{"id":2640,"date":"2007-03-01T17:09:04","date_gmt":"2007-03-01T17:09:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2640"},"modified":"2007-03-01T17:09:04","modified_gmt":"2007-03-01T17:09:04","slug":"bolivia-trinidad-esta-ilhada-pelo-rio-mamore","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/03\/america-latina\/bolivia-trinidad-esta-ilhada-pelo-rio-mamore\/","title":{"rendered":"Bol\u00edvia: Trinidad est\u00e1 ilhada pelo Rio Mamor\u00e9"},"content":{"rendered":"<p>Trinidad, Bol\u00edvia, 01\/03\/2007 &ndash; A capital do departamento boliviano de Beni, Trinidad, \u00e9 vista do ar rodeada por um imenso p\u00e2ntano, enquanto seus moradores esperam que n\u00e3o transbordem as contaminadas \u00e1guas que est\u00e3o a apenas 40 cent\u00edmetros da barreira defensiva e da avenida que circunda a cidade. <!--more--> A pequena pista do aeroporto de Trinidad, no amaz\u00f4nico nordeste boliviano, se assemelha a um centro militar de opera\u00e7\u00f5es com intensa atividade de pouso e decolagem de enormes aeronaves, como os H\u00e9rcules C-130 das for\u00e7as a\u00e9reas da Bol\u00edvia e da Venezuela, e os pequenos Cessna. Todos transportam rem\u00e9dios e alimentos para as 19 mil fam\u00edlias necessitadas do departamento de Beni, que tem 406.982 habitantes, dos quais 80. 613 moram em Trinidad.<\/p>\n<p>As \u00e1guas do Rio Mamor\u00e9, o mais importante da regi\u00e3o, transbordaram e invadiram as casas rurais de barro e folhas de palmeira e as grandes fazendas de pecu\u00e1ria, deixando dezenas de milhares de pessoas sem teto j\u00e1 h\u00e1 20 dias, embora a calma tenha retornado nesta quarta-feira junto com a luz do sol, ap\u00f3s semanas de chuvas torrenciais. O sorriso voltou ao rosto de Claribel Solano, aproximadamente 35 anos, que tr\u00eas semanas atr\u00e1s vivia na desaparecida Villa Monasterio e agora est\u00e1 instalada exatamente \u00e0s portas do aeroporto de Trinidad, junto \u00e0 avenida que circunda a cidade que, ao mesmo tempo, \u00e9 o dique de conten\u00e7\u00e3o das \u00e1guas.<\/p>\n<p>A cada instante passam aeronaves que chegam com grandes carregamentos de alimentos e roupa, mas sua presen\u00e7a e a de dezenas de pessoas evacuadas passou inadvertida at\u00e9 para os meios de comunica\u00e7\u00e3o. Solano tamb\u00e9m viu passar, pelo menos, quatro vezes a veloz caravana do presidente Evo Morales, que visitou as zonas inundadas. Por\u00e9m, os vidros escuros dos ve\u00edculos da caravana n\u00e3o permitiram ver as v\u00edtimas das \u00e1guas, que perguntam ao jornalista da IPS sobre o destino dos alimentos e de outras doa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cAqui \u2013 a poucos metros do aeroporto \u2013 n\u00e3o chega nada, por isso quero perguntar ao presidente Evo onde est\u00e3o os alimentos?\u201d, disse Juanito Flori\u00e1n, de 40 anos, pele morena, descal\u00e7o e usando velha camiseta escura e bermuda. Sua fam\u00edlia, integrada pela esposa e seis filhos, est\u00e1 instalada em uma barraca de pl\u00e1stico azul, com seus poucos bens espalhados pela ch\u00e3o de fina terra, \u00e0 beira do caminho. Nos bra\u00e7os de Marlene No\u00e9, uma jovem de cabelo negro, descansa sua filha de poucos anos, e seu olhar pede resposta para o drama, hoje amenizado por sorrisos, brincadeiras e alguma esperan\u00e7a pela volta do sol, com seus 31 graus de temperatura.<\/p>\n<p>Solano n\u00e3o perdeu o entusiasmo, responde com sorrisos e continua trabalhando na venda de tortas, empanadas e alguns refrescos feitos \u00e0 base de fruta seca. A imprensa preferiu voltar seu olhar para outras regi\u00f5es distantes, reservando para seus jornalistas intensas disputas para ocupar um dos poucos espa\u00e7os livres nos dois helic\u00f3pteros UH-Huey, emprestados pela For\u00e7a A\u00e9rea argentina para sobrevoar as zonas devastadas. Nesta quarta-feira, o governo declarou o \u201cestado de desastre\u201d para tr\u00eas prov\u00edncias de Beni.<\/p>\n<p>O presidente argentino, N\u00e9stor Kirchner, emprestou cinco helic\u00f3pteros. Algu\u00e9m comenta que na base norte-americana antidrogas na central Santa Cruz de la Sierra h\u00e1 cinco aparelhos do mesmo tipo com bandeira boliviana na cauda, mas ningu\u00e9m explica porque n\u00e3o est\u00e3o destinados aos trabalhos de resgate e assist\u00eancia \u00e0s v\u00edtimas. Alguns metros \u00e0 frente, no meio da estrada para chamar a aten\u00e7\u00e3o, tr\u00eas fam\u00edlias instalaram barracas de material imperme\u00e1vel doadas pelo governo peruano, mas est\u00e3o pendentes de receber algum alimento.<\/p>\n<p>Jes\u00fas Ib\u00e1\u00f1ez, homem de v\u00e1rios of\u00edcios como o de moto-taxista, lamenta ter perdido seus eletrodom\u00e9sticos, um computador e o aparelho de televis\u00e3o. A pouca distancia est\u00e3o seus m\u00f3veis estragados pela chuva. Enquanto Ib\u00e1\u00f1ez conversa com a IPS, uma mulher cai na \u00e1gua desde uma improvisada embarca\u00e7\u00e3o impulsionada com peda\u00e7os de madeira como se fossem remos. Alguns rapazes conseguem resgat\u00e1-la, e chega com alguma dificuldade \u00e0 margem do imenso lago formado pelo transbordamento do rio Mamor\u00e9, univa fonte da qual bebem as v\u00edtimas e destino final de animais mortos, esgotos e lixo s\u00f3lido.<\/p>\n<p>\u201cA poucos metros desta \u00e1gua est\u00e3o as lagoas de oxida\u00e7\u00e3o dos esgotos de Trinidad, e agora as duas \u00e1guas se juntam\u201d, disse uma mulher preocupada, enquanto seus filhos brincam no liquido escuro. Na pista militar de Trinidad, o diretor-executivo da Defesa Civil de Beni, coronel Alejandro N\u00fa\u00f1ez, cuida de cada detalhe dos despachos de doa\u00e7\u00f5es para popula\u00e7\u00f5es \u00e0s quais s\u00f3 se chega por ar. Com uniforme de combate, N\u00fa\u00f1ez comanda dezenas de soldados suarentos pelo trabalho de transportar nos ombros alimentos e roupa coletados no restante do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Sua experi\u00eancia nas opera\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia, durante o terremoto de maio de 1998 que afetou parte do departamento de Cochabamba, lhe deixou algumas li\u00e7\u00f5es e, por isso, \u00e9 detalhista ao registrar a entrega de doa\u00e7\u00f5es. At\u00e9 Trinidad chegaram cerca de 240 toneladas de alimentos doados por particulares e pelo Programa Mundial de Alimentos das Na\u00e7\u00f5es Unidas, aos quais se somam um cont\u00eainer com apetrechos m\u00e9dicos e rem\u00e9dios entregues pela organiza\u00e7\u00e3o internacional Vis\u00e3o Mundial, no valor de US$ 1,7 milh\u00e3o, mas a falta de vias de transporte imp\u00f5e limita\u00e7\u00f5es, diz N\u00fa\u00f1ez.<\/p>\n<p>A distribui\u00e7\u00e3o depende de um avi\u00e3o H\u00e9rcules com capacidade de 20 toneladas, dois avi\u00f5es Cessna, que podem levar meia tonelada cada um, e dois helic\u00f3pteros argentinos que carregam at\u00e9 uma tonelada de alimentos cada. A regi\u00e3o nordeste foi a mais atingida por chuvas torrenciais que caem desde dezembro por todo o pa\u00eds e atribu\u00eddas pelos especialistas ao peri\u00f3dico fen\u00f4meno clim\u00e1tico El Ni\u00f1o. Cerca de 350 mil pessoas ficaram desabrigadas e mais de 35 morreram.<\/p>\n<p>Nos rios, grandes embarca\u00e7\u00f5es da for\u00e7a naval deste pa\u00eds transportam at\u00e9 25 toneladas de doa\u00e7\u00f5es, mas a maior preocupa\u00e7\u00e3o de N\u00fa\u00f1z \u00e9 a provis\u00e3o de comida e rem\u00e9dios nos pr\u00f3ximos meses, quando as \u00e1guas baixarem e as pessoas voltarem \u00e0s suas terras com a expectativa de reconstruir suas casas. \u201cA provis\u00e3o de v\u00edveres est\u00e1 garantida para os pr\u00f3ximos 15 dias, desde que o anel de prote\u00e7\u00e3o n\u00e3o seja rompido pela \u00e1gua\u201d, acrescenta, enquanto ordena a entrega a bolsas de \u00e1gua purificada aos soldados extenuados. (IPS\/Envolverde)  <\/p>\n<p>(*) enviado especial<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trinidad, Bol\u00edvia, 01\/03\/2007 &ndash; A capital do departamento boliviano de Beni, Trinidad, \u00e9 vista do ar rodeada por um imenso p\u00e2ntano, enquanto seus moradores esperam que n\u00e3o transbordem as contaminadas \u00e1guas que est\u00e3o a apenas 40 cent\u00edmetros da barreira defensiva e da avenida que circunda a cidade. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/03\/america-latina\/bolivia-trinidad-esta-ilhada-pelo-rio-mamore\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,2,12],"tags":[21],"class_list":["post-2640","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-america-latina","category-desenvolvimento","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2640","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2640"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2640\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2640"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2640"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2640"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}