{"id":283,"date":"2005-02-03T00:00:00","date_gmt":"2005-02-03T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=283"},"modified":"2005-02-03T00:00:00","modified_gmt":"2005-02-03T00:00:00","slug":"mundo-dom-quixote-dos-paradoxos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/02\/mundo\/mundo-dom-quixote-dos-paradoxos\/","title":{"rendered":"Mundo: Dom Quixote dos paradoxos"},"content":{"rendered":"<p>Montevid&eacute;u, 03\/02\/2005 &ndash; Nasceu na pris&atilde;o esta aventura da liberdade. No c&aacute;rcere de Sevilla, &quot;onde todo inc&ocirc;modo tem seu lugar e onde todo triste ru&iacute;do habita&quot;, foi engendrado Dom Quixote de La Mancha. O papai estava preso por causa de d&iacute;vidas. Exatamente tr&ecirc;s s&eacute;culos antes, Marco Polo havia ditado seu livro de viagens na pris&atilde;o de G&ecirc;nova, e seus companheiros de cela o ouviram e, escutando-o, viajaram com ele.<br \/> <!--more--> <br \/> Cervantes se prop&ocirc;s a escrever uma par&oacute;dia das novelas de cavaleiros. Ningu&eacute;m, ou quase ningu&eacute;m, as lia. Estavam fora de moda. A zombaria foi um esfor&ccedil;o digno de melhor causa. E, entretanto, essa in&uacute;til aventura liter&aacute;ria resultou muito mais do que seu projeto original, viajou mais longe e mais alto e se converteu na novela mais popular de todos os tempos e de todas as l&iacute;nguas. Merece gratid&atilde;o eterna o cavaleiro da triste figura. A dom Quixote os livres de cavalaria queimaram a cabe&ccedil;a, mas ele, que se perdeu por ler, salva os que o leram. Nos salva da solenidade e do aborrecimento.<\/p>\n<p> Famosos estere&oacute;tipos: Dom Quixote e Sancho Panza, o cavaleiro e seu escudeiro, a loucura e a cordura, o sonhador fidalgo com a cabe&ccedil;a nas nuvens e o campon&ecirc;s r&uacute;stico de p&eacute;s no ch&atilde;o. &Eacute; verdade que Dom Quixote fica totalmente louco cada vez que monta Rocinante, mas quando desmonta costuma dizer frases que v&ecirc;m do mais puro sentido comum, e em certas ocasi&otilde;es parece que se faz de louco apenas para atender o autor e o leitor. E Sancho Panza, o grosseiro, o bruto, sabe exercer com exemplar sutileza seu governo da ilha de Barataria.<\/p>\n<p> T&atilde;o fr&aacute;gil que parecia e foi o mais duradouro. Cada dia cavalgava com mais vontade, e n&atilde;o s&oacute; pela plan&iacute;cie. Tentado pelos caminhos do mundo, o personagem escapa do autor e em seus leitores se transfigura. E ent&atilde;o faz o que n&atilde;o fez, e diz o que n&atilde;o disse. Dom Quixote jamais pronunciou a mais famosa de suas frases: &quot;Ladram, Sancho, sinal de que cavalgamos&quot; n&atilde;o figura na obra de Cervantes. Que an&ocirc;nimo leitor ter&aacute; sido o autor?<\/p>\n<p> Metido na armadura de lata, montado em seu Rocinante faminto, Dom Quixote parece destinado &agrave; derrota e ao rid&iacute;culo. Este delirante se julga personagem de novelas sobre cavaleiros e acredita que estas s&atilde;o livros de hist&oacute;ria. Entretanto, nem sempre cai estatelado em seus lances imposs&iacute;veis e &agrave;s vezes at&eacute; aplica honrosas surras nos inimigos que enfrenta ou inventa. E, rid&iacute;culo &eacute;, que cabe d&uacute;vida, mas entranhadamente rid&iacute;culo. Acredita o menino que uma vassoura &eacute; um cavalo, enquanto a brincadeira dura, e enquanto dura a leitura dos leitores acompanhamos e compartilhamos os andares extravagantes de Dom Quixote.<br \/> Rimos dele sim, mas muito mais, rimos com ele.<\/p>\n<p> &quot;N&atilde;o leve a s&eacute;rio nada que o fa&ccedil;a rir&quot;, me aconselhou certa vez um amigo brasileiro. E o ditado popular leva a s&eacute;rio os del&iacute;rios de Dom Quixote e expressa a dimens&atilde;o her&oacute;ica que as pessoas d&atilde;o a este anti-her&oacute;i. Quixotada &eacute;, segundo o dicion&aacute;rio, &quot;a a&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria de um Quixote&quot;, e Quixote &eacute; aquele que &quot;antep&otilde;e seus ideais &agrave; sua conveni&ecirc;ncia e age desinteressada e comprometidamente em defesa de causas que considera justas, sem consegui-lo&quot;.<\/p>\n<p> Cervantes por duas vezes pediu emprego na Am&eacute;rica, e por duas vezes n&atilde;o foi atendido. Algumas vers&otilde;es dizem que era duvidosa sua limpeza de sangue. Os estatutos proibiam viajar &agrave;s col&ocirc;nias americanas quem tivesse em suas veias gl&oacute;bulos judeus, mu&ccedil;ulmanos ou her&eacute;ticos, que se transmitiam durante, pelo menos, sete gera&ccedil;&otilde;es. Talvez a suspeita de algum av&ocirc; ou bisav&ocirc; que fosse judeu convertido explica a resposta oficial aos pedidos de Cervantes: &quot;Procure por aqui em que trabalhar&quot;. Ele n&atilde;o p&ocirc;de vir &agrave; Am&eacute;rica. Mas seu filho, Dom Quixote, sim. E a Am&eacute;rica lhe foi o melhor de tudo.<\/p>\n<p> Em 1965, Che Guevara escreveu a &uacute;ltima carta aos seus pais. Para dizer-lhes adeus, n&atilde;o citou Marx. Escreveu: &quot;Outra vez sinto sob meus calcanhares as costelas de Rocinante. Volto &agrave; estrada com minha adarga no bra&ccedil;o&quot;.<\/p>\n<p> Em seus infort&uacute;nios, evocava Dom Quixote a idade dourada, quando tudo era comum e n&atilde;o havia teu nem meu. Depois, dizia, haviam come&ccedil;ado os abusos, e por isso foi necess&aacute;rio que os cavaleiros andantes sa&iacute;ssem pelos caminhos, para defender donzelas, amparar as vi&uacute;vas e socorrer os &oacute;rf&atilde;os e os necessitados.<\/p>\n<p> O poeta Leon Felipe acreditava que os olhos e a consci&ecirc;ncia de Dom Quixote toma o andante ladr&atilde;o por um cavaleiro cort&ecirc;s e hospitaleiro, as prostitutas descaradas por donzelas formos&iacute;ssimas, o bar por um albergue de decoro, o p&atilde;o preto por p&atilde;o candeal e o assobio do castrador por uma m&uacute;sica acolhedora, diz que no mundo n&atilde;o deve haver nem homens ladr&otilde;es, nem amor mercen&aacute;rio, nem comida escassa, nem abrigo escuro, nem m&uacute;sica horr&iacute;vel&quot;.<\/p>\n<p> Alguns anos antes de Cervantes inventar seu febril justiceiro, Tom&aacute;s Moro havia contado a utopia. Em seu livro Utopia, u-topia, significava no-lugar. Mas talvez esse reino da fantasia encontre lugar nos olhos que o adivinham, e neles encarne. Bem dizia George Bernard Shaw que h&aacute; os que observam a realidade tal e qual ela &eacute; e se perguntam por que, e h&aacute; aqueles que imaginam a realidade como jamais foi e se perguntam por que n&atilde;o.<\/p>\n<p> &Eacute; certo, e os cegos v&ecirc;em isso, que cada pessoa cont&eacute;m outras pessoas poss&iacute;veis, e cada mundo cont&eacute;m seu contramundo. Essa promessa escondida, o mundo que necessitamos, n&atilde;o &eacute; menos real do que o mundo que conhecemos e padecemos.<\/p>\n<p> Bem o fazem os aporreados, batedores que ainda cometem a loucura de voltar &agrave; estrada muitas vezes, porque continuam acreditando que o caminho &eacute; um desafio que espera e porque acreditam que desfazer agravos e corrigir problemas &eacute; um disparate que vale a pena.<\/p>\n<p> Ajuda o imposs&iacute;vel que o poss&iacute;vel ter&aacute; lugar. Para diz&ecirc;-lo em termos da farm&aacute;cia de Dom Quixote: t&atilde;o m&aacute;gico &eacute; este b&aacute;lsamo de Ferrabr&aacute;s que &agrave;s vezes nos salva da maldi&ccedil;&atilde;o do fatalismo e da peste da desesperan&ccedil;a. Este n&atilde;o &eacute; no final das contas o grande paradoxo da viagem humana no mundo? Navega o navegante, embora saiba que jamais tocar&aacute; as estrelas que o guiam. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p> (*) Eduardo Galeano &eacute; escritor e jornalista uruguaio, autor de As veias abertas da Am&eacute;rica Latina e Mem&oacute;rias do Fogo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Montevid&eacute;u, 03\/02\/2005 &ndash; Nasceu na pris&atilde;o esta aventura da liberdade. No c&aacute;rcere de Sevilla, &quot;onde todo inc&ocirc;modo tem seu lugar e onde todo triste ru&iacute;do habita&quot;, foi engendrado Dom Quixote de La Mancha. O papai estava preso por causa de d&iacute;vidas. Exatamente tr&ecirc;s s&eacute;culos antes, Marco Polo havia ditado seu livro de viagens na pris&atilde;o de G&ecirc;nova, e seus companheiros de cela o ouviram e, escutando-o, viajaram com ele.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/02\/mundo\/mundo-dom-quixote-dos-paradoxos\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":276,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-283","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/283","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/276"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=283"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/283\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=283"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=283"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=283"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}