em situa\u00e7\u00e3o calamitosa. As escolas est\u00e3o vazias porque as autoridades decidiram suspender as aulas devido a uma onda de seq\u00fcestros. 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