{"id":2749,"date":"2007-04-02T17:30:44","date_gmt":"2007-04-02T17:30:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2749"},"modified":"2007-04-02T17:30:44","modified_gmt":"2007-04-02T17:30:44","slug":"biodiversidade-caos-nos-oceanos-por-falta-de-tubaroes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/04\/mundo\/biodiversidade-caos-nos-oceanos-por-falta-de-tubaroes\/","title":{"rendered":"Biodiversidade: Caos nos oceanos por falta de tubar\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>Toronto, 02\/04\/2007 &ndash; A cadeia alimentar dos oceanos est\u00e1 em colapso, segundo estudo publicado pela revista cient\u00edfica Science. A queda da popula\u00e7\u00e3o de grandes tubar\u00f5es na costa atl\u00e2ntica dos Estados Unidos reduziu, por exemplo, os mariscos e a qualidade da \u00e1gua <!--more--> A virtual elimina\u00e7\u00e3o do tubar\u00e3o-tigre e o de pontas negras, entre outras esp\u00e9cies de grandes esqualos, provocou not\u00f3rio aumento da popula\u00e7\u00e3o de tubar\u00f5es menores e arraias, dos quais estes costumam se alimentar. A redu\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o de tubar\u00f5es se deve, em parte, \u00e0 demanda de rem\u00e9dios fabricados com sua cartilagem, apesar de seus efeitos n\u00e3o estarem cientificamente provados, e \u00e0 dos restaurantes caros, que preparam sopa com suas barbatanas.<\/p>\n<p>As arraias nariz-de-vaca se multiplicaram por 20 desde 1970 e, como conseq\u00fc\u00eancia direta, mariscos como as ostras, alimento desses peixes, praticamente desapareceram apesar dos importantes esfor\u00e7os de conserva\u00e7\u00e3o. A cascata de conseq\u00fc\u00eancias da pesca excessiva de grandes tubar\u00f5es vai ainda mais longe, segundo pesquisa realizada pelo cientista marinho Ransom Myers (falecido no \u00faltimo dia 27) e por outros especialistas publicada no dia 29 passado pela revista Science. A perda de ostras reduziu a qualidade da \u00e1gua do mar, porque esses mariscos a filtram. Agora, a arraia nariz-de-vaca se alimenta vorazmente de outros, como ostras e almejas.<\/p>\n<p>\u201cTamb\u00e9m encontramos grandes leitos de algas cavados por arraias em busca de mariscos\u201d, disse Charles Peterson, do Instituto de Ci\u00eancias Marinhas da Universidade da Carolina do Norte, co-autor do estudo. As col\u00f4nias de alga s\u00e3o consideradas as \u201cguardi\u00e3s\u201d de muitas esp\u00e9cies de peixes, mas Peterson disse que n\u00e3o h\u00e1 dados dispon\u00edveis sobre o impacto da a\u00e7\u00e3o das arraias nesses ecossistemas. A arraia nariz-de-vaca \u00e9 apenas uma das 12 esp\u00e9cies cuja popula\u00e7\u00e3o aumentou drasticamente. \u201cN\u00e3o temos id\u00e9ia do impacto das outras 11\u201d, confessou o cientista \u00e0 IPS. \u201cO que sabemos a partir desta pesquisa \u00e9 que os tubar\u00f5es t\u00eam um papel crucial no ecossistema oce\u00e2nico\u201d.<\/p>\n<p>Os tubar\u00f5es s\u00e3o \u201cos reis dos animais\u201d no oceano, os predadores superiores. E, segundo ecologistas, os predadores superiores desempenham um papel importante na estabiliza\u00e7\u00e3o de ecossistemas. Sua elimina\u00e7\u00e3o produz o que se conhece como \u201ccascata tr\u00f3fica\u201d ou alimentar. Por exemplo, graves redu\u00e7\u00f5es de nutrias (uma esp\u00e9cie de castor) do mar na costa oeste da Am\u00e9rica do Norte resultaram em um auge do alimento favorito desses animais, os ouri\u00e7os do mar, o que, por sua vez, causou importantes redu\u00e7\u00f5es nas florestas de algas kelp, que constituem outra classe de guardi\u00e3 importante para muitas esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>Em outro plano, a reintrodu\u00e7\u00e3o de lobos \u2013 predadores superiores \u2013 reduziu a popula\u00e7\u00e3o de alces do Parque Yellowstone (EUA). Por isso, voltaram a crescer plantas e \u00e1rvores ao longo de correntes e rios, em beneficio de p\u00e1ssaros e outras esp\u00e9cies, segundo Jim Estes, ecologista marinho da Universidade da Calif\u00f3rnia. \u201cOs lobos ajudaram a amortizar os ecossistemas do efeito da mudan\u00e7a clim\u00e1tica, segundo algumas pesquisas\u201d, disse o especialista \u00e0 IPS no ano passado. \u201cEm terra, muitos dos predadores superiores j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o encontrados, mas os oceanos ainda t\u00eam todas as pe\u00e7as.\u201d Essas pe\u00e7as, e especialmente os predadores superiores, est\u00e3o diminuindo rapidamente.<\/p>\n<p>Ransom Myers e Julia Baum, da Universidade Dalhousie, do Canad\u00e1, documentaram que mais de 90% dos peixes predadores dos oceanos j\u00e1 n\u00e3o existiam, principalmente por culpa da pesca excessiva. E advertiram que esta perda de toda a parte superior da cadeia alimentar marinha desequilibraria os ecossistemas oce\u00e2nicos. \u201cComo conseq\u00fc\u00eancia, ocorre uma reestrutura maci\u00e7a\u201d da rede alimentar, explicou Baum \u00e0 IPS. O estudo atual talvez seja a primeira documenta\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria sobre o impacto em cascata da perda dos grandes tubar\u00f5es, porque as redes alimentares oce\u00e2nicas s\u00e3o muito complexas e h\u00e1 poucos dados. \u201cH\u00e1 poucas d\u00favidas de que estes fen\u00f4menos ocorrem em outras regi\u00f5es costeiras do mundo\u201d, afirmou Baum.<\/p>\n<p>Cientistas japoneses detectaram um grande aumento na popula\u00e7\u00e3o de arraia-\u00e1gua, que atribu\u00edram \u00e0 redu\u00e7\u00e3o de seus mariscos naturais e de cultivo. A causa do fen\u00f4meno \u00e9 uma inc\u00f3gnita, \u201cdevido \u00e0 maci\u00e7a redu\u00e7\u00e3o dos tubar\u00f5es que se alimentam de arraias\u201d, disse a especialista. O interesse pelas barbatanas de tubar\u00e3o se converteu na principal raz\u00e3o. Os pescadores os ca\u00e7am em suas redes, cortam as barbatanas e os devolvem ao mar, sangrando e desmembrados. As barbatanas s\u00e3o o principal ingrediente de uma sopa cujo prato custa US$ 100 em restaurantes de comida chinesa de toda \u00c1sia e partes do ocidente.<\/p>\n<p>A ca\u00e7a de tubar\u00f5es para retirar as barbatanas \u201c\u00e9 uma enorme ind\u00fastria e est\u00e1 fora de controle\u201d, afirmou Baum. A demanda cresce mais de 5% ao ano e os esfor\u00e7os para proibir a pr\u00e1tica n\u00e3o foram efetivos, acrescentou. Alguns informes enfatizam o valor das barbatanas e cartilagens usadas em medicinas tradicionais para tratar dores nas articula\u00e7\u00f5es, que geram US$ 1 bilh\u00e3o. Na Am\u00e9rica do Norte n\u00e3o existe uma farm\u00e1cia que n\u00e3o tenha produtos derivados da cartilagem de tubar\u00e3o, apesar da falta de provas sobre qualquer beneficio m\u00e9dico.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 apenas lucrativa. A retirada de barbatanas \u00e9 uma ind\u00fastria de baixa tecnologia que nem mesmo requer barcos com refrigera\u00e7\u00e3o, pois s\u00e3o dessecadas. Os tubar\u00f5es n\u00e3o podem se recuperar, pois se trata de esp\u00e9cies de crescimento lento, que amadurecem em 20 anos ou mais e t\u00eam relativamente poucas crias. No in\u00edcio da d\u00e9cada de 90, os Estados Unidos e o Canad\u00e1 impuseram proibi\u00e7\u00f5es \u00e0 retirada de barbatanas de tubar\u00e3o, enquanto outros 60 pa\u00edses acertaram proibir a pr\u00e1tica no oceano Atl\u00e2ntico. No m\u00eas passado o M\u00e9xico anunciou uma proibi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entretanto, tais proibi\u00e7\u00f5es s\u00e3o dif\u00edceis de serem aplicadas. Freq\u00fcentemente, n\u00e3o s\u00e3o proibi\u00e7\u00f5es reais, em absoluto, afirmou Baum. Por outro lado, a retirada de barbatana \u00e9 consider\u00e1vel aceit\u00e1vel sempre que o corpo do tubar\u00e3o tamb\u00e9m seja aproveitado. A escalada na demanda de barbatanas e cartilagem de tubar\u00e3o est\u00e1 produzido uma catastr\u00f3fica redu\u00e7\u00e3o na quantidade de tubar\u00f5es em todo o mundo. Um passo importante \u00e9 reduzir a demanda destes produtos atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o do p\u00fablico. O outro \u00e9 que exista uma proibi\u00e7\u00e3o completa e absoluta da ca\u00e7a de grandes tubar\u00f5es costeiros, disse Peterson. \u201cOs resultados de nosso estudo deveriam ser levados muito a s\u00e9rio\u201d, ressaltou. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Toronto, 02\/04\/2007 &ndash; A cadeia alimentar dos oceanos est\u00e1 em colapso, segundo estudo publicado pela revista cient\u00edfica Science. 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