{"id":2599,"date":"2007-02-14T16:53:35","date_gmt":"2007-02-14T16:53:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2599"},"modified":"2007-02-14T16:53:35","modified_gmt":"2007-02-14T16:53:35","slug":"pena-de-morte-a-familia-do-condenado-vitima-invisivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/02\/mundo\/pena-de-morte-a-familia-do-condenado-vitima-invisivel\/","title":{"rendered":"Pena de morte: A fam\u00edlia do condenado, v\u00edtima invis\u00edvel"},"content":{"rendered":"<p>Nova York, 14\/02\/2007 &ndash; A imposi\u00e7\u00e3o da pena de morte tem graves efeitos na fam\u00edlia dos executados. <!--more--> O estigma \u00e9 transmitido de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. \u201cV\u00e3o matar o papai porque matou algu\u00e9m. Ent\u00e3o, quando o matarem, quem vamos matar?\u201d. Essa foi a pergunta que Christina Lawson ouviu de sua filha de 10 anos, enquanto as autoridades carcer\u00e1rias do Estado do Texas se preparavam para executar seu marido, David Martinez, em 2005.<\/p>\n<p>As execu\u00e7\u00f5es deixam confusos e traumatizados os filhos dos condenados. E todos seus familiares. Alguns acabam \u00e0 beira da insanidade mental, diz o informe \u201cCreating More Victims: How Executions Hurt the Families Left Behind\u201d (Criando mais v\u00edtimas: como as execu\u00e7\u00f5es afetam as fam\u00edlias que ficam para tr\u00e1s). O estudo foi publicado pela organiza\u00e7\u00e3o Fam\u00edlias de V\u00edtimas de Assassinatos, por Direitos Humanos (MVFHR), com sede no Estado de Massachusetts, que tamb\u00e9m representa os familiares dos condenados \u00e0 morte. \u201cAs fam\u00edlias dos executados tamb\u00e9m s\u00e3o v\u00edtimas\u201d, diz o informe.<\/p>\n<p>A dor de um grupo de sobreviventes n\u00e3o deveria se reparada causando dor a outro grupo de sobreviventes. A sociedade precisa abordar o dano emocional e f\u00edsico que sobrev\u00e9m nesses casos. \u201cDevemos parar de criar mais v\u00edtimas\u201d, disse \u00e0 IPS Robert Cushing, diretor-executivo da MVFHR. \u201cObviamente, h\u00e1 semelhan\u00e7as entre as experi\u00eancias dos que ficaram para tr\u00e1s depois de uma execu\u00e7\u00e3o e aqueles que sofreram outros tipos de perdas violentas, como a necessidade de enfrentar a dor e o trauma\u201d, acrescentou. Mas as consultas feitas com 36 fam\u00edlias para o informe da MVFHR tamb\u00e9m evidencia importantes diferen\u00e7as, afirmou.<\/p>\n<p>As fam\u00edlias dos executados sofrem \u201cvergonha, um isolamento cada vez maior e sentimentos de fracasso pessoal\u201d, explicou Cushing. Eles podem sentir-se respons\u00e1veis pelos crimes dos condenados ou por n\u00e3o terem conseguido salva-los da execu\u00e7\u00e3o. A educadora Janis Gay, cujo av\u00f4 Alex Kels foi enforcado em 1924 na pris\u00e3o californiana de Folson, confirmou esse sofrimento \u00e0 IPS. \u201cAs pessoas acreditam que a viol\u00eancia acabe com a execu\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o \u00e9 assim. Como em qualquer assassinato, existe uma fam\u00edlia destru\u00edda, com o impacto adicional de que fica sufocada pela vergonha\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>A promissora carreira da m\u00e3e de Janis Gay como escritora foi interrompida pela depress\u00e3o. Seu irm\u00e3o morreu por causas relacionadas com o alcoolismo. Todo contato dos filhos e netos de Kels com os sete irm\u00e3os e irm\u00e3s do executado foi rompido para sempre. O trauma pode ser transmitido de uma gera\u00e7\u00e3o a outra. Gay, que dirige a organiza\u00e7\u00e3o Fam\u00edlias de V\u00edtimas de Assassinatos pela Reconcilia\u00e7\u00e3o, diz ser uma das poucas felizardas p\u00f4de pagar uma terapia psicoanalitica para enfrentar sua situa\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 imposs\u00edvel encontrar apoio. N\u00e3o tem ningu\u00e9m com quem falar, ningu\u00e9m que compreenda. \u00c0s fam\u00edlias das v\u00edtimas de um crime s\u00e3o oferecidas comida e assist\u00eancia psicol\u00f3gica antes e depois da execu\u00e7\u00e3o. Mas, para as fam\u00edlias do executado n\u00e3o h\u00e1 nada\u201d, contou.<\/p>\n<p>O informe da MVFHR exp\u00f5e outros exemplos de doen\u00e7as mentais sofridas por familiares de executados. Misty McWee tinha 14 anos quando soube que seu pa\u00eds era acusado de assassinato, e 28 quando a execu\u00e7\u00e3o se concretizou. Perto do primeiro anivers\u00e1rio da morte de seu pai entrou em profunda depress\u00e3o, tentou suicidar-se e foi hospitalizado. \u201cSenti que a execu\u00e7\u00e3o do meu pai e minha tentativa de suic\u00eddio tinham liga\u00e7\u00e3o\u201d, contou aos investigadores da MVFHR. \u201cN\u00e3o me importava o que aconteceria. Senti que deveria ir com ele\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>\u201cPor que ningu\u00e9m nos ajudou a sobreviver a isto? Quando entr\u00e1vamos no tribunal, as pessoas nos olhavam com desprezo, somente porque \u00e9ramos familiares de nosso pai. Uma pergunta: o que fizemos, como filhos, para merecer isso?\u201d, acrescentou. \u201cH\u00e1 muito para se tentar compreender, e n\u00e3o ajuda ter outras pessoas julgando algu\u00e9m. As pessoas consideram que toda a fam\u00edlia deve ser m\u00e1\u201d, disse McWee.<\/p>\n<p>\u201cO problema \u00e9 que os sobreviventes n\u00e3o s\u00e3o reconhecidos como v\u00edtimas. N\u00e3o existem grupos de apoio \u00e0s fam\u00edlias das v\u00edtimas, nem servi\u00e7os psicol\u00f3gicos dispon\u00edveis para as crian\u00e7as que ficam para tr\u00e1s. Ningu\u00e9m sabe onde est\u00e3o. Levam vidas an\u00f4nimas\u201d, disse Cushing \u00e0 IPS. A MVFHR exige a realiza\u00e7\u00e3o de mais estudos a respeito. \u201cDesafiamos a comunidade de sa\u00fade mental a reconhecer que estas v\u00edtimas existem, e, tamb\u00e9m, que reconhe\u00e7am a qualidade \u00fanica de suas experi\u00eancias, com o objetivo de planejar alternativas apropriadas de tratamento para elas\u201d, acrescentou Cushing.<\/p>\n<p>A MVFHR recomendou que os efeitos psicol\u00f3gicos a curto e longo prazos da execu\u00e7\u00e3o na fam\u00edlia dos condenados sejam inclu\u00eddos na forma\u00e7\u00e3o de trabalhadores sociais, psic\u00f3logos cl\u00ednicos, especialistas em traumas e outros profissionais que possam entrar em contato com essas fam\u00edlias. A organiza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m exorta os legisladores a darem um tratamento legal equitativo \u00e0s fam\u00edlias dos executados e \u00e0s das v\u00edtimas de assassinato. Todas elas deveriam ter acesso a assist\u00eancia e apoio, inclusive ajuda financeira para pagar tratamento m\u00e9dico e assessoramento em mat\u00e9ria de sa\u00fade mental e funerais, disse Cushing.<\/p>\n<p>A MVFHR tamb\u00e9m reclama que o sofrimento da fam\u00edlia dos executados seja considerado em um contexto de direitos humanos, mais do que de justi\u00e7a penal. Os familiares merecem prote\u00e7\u00e3o, segundo a Declara\u00e7\u00e3o de Princ\u00edpios Fundamentais de Justi\u00e7a para as V\u00edtimas de Crimes e do Abuso de Poder, aprovada pela Assembl\u00e9ia Geral da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas em 1985.<\/p>\n<p>A Declara\u00e7\u00e3o define como v\u00edtimas quem experimentou \u201cdanos f\u00edsicos ou mentais, sofrimento emocional, perda econ\u00f4mica ou substancial impacto sobre seus direitos fundamentais\u201d. Estas v\u00edtimas \u201cdeveriam ser tratadas com compaix\u00e3o e respeito por sua dignidade, e receber a necess\u00e1ria assist\u00eancia material, m\u00e9dica, psicol\u00f3gica e social. A lideran\u00e7a deve partir da ONU. Este \u00e9 um problema de direitos humanos internacionais\u201d, concluiu Cushing. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nova York, 14\/02\/2007 &ndash; A imposi\u00e7\u00e3o da pena de morte tem graves efeitos na fam\u00edlia dos executados. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/02\/mundo\/pena-de-morte-a-familia-do-condenado-vitima-invisivel\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":986,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[22],"class_list":["post-2599","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mundo","tag-pena-de-morte"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2599","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/986"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2599"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2599\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2599"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2599"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2599"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}