{"id":2481,"date":"2007-01-05T15:09:57","date_gmt":"2007-01-05T15:09:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2481"},"modified":"2007-01-05T15:09:57","modified_gmt":"2007-01-05T15:09:57","slug":"africa-migracoes-desertificacao-e-conflito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/01\/africa\/africa-migracoes-desertificacao-e-conflito\/","title":{"rendered":"\u00c1frica: Migra\u00e7\u00f5es, desertifica\u00e7\u00e3o e conflito"},"content":{"rendered":"<p>Tabou, Costa do Marfim, 05\/01\/2007 &ndash; J\u00e1 passaram tr\u00eas anos desde que Brahima Ou\u00e9draogo, um agricultor de Burkina Faso, chegou com sua fam\u00edlia a uma aldeia da regi\u00e3o de Tabou, na Costa do Marfim, em busca de terra ar\u00e1vel. No come\u00e7o, os moradores de Klotou lhes deram boa acolhida. Mas esta amabilidade desapareceu pouco a pouco. <!--more--> Hoje, alguns querem que Ou\u00e9draogo e sua fam\u00edlia partam. \u201cQuando se entra em nossas florestas, se v\u00ea que s\u00e3o usadas pelos imigrantes sem nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o em preservar o meio ambiente\u201d, disse Marc Kall\u00e9, que vive na aldeia de Klotou.<\/p>\n<p>Kall\u00e9 se queixa que os agricultores de Burkina Faso e outros pa\u00edses da \u00c1frica ocidental instalaram acampamentos nas florestas da Costa do Marfim e acenderam fogueiras. \u201cNestas condi\u00e7\u00f5es, em poucos anos, provavelmente, nada restar\u00e1. Aqui n\u00e3o h\u00e1 mais terra para compartilhar. Chegado o momento oportuno, a cada um ser\u00e1 pedido que volte para sua casa\u201d. Este tipo de situa\u00e7\u00e3o e ressentimento j\u00e1 surgiu em ocasi\u00f5es anteriores, causando enfrentamentos mortais. O mais grave aconteceu em 1999, quando morreram cerca de 50 pessoas em Tabou, e membros da etnia lobi e dagar\u00e9, de Burkina Faso, foram for\u00e7ados a fugir por parte de ind\u00edgenas kroumens.<\/p>\n<p>Confrontos semelhantes aconteceram em meados de 2005 na regi\u00e3o de Du\u00e9kou\u00e9, na Costa do Marfim, com cerca de 10 mortos e, aproximadamente, 10 mil refugiados. Nos \u00faltimos meses, a situa\u00e7\u00e3o em Tabou voltou a ficar tensa, com o regresso de pessoas n\u00e3o-nativas da \u00e1rea. Os choques entre ind\u00edgenas e imigrantes em Du\u00e9kou\u00e9 tamb\u00e9m aumentaram nos \u00faltimos meses. J\u00e1 houve dezenas de assassinatos, v\u00e1rios feridos e milhares de refugiados, segundo Youssouf Omar, coordenador humanit\u00e1rio interino para a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas na cidade de Abidj\u00e3, centro comercial da Costa do Marfim. \u201cA principal causa destes conflitos continua sendo o problema da terra para cultivar\u201d, disse Omar \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Atualmente, for\u00e7as da ONU ajudam a patrulhar uma zona de exclus\u00e3o entre o norte da Costa do Marfim, dominado por rebeldes, e o sul controlado pelo governo. O pa\u00eds ficou assim dividido depois do falido golpe de Estado de setembro de 2002. Atrav\u00e9s do Programa Mundial de Alimentos da ONU (PMA), do Fundo das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Inf\u00e3ncia e de entidades similares, o f\u00f3rum mundial tamb\u00e9m realiza trabalho humanit\u00e1rio em comunidades vulner\u00e1veis, tanto entre ind\u00edgenas quanto entre imigrantes. Por sua vez, estes tentam aplacar a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEstamos pedindo aos nossos irm\u00e3os da Costa do Marfim que compreendam que j\u00e1 n\u00e3o temos mais terra para cultivar em casa. L\u00e1 a seca \u00e9 permanente e o solo sempre est\u00e1 seco. Por isso viemos para o sul. Aqui temos terra f\u00e9rtil e boas chuvas\u201d, explicou Issouf Sawadogo, um dos l\u00edderes da comunidade de Burkina Faso em Tabou. Ap\u00f3s um duro dia de trabalho, Ou\u00e9draogo, com seu corpo suado, descansa em uma cabana constru\u00edda no campo onde cultiva cacau. \u201cNo ano passado, com chuvas regulares, a produ\u00e7\u00e3o superou as expectativas\u201d, disse \u00e0 IPS. \u201cConsegui 3,4 toneladas de cacau por hectare, duas toneladas de arroz e o mesmo de milho, suficientes para pagar a escola dos meus filhos e alimentar minha fam\u00edlia por todo o ano\u201d. Estat\u00edsticas do governo indicam que h\u00e1 mais de 200 mil imigrantes da \u00c1frica ocidental residentes no sudoeste da Costa do Marfim. \u201cEm sua maioria, vivem do cultivo de cacau e outros alimentos\u201d, disse \u00e0 IPS Bruno Yao Klouassi Ess\u00e9, funcion\u00e1rio da localidade de Grand-B\u00e9r\u00e9by. Estima-se que cerca de cem mil fam\u00edlias chegam a cada ano a esta regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo o Minist\u00e9rio de Meio Ambiente, a \u00e1rea florestal do pa\u00eds diminui de 10 milh\u00f5es para tr\u00eas milh\u00f5es de hectares entre 1988 e 2005. At\u00e9 1984, o desmatamento na Costa do Marfim era de, aproximadamente, 2,5% ao ano, mas depois do in\u00edcio dos cultivos de cacau e caf\u00e9 aumentou para 11% anuais. Mas n\u00e3o se pode culpar apenas a imigra\u00e7\u00e3o de outros pa\u00edses, segundo o Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Esta ag\u00eancia indica que a chegada de pessoas do norte da pr\u00f3pria Costa do Marfim tamb\u00e9m \u00e9 uma causa de grande parte da explora\u00e7\u00e3o das florestas.<\/p>\n<p>Com isto concorda Amigos da Floresta (Amifor, siglas em franc\u00eas). Esta organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental com sede em Yamoussoukro disse que as \u00e1reas setentrionais se tornaram improdutivas, e alertou que o sul experimentar\u00e1 uma desertifica\u00e7\u00e3o semelhante se n\u00e3o forem intensificadas as pol\u00edticas de reflorestamento.<\/p>\n<p>Etienne Gu\u00e9hi, especialista em administra\u00e7\u00e3o e avalia\u00e7\u00e3o ambiental na Universidade de Abobo Adjam\u00e9, em Abidj\u00e3, disse que as pessoas que tentam sobreviver na regi\u00e3o t\u00eam certas pr\u00e1ticas que agravam a desertifica\u00e7\u00e3o: cortam \u00e1rvores para fazer planta\u00e7\u00f5es e cultivam o mesmo nas mesmas terras ano ap\u00f3s ano, nunca dando ao solo o tempo necess\u00e1rio para se recuperar. Al\u00e9m da sobreviv\u00eancia, se n\u00e3o se puser fim \u00e0 elevada propor\u00e7\u00e3o de imigra\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o de florestas, a desertifica\u00e7\u00e3o continuar\u00e1 aumentando na Costa do Marfim, disse Innocent Kra Kouadio, presidente da Amigos da Floresta. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tabou, Costa do Marfim, 05\/01\/2007 &ndash; J\u00e1 passaram tr\u00eas anos desde que Brahima Ou\u00e9draogo, um agricultor de Burkina Faso, chegou com sua fam\u00edlia a uma aldeia da regi\u00e3o de Tabou, na Costa do Marfim, em busca de terra ar\u00e1vel. No come\u00e7o, os moradores de Klotou lhes deram boa acolhida. 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