{"id":254,"date":"2005-01-27T00:00:00","date_gmt":"2005-01-27T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=254"},"modified":"2005-01-27T00:00:00","modified_gmt":"2005-01-27T00:00:00","slug":"direitos-humanos-as-multinacionais-devem-assumir-sua-responsabilidade-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/01\/mundo\/direitos-humanos-as-multinacionais-devem-assumir-sua-responsabilidade-social\/","title":{"rendered":"Direitos Humanos: As multinacionais devem assumir sua responsabilidade social"},"content":{"rendered":"<p>Londres, 27\/01\/2005 &ndash; Para lembrar o vig&eacute;simo anivers&aacute;rio do desastre de Bhopal, a Anistia Internacional publicou um informe que documenta a dif&iacute;cil situa&ccedil;&atilde;o das pessoas que continuam sofrendo de doen&ccedil;as cr&ocirc;nicas e debilitantes para as quais n&atilde;o h&aacute; tratamento eficaz. Mais de meio milh&atilde;o de pessoas foram afetadas e ainda se desconhece o n&uacute;mero real de mortos. A &uacute;nica fonte de &aacute;gua &agrave; qual t&ecirc;m acesso e se pode permitir &agrave;s comunidades afetadas continua contaminada, pois a empresa nunca limpou o local em Bhopal.<br \/> <!--more--> <br \/> Os esfor&ccedil;os das organiza&ccedil;&otilde;es de sobreviventes para conseguir uma repara&ccedil;&atilde;o adequada nos tribunais dos Estados Unidos e da &Iacute;ndia, at&eacute; agora n&atilde;o tiveram resultado. As multinacionais implicadas, Union Carbide Corporation (UCC) e Dow Chemicals (que assumiu a UCC em 2001) declararam publicamente que n&atilde;o t&ecirc;m nenhuma responsabilidade pelo vazamento de g&aacute;s e suas conseq&uuml;&ecirc;ncias, nem pela contamina&ccedil;&atilde;o procedente da f&aacute;brica. O desastre de Bhopal &eacute; uma clara demonstra&ccedil;&atilde;o do fracasso do direito internacional e nacional na hora de exigir que as empresas prestem conta dos abusos contra os direitos humanos.<br \/> Quando est&atilde;o em jogo os interesses econ&ocirc;micos, muitas empresas preferem correr o risco de sofrer acidentes e pagar multas ou indeniza&ccedil;&otilde;es por danos caso as coisas corram mal, em lugar de investir na prote&ccedil;&atilde;o de seus trabalhadores. Para o bem ou para o mal, as empresas multinacionais est&atilde;o em condi&ccedil;&otilde;es de influir enormemente nas vidas e nos direitos humanos de milh&otilde;es de pessoas. Enquanto se expande o processo de globaliza&ccedil;&atilde;o, se estende o poder das grandes empresas. As companhias transferem capital, m&atilde;o-de-obra, tecnologia e outros recursos baseando-se em fatores econ&ocirc;micos. O aspecto positivo &eacute; que as empresas proporcionam emprego a milhares de pessoas. O lado negativo &eacute; que diversas pr&aacute;ticas empresariais cotidianas podem desembocar em abusos contra os direitos humanos.<\/p>\n<p> As companhias podem cometer abusos com suas pr&aacute;ticas de contrata&ccedil;&atilde;o ou seus processos de produ&ccedil;&atilde;o, afetando negativamente os trabalhadores, as comunidades e o meio ambiente. As empresas tamb&eacute;m podem estar implicadas em abusos mediante sua associa&ccedil;&atilde;o com autoridades e for&ccedil;as de seguran&ccedil;a repressoras. Apesar disso, os transcendentais efeitos que t&ecirc;m sobre os direitos humanos, a maioria das corpora&ccedil;&otilde;es se op&otilde;e a qualquer iniciativa no sentido de impor regulamentos vinculantes. Entretanto, depois de v&aacute;rios esc&acirc;ndalos e pela press&atilde;o da opini&atilde;o p&uacute;blica, alguns setores empresariais elaboraram um c&oacute;digo de conduta volunt&aacute;rio para guiar sua atua&ccedil;&atilde;o em suas opera&ccedil;&otilde;es. Os c&oacute;digos de conduta volunt&aacute;rios carecem de autoridade legal e mecanismos de presta&ccedil;&atilde;o de contas.<\/p>\n<p> Embora as iniciativas existentes, como as Linhas Diretrizes da OCDE para Empresas Multinacionais, o Pacto Mundial e a Declara&ccedil;&atilde;o Tripartite de Princ&iacute;pios da OIT, sirvam para conscientizar sobre a responsabilidade social das empresas, n&atilde;o reduziram as conseq&uuml;&ecirc;ncias negativas da conduta empresarial. Na atual situa&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica, os sistemas nacionais n&atilde;o querem ou n&atilde;o podem exigir efetivamente responsabilidade das empresas que operam em seus respectivos pa&iacute;ses. Os governos temem que em uma economia globalizada, se houver um controle r&iacute;gido, os investidores estrangeiros partam. A complexa estrutura das multinacionais, com a sede central em um pa&iacute;s e subsidi&aacute;rias em opera&ccedil;&otilde;es em outros, cria obst&aacute;culos reais para que os tribunais locais exer&ccedil;am sua jurisdi&ccedil;&atilde;o sobre toda a empresa.<\/p>\n<p> Por exemplo, no Delta do N&iacute;ger e no Sud&atilde;o, informes recentes da Anistia Internacional mostram que exigir responsabilidades das multinacionais no &acirc;mbito nacional &eacute; dif&iacute;cil e freq&uuml;entemente ineficaz. As empresas devem agir dentro do contexto das leis internacionais de direitos humanos. Entretanto, est&atilde;o sendo elaboradas normas globais que regem o com&eacute;rcio e o investimento sem considerar seus efeitos nos direitos humanos. Se n&atilde;o, vejamos, os acordos obtidos entre cons&oacute;rcios que exploram grandes projetos e Estados que recebem investimentos estrangeiros, como o assinado entre o cons&oacute;rcio que explora o oleoduto Bac&uacute;-Tiflis-Ceyhan e o governo turco.<\/p>\n<p> Um relat&oacute;rio da Anistia Internacional mostrou que esses acordos criam de fato um &quot;corredor sem direitos&quot; para o oleoduto. O acordo amea&ccedil;a reduzir as normas existentes: ignora abertamente as obriga&ccedil;&otilde;es que exigem que o Estado turco intervenha preventivamente quando h&aacute; perigo para a vida, substituindo-as pela estipula&ccedil;&atilde;o mais indulgente de que a Turquia s&oacute; poder&aacute; intervir no projeto quando existir &quot;uma amea&ccedil;a substancial iminente&quot; para a seguran&ccedil;a. A Anistia Internacional considera que as Normas da ONU sobre as Responsabilidades das Empresas Transnacionais e outras Empresas Comerciais na Esfera dos Direitos Humanos s&atilde;o o passo l&oacute;gico na estrat&eacute;gia para ampliar a responsabilidade legal das empresas.<\/p>\n<p> Embora n&atilde;o sejam legalmente vinculantes, estas Normas constituem o primeiro documento completo que estabelece as responsabilidades das empresas em rela&ccedil;&atilde;o aos direitos humanos, baseando-se nas leis e normas internacionais existentes. Oferecem uma declara&ccedil;&atilde;o de princ&iacute;pios, n&atilde;o um contexto regulador detalhado, que permite que os governos nacionais e outros organismos os desenvolvam. As Normas deixam claro que os Estados t&ecirc;m a responsabilidade prim&aacute;ria da promo&ccedil;&atilde;o e prote&ccedil;&atilde;o dos direitos humanos, e estabelecem que, em virtude do direito internacional, as empresas tamb&eacute;m devem respeitar estes direitos.<br \/> As Normas da ONU n&atilde;o imp&otilde;em exig&ecirc;ncias injustificadas &agrave;s empresas. As leis inteligentes n&atilde;o s&oacute; limitam os abusos como tamb&eacute;m podem ter uma importante fun&ccedil;&atilde;o na promo&ccedil;&atilde;o de boas pr&aacute;ticas. E qual empresa alegaria que boas leis n&atilde;o s&atilde;o boas para a atividade empresarial? Embora algumas companhias estejam dispostas a submeter &aacute; prova a viabilidade das Normas, lamentavelmente h&aacute; outras empresas, bem como alguns governos, que reagem negativamente, atacando e menosprezando as Normas como uma restri&ccedil;&atilde;o a mais para as empresas. Para que as Normas sobrevivam a este ataque, todas as organiza&ccedil;&otilde;es defensoras dos direitos humanos devem apoi&aacute;-las. Devemos fazer campanha, apoiar e incentivar sua ado&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p> N&atilde;o nos enganemos. Chegar a um acordo sobre as Normas n&atilde;o ser&aacute; simples neste dif&iacute;cil per&iacute;odo de incerteza econ&ocirc;mica e pol&iacute;tica. Contudo, as empresas n&atilde;o podem evitar a responsabilidade nem serem testemunhas silenciosas de viola&ccedil;&otilde;es generalizadas de direitos humanos. Os direitos humanos n&atilde;o s&atilde;o um luxo para os bons tempos: devem ser respeitados e defendidos a todo momento, em todas as circunst&acirc;ncias e por todos os agentes, sejam estatais ou empresariais.<\/p>\n<p> (*) Irene Khan &eacute; secretaria-geral da Anistia Internacional.<\/p>\n<p> Esta coluna &eacute; parte da s&eacute;rie sobre Globaliza&ccedil;&atilde;o e Direitos Humanos, um esfor&ccedil;o conjunto entre a Dignity International (www.dignityinternational.org) e o Servi&ccedil;o de Colunistas da IPS.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Londres, 27\/01\/2005 &ndash; Para lembrar o vig&eacute;simo anivers&aacute;rio do desastre de Bhopal, a Anistia Internacional publicou um informe que documenta a dif&iacute;cil situa&ccedil;&atilde;o das pessoas que continuam sofrendo de doen&ccedil;as cr&ocirc;nicas e debilitantes para as quais n&atilde;o h&aacute; tratamento eficaz. 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