{"id":2468,"date":"2007-01-02T15:02:29","date_gmt":"2007-01-02T15:02:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2468"},"modified":"2007-01-02T15:02:29","modified_gmt":"2007-01-02T15:02:29","slug":"desafios-2006-2007-inimigo-dos-eua-no-iraque-e-uma-incognita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/01\/politica\/desafios-2006-2007-inimigo-dos-eua-no-iraque-e-uma-incognita\/","title":{"rendered":"Desafios 2006-2007: Inimigo dos EUA no Iraque \u00e9 uma inc\u00f3gnita"},"content":{"rendered":"<p>Washington, 02\/01\/2007 &ndash; Este ano surgiu uma guerra religiosa no Iraque e houve um recrudescimento do conflito, muito mais aberto, entre xiitas e sunitas no mundo \u00e1rabe. <!--more--> Os regimes sunitas do Oriente M\u00e9dio manifestaram crescente ansiedade pela possibilidade de os choques entre sunitas e xiitas no Iraque se propagarem aos seus pa\u00edses, bem como pelo aumento da influ\u00eancia do regime isl\u00e2mico no Ir\u00e3 em todo o mundo. Nesse panorama, o mais inquietante da pol\u00edtica externa de Washington \u00e9 sua incapacidade para identificar o inimigo no Iraque.<\/p>\n<p>\u00c9 a rede terrorista isl\u00e2mica Al Qaeda? O presidente George W. Bush costuma dizer que sim, para convencer o p\u00fablico de seu pa\u00eds de que deve derrotar o inimigo no Iraque para n\u00e3o sofrer seus embates em seu pr\u00f3prio territ\u00f3rio. S\u00e3o as mil\u00edcias sunitas, alvo original da fracassada guerra contra-insurgente? Ou \u00e9 o Ex\u00e9rcito Mahdi do cl\u00e9rigo xiita Moqtada al Sadr, implicado nas matan\u00e7as em grande escala de sunitas em Bagd\u00e1 e que est\u00e1 aliado com o Ir\u00e3 em seu conflito com os Estados Unidos?<\/p>\n<p>E o que dizer da Organiza\u00e7\u00e3o Badr, responsabilizada por seq\u00fcestros em massa, tortura e limpeza \u00e9tnica de sunitas nos bairros xiitas da capital iraquiana? Por acaso a atividade dos Estados Unidos no Iraque se refere \u00e0 guerra mundial contra o terrorismo, o perigo que surge dos choques religiosos ou, simplesmente, ao desejo do governo Bush de atribuir-se um triunfo contra a mera resist\u00eancia \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o? Washington n\u00e3o p\u00f4de dar uma resposta pol\u00edtica clara a esta pergunta.<\/p>\n<p>A fonte original da confus\u00e3o governamental sobre o inimigo prim\u00e1rio no Iraque \u00e9 a decis\u00e3o de vender a guerra contra-insurgente ao p\u00fablico norte-americano em 2004 e 2005 como uma luta entre o Estado com as agruras de uma democracia e for\u00e7as antidemocr\u00e1ticas. Este argumento p\u00fablico deixou nas sombras a realidade subjacente de uma luta sect\u00e1ria pelo poder, complicada pelo desejo de vingan\u00e7a dos partidos xiitas armados contra os sunitas, que dominaram o pa\u00eds durante boa parte da hist\u00f3ria moderna do Iraque e o abusivo regime de Saddam Hussein (1979-2003).<\/p>\n<p>Desafortunadamente, a Casa Branca e o Pent\u00e1gono parecem ter se convencido com sua pr\u00f3pria propaganda. O governo foi reticente em admitir a evid\u00eancia inequ\u00edvoca de viol\u00eancia de mil\u00edcias xiitas contra a popula\u00e7\u00e3o sunita quando surgiram os primeiros sinais fortes em 2005. O ex-primeiro-ministro interino iraquiano Iyad Allawi lamentou publicamente em meados deste ano a falta em Washington de uma \u201cvis\u00e3o e uma pol\u00edtica claras\u201d que cortasse a espiral de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Este d\u00e9ficit da pol\u00edtica norte-americana foi conseq\u00fc\u00eancia da prioridade dada \u00e0 derrota da resist\u00eancia sunita, esfor\u00e7o que necessitou de uma alian\u00e7a com for\u00e7as xiitas participantes da viol\u00eancia paramilitar contra os sunitas. Mas em 2005, ficou cada vez mais claro que essa alian\u00e7a era sem \u00eaxito, porque a resist\u00eancia, mais do que enfraquecer, se fortalecia. No segundo semestre desse ano, o embaixador dos EUA no Iraque, Zalmay Khalilzad, se convenceu de que seu pa\u00eds deveria aplicar os sunitas atrav\u00e9s de concess\u00f5es pol\u00edticas e n\u00e3o por uma derrota militar.<\/p>\n<p>Outras influentes personalidades do governo Bush, incluindo o vice-presidente, Dick Cheney, e o secret\u00e1rio de Defesa, Donald Rumsfeld, responderam que a resist\u00eancia sunita tinha o \u00fanico objetivo de recuperar o poder, e advertiram que n\u00e3o havia acordo poss\u00edvel com ela. Mas Khalilzad conseguiu certo apoio de Bush. Em janeiro de 2006, participou das negocia\u00e7\u00f5es diretas com grupos armados representativos da coaliz\u00e3o sunita contra a ocupa\u00e7\u00e3o norte-americana.<\/p>\n<p>Funcion\u00e1rios dos Estados Unidos em Bagd\u00e1 foram ainda mais longe e caracterizaram esses insurgentes como nacionalistas leg\u00edtimos enfrentados com a Al Qaeda. As negocia\u00e7\u00f5es, nunca admitidas por Washington, mas confirmadas em detalhe por sunitas participantes, tinham o objetivo de por fim \u00e0 resist\u00eancia em troca do reconhecimento de interesses pol\u00edticos b\u00e1sicos dessa comunidade e da integra\u00e7\u00e3o de suas mil\u00edcias ao novo ex\u00e9rcito iraquiano.<\/p>\n<p>Um acordo nesse sentido teria sugerido que o verdadeiro inimigo eram as for\u00e7as xiitas alinhadas com o Ir\u00e3, no momento em que o governo Bush pressionava Teer\u00e3 para que suspendesse seu programa de desenvolvimento nuclear com a amea\u00e7a de que a \u201cop\u00e7\u00e3o militar\u201d continuava em pauta. Os sunitas asseguraram ter proposto a Khalilzad acabar com as mil\u00edcias xiitas em Bagd\u00e1 com ajuda norte-americana. Essa vers\u00e3o ganhou credibilidade com a press\u00e3o do diplomata para que os pol\u00edticos xiitas aplacassem as mil\u00edcias dessa comunidade no final de 2005 e come\u00e7o de 2006.<\/p>\n<p>O acordo ficou no meio do caminho pela retic\u00eancia norte-americana em aceitar a reclama\u00e7\u00e3o sunita de um cronograma flex\u00edvel para a retirada das tropas estrangeiras do Iraque e condicionado ao fortalecimento do novo ex\u00e9rcito nacional. Depois de dar voltas \u00e0 estrat\u00e9gia sunita durante tr\u00eas meses, Bush decidiu deix\u00e1-la de lado em mar\u00e7o deste ano. Mas, desde ent\u00e3o, a defini\u00e7\u00e3o do inimigo no Iraque ficou sem solu\u00e7\u00e3o para Washington.<\/p>\n<p>Os milagres da linguagem permitiram aos militares norte-americanos manter a guerra contra a resist\u00eancia sunita, ao mesmo tempo em que apoiavam o argumento de Khalilzad, segundo o qual o principal problema n\u00e3o eram essas mil\u00edcias, mas a Al Qaeda, por um lado, e os rebeldes xiitas por outro. A onda de viol\u00eancia entre comunidades religiosas come\u00e7ou no final de fevereiro. A quantidade de v\u00edtimas civis desses choques na \u00e1rea de Bagd\u00e1 aumentou de 1.778, em janeiro, para 3.149, em junho, e chegando a 3.709 em outubro, segundo a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia generalizada de que o Ir\u00e3 j\u00e1 havia afundado em uma guerra civil de car\u00e1ter religioso obrigou o governo Bush a fazer algo a respeito. O comando militar norte-americano no Iraque acrescentou 15 mil soldados \u00e0s suas tropas em Bagd\u00e1 para melhorar a seguran\u00e7a. Por sua vez, Bush anunciou o envio de 40 mil soldados adicionais ao Iraque em 2007. Mas seu governo n\u00e3o se mostra disposto a identificar o objetivo contra o qual deve mirar. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p>(*) Gareth Porter \u00e9 historiador e especialista em pol\u00edticas de seguran\u00e7a nacional dos Estados Unidos. \u201cPerigo de dom\u00ednio: desequil\u00edbrio de poder e o caminho para a guerra no Vietn\u00e3\u201d, seu \u00faltimo livro, foi publicado em junho de 2005.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Washington, 02\/01\/2007 &ndash; Este ano surgiu uma guerra religiosa no Iraque e houve um recrudescimento do conflito, muito mais aberto, entre xiitas e sunitas no mundo \u00e1rabe. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/01\/politica\/desafios-2006-2007-inimigo-dos-eua-no-iraque-e-uma-incognita\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":84,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[14,16],"class_list":["post-2468","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-politica","tag-america-do-norte","tag-oriente-medio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2468","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/84"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2468"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2468\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2468"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2468"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2468"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}