{"id":2524,"date":"2007-01-23T13:59:34","date_gmt":"2007-01-23T13:59:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2524"},"modified":"2007-01-23T13:59:34","modified_gmt":"2007-01-23T13:59:34","slug":"forum-economico-mundial-de-costas-para-campos-de-refugiado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/01\/mundo\/forum-economico-mundial-de-costas-para-campos-de-refugiado\/","title":{"rendered":"F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial: De costas para campos de refugiado"},"content":{"rendered":"<p>Zurique, 23\/01\/2007 &ndash; H\u00e1 temas, como a precariedade trabalhista, os empregos irregulares, a desigualdade de g\u00eanero e as migra\u00e7\u00f5es, que brilham por sua aus\u00eancia nos debates entre governantes e empres\u00e1rios multinacionais que esta semana voltam a se reunir no F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial (FEM), na localidade su\u00ed\u00e7a de Davos. <!--more--> Mas, no caso das migra\u00e7\u00f5es, \u201cminha opini\u00e3o \u00e9 que o pessoal de Davos \u00e9 favor\u00e1vel\u201d a esses deslocamentos, disse \u00e0 IPS o especialista do Centro Nacional de Pesquisa Cient\u00edfica da Fran\u00e7a, Marc Bernardot. Porque se s\u00e3o verdadeiramente liberais, capitalistas liberais, eles s\u00e3o favor\u00e1veis, por ess\u00eancia, l\u00f3gica e coer\u00eancia doutrin\u00e1ria, \u00e0 livre circula\u00e7\u00e3o de bens, capitais e homens, deduziu. Para que o capital flua \u00e9 necess\u00e1rio tamb\u00e9m que o trabalhador se traslade, acrescentou.<\/p>\n<p>Bernardot afirmou que os grandes liberais s\u00e3o favor\u00e1veis \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o sem controle. Esse \u00e9 um dos principais problemas da direita na Fran\u00e7a, pois usa o enfoque utilitarista dessa ideologia, os imigrantes s\u00e3o fant\u00e1sticos. Rendem de uma maneira enorme porque permitem preencher de forma \u00e1gil e imediata as necessidades do mercado, destacou. Na Fran\u00e7a, os maiores empregadores de m\u00e3o-de-obra estrangeira ilegal s\u00e3o os contratistas das grandes obras, como redes de autoestradas ou est\u00e1dios monumentais. Dali deriva que o pr\u00f3prio Estado franc\u00eas seja um grande empregador atrav\u00e9s das licita\u00e7\u00f5es para esses centros esportivos ou para os trens de alta velocidade, explicou o pesquisador.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o trabalho prec\u00e1rio dos imigrantes, as deplor\u00e1veis condi\u00e7\u00f5es de alojamento em que vivem e os baixos sal\u00e1rios predominantes asseguram a rentabilidade das propriedades agr\u00edcolas, em sua maioria latif\u00fandios do sul da Fran\u00e7a, na zona de Bocas do R\u00f3dano, e de Andaluzia, na Espanha, disse Barnardot durante a manifesta\u00e7\u00e3o denominada O Outro Davos, que aconteceu no final de semana em Zurique. Um imigrante senegal\u00eas, Spitou Mendy, que trabalha em agricultura intensiva do sul de Andaluzia e milita no Sindicato de Oper\u00e1rios do Campo (SOC), disse que na Espanha a precariedade trabalhista n\u00e3o se limita \u00e0s atividades rurais, compreendendo tamb\u00e9m todos os setores econ\u00f4micos. A mis\u00e9ria dos trabalhadores agr\u00edcolas \u00e9 indescrit\u00edvel, ressaltou.<\/p>\n<p>O SOC, contr\u00e1rio \u00e0s pol\u00edticas neoliberais dos sucessivos governos da Espanha, n\u00e3o recebe subven\u00e7\u00f5es do Estado que, por outro lado, beneficia os \u201cgrandes sindicatos tradicionais porque eles se dedicam aos assuntos pol\u00edticos\u201d, disse a entidade. Em outro aspecto, o mercado mundial para os imigrantes n\u00e3o se reduz \u00e0 agricultura ou \u00e0s obras p\u00fablicas gigantescas, tamb\u00e9m as presid\u00eancias particulares absorvem trabalhadoras, como explicou a soci\u00f3loga e ativista brit\u00e2nica Bridget Anderson. As quest\u00f5es de migra\u00e7\u00f5es e precariedade foram o centro da confer\u00eancia O Outro Davos, uma assembl\u00e9ia que a Attac Su\u00ed\u00e7a e outros grupos n\u00e3o-governamentais do pa\u00eds organizam todos os anos em oposi\u00e7\u00e3o ao FEM, que anualmente acontece nessa localidade tur\u00edstica.<\/p>\n<p>S\u00e3o os mesmos problemas que mobilizar\u00e3o as manifesta\u00e7\u00f5es contra o Grupo dos Oito pa\u00edses mais industrializados, que se reunir\u00e1 novamente em junho na localidade alem\u00e3 de Heiligendamm. Anderson observou que, enquanto os capitais de deslocam atr\u00e1s dos baixos sal\u00e1rios, a realidade f\u00edsica determina que a constru\u00e7\u00e3o, a agricultura, os empregos em casas particulares ou em outros numerosos servi\u00e7os n\u00e3o podem trasladar-se \u00e0s \u00e1reas de escassas remunera\u00e7\u00f5es. Por isso, o trabalhador barato vai at\u00e9 eles, afirmou. A especialista citou o exemplo das pequenas e m\u00e9dias empresas que carecem de recursos para deslocar sua produ\u00e7\u00e3o at\u00e9 as regi\u00f5es onde reside a m\u00e3o-de-obra mais econ\u00f4mica. Assim, a for\u00e7a de trabalho, depreciada, tanto a legal quando a ilegal, vai at\u00e9 elas, disse.<\/p>\n<p>Bernardot tamb\u00e9m se ocupa da outra face das migra\u00e7\u00f5es: o tratamento recebido pelos viajantes quando chegam ao territ\u00f3rio europeu e das centenas de campos ou centros onde s\u00e3o alojados antes de serem admitidos ou expulsos. O pesquisador afirma que na Europa ocorre um processo de luta e controle contra os estrangeiros que inclui a penaliza\u00e7\u00e3o e a militariza\u00e7\u00e3o dos imigrantes. Com esse objetivo, surgiram nos \u00faltimos 20 anos, e se multiplicaram pela Europa, os locais de confinamento, que, \u00e0s vezes, s\u00e3o chamados de campos, acrescentou.<\/p>\n<p>Localizam-se nas fronteiras da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia e \u201cagora cada vez mais ao norte da \u00c1frica\u201d, nos pa\u00edses considerados como ponto de partida ou de tr\u00e2nsito dos imigrantes rumo ao continente europeu. Esses lugares recebem nomes diferentes em cada pa\u00eds, mas, um fator comum a todos \u00e9 que somente alojam estrangeiros, nunca nativos ou cidad\u00e3os europeus. Al\u00e9m disso, os inclu\u00eddos nesses recintos n\u00e3o s\u00e3o considerados como indiv\u00edduos, mas como membros de um grupo. \u00c9 uma popula\u00e7\u00e3o considerada em conjunto por ser estrangeira, explicou Bernardot. N\u00e3o s\u00e3o o senhor X ou a senhoa Y, mas algu\u00e9m que pertence a um grupo visto coletivamente como uma amea\u00e7a, como um risco para a sociedade, acrescentou.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m existem estabelecimentos penitenci\u00e1rios que pouco a pouco s\u00e3o contaminados por essa t\u00e9cnica de controle e de luta contra a imigra\u00e7\u00e3o ilegal. \u00c9 o caso das pris\u00f5es francesas, mas, tamb\u00e9m da B\u00e9lgica, Alemanha ou Gr\u00e3-Bretanha. Uma parte cada vez mais importante das pessoas que se encontram nas pris\u00f5es europ\u00e9ias s\u00e3o de nacionalidade estrangeira. Para o pesquisador, isso demonstra a penaliza\u00e7\u00e3o dos estrangeiros, o aumento de suas pris\u00f5es, e, tamb\u00e9m, o fato de que cada vez mais as cadeias europ\u00e9ias servem concretamente de lugares de deten\u00e7\u00e3o oficiosa. Dessa maneira se confundem formas de viola\u00e7\u00e3o da lei que s\u00e3o muito diferentes, acrescentou Bernardot.<\/p>\n<p>A diversidade desses centros \u00e9 ainda mais complexa pelo fato de os lugares mencionados n\u00e3o serem facilmente identific\u00e1veis. N\u00e3o somente n\u00e3o s\u00e3o chamados de campos como, tamb\u00e9m, alguns at\u00e9 carecem de nome. Certo lugar na B\u00e9lgica se chama 127 Bis. \u00c9 um n\u00famero em uma rua que leva ao aeroporto, onde ficam os estrangeiros para que se preparem com a id\u00e9ia de serem enviados \u00e0 for\u00e7a a destinos variados. Mas, n\u00e3o apenas carecem de nome, ou de nomes variados que resultam eufemismos de seu funcionamento e de seus objetivos reais. E, al\u00e9m disso, esses lugares n\u00e3o se parecem com o que se imagina ser um campo, com vigias, corredores de seguran\u00e7a, c\u00e3es policiais, alambrados, entre outros sinais caracter\u00edsticos.<\/p>\n<p>Nada disso. S\u00e3o lugares que se confundem com o entorno arquitet\u00f4nico, porque se pode passar junto ao aeroporto sem percebe-los. Porque s\u00e3o um espa\u00e7o como qualquer outro. Uma porta, um funcion\u00e1rio, enquanto para tr\u00e1s pode haver tr\u00eas ou quatro fam\u00edlias cm seus filhos que esperam antes de serem expulsos ou autorizados a entrar no territ\u00f3rio, em condi\u00e7\u00f5es de higiene e salubridade catastr\u00f3ficas. O viajante ignora tudo, descreveu Bernardot. Quando cobrados, os poderes p\u00fablicos alegam objetivos humanit\u00e1rios ou sociais. Se essa popula\u00e7\u00e3o \u00e9 colocada nesses espa\u00e7os, \u00e9 para seu bem, afirmam. Eles poderiam ficar \u00e0 merc\u00ea dos traficantes de pessoas ou se perderem na natureza, argumentam. Ali, pelo contr\u00e1rio, est\u00e3o \u00e0 m\u00e3o para poderem ser levados \u00e0 fronteira ou expulsos.<\/p>\n<p>Em 2005, o comiss\u00e1rio da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia para pol\u00edticas de migra\u00e7\u00e3o, Gil Robles, exortou para que o texto das leis seja verdadeiramente aplicado, que as pessoas que devem passar pelos centros de espera ou de deten\u00e7\u00e3o, passem de fato. Est\u00e1 exig\u00eancia se relaciona com a atitude da policia francesa, que deixa muitos estrangeiros que tentam entrar clandestinamente no territ\u00f3rio nos barcos onde viajavam e transforma essas embarca\u00e7\u00f5es em lugares de deten\u00e7\u00e3o oficiosos. Robles disse que a aplica\u00e7\u00e3o da lei significa fazer com que os estrangeiros passem por esses centros de espera.<\/p>\n<p>Dessa forma os legaliza. Do contr\u00e1rio, n\u00e3o s\u00f3 se transforma os barcos em centros de espera como, tamb\u00e9m, se convertem os donos dessas embarca\u00e7\u00f5es, os armadores, em policiais de ocasi\u00e3o. E, mais grave ainda, como existem multas para os respons\u00e1veis pelos barcos quando s\u00e3o encontrados clandestinos a bordo, essas embarca\u00e7\u00f5es n\u00e3o chegam perto do porto. Isto significa com freq\u00fc\u00eancia que os imigrantes ilegais s\u00e3o desembarcados no mar, denunciou Bernardot. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Zurique, 23\/01\/2007 &ndash; H\u00e1 temas, como a precariedade trabalhista, os empregos irregulares, a desigualdade de g\u00eanero e as migra\u00e7\u00f5es, que brilham por sua aus\u00eancia nos debates entre governantes e empres\u00e1rios multinacionais que esta semana voltam a se reunir no F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial (FEM), na localidade su\u00ed\u00e7a de Davos. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/01\/mundo\/forum-economico-mundial-de-costas-para-campos-de-refugiado\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":86,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12,5,4,11],"tags":[18],"class_list":["post-2524","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-desenvolvimento","category-economia","category-mundo","category-politica","tag-europa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2524","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/86"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2524"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2524\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2524"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2524"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2524"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}