{"id":2697,"date":"2007-03-16T16:54:06","date_gmt":"2007-03-16T16:54:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2697"},"modified":"2007-03-16T16:54:06","modified_gmt":"2007-03-16T16:54:06","slug":"bolivia-o-drama-de-viver-atras-do-muro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/03\/america-latina\/bolivia-o-drama-de-viver-atras-do-muro\/","title":{"rendered":"Bol\u00edvia: O drama de viver atr\u00e1s do muro"},"content":{"rendered":"<p>Trinidad, Bol\u00edvia, 16\/03\/2007 &ndash; Na cidade boliviana de Trinidad, no leste, o anel de conten\u00e7\u00e3o das inunda\u00e7\u00f5es \u00e9 um muro que separa fam\u00edlias de rendas m\u00e9dias e modestas dos exclu\u00eddos que perderam quase tudo em uma das maiores inunda\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria deste pa\u00eds. <!--more--> O muro de conten\u00e7\u00e3o das \u00e1guas de rios que correm desde as cordilheiras ocidentais de mais de seis mil metros de altura at\u00e9 os vales \u00e9 uma estrada de contorno de 10 quil\u00f4metros e desde 1993 transformada na \u00fanica prote\u00e7\u00e3o para a capital do departamento de Beni, constru\u00edda sobre uma plan\u00edcie a 155 metros do n\u00edvel do mar e habitada por mais de 89 mil pessoas.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio da habitual \u00e9poca de chuva, no final de 2006, 51 pessoas morreram e mais de 70 mil fam\u00edlias ficaram desabrigadas em todo o pa\u00eds, segundo o \u00faltimo relat\u00f3rio fornecido \u00e0 IPS pelo diretor nacional de Defesa Civil, Gonzalo Lora. As chuvas e enchentes excepcionais se devem ao fen\u00f4meno clim\u00e1tico El Ni\u00f1o, no oceano Pac\u00edfico, desta vez mais grave na Bol\u00edvia. Nunca como agora o anel de prote\u00e7\u00e3o foi a linha divis\u00f3ria entre os danificados submersos em uma imensa lagoa e os habitantes protegidos em uma cidade sem grandes comodidades e afetada por apag\u00f5es e deficientes servi\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Em um dos pa\u00edses com menor renda da Am\u00e9rica do Sul no qual 67% de seus 9,6 milh\u00f5es de habitantes s\u00e3o pobres, Trinidad \u00e9 um exemplo de exclus\u00e3o social. Em uma jornada de pausa entre os tormentosos dias, v\u00e1rias fam\u00edlias v\u00e3o e v\u00eam desde a estrada protetora no penoso trabalho de resgatar os poucos bens que se encontram em casas e cho\u00e7as inundadas. O \u00fanico meio de acesso at\u00e9 suas casas \u00e9 uma canoa conduzida por quatro adolescentes que por momentos remam ou submergem para arrast\u00e1-la em meio \u00e0s enchentes.<\/p>\n<p>Enquanto o bote improvisado se aproxima de terra firme com sua carga de colchonetes forrados de pl\u00e1stico azul, sua propriet\u00e1ria, professora de oficio, cai na \u00e1gua contaminada e \u00e9 auxiliada pelos adolescentes para poder chegar \u00e0 margem. \u00c9 um dia ensolarado, e apesar da tristeza coletiva n\u00e3o se ouve lamentos e as pessoas desfrutam do lago criado em mais de um m\u00eas de intensas chuvas. \u201cSe n\u00e3o viu o que aconteceu com nossas casas, suba na canoa, \u00e9 muito segura, n\u00e3o vai cair. V\u00e1 e visite o bairro\u201d, diz uma vizinha, como um desafio, e os quatro adolescentes convidam a jornalista da IPS a embarcar e fazer a viagem.<\/p>\n<p>Um colorido letreiro de madeira colocado \u00e0 beira do caminho anuncia a Zona 6 de Agosto, data de funda\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, em 1825. A canoa balan\u00e7a e a borda est\u00e1 a apenas cerca de 10 cent\u00edmetros do n\u00edvel do lago. Um jorro de \u00e1gua entra no fundo por um pequeno buraco feito por um prego. O ac\u00famulo perigoso de \u00e1gua \u00e9 combatido por Rodolfo Vaca, que a retira com um peda\u00e7o de pl\u00e1stico como se fosse balde, mas ap\u00f3s meia hora o cansa\u00e7o toma conta do jovem de 17 anos.<\/p>\n<p>Seus companheiros, todos da mesma idade, fazem outras tarefas. Grover Moreno dirige o grupo, formado ainda por Alexander Morasima e Jes\u00fas Vaca, encarregados dos remos e do tim\u00e3o para atrav\u00e9s as vias fluviais que 15 dias atr\u00e1s eram ruas de terra cercadas de mato e altas \u00e1rvores. O formato c\u00fabico do bote chama a aten\u00e7\u00e3o, e Moreno explica: \u201cN\u00f3s fizemos esta canoinha com as t\u00e1buas que sobraram de v\u00e1rias constru\u00e7\u00f5es, mas faltou breu e por isso os buracos s\u00e3o fechados com peda\u00e7os de pano para n\u00e3o entrar \u00e1gua\u201d.<\/p>\n<p>Apenas acaba esta explica\u00e7\u00e3o, passa junto de n\u00f3s uma jovem e seu c\u00e3o flutuando sobre fr\u00e1geis madeiras \u00e0s quais foram presas garrafas pl\u00e1sticas de refrigerantes, transformadas em pequenas b\u00f3ias salva-vidas. Ent\u00e3o, ano h\u00e1 motivo para duvidar da solidez da nossa embarca\u00e7\u00e3o. \u201cAjudamos a recolher algumas coisas das casas inundadas porque n\u00e3o podemos carregar nos ombros j\u00e1 que a \u00e1gua chega at\u00e9 \u00e0 cabe\u00e7a e tentar caminhar no fundo escorregadio posso cair. Tamb\u00e9m ajudamos os moradores a resgatarem pequenas coisas\u201d, explica Moreno.<\/p>\n<p>A canoa passa perto de casas de barro e folhagens que v\u00e3o se desfazendo lentamente e de alguns autom\u00f3veis cujos propriet\u00e1rios n\u00e3o puderam salvar da inunda\u00e7\u00e3o. \u201cN\u00e3o chegou ajuda do resgate. Eles s\u00f3 foram nos bairros mais organizados\u201d, queixa-se Moreno. Ele perdeu \u201ca roupa, os sapatos e a comida. Tamb\u00e9m ficaram meus livros, o de \u00e1lgebra e outros. Tenho de voltar a trabalhar para poder compr\u00e1-los novamente\u201d, diz. Seus amigos perderam porcos, galinhas e frangos criados nos \u201ccanchones\u201d (quintais) de suas casas e \u201cque vendiam para ter seu dinheirinho\u201d, disseram.<\/p>\n<p>A nostalgia \u00e9 evidente nos olhos dos quatro jovens enquanto v\u00eaem passar casas de tijolo resistindo \u00e0 umidade e cho\u00e7as de palmeiras danificadas, ou janelas pelas quais se pode ver at\u00e9 ursinhos de pel\u00facia perfeitamente alinhados. A melhor recorda\u00e7\u00e3o de antes da inunda\u00e7\u00e3o foi \u201cum cozido de frango com os amigos no domingo, antes da chegada das \u00e1guas. Estava chovendo e hav\u00edamos ganho um campeonato de futebol, e no dia seguinte tudo ficou inundado\u201d, conta Moreno.<\/p>\n<p>Os jovens n\u00e3o escondem sua exclus\u00e3o por estarem fora do anel de prote\u00e7\u00e3o. \u201cOs que vivem dentro s\u00e3o os que t\u00eam dinheiro e o poder. Podem comprar uma casa melhor que n\u00e3o ser\u00e1 inundada\u201d. Na Zona 6 de Agosto \u201ca junta de moradores divide os terrenos e pagamos mensalidade de aproximadamente US$ 15. Os terrenos custam cerca de US$ 1.500 (dentro do anel o pre\u00e7o chega a US$ 10 mil)\u201d. A casa de Moreno era de madeira, \u201ccercada de t\u00e1buas dos lados, telhas, o mais simples. Era preciso muito esfor\u00e7o para que durasse\u201d, recorda.<\/p>\n<p>\u201cMeu quarto n\u00e3o era grande nem pequeno. Cabia uma pequena cama, outra para meu irm\u00e3o, minha mesa e um espa\u00e7o para estudar. Minha cama n\u00e3o tinha len\u00e7\u00f3is nem colch\u00e3o novo. S\u00f3 colch\u00e3o de palha, que \u00e9 muito barato\u201d, afirma. O jovem moreno lembra o melhor desse lugar: \u201cMeus livros, meus diplomas, certificados da Unidade Educacional San Vicente por ser o melhor aluno. Eram certificados por meu bom comportamento e por organizar grupos de amigos para fazer as tarefas, ajudar os jovens e organizar campeonatos esportivos\u201d. No futuro, \u201cviverei em meu bairro com meus amigos e vizinhos, fora do anel, e tenho esperan\u00e7a de que construam outro anel\u201d, conclui. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trinidad, Bol\u00edvia, 16\/03\/2007 &ndash; Na cidade boliviana de Trinidad, no leste, o anel de conten\u00e7\u00e3o das inunda\u00e7\u00f5es \u00e9 um muro que separa fam\u00edlias de rendas m\u00e9dias e modestas dos exclu\u00eddos que perderam quase tudo em uma das maiores inunda\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria deste pa\u00eds. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/03\/america-latina\/bolivia-o-drama-de-viver-atras-do-muro\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,2,12,5],"tags":[21],"class_list":["post-2697","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-america-latina","category-desenvolvimento","category-economia","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2697","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2697"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2697\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2697"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2697"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2697"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}