{"id":27,"date":"2005-01-18T00:00:00","date_gmt":"2005-01-18T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=27"},"modified":"2005-01-18T00:00:00","modified_gmt":"2005-01-18T00:00:00","slug":"o-segredo-do-modelo-nrdico-coisas-raras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/01\/mundo\/o-segredo-do-modelo-nrdico-coisas-raras\/","title":{"rendered":"O segredo do modelo n&oacute;rdico: Coisas raras"},"content":{"rendered":"<p>Arcada, 18\/01\/2005 &ndash; Em 2002, Clint Mathis, estrela do futebol dos Estados Unidos, anunciou que sua sele&ccedil;&atilde;o venceria o campeonato mundial. Era l&oacute;gico, era natural, como explicou, &quot;porque n&oacute;s somos o pa&iacute;s l&iacute;der em tudo&quot;. O pa&iacute;s l&iacute;der em tudo acabou em oitavo lugar. No futebol ocorrem coisas raras. Em um mundo organizado para a cotidiana confirma&ccedil;&atilde;o do poder dos poderosos, nada existe de mais raro do que a coroa&ccedil;&atilde;o dos humilhados e a humilha&ccedil;&atilde;o dos coroados, mas no futebol &agrave;s vezes se v&ecirc; essa raridade.<br \/> <!--more--> <br \/> Sem ir muito longe, em 2004 um clube palestino foi campe&atilde;o de Israel, pela primeira vez na hist&oacute;ria, e pela primeira vez na hist&oacute;ria um clube checheno foi campe&atilde;o na R&uacute;ssia. E na Olimp&iacute;ada da Gr&eacute;cia, a sele&ccedil;&atilde;o de futebol do Iraque, em plena guerra, venceu v&aacute;rias partidas e chegou a disputar as semifinais do torneio, de surpresa em surpresa, contra todo progn&oacute;stico e toda evid&ecirc;ncia, e foi a n&uacute;mero um no gosto popular.<\/p>\n<p> ****<\/p>\n<p> O clube &aacute;rabe Bnei Sakhnin e o clube checheno Terek Grozny, flamantes campe&otilde;es de Israel e da R&uacute;ssia, t&ecirc;m algumas coisas em comum com a sele&ccedil;&atilde;o nacional do Iraque. Trata-se de equipes que de alguma maneira representam povos que n&atilde;o t&ecirc;m o direito de ser o que querem ser, que sofrem a maldi&ccedil;&atilde;o de viverem submetidos a bandeiras alheias, despojados de sua soberania, bombardeados, humilhados, empurrados ao desespero.<\/p>\n<p> E como se isso fosse pouco, as tr&ecirc;s s&atilde;o equipes modestas, quase desconhecidas, sem nenhum jogador famoso, e pobres. Na realidade, nem mesmo possuem est&aacute;dio. Nunca jogam em casa. S&atilde;o equipes errantes, condenadas a jogar em terras estrangeiras e diante de arquibancadas vazias. Na aldeia de Sakhnin, na Galil&eacute;ia, nunca houve um est&aacute;dio ou algo semelhante, embora o governo israelense o tenha prometido v&aacute;rias vezes. O Terek jogava no est&aacute;dio de Grozny, que est&aacute; fechado desde que os independentistas chechenos colocaram ali uma bomba sob o assento do presidente imposto pelos russos.<\/p>\n<p> No Iraque s&oacute; h&aacute; campos de batalha. J&aacute; n&atilde;o restam campos de futebol. As tropas de ocupa&ccedil;&atilde;o, que a esta altura j&aacute; esqueceram os pretextos de sua invas&atilde;o criminosa, transformaram os espa&ccedil;os desportivos em hospitais ou cemit&eacute;rios. Onde estava o est&aacute;dio de Bagd&aacute; existe agora uma base militar que abriga tanques dos Estados Unidos. A sele&ccedil;&atilde;o iraquiana treinou em campos onde pastavam rebanhos de ovelhas.<\/p>\n<p> *****<\/p>\n<p> Um s&iacute;mbolo poderoso, um assunto misterioso: n&atilde;o se sabe porqu&ecirc;, embora n&atilde;o faltem teorias, mas o fato &eacute; que no mundo de nosso tempo muita gente encontra no futebol o &uacute;nico espa&ccedil;o de identidade no qual se reconhece, e o &uacute;nico no qual acredita de verdade. Seja como for, a dignidade coletiva tem muito a ver com a viagem de uma bola que anda pelos caminhos do ar.<\/p>\n<p> E n&atilde;o me refiro somente &agrave; comunh&atilde;o que a torcida celebra com seu clube a cada domingo das tribunas do est&aacute;dio, mas tamb&eacute;m e, sobretudo, a partida jogada na v&aacute;rzea, nas praias e nos poucos espa&ccedil;os p&uacute;blicos ainda n&atilde;o devorados pela urbaniza&ccedil;&atilde;o enlouquecida. Enrique Pichon-Rivi&egrave;re, psiquiatra argentino, ardente estudioso da dor humana, havia comprovado a efic&aacute;cia do futebol como terapia das patologias derivadas do desprezo e da solid&atilde;o. Esse esporte compartilhado, que se desfruta em equipe, cont&eacute;m uma energia que muito pode ajudar o desprezado a se querer e a salvar da solid&atilde;o os que parecem condenados ao isolamento perp&eacute;tuo.<\/p>\n<p> Nesse sentido, &eacute; muito reveladora a experi&ecirc;ncia na Austr&aacute;lia e na Nova Zel&acirc;ndia. Ali, as l&iacute;nguas nativas n&atilde;o conheciam a palavra &quot;suic&iacute;dio&quot;, pela simples raz&atilde;o de que o suic&iacute;dio n&atilde;o existia na popula&ccedil;&atilde;o abor&iacute;gene. Ap&oacute;s alguns s&eacute;culos de racismo e marginaliza&ccedil;&atilde;o, a violenta irrup&ccedil;&atilde;o da sociedade de consumo e seus implac&aacute;veis valores conseguiram que os ind&iacute;genas escolhessem se enforcar. Nos &uacute;ltimos anos, suas crian&ccedil;as e jovens registraram os &iacute;ndices de suic&iacute;dio mais altos do mundo.<\/p>\n<p> Diante desse panorama aterrador, de t&atilde;o profundas ra&iacute;zes, de ra&iacute;zes t&atilde;o quebradas, n&atilde;o h&aacute; f&oacute;rmulas m&aacute;gicas de cura. Mas em alguma coisa coincidem os testemunhos da linda gente que trabalha contra a morte. S&atilde;o surpreendentes os resultados desta terapia capaz de devolver os perdidos sentimentos de pertin&ecirc;ncia e fraternidade: o esporte, e sobretudo o futebol, &eacute; um dos poucos lugares que d&atilde;o ref&uacute;gio a quem n&atilde;o encontra lugar no mundo, e muito contribui para o restabelecimento dos la&ccedil;os solid&aacute;rios rompidos pela cultura da desvincula&ccedil;&atilde;o que hoje reina na Austr&aacute;lia, na Nova Zel&acirc;ndia e no mundo.<\/p>\n<p> *****<\/p>\n<p> N&atilde;o &eacute; um milagre qu&iacute;mico. Est&atilde;o dopados pelo entusiasmo e pela alegria. Melhor dito: dopadas. Os 11 jogadores de cada equipe s&atilde;o muito mais do que 11. Melhor dito: as 11 jogadoras. Neles, joga um gentio. Melhor dito: nelas. Estes s&atilde;o rituais de afirma&ccedil;&atilde;o dos humilhados. Melhor dito: das humilhadas. <\/p>\n<p> Pouco a pouco, o futebol das mulheres foi ganhando um espa&ccedil;o nos meios dedicados &agrave; divulga&ccedil;&atilde;o desse esporte de machos para machos, que n&atilde;o sabe o que fazer com esta imprevista invas&atilde;o de tantas senhoras e senhoritas.<\/p>\n<p> Em n&iacute;vel profissional, o desenvolvimento do futebol feminino encontra hoje em dia certa resson&acirc;ncia. Mas n&atilde;o encontra nenhum eco, ou desperta ecos inimigos, no jogo que se pratica pelo puro prazer de jogar. Na Nig&eacute;ria, a sele&ccedil;&atilde;o feminina &eacute; um orgulho nacional, disputa os primeiros lugares no mundo. Mas no norte mu&ccedil;ulmano os homens se op&otilde;em, porque o futebol convida as donzelas &agrave; deprava&ccedil;&atilde;o. Por&eacute;m, acabam por aceit&aacute;-lo, porque o futebol &eacute; um pecado que pode levar &agrave; fama e salvar a fam&iacute;lia da pobreza. Se fosse pelo ouro que o futebol profissional promete, os pais proibiriam essas roupas indecentes impostas por um sat&acirc;nico esporte que deixa as mulheres est&eacute;reis, por les&atilde;o de jogo ou castigo de Al&aacute;.<\/p>\n<p> Em Zanzibar e no Sud&atilde;o, os irm&atilde;os homens, guardi&otilde;es da honra da fam&iacute;lia, castigam com surras esta louca mania de suas irm&atilde;s que se julgam homens capazes de chutar uma bola e que cometem o sacril&eacute;gio de desnudar o corpo. O futebol, coisa de machos, nega &agrave;s mulheres campo de treinamento e de jogo. Os homens se negam a jogar contra as mulheres. Por respeito &agrave; tradi&ccedil;&atilde;o religiosa, dizem. Pode ser. Al&eacute;m disso, acontece que cada vez que jogam, perdem.<\/p>\n<p> Na Bol&iacute;via, do outro lado do mar, n&atilde;o h&aacute; problema. As mulheres jogam futebol, nos povoados do altiplano, sem tirarem suas numerosas saias. Colocam por cima uma camiseta colorida e saem fazendo gols. Cada partida &eacute; uma festa. O futebol &eacute; um espa&ccedil;o de liberdade aberto &agrave;s mulheres cheias de filhos, esmagadas pelo trabalho escravo na terra ou nas tecelagens, submetidas a freq&uuml;entes surras de seus maridos b&ecirc;bados. Jogam descal&ccedil;as. Cada equipe vencedora recebe como pr&ecirc;mio uma ovelha. A equipe derrotada, tamb&eacute;m. Estas mulheres silenciosas riem &agrave;s gargalhadas durante a partida e depois continuam morrendo de rir ao longo do banquete. Festejam juntas, vencedoras e vencidas. Nenhum homem se atreve a meter o nariz. (IPS\/Envolverde) <\/p>\n<p> (*) Eduardo Galeano &eacute; autor de As Veias Abertas da Am&eacute;rica Latina e Mem&oacute;rias do Fogo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Arcada, 18\/01\/2005 &ndash; Em 2002, Clint Mathis, estrela do futebol dos Estados Unidos, anunciou que sua sele&ccedil;&atilde;o venceria o campeonato mundial. Era l&oacute;gico, era natural, como explicou, &quot;porque n&oacute;s somos o pa&iacute;s l&iacute;der em tudo&quot;. O pa&iacute;s l&iacute;der em tudo acabou em oitavo lugar. No futebol ocorrem coisas raras. Em um mundo organizado para a cotidiana confirma&ccedil;&atilde;o do poder dos poderosos, nada existe de mais raro do que a coroa&ccedil;&atilde;o dos humilhados e a humilha&ccedil;&atilde;o dos coroados, mas no futebol &agrave;s vezes se v&ecirc; essa raridade.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/01\/mundo\/o-segredo-do-modelo-nrdico-coisas-raras\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":276,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-27","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/276"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}