{"id":2787,"date":"2007-04-13T17:31:45","date_gmt":"2007-04-13T17:31:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2787"},"modified":"2007-04-13T17:31:45","modified_gmt":"2007-04-13T17:31:45","slug":"direitos-humanos-os-crimes-argentinos-nas-malvinas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/04\/america-latina\/direitos-humanos-os-crimes-argentinos-nas-malvinas\/","title":{"rendered":"Direitos Humanos: Os crimes argentinos nas Malvinas"},"content":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 13\/04\/2007 &ndash; Duas d\u00e9cadas e meia depois da guerra das Malvinas, funcion\u00e1rios e ex-soldados da Argentina apresentaram pela primeira vez \u00e0 justi\u00e7a uma den\u00fancia coletiva contra militares por crimes de assassinatos e torturas contra sua pr\u00f3pria tropa em combate. <!--more--> \u201cTemos 23 testemunhos sobre um soldados fuzilado por um cabo, de outros quatro ex-combatentes mortos por inani\u00e7\u00e3o e de, pelo menos, 15 casos de conscritos (recrutas em fase de instru\u00e7\u00e3o de seu servi\u00e7o obrigat\u00f3rio) que foram estaqueados\u201d, resumiu \u00e0 IPS Pablo Vassel, subsecret\u00e1rio de Direitos Humanos da prov\u00edncia de Corrientes.<\/p>\n<p>O assunto ficou praticamente fora dos tribunais por 25 anos e n\u00e3o apenas pelo temor dos veteranos em descumprir as ordens de manter um suposto segredo militar. \u00c9 que aconteceram assassinatos que ficaram impunes porque os casos foram ocultados pelos superiores e informados aos familiares como \u201cmortos em combate\u201d, explicou Vassel. A den\u00fancia, que apresenta testemunhos de ex-soldados de Corrientes, foi apresentada \u00e0 justi\u00e7a federal da Terra do Fogo, a prov\u00edncia mais austral da Argentina que inclui em sua jurisdi\u00e7\u00e3o as ilhas Malvinas, 600 quil\u00f4metros a leste dessa costa do Atl\u00e2ntico e em poder da Gr\u00e3-Bretanha.<\/p>\n<p>Os brit\u00e2nicos ocuparam as Malvinas em 1833, e desde ent\u00e3o mant\u00eam um conflito com a Argentina por sua soberania. Em 1982, a ditadura militar argentina (1976-1983) invadiu o arquip\u00e9lago em uma tentativa de recuper\u00e1-las \u00e0 for\u00e7a, mas a campanha fracassou e nos 74 dias de guerra morreram 635 argentinos e 255 brit\u00e2nicos. Do total de v\u00edtimas argentinas, 323 faleceram no afundamento do cruzador General Belgrano, navio de guerra emblem\u00e1tico na \u00e9poca. Mas, al\u00e9m dos que tombaram m combate, as associa\u00e7\u00f5es de veteranos registram cerca de 350 suic\u00eddios posteriores ao conflito armado. O \u00faltimo sobrevivente que se matou foi Miguel Boyro, que se enforcou no dia 10 deste m\u00eas.<\/p>\n<p>Desde o fim da guerra s\u00e3o conhecidos testemunhos isolados de pr\u00e1ticas de maus-tratos por parte de oficiais argentinos contra seus subordinados, mas, at\u00e9 agora nenhuma autoridade havia assumido essas den\u00fancias para iniciar um processo. \u201cO Estado sempre se fez de distra\u00eddo\u201d, admitiu Vassel. Somente foram divulgados livros e filmes com narra\u00e7\u00f5es a respeito. Agora, as den\u00fancias individuais apresentadas em outras cidades podem derivar para o mesmo julgamento. Duas delas est\u00e3o nos tribunais da cidade de Mar del Plata, onde o veterano Rub\u00e9n Gleriano denunciou, no ano passado, que foi estaqueado nas Malvinas por roubar alimentos e quase morre de hipotermia.<\/p>\n<p>Gleriano contou que estava h\u00e1 dois dias e meio sem comer quando decidiu caminhar dois quil\u00f4metros para evitar uma guarda de seus superiores e alcan\u00e7ar um dep\u00f3sito de alimentos. Ao voltar, foi estaqueado. Este castigo consistia em atar o \u201cprisioneiro\u201d com estacas no ch\u00e3o, de costas, algumas vezes nu, outras coberto com uma manta, e deix\u00e1-lo ali durante oito horas ou mais \u00e0 merc\u00ea das baixas temperaturas que imperam nas ilhas, dos fortes ventos, da neve e do fogo inimigo.<\/p>\n<p>Uma denuncia semelhante foi feita na mesma cidade por Walter Salas, que foi chutado e estaqueado por seus comandantes. Outros casos de maus-tratos foram revelados por ex-soldados de La Plata, a capital da prov\u00edncia de Buenos Aires. Os veteranos dessa cidade se preparam para acrescentar elementos ao processo aberto por seus colegas de Corrientes, que foram os que chegaram mais longe at\u00e9 agora na sistematiza\u00e7\u00e3o das den\u00fancias.<\/p>\n<p>Isso ocorre porque em Corrientes \u00e9 dif\u00edcil ignorar algo relacionado com a guerra. \u201cPara esta prov\u00edncia \u00e9 um assunto sens\u00edvel, porque \u00e9 a que mais soldados enviou para as Malvinas em propor\u00e7\u00e3o ao n\u00famero de habitantes, a primeira a declarar feriado o dia 2 de abril \u2013 data da invas\u00e3o \u2013 e a primeira a conceder pens\u00f5es aos veteranos\u201d, destacou Vassel. Por essa raz\u00e3o, h\u00e1 dois anos este funcion\u00e1rio, junto com o Centro de Ex-soldados Combatentes de Corrientes, iniciou uma investiga\u00e7\u00e3o. Do total de 800 efetivos desse distrito que participaram do conflito, 230 ainda vivem na prov\u00edncia. \u201cO restante morreu ou se mudou\u201d, afirmou o subsecret\u00e1rio.<\/p>\n<p>Entre os que ainda vivem em Corrientes, o governo colheu uma centena de testemunhos que foram gravados em 10 horas d v\u00eddeo. Al\u00e9m disso, foi preparado um informe de 200 paginas sobre den\u00fancias de diversos tipos de torturas e at\u00e9 assassinatos, com a correspondente identifica\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas e dos respons\u00e1veis. Ali est\u00e1 o relato de Juan de la Cruz Martins, que foi enviado \u00e0s Malvinas pesando 62 quilos e voltou com 29. Martins denunciou um tenente de sobrenome Baroni por maus-tratos e recordou a morte de um companheiro por inani\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outro que deu seu testemunho foi Oscar N\u00fa\u00f1ez, que lembra do soco que recebeu nas costas dado por um oficial de sobrenome Malacalza. N\u00fa\u00f1ez contou que o soco e ser estacado por oito horas foi o castigo que mereceu por roubar uma ovelha para comer ap\u00f3s ver morrer de fome o conscrito Secundino Riquelme. Tamb\u00e9m h\u00e1 um testemunho de Germ\u00e1n Navarro em que descreve ter presenciado a rajada de metralhadora do cabo de sobrenome Cabrera que matou um soldado da mesma tropa, depois de ter discutido com ele.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um assunto complexo porque, nas guerras, o direito internacional humanit\u00e1rio protege contra os abusos do inimigo, mas n\u00e3o h\u00e1 nada previsto para os casos de maus-tratos sistem\u00e1ticos contra a pr\u00f3pria tropa\u201d, disse o funcion\u00e1rio. Os documentos foram apresentados ao Minist\u00e9rio da Defesa \u00e0s v\u00e9speras do dia 2 deste m\u00eas, que marcou os 25 anos do in\u00edcio da guerra, junto com o pedido para que o governo do presidente Nestor Kirchner forme uma comiss\u00e3o que recolha as den\u00fancias em todo o pa\u00eds e prepare um \u00fanico processo contra militares por viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos nas ilhas.<\/p>\n<p>Mas, enquanto aguardam uma resposta, os denunciantes recorreram \u00e0 justi\u00e7a. \u201cSomos as \u00faltimas v\u00edtimas coletivas da ditadura\u201d, afirmou \u00e0 IPS Orlando Pascua, do Cntro de Ex-combatentes de Corrientes, que tamb\u00e9m viajou \u00e0 Terra do Fogo para a den\u00fancia. O ex-soldado revelou ter visto um oficial da Marinha de guerra ordenar o estaqueamento de um soldado no continente por um suposto ato de indisciplina. \u201cTamb\u00e9m houve o estaqueamento de um soldado no continente, bem antes de seguir para as Malvinas, por chegar tarde para a forma\u00e7\u00e3o, o que demonstra que se tratava de uma instru\u00e7\u00e3o operacional muito clara\u201d, destacou Vassel. \u201cPor isso dizemos que a ditadura tratou os soldados nas Malvinas do mesmo modo que os civis no continente\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Vassel se referia, assim, \u00e0s graves viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos registradas durante o regime militar em todo o pa\u00eds. Segundo organismos humanit\u00e1rios, foram 30 mil desaparecidos for\u00e7ados entre 1976 e 1983, quando funcionaram 500 centros de deten\u00e7\u00e3o clandestinos em todo o pa\u00eds. Pascua lembra que entre os militares que abusaram de sua autoridade alguns s\u00e3o acusados por crimes de lesa-humanidade contra civis. \u00c9 o caso do oficial Julio Binotti, do ex-coronel Horacio Losito, dos ex-marinhiros Alfredo Astiz e Antonio Pern\u00edas, do ex-general Mario Benjamin Men\u00e9ndez. Os testemunhos coincidem em afirmar que a maioria dos soldados passava fome e frio.<\/p>\n<p>\u201cOs que faziam o servi\u00e7o militar nas prov\u00edncias do sul \u2013 as mais frias \u2013 iam com a roupa adequada, mas os que chegavam do norte (onde o clima \u00e9 muito mais quente) foram para a guerra com o mesmo uniforme que usavam o ano todo\u201d, contou o ex-soldado. Do mesmo modo, a comida faltava ou era escassa para os que permaneciam dia e noite nas trincheiras. De fato, muitos dos castigos por suposta indisciplina eram aplicados aos conscritos que roubavam alimentos ou gado para sua sobreviv\u00eancia. E nos casos mais graves, houve soldados que morreram por inani\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cO que \u00e9 mais aberrante e causa indigna\u00e7\u00e3o \u00e9 que foi como um exterm\u00ednio planejado porque o chamado Informe Rattenbach (elaborado por uma comiss\u00e3o militar presidida por um oficial com esse sobrenome que investigou a atua\u00e7\u00e3o dos militares durante a guerra) revela que a invas\u00e3o era planejada h\u00e1 um ano e meio\u201d, afirmou. \u201cIsto comprova que n\u00e3o foi algo improvisado, por isso falamos de crime de lesa-humanidade\u201d, ressaltou o ex-soldado. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 13\/04\/2007 &ndash; Duas d\u00e9cadas e meia depois da guerra das Malvinas, funcion\u00e1rios e ex-soldados da Argentina apresentaram pela primeira vez \u00e0 justi\u00e7a uma den\u00fancia coletiva contra militares por crimes de assassinatos e torturas contra sua pr\u00f3pria tropa em combate. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/04\/america-latina\/direitos-humanos-os-crimes-argentinos-nas-malvinas\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":129,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,6,11],"tags":[],"class_list":["post-2787","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-direitos-humanos","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2787","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/129"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2787"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2787\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2787"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2787"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2787"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}