{"id":2484,"date":"2007-01-08T18:34:29","date_gmt":"2007-01-08T18:34:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2484"},"modified":"2007-01-08T18:34:29","modified_gmt":"2007-01-08T18:34:29","slug":"desafios-2006-2007-narcotraficantes-impunes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/01\/america-latina\/desafios-2006-2007-narcotraficantes-impunes\/","title":{"rendered":"Desafios 2006-2007: Narcotraficantes impunes"},"content":{"rendered":"<p>Montevid\u00e9u, 08\/01\/2007 &ndash; A coca floresce no mundo andino, se reduz um pouco ali e aumenta um pouco aqui. O narconeg\u00f3cio na Am\u00e9rica Latina passa de poucas para muitas m\u00e3os; se diversifica em rotas, produtos e subprodutos; incorpora novos cen\u00e1rios. <!--more--> Mas, n\u00e3o d\u00e1 sinais de diminuir. Quando em 1995 soube-se que haviam sido presos os chefes do Cartel de C\u00e1li, os irm\u00e3os Gilberto e Miguel Rodr\u00edguez Orejuela, hoje \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a norte-americana, houve uma explos\u00e3o de alegria no povoado de Calamar, departamento de Guaviare, na \u00e9poca principal zona de coca da Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>Essas deten\u00e7\u00f5es marcavam o fim do monop\u00f3lio desse cartel na compra de pasta de coca (mat\u00e9ria-prima da coca\u00edna) que era produzida na regi\u00e3o, contou na oportunidade \u00e0 IPS o jornalista norte-americano Alan Weisman, testemunha da comemora\u00e7\u00e3o. Com o aniquilamento das grandes m\u00e1fias \u201csurgiram muitos cart\u00e9izinhos\u201d de baixo perfil, disse \u00e0 IPS Francisco Thoumi, doutor em economia da Universidade de Minnesota e diretor do Centro de Estudos e Observat\u00f3rio de Drogas e Delito da Universidade del Rosario (CEODD, de Bogot\u00e1).<\/p>\n<p>\u201cAt\u00e9 certo ponto se democratizou a ind\u00fastria e aumentou a viol\u00eancia interna. Estes pequenos cart\u00e9is encontraram dificuldades para ter bra\u00e7os armados. Ent\u00e3o, come\u00e7aram a subcontratar\u201d a cust\u00f3dia de planta\u00e7\u00f5es, laborat\u00f3rios e rotas ao grupo armado que imperava em uma determinada regi\u00e3o, neste pa\u00eds que h\u00e1 mais de quatro d\u00e9cadas est\u00e1 em guerra civil, explicou. A guerrilha esquerdista e os paramilitares ultradireitistas se deram conta de que eram mais poderosos do que quem os contratava. Assim, \u201ctanto as For\u00e7as Armadas Revolucion\u00e1rias da Col\u00f4mbia (Farc) quanto os paramilitares acabaram eliminando os intermedi\u00e1rios e se convertendo nos elementos-chave do neg\u00f3cio\u201d, segundo Thoumi.<\/p>\n<p>Pela estimativa do CEODD, os produtores de coca de Calamar agora n\u00e3o t\u00eam o que comemorar. \u201cOs pre\u00e7os em d\u00f3lares da coca\u00edna no atacado nos Estados Unidos constantes desde os anos 80 at\u00e9 hoje ca\u00edram 90%\u201d, disse Thoumi, contrariando outras fontes consultadas para est\u00e1 mat\u00e9ria. Est\u00e1 queda obedece ao crescimento da produ\u00e7\u00e3o, \u201cmuito mais do que \u00e0 demanda, especialmente nos Estados Unidos\u201d, pa\u00eds que estaria absorvendo \u201centre 35% e 40% da coca\u00edna consumida no mundo, n\u00e3o mais\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>O Escrit\u00f3rio das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Droga e o Delito (Unodc) calcula que existem 86 mil hectares de cultivos ilegais na Col\u00f4mbia, que geram cerca de US$ 450 milh\u00f5es. \u201cIsso seria repartido entre traficantes, paramilitares, guerrilheiros, subornos, camponeses, mat\u00e9ria-prima e precursores\u201d qu\u00edmicos. \u201cCom base nisso, n\u00e3o se pode afirmar que a droga \u00e9 a maior fonte de financiamento do conflito armado colombiano\u201d, afirmou Thoumi. Em setembro passado, autoridades uruguaias descobriram um carregamento de mais de 340 quilos de coca\u00edna boliviana, que um grupo dirigido por colombianos e integrado por uruguaios e gente de outras nacionalidades, se preparava para embarcar com destino \u00e0 Europa.<\/p>\n<p>Essa foi a maior apreens\u00e3o na hist\u00f3ria desse pa\u00eds. Al\u00e9m disso, \u201cpudemos desarticular a opera\u00e7\u00e3o em todo seu esquema, desde a produ\u00e7\u00e3o ao transporte, at\u00e9 \u00e0 lavagem de dinheiro\u201d, disse \u00e0 IPS o inspetor Julio Guarteche, chefe da Dire\u00e7\u00e3o Geral de Repress\u00e3o do Tr\u00e1fico Il\u00edcito de Drogas. Presume-se que cargas semelhantes passem pelo pa\u00eds. \u201cO Uruguai \u00e9 objetivo de grupos colombianos. O narcotr\u00e1fico local se vincula com m\u00e1fias transnacionais: colombianos, peruanos, bolivianos, paraguaios, brasileiros, russos, nigerianos\u201d, acrescentou Guarteche.<\/p>\n<p>Este pequeno pa\u00eds, com apenas 3,2 milh\u00f5es de habitantes, n\u00e3o produz, mas \u00e9 consumidor e local estrat\u00e9gico para a sa\u00edda a ultramar, al\u00e9m de ter um papel na lavagem de dinheiro cuja dimens\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 clara. \u201cEm 2004, a maior opera\u00e7\u00e3o da \u00c1ustria em toda sua hist\u00f3ria foi organizada no Uruguai e n\u00f3s a monitoramos. Passamos toda a informa\u00e7\u00e3o a colegas de outros pa\u00edses, o que permitiu desbaratar o tr\u00e2nsito da coca\u00edna desde o Peru, passando pelos Estados Unidos, at\u00e9 a \u00c1ustria\u201d, afirmou o inspetor. Segundo seus dados, o pre\u00e7o da coca\u00edna se mant\u00e9m constante aqui: a de boa qualidade custa entre US$ 6 mil e US$ 7 mil o quilo e \u00e9 vendida na Europa a 30 mil euros.<\/p>\n<p>Na Argentina, a irrup\u00e7\u00e3o da pasta base de coca\u00edna \u2013 segundo diferentes estudos, produto intermedi\u00e1rio na elabora\u00e7\u00e3o da coca\u00edna ou res\u00edduo da mesma \u2013 se vincula a uma nova \u201cterritorializa\u00e7\u00e3o\u201d no Cone Sul americano em toda a cadeia: produ\u00e7\u00e3o, tr\u00e2nsito e consumo, disse \u00e0 IPS o advogado Alejandro C\u00f3rdoba, da Associa\u00e7\u00e3o Civil para o Estudo e Preven\u00e7\u00e3o de Problemas Relacionados com as Drogas. A obten\u00e7\u00e3o de coca\u00edna a partir da coca plantada na Col\u00f4mbia, Bol\u00edvia e no Peru tem, pelo menos, duas etapas diferenciadas: a macera\u00e7\u00e3o das folhas para obter a pasta b\u00e1sica e o refino que d\u00e1 lugar ao cloridrato de coca\u00edna ou coca\u00edna seca. A primeira tradicionalmente acontece perto dos locais de cultivo, enquanto a segunda se concentrou tempos atr\u00e1s, sobretudo, em laborat\u00f3rios da Col\u00f4mbia, segundo o advogado.<\/p>\n<p>Em raz\u00e3o da guerra ao narcotr\u00e1fico, com a entusi\u00e1stica lideran\u00e7a de Washington, o processo foi dividido em mais etapas e procedimentos, dando lugar a novos subprodutos que, com nomes semelhantes ou parecidos e conte\u00fados diversos, alimentam mercados nacionais de drogas baratas em seu caminho rumo \u00e0s grandes mecas do mundo rico. Desde 2000, surgem cada vez mais laborat\u00f3rios de coca\u00edna na Argentina. Os subprodutos desse refino s\u00e3o vendidos localmente como \u201cpaco\u201d. No Uruguai, Guarteche vincula o auge da pasta base \u00e0 crise econ\u00f4mica de 2002, que afetou o narcotr\u00e1fico \u201ccomo a qualquer outra atividade econ\u00f4mica\u201d.<\/p>\n<p>\u201cMuitos que haviam comprado coca\u00edna se endividaram e n\u00e3o tinha como pagar. Ent\u00e3o, come\u00e7aram a trazer mais pasta base, mais barata. Se conjugaram a crise econ\u00f4mica, por um lado, e o acesso pela primeira vez de setores pobres a uma droga que os pegou forte\u201d, acrescentou. Mas, estima que \u201co auge da onda da pasta base passou\u201d. Para o advogado Cristiano Maronna, do Instituto Brasileiro de Ci\u00eancias Criminais, com sede em S\u00e3o Paulo, o Brasil continua sendo territ\u00f3rio de \u201cpassagem obrigat\u00f3ria\u201d entre os produtores andinos e a Europa e os Estados Unidos. Mas, tamb\u00e9m \u201cse afirma como p\u00f3lo consumidor na Am\u00e9rica Latina\u201d. Os brasileiros produzem maconha e drogas sint\u00e9ticas.<\/p>\n<p>Maronna atribui a incapacidade das autoridades ao fato de a repress\u00e3o se concentrar no com\u00e9rcio varejista das \u00e1reas mais pobres das grandes cidades, onde a pol\u00edcia apreende cada vez mais quantidade de drogas sem reduzir sua oferta, em uma a\u00e7\u00e3o de \u201cenxugar gelo\u201d, disse. Um fato grave no combate ao problema \u00e9 a condena\u00e7\u00e3o judicial de usu\u00e1rios como se fossem traficantes, o que leva \u00e0 \u201cpris\u00e3o em massa\u201d de pessoas. Est\u00e1 \u00e9 uma das causas da superpopula\u00e7\u00e3o nas pris\u00f5es. Uma nova lei, aprovada em agosto, aumentou o castigo pelo tr\u00e1fico de tr\u00eas para cinco anos de pris\u00e3o, impedindo a aplica\u00e7\u00e3o de penas alternativas.<\/p>\n<p>Para Hern\u00e1n Pe\u00f1afial, advogado-chefe da Divis\u00e3o de Controle de Tr\u00e1fico Il\u00edcito de Estupefacientes do Conselho de Defesa do Estado do Chile, a categoria \u201cacad\u00eamica\u201d de pa\u00eds produtor, de tr\u00e2nsito ou de consumo ainda tem validade, porque permite simplificar o fen\u00f4meno em sua caracter\u00edstica predominante. O territ\u00f3rio chileno \u00e9 de tr\u00e2nsito, com as organiza\u00e7\u00f5es criminosas dos pa\u00edses produtores aproveitando sua forte estrutura exportadora, menos controlada desde o exterior. Mas, \u201co Chile tem um papel importante na quest\u00e3o dos precursores qu\u00edmicos, de f\u00e1cil produ\u00e7\u00e3o e ainda de incipiente controle\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>O consumo \u00e9 relativamente menor, embora admita matizes, disse Pe\u00f1afiel. As zonas pobres da capital s\u00e3o vulner\u00e1veis \u00e0 pasta base do Peru, um fen\u00f4meno que se acentuou gravemente nos \u00faltimos anos e agora parece estar diminuindo. \u201cH\u00e1 cerca de 15 ou 20 anos no M\u00e9xico, o consumo era reduzido e localizado em cidades fronteiri\u00e7as com os Estados Unidos e centros tur\u00edsticos. Hoje, a hist\u00f3ria \u00e9 outra\u201d, afirma o especialista em temas de seguran\u00e7a da Universidade Aut\u00f4noma Metropolitana, Jos\u00e9 Luis Pi\u00f1eyro.<\/p>\n<p>O M\u00e9xico aparece como pot\u00eancia emergente, com uma incid\u00eancia importante em toda a cadeia. Quase nenhum distrito est\u00e1 livre. E se consome muito mais, tanto drogas \u201cnaturais\u201d quanto sint\u00e9ticas. O governo explica o auge porque selou a fronteira com o grande mercado do norte. Meia verdade, segundo Pi\u00f1eyro. \u201cSe generalizaram as redes de distribui\u00e7\u00e3o com milhares de \u2018lojinha\u2019 dirigidas por fam\u00edlias\u201d, para as quais \u00e9 uma forma de sobreviver. Os atores se multiplicam.<\/p>\n<p>As alian\u00e7as com os cart\u00e9is sul-americanos s\u00e3o \u201cevidentes\u201d, mas, \u201co que n\u00e3o se diz \u00e9 que tamb\u00e9m existem as m\u00e1fias norte-americanas\u201d, afirma Pi\u00f1eyro. \u201cExiste corrup\u00e7\u00e3o \u201cnarco\u201d na pol\u00edcia e em alguns munic\u00edpios. \u201cO curioso \u00e9 que estes pareceriam ser os \u00fanicos, o que duvido. No sistema financeiro e nos c\u00edrculos de poder o narcotr\u00e1fico est\u00e1 envolvido, mas, quase nunca vemos pessoas detidas ali\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>O Peru passou de fornecedor de pasta b\u00e1sica a importante produtor de coca\u00edna, reconheceu o presidente da Comiss\u00e3o Nacional para o Desenvolvimento e Vida sem Drogas, R\u00f3mulo Pizarro, respons\u00e1vel pela aplica\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas antidrogas no pa\u00eds. \u201cSegundo a Unodc, em 2005 foram produzidas 180 toneladas de coca\u00edna, das quais foram apreendidas apenas 13 toneladas\u201d, acrescentou. No mercado norte-americano, essas 180 toneladas alcan\u00e7am um valor de US$ 4,140 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a Unidade de Intelig\u00eancia Financeira detectou apenas 21 casos de lavagem de dinheiro da droga, no valor de US$ 379 milh\u00f5es, apenas 9,1% do que as m\u00e1fias movimentam em um ano. Pizarro assinala o surgimento de organiza\u00e7\u00f5es peruanas que exportam para os Estados Unidos e a Europa em sociedade com intermedi\u00e1rios mexicanos ou colombianos. \u201cOs representantes dos cart\u00e9is estrangeiros garantem o financiamento, a produ\u00e7\u00e3o e o traslado da droga. Anualmente s\u00e3o desbaratadas de 10 a 15 organiza\u00e7\u00f5es nacionais. Integrantes do cartel mexicano de Tijuana s\u00e3o julgados no Peru\u201d, explicou Pizarro. Se est\u00e1 ganhando ou perdendo a guerra? \u201cO motor \u00e9 o v\u00edcio. Mas, isso n\u00e3o se acerta com repress\u00e3o\u201d, afirma o uruguaio Guarteche. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p> (*) Colabora\u00e7\u00f5es de Marcela Valente (Argentina), Mario Osava (Brasil), Daniela Estrada (Chile), Constanza Vieira (Col\u00f4mbia), Diego Cevallos (M\u00e9xico) e \u00c1ngel P\u00e1ez (Peru)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Montevid\u00e9u, 08\/01\/2007 &ndash; A coca floresce no mundo andino, se reduz um pouco ali e aumenta um pouco aqui. 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