{"id":2613,"date":"2007-02-22T11:39:34","date_gmt":"2007-02-22T11:39:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2613"},"modified":"2007-02-22T11:39:34","modified_gmt":"2007-02-22T11:39:34","slug":"energia-america-do-sul-dependencia-nao-integracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/02\/america-latina\/energia-america-do-sul-dependencia-nao-integracao\/","title":{"rendered":"Energia-Am\u00e9rica do Sul: Depend\u00eancia, n\u00e3o integra\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 22\/02\/2007 &ndash; A produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de energia n\u00e3o necessariamente incentiva a integra\u00e7\u00e3o entre pa\u00edses pobres da Am\u00e9rica do Sul, mas uma rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia, com disputas, ressentimentos e afastamento entre os povos. <!--more--> O fen\u00f4meno oferece fortes argumentos para formadores de opini\u00e3o antiimperialistas, ou imperialistas, segundo o caso. \u201cN\u00e3o somos os imperialistas que alguns dizem que somos. Tampouco hegem\u00f4nicos, como alguns querem que sejamos\u201d, disse o Presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, ao anunciar o acordo que aumenta o pre\u00e7o do g\u00e1s natural importado da Bol\u00edvia, assinado na quinta-feira passada com seu colega boliviano, Evo Morales. Mas, n\u00e3o h\u00e1 rem\u00e9dio.<\/p>\n<p>Por um lado, uma posi\u00e7\u00e3o flex\u00edvel do Brasil em rela\u00e7\u00e3o aos vizinhos intensifica no pa\u00eds o clamor de cr\u00edticos que acusam o governo de seguir uma pol\u00edtica externa equivocada, de indevidas concess\u00f5es a governos \u201cpopulistas\u201d e de ren\u00fancia aos interesses nacionais. De outro, a satisfa\u00e7\u00e3o das demandas desses cr\u00edticos internos alimenta denuncias \u201ccontra o imperialismo brasileiro\u201d a partir do exterior. A energia \u00e9 o item mais delicado. A integra\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica continua presente na ret\u00f3rica, mas, contradiz a realidade.<\/p>\n<p>O g\u00e1s natural se converteu em um a\u00e7oite para o governo \u201cirm\u00e3o\u201d de Evo Morales, a quem Lula e o Partido dos Trabalhadores apoiaram sem vacilar at\u00e9 sua consagra\u00e7\u00e3o nas urnas, em dezembro de 2005. O mais popular aspirante \u00e0 Presid\u00eancia para as elei\u00e7\u00f5es de abril de 2008 no Paraguai, o ex-bispo cat\u00f3lico Fernando Lugo, defende a revis\u00e3o do tratado assinado em 1973 que rege a gigantesca hidrel\u00e9trica de Itaipu, inaugurada em 1984, na fronteira. Segundo a iniciativa de Lugo, o pre\u00e7o da eletricidade que o Paraguai vende ao Brasil seria multiplicado por sete.<\/p>\n<p>Itaipu \u00e9 compartilhada em suposta igualdade. A cada pa\u00eds corresponde a metade da energia gerada, mas o Paraguai consome apenas 5% de sua parte e exporta o restante ao Brasil, pois o tratado pro\u00edbe a venda a terceiros pa\u00edses. Lugo n\u00e3o \u00e9 o primeiro paraguaio que acusa o Brasil de pagar muito barato pela energia, sugerindo a exist\u00eancia de rela\u00e7\u00f5es imperialistas. \u00c9 \u201cum pre\u00e7o de custo\u201d, que, para ser justo, deveria ser o de mercado, sete vezes superior, segundo o poss\u00edvel candidato. Sua vit\u00f3ria criaria novos problemas para Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Os 14 mil megawatts de Itaipu representam cerca de 15% da capacidade de gera\u00e7\u00e3o em um Brasil \u00e1vido por energia para sustentar o crescimento econ\u00f4mico, o qual pretende aumentar 5% ao ano, para afastar o risco de apag\u00f5es como o de 2001. o Brasil depende da eletricidade Paraguai e encarec\u00ea-la n\u00e3o \u00e9 uma alternativa aceit\u00e1vel para a popula\u00e7\u00e3o, que suporta o custo crescente da energia, nem para a ind\u00fastria, que tenta sobreviver com uma competitividade golpeada pela valoriza\u00e7\u00e3o do real. Por\u00e9m, a energia de Itaipu e o g\u00e1s natural representam oportunidades singulares para tirar da extrema pobreza milh\u00f5es de paraguaios e bolivianos.<\/p>\n<p>Um discurso com a inten\u00e7\u00e3o de aumentar o pre\u00e7o da energia vendida ao Brasil tem for\u00e7a eleitoral. Isso constitui uma press\u00e3o adicional para os governantes de esquerda ou direita desses pa\u00edses pobres e de limitadas possibilidades econ\u00f4micas. A depend\u00eancia do g\u00e1s natural boliviano ficou dram\u00e1tica para o Brasil depois da nacionaliza\u00e7\u00e3o hidrocarbonetos decidida por Morales no dia 1\u00ba de maio de 2006. A quantia de g\u00e1s importado chegou a 26 milh\u00f5es de metros c\u00fabicos di\u00e1rios no ano passado, a metade do consumo brasileiro. Esse produto abastece milhares de ind\u00fastrias no centro e sul do Pa\u00eds, bem como muitas centrais termoel\u00e9tricas consideradas indispens\u00e1veis no plano energ\u00e9tico nacional.<\/p>\n<p>O aumento de pre\u00e7os que resultar\u00e1 dos acordos da semana passada em Bras\u00edlia, estimado em 6%, preocupa a ind\u00fastria da cer\u00e2mica, uma atividade que depende do g\u00e1s natural. Em Santa Catarina, empres\u00e1rios do setor pensam em acelerar estudos para a produ\u00e7\u00e3o de g\u00e1s a partir do carv\u00e3o mineral, abundante no Estado. Mas, trata-se de uma alternativa de muito longo prazo. Muitas termoel\u00e9tricas deixaram de operar por falta de combust\u00edvel. A Petrobras, que assinou o contrato para importar g\u00e1s boliviano e construiu o gasoduto entre os dois pa\u00edses, com 3.150 quil\u00f4metros de extens\u00e3o, acelerou seus planos de extrair mais g\u00e1s natural em territ\u00f3rio brasileiro.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a auto-sufici\u00eancia nacional somente ser\u00e1 alcan\u00e7ada na pr\u00f3xima d\u00e9cada, na melhor das hip\u00f3teses, ou ser\u00e1 inating\u00edvel, na pior, sustentada por muitos especialistas. Enquanto isso, o g\u00e1s boliviano abastece de argumentos os opositores da pol\u00edtica externa de Lula, que reclamam m\u00e3o dura com os vizinhos e apontam para os grandes mercados do Norte rico, especialmente o dos Estados Unidos. A rea\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica de Bras\u00edlia diante da nacionaliza\u00e7\u00e3o dos hidrocarbonos no ano passado foi reconhecer o direito soberano do pa\u00eds vizinho sobre seus recursos naturais. Isso desatou no Brasil uma onda de cr\u00edticas de claro tom imperialista. \u201cN\u00e3o podemos invadir a Bol\u00edvia\u201d, afirmou na \u00e9poca o chanceler Celso Amorim.<\/p>\n<p>O acordo assinado com Morales renovou as acusa\u00e7\u00f5es contra a suposta pol\u00edtica externa \u201cideol\u00f3gica\u201d de Lula. O Brasil aceitou pagar uma quantia adicional por gases \u201cnobres\u201d que v\u00eam misturados com o metano, componente b\u00e1sico do g\u00e1s natural. Trata-se do etano, butano, propano e gasolina natural, que t\u00eam maior poder calor\u00edfico e melhores pre\u00e7os no mercado. O governo brasileiro aceitou pagar o pre\u00e7o do mercado internacional por esses gases, o que representar\u00e1 uma renda adicional para a Bol\u00edvia de US$ 100 milh\u00f5es, segundo o ministro de Hidrocarbonos desse pa\u00eds, Carlos Villegas.<\/p>\n<p>No ano passado o Brasil pagou pelo g\u00e1s boliviano US$ 1,251 bilh\u00e3o. Al\u00e9m disso, o governo da Bol\u00edvia obteve um aumento de pre\u00e7os para outro contrato privado, pelo qual fornece g\u00e1s a uma termoel\u00e9trica de Cuiab\u00e1 (MS). Nesse caso, o aumento de US$ 1,19 por milh\u00e3o de unidades t\u00e9rmicas brit\u00e2nicas (BTU) para US$ 4,20 representar\u00e1 outros US$ 44 milh\u00f5es anuais de renda, segundo Villegas.<\/p>\n<p>Ser\u00e3o custos adicionais para o Brasil. O Pa\u00eds disp\u00f5e n\u00e3o conta com centrais para separar os diversos componentes do g\u00e1s natural, e se v\u00ea estimulado a implantar um p\u00f3lo g\u00e1s-qu\u00edmico na fronteira para aproveitar os gases nobres, em beneficio dos dois pa\u00edses. O prov\u00e1vel aumento dos pre\u00e7os do g\u00e1s e da eletricidade gerada em centrais termoel\u00e9tricas ampliara as cr\u00edticas dos por consumidores brasileiros contra a \u201cgenerosidade\u201d do governo em suas rela\u00e7\u00f5es com vizinhos mais pobres.<\/p>\n<p>Morales continua desenvolvendo \u201csua estrat\u00e9gia de enfraquecer a posi\u00e7\u00e3o brasileira\u201d, com \u201cconselhos e recursos do coronel Hugo Ch\u00e1vez e de Fidel Castro, de quem \u00e9 disc\u00edpulo dileto\u201d, escreveu o ex-chanceler Luiz Felipe Lampreia no jornal O Estado de S. Paulo na sexta-feira. O \u201ctoureiro de 1,2 metros\u201d, isto \u00e9, a Bol\u00edvia, continua deixando tonto o touro de 800 quilos, o Brasil, comparou Lampreia. O problema \u00e9 que, para \u201cn\u00e3o parecer imperialista e hegem\u00f4nico, o governo se esquece de proteger os interesses dos brasileiros\u201d, afirmou um editorial deste jornal conservador. Como tais interesses contrariam os de pa\u00edses fornecedores de insumos energ\u00e9ticos ao Brasil, tende a agravar-se a diverg\u00eancia de opini\u00f5es p\u00fablicas de pa\u00edses que Lula pretende integrar na Comunidade Sul-americana de Na\u00e7\u00f5es. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 22\/02\/2007 &ndash; A produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de energia n\u00e3o necessariamente incentiva a integra\u00e7\u00e3o entre pa\u00edses pobres da Am\u00e9rica do Sul, mas uma rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia, com disputas, ressentimentos e afastamento entre os povos. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/02\/america-latina\/energia-america-do-sul-dependencia-nao-integracao\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":131,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,12,10],"tags":[21],"class_list":["post-2613","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-desenvolvimento","category-energia","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2613","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/131"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2613"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2613\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2613"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2613"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2613"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}