{"id":260,"date":"2005-01-27T00:00:00","date_gmt":"2005-01-27T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=260"},"modified":"2005-01-27T00:00:00","modified_gmt":"2005-01-27T00:00:00","slug":"mundo-um-destino-indivisvel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/01\/mundo\/mundo-um-destino-indivisvel\/","title":{"rendered":"Mundo: Um destino indivis&iacute;vel"},"content":{"rendered":"<p>Bras&iacute;lia, 27\/01\/2005 &ndash; A met&aacute;fora do s&eacute;culo assumiu propor&ccedil;&otilde;es devastadoras nas ondas gigantescas que invadiram o sul da &Aacute;sia no final de 2004. Uma voragem de &aacute;gua nos fez recordar que na hist&oacute;ria, como na geografia, n&atilde;o h&aacute; destinos isolados nem limites que n&atilde;o sejam comuns. A nova geopol&iacute;tica da exist&ecirc;ncia humana revela uma capacidade in&eacute;dita para lutar pelos grandes interesses coletivos, exigir respostas decididas, solid&aacute;rias e coordenadas. Por&eacute;m, n&atilde;o se trata de opor um ponto de vista aut&aacute;rquico e isolacionista &agrave;s fronteiras expandidas pela globaliza&ccedil;&atilde;o, mas de revestir suas bordas com a converg&ecirc;ncia da riqueza e dos direitos, reafirmando a voca&ccedil;&atilde;o humana de economia e de progresso.<br \/> <!--more--> <br \/> A partir dessa perspectiva renovada devemos examinar outra devasta&ccedil;&atilde;o nas estat&iacute;sticas destes tempos: um terremoto silencioso se propaga desde as profundezas da desigualdade planet&aacute;ria e nos reitera o desafio de converter a coopera&ccedil;&atilde;o no grande abrigo dos povos no s&eacute;culo XXI. Abund&acirc;ncia e injusti&ccedil;a s&atilde;o os tra&ccedil;os marcantes do s&eacute;culo XX. Nos &uacute;ltimos 40 anos o PIB mundial duplicou, enquanto a desigualdade econ&ocirc;mica entre o centro e a periferia do planeta triplicou. Os 25% dos mais ricos consomem 80% dos recursos dispon&iacute;veis, enquanto quase dois bilh&otilde;es de pessoas subsistem abaixo da linha da pobreza, com menos de dois d&oacute;lares por dia. As economias industrializadas gastam US$ 900 bilh&otilde;es para proteger suas fronteiras, mas dedicam menos de US$ 60 bilh&otilde;es &agrave;s na&ccedil;&otilde;es pobres, onde a fome &eacute; a principal arma de destrui&ccedil;&atilde;o em massa: mata 11 crian&ccedil;as por minuto, 24 mil pessoas por dia, o equivalente a um tsunami por semana.<\/p>\n<p> Aterroriza a id&eacute;ia de uma civiliza&ccedil;&atilde;o que despeja ondas de morte sobre sua pr&oacute;pria inf&acirc;ncia. Se n&atilde;o se conseguir deter o aumento da desigualdade, se as Metas de Desenvolvimento do Mil&ecirc;nio n&atilde;o forem cumpridas, isto significar&aacute; a primeira grande derrota humanit&aacute;ria deste s&eacute;culo. Para romper a injusti&ccedil;a &eacute; necess&aacute;rio sacudir a indiferen&ccedil;a. O encontro contra a fome e a pobreza, que reuniu uma centena de pa&iacute;ses e dezenas de chefes de governo na ONU, em setembro de 2003, faz parte desta empreitada coletiva. A organiza&ccedil;&atilde;o dos pa&iacute;ses pobres em blocos regionais &eacute; outro esfor&ccedil;o para incorporar a energia do com&eacute;rcio mundial &agrave; luta contra a desigualdade.<\/p>\n<p> Antes de tudo, &eacute; necess&aacute;rio reformar a hierarquia das institui&ccedil;&otilde;es multilaterais. Para que os pa&iacute;ses pobres possam colocar a luta pelo desenvolvimento nas prioridades da agenda global &eacute; preciso aprofundar a democracia nos centros de poder. A reforma da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas, e em particular do seu Conselho de Seguran&ccedil;a, fazem parte dessa agenda. Mas a linha de desigualdade n&atilde;o ser&aacute; alterada enquanto o poder pol&iacute;tico continuar congelado em um sistema financeiro que eterniza as rela&ccedil;&otilde;es prevalecentes. Quarenta por cento do poder de decis&atilde;o do Banco Mundial pertencem aos sete pa&iacute;ses mais ricos. Cinco economias centrais ret&ecirc;m 40% dos votos do Fundo Monet&aacute;rio Internacional, enquanto 23 na&ccedil;&otilde;es africanas prostradas pela fome t&ecirc;m 1%.<\/p>\n<p> A solidariedade com a vida deve sempre superar o chamado da morte. As d&iacute;vidas devem ser honradas, mas seu pagamento n&atilde;o pode significar a eutan&aacute;sia do devedor. O excedente financeiro de riqueza tem que considerar o d&eacute;ficit social que aflige tr&ecirc;s quartos da humanidade. Isto n&atilde;o se enquadra no automatismo de alguma f&oacute;rmula cont&aacute;bil. Trata-se, na realidade, da grande a&ccedil;&atilde;o renovadora que se espera da democracia neste s&eacute;culo: que a justi&ccedil;a social crie a nova fronteira da soberania no espa&ccedil;o globalizado. A reacomoda&ccedil;&atilde;o da esfera nacional do desenvolvimento com a dimens&atilde;o global da economia converge assim para o territ&oacute;rio da cidadania, emprestando atualidade renovada &agrave;s palavras do poeta Jos&eacute; Mart&iacute;: p&aacute;tria &eacute; humanidade em ponto pequeno. As necessidades hist&oacute;ricas de cada pa&iacute;s encerram, portanto, um componente universal avesso a panac&eacute;ias desagregadoras que reduzem a humanidade, e os povos, a uma abstra&ccedil;&atilde;o desprez&iacute;vel. <\/p>\n<p> A efici&ecirc;ncia desprovida de valores despojou o idioma econ&ocirc;mico da linguagem dos direitos humanos. A tr&aacute;gica ilus&atilde;o dos anos 90, com a aposta desenfreada na auto-sufici&ecirc;ncia tecnol&oacute;gica e na livre circula&ccedil;&atilde;o de capitais, decretou a irrelev&acirc;ncia do debate sobre o desenvolvimento. Por isso, devemos agora reafirmar a idoneidade dos fundos p&uacute;blicos para a recomposi&ccedil;&atilde;o solid&aacute;ria da sociedade e para promover o crescimento. Trata-se, em muitos casos, de resgatar os fundamentos da vida comunit&aacute;ria, como o direito &agrave; alimenta&ccedil;&atilde;o, &agrave; inf&acirc;ncia e &agrave; velhice, que s&atilde;o as vias de inser&ccedil;&atilde;o afirmativa de um povo no espa&ccedil;o globalizado.<\/p>\n<p> A luta internacional contra a fome e o programa Fome Zero, no Brasil, s&atilde;o o resultado dessa convic&ccedil;&atilde;o estrat&eacute;gica. O programa Bolsa Fam&iacute;lia j&aacute; garante uma renda m&iacute;nima a 60% das fam&iacute;lias pobres. &Eacute; o maior programa de transfer&ecirc;ncia da renda na Am&eacute;rica Latina, que chega a 6.571.830 lares. As 20 milh&otilde;es de pessoas beneficiadas por este programa incluem 15 milh&otilde;es de crian&ccedil;as que freq&uuml;entam a escola, como contrapartida exigida pelo governo. No final de 2006, o Bolsa Fam&iacute;lia atender&aacute; mais de 11 milh&otilde;es de fam&iacute;lias, atingindo a totalidade dos pobres ou extremamente pobres no Brasil.<\/p>\n<p> A mesma preocupa&ccedil;&atilde;o orienta outras iniciativas de meu governo, como a promulga&ccedil;&atilde;o do Estatuto do Idoso, o fortalecimento da agricultura familiar, a reforma agr&aacute;ria produtiva, a massifica&ccedil;&atilde;o do microcr&eacute;dito e as pol&iacute;ticas afirmativas que abrem a universidade &agrave; juventude pobre e negra. O caminho necess&aacute;rio n&atilde;o &eacute; o que est&aacute; pronto, mas o que se est&aacute; construindo e ele deve ser ampliado e aprofundado. Vivemos um tempo de possibilidades humanas incontrast&aacute;veis. Nenhum pretexto utilizado para evitar que se empreste fisionomia e movimento &agrave;s grandes esperan&ccedil;as trazidas do passado encontra justificativa tecnol&oacute;gica ou financeira neste amanhecer do s&eacute;culo XXI. E onde surge uma dificuldade, se imp&otilde;e o di&aacute;logo para repor a condi&ccedil;&atilde;o humana na condu&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria.<\/p>\n<p> Este plano inclui a tarefa de discutir pontos de poss&iacute;vel interesse comum entre Davos e Porto Alegre. N&atilde;o se trata de pedir a ningu&eacute;m que deixe de ser quem &eacute;, mas de estabelecer um elo entre comunidades unidas pelo indivis&iacute;vel destino humano. N&atilde;o se deve temer a palavra justa nem o interlocutor necess&aacute;rio. Mais do que nunca, outro mundo &eacute; poss&iacute;vel, e qualquer forma de isolamento, bem como todo tipo de auto-sufici&ecirc;ncia, ser&aacute; derrotada em um tempo em que o desejo de justi&ccedil;a &eacute; t&atilde;o forte quanto o poder da democracia para realiz&aacute;-la. (IPS\/Envolverde) <\/p>\n<p> (*) Luiz In&aacute;cio Lula da Silva &eacute; presidente do Brasil.<\/p>\n<p> Esta coluna &eacute; parte da s&eacute;rie sobre Globaliza&ccedil;&atilde;o e Direitos Humanos, um esfor&ccedil;o conjunto entre a Dignity International (www.dignityinternational.org) e o Servi&ccedil;o de Colunistas da IPS.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bras&iacute;lia, 27\/01\/2005 &ndash; A met&aacute;fora do s&eacute;culo assumiu propor&ccedil;&otilde;es devastadoras nas ondas gigantescas que invadiram o sul da &Aacute;sia no final de 2004. 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Por&eacute;m, n&atilde;o se trata de opor um ponto de vista aut&aacute;rquico e isolacionista &agrave;s fronteiras expandidas pela globaliza&ccedil;&atilde;o, mas de revestir suas bordas com a converg&ecirc;ncia da riqueza e dos direitos, reafirmando a voca&ccedil;&atilde;o humana de economia e de progresso.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/01\/mundo\/mundo-um-destino-indivisvel\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":421,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-260","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/260","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/421"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=260"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/260\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=260"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=260"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=260"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}