{"id":2833,"date":"2007-04-26T16:22:18","date_gmt":"2007-04-26T16:22:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2833"},"modified":"2007-04-26T16:22:18","modified_gmt":"2007-04-26T16:22:18","slug":"energia-o-combustivel-ou-a-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/04\/africa\/energia-o-combustivel-ou-a-vida\/","title":{"rendered":"Energia: O combust\u00edvel ou a vida"},"content":{"rendered":"<p>Sarah McGregor, 26\/04\/2007 &ndash; A \u00c1frica do Sul pretende aumentar sua produ\u00e7\u00e3o de biocombust\u00edveis, mas especialistas alertam que a iniciativa pode prejudicar os agricultores de subsist\u00eancia e causar mais fome em zonas j\u00e1 empobrecidas do pa\u00eds. <!--more--> Seus defensores no Brasil e nos Estados Unidos alegam que os biocombust\u00edveis, como o etanol, s\u00e3o uma alternativa de energia mais limpa que prov\u00e9m de fontes renov\u00e1veis. Mas, sua produ\u00e7\u00e3o gasta muita energia e utiliza combust\u00edveis de origem f\u00f3ssil para process\u00e1-lo e transport\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, o crescente apetite por essa fonte alternativa, somado aos pre\u00e7os em alta do petr\u00f3leo no mercado internacional, aumentou, por exemplo, a demanda de milho, um dos vegetais usados para produzir etanol, e aumentou os pre\u00e7os das mercadorias. Por puro interesse de arrecada\u00e7\u00e3o, a \u00c1frica do Sul espera iniciar logo uma pol\u00edtica de biocombust\u00edveis que, segundo o governo, revitalizar\u00e1 o setor agr\u00edcola e preparar\u00e1 o caminho para o desenvolvimento da ind\u00fastria local.<\/p>\n<p>As autoridades indicam que essa ind\u00fastria ajudar\u00e1 o pa\u00eds a atingir seu objetivo de reduzir as emiss\u00f5es de gases causadores do efeito estufa no contexto do Protocolo de Kyoto, ser\u00e3o criados 55 mil postos de trabalho e contribuir\u00e1 para o crescimento econ\u00f4mico. A maioria dos cientistas atribui o aquecimento do planeta aos gases que causam o efeito estufa, como di\u00f3xido de carbono, metano e \u00f3xido nitroso. Sob o Protocolo de Quioto, estabelecido em 1997 nessa cidade japonesa, 35 pa\u00edses industrializados, menos Estados Unidos e Austr\u00e1lia, se comprometeram a reduzir suas emiss\u00f5es desses gases em pelo menos 5,2% at\u00e9 2012, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s emiss\u00f5es de 1990.<\/p>\n<p>Alguns agricultores sul-africanos se mostraram confiantes de que os cultivos capazes de gerar \u201ccombust\u00edvel verde\u201d sejam uma importante fonte de renda. Restam ainda tr\u00eas anos para ficar terminada a primeira unidade processadora de etanol na \u00c1frica do Sul. A id\u00e9ia \u00e9 misturar apenas uma pequena quantidade desse biocombust\u00edvel \u00e0 gasolina, cerca de 5% comparado a 85% no Brasil e nos Estados Unidos. \u201cOs biocombust\u00edveis ser\u00e3o um grande neg\u00f3cio dentro de alguns anos. Esse \u00e9 o futuro se quisermos sobreviver e sermos competitivos\u201d, disse Theunis Pretorius, que possui 1.800 hectares na prov\u00edncia Estado Livre.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, nem todos pensam assim. Algumas pessoas temem que um passo nesse sentido seja uma varia\u00e7\u00e3o para os cultivos destinados \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de alimentos, enquanto aumenta a press\u00e3o dos pre\u00e7os, especialmente para os mais pobres. Um prato rico em calorias, feito \u00e0 base de farinha de milho cozida em aveia, que acompanha guisados ou carne assada, continua sendo uma comida popular e bastante barata na \u00c1frica do Sul. Segundo Michelle Pressend, pesquisadora do Instituto para o Di\u00e1logo Global, com sede em Johannesburgo, os biocombustivis sup\u00f5em um risco para a sustentabilidade ambiental.<\/p>\n<p>A agricultura intensiva costuma exigir grandes quantidades de combust\u00edveis f\u00f3sseis para fazer funcionar as maquinas, utiliza insumos perigosos e degrada o solo. Prssend tamb\u00e9m se mostrou preocupada pela possibilidade de a \u00c1frica do Sul perder sua capacidade de se auto-sustentar ou de exportar o excedente de milho para pa\u00edses vizinhos, pois as principais terras de cultivo cada vez mais se destinar\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de combust\u00edvel e n\u00e3o de alimentos. \u201cN\u00e3o temos apenas de pensar no argumento ambiental. Tamb\u00e9m temos de considerar a seguran\u00e7a alimentar\u201d, disse Pressend. \u201cSe as fontes de alimenta\u00e7\u00e3o se convertem em biocombust\u00edveis pode haver escassez e aumento de pre\u00e7os\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>A substitui\u00e7\u00e3o de produtos comest\u00edveis por cultivos residuais destinados \u00e0 gera\u00e7\u00e3o de energia pode erodir os esfor\u00e7os para combater a fome na \u00c1frica subsaariana, uma regi\u00e3o com escassez de alimentos e onde vivem cerca de 200 milh\u00f5es de pessoas com desnutri\u00e7\u00e3o, segundo estimativas da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Este ano, grandes \u00e1reas rurais da \u00c1frica austral ser\u00e3o afetadas por inunda\u00e7\u00f5es ou secas.<\/p>\n<p>Por causa dessa situa\u00e7\u00e3o, dever\u00e3o importar milhares de toneladas de milho para combater o d\u00e9ficit, segundo o Programa Mundial de Alimentos (PMA). E o pior \u00e9 que agora a \u00c1frica do Sul, exportadora de milho branco, dever\u00e1 importar esse produto porque a produ\u00e7\u00e3o esteve abaixo das previs\u00f5es. Este ano, os pre\u00e7os do milho no pa\u00eds atingiram seu ponto mais alto em d\u00e9cadas. Alguns especialistas esperam que essa tend\u00eancia de alta continue devido \u00e0 febre mundial pelo bioetanol.<\/p>\n<p>Outro assunto que preocupa \u00e9 que as atividades agr\u00edcolas de grande escala utilizam as terras mais produtivas para cultivos destinados \u00e0 ind\u00fastria de biocombustivis, tirando o lugar dos camponeses de subsist\u00eancia que utilizam antigas t\u00e9cnicas e carecem de capacidade para competir no mercado mundial, disse Pressend. \u201cA grande d\u00favida \u00e9 como os biocombust\u00edveis v\u00e3o favorecer o grande setor agr\u00edcola e os agricultores comerciais com grandes extens\u00f5es de terra \u00e0s custas dos pequenos que n\u00e3o podem acompanhar o ritmo\u201d, acrescentou a especialista.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s 12 anos de encerrado o apartheid, o regime de segrega\u00e7\u00e3o racial em preju\u00edzo da maioria negra por parte da minoria branca, os agricultores de origem europ\u00e9ia continuam possuindo a maior quantidade de terras ar\u00e1veis, apesar da pol\u00edtica governamental de devolver um ter\u00e7o delas \u00e0 popula\u00e7\u00e3o aut\u00f3ctone antes de 2014. \u201cO caminho descendente do governo est\u00e1 em conflito direto com o imperativo de seguran\u00e7a alimentar. Os mais pobres e vulner\u00e1veis j\u00e1 sentem o ajuste. Os pre\u00e7os v\u00e3o continuar aumentando em algum momento\u201d, destacou Jeremy Wakfor, economista experiente da Universidade da Cidade do Cabo. \u201cO governo ter\u00e1 de decidir se promove os produtos aliment\u00edcios ou os combust\u00edveis\u201d, concluiu.<\/p>\n<p>Segundo Wakeford, os agricultores de subsist\u00eancia devem ser os primeiros a participar da ind\u00fastria local do etanol. \u201cNecessitamos acelerar a implementa\u00e7\u00e3o de um programa de capacita\u00e7\u00e3o para que os pequenos agricultores produzam alimento suficiente para atender suas necessidades e tirem um pouco mais dos biocombust\u00edveis\u201d, afirmou. \u201cEst\u00e1 quest\u00e3o deve ser manejada com cuidado ou pode ocorrer fome. Tamb\u00e9m pode haver mais mortes causadas pela aids em pessoas mal alimentadas\u201d, alertou este economista.<\/p>\n<p>\u201cIsso pode causar um descontentamento social, pois a \u00c1frica do Sul tem uma sociedade muito din\u00e2mica que n\u00e3o duvidar\u00e1 em reclamar a interven\u00e7\u00e3o do governo se os pre\u00e7os ficarem insustent\u00e1veis\u201d, afirmou Wakeford. Alguns destes temores se tornaram realidade em outras partes do mundo em desenvolvimento. A demanda mundial de etanol deste ano \u00e9 m parte respons\u00e1vel pelo aumento dos pre\u00e7os do milho no M\u00e9xico, onde a tortilha, preparada com esse cereal e base da dieta da popula\u00e7\u00e3o mais pobre, acusou o golpe. Os consumidores reagiram indignados pelo aumento do pre\u00e7o do milho e o governo mexicano teve de intervir para control\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Por sua vez, Craig Steward, do Instituto de Pesquisa Internacional de Johannesburgo, minimizou as poss\u00edveis conseq\u00fc\u00eancias, tanto positivas quanto negativas, de que a \u00c1frica do Sul ir\u00e1 atr\u00e1s dos combust\u00edveis renov\u00e1veis, alegando que o pa\u00eds est\u00e1 limitado por sua pequena ind\u00fastria agr\u00edcola. Steward argumentou que os benef\u00edcios da ind\u00fastria do etanol na \u00c1frica do Sul tendem \u00e0 redu\u00e7\u00e3o de sua depend\u00eancia nas importa\u00e7\u00f5es do petr\u00f3leo. \u201cAlimenta\u00e7\u00e3o versus combust\u00edvel h um dos grandes debates\u201d, admitiu. \u201cMas, n\u00e3o me atreveria a dizer que isto pode afetar o fornecimento de alimentos de maneira negativa, porque estamos falando de pequenas quantidades de cultivos para biocombust\u00edveis em compara\u00e7\u00e3o com os destinados \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o\u201d, conclui Stward. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sarah McGregor, 26\/04\/2007 &ndash; A \u00c1frica do Sul pretende aumentar sua produ\u00e7\u00e3o de biocombust\u00edveis, mas especialistas alertam que a iniciativa pode prejudicar os agricultores de subsist\u00eancia e causar mais fome em zonas j\u00e1 empobrecidas do pa\u00eds. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/04\/africa\/energia-o-combustivel-ou-a-vida\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":421,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,8,12,5,10],"tags":[21],"class_list":["post-2833","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa","category-ambiente","category-desenvolvimento","category-economia","category-energia","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2833","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/421"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2833"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2833\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2833"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2833"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2833"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}