{"id":2890,"date":"2007-05-15T20:19:35","date_gmt":"2007-05-15T20:19:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2890"},"modified":"2007-05-15T20:19:35","modified_gmt":"2007-05-15T20:19:35","slug":"infancia-as-cicatrizes-da-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/05\/mundo\/infancia-as-cicatrizes-da-guerra\/","title":{"rendered":"Inf\u00e2ncia: As cicatrizes da guerra"},"content":{"rendered":"<p>Tampa, Estados Unidos, 15\/05\/2007 &ndash; A terr\u00edvel situa\u00e7\u00e3o das meninas e dos meninos com graves traumas emocionais em zonas de guerra permanece em grande parte desconhecida, apesar dos esfor\u00e7os de entidades como o Fundo das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Inf\u00e2ncia para chegar at\u00e9 eles e \u00e0s suas fam\u00edlias. <!--more--> Isto contrasta drasticamente, por exemplo, com a enorme cobertura dada nos Estados Unidos e no resto mundo ao massacre do dia 16 de abril na Universidade de Virgina Tech, em que um estudante matou 32 pessoas e em seguida suicidou-se. Amanda Melville, encarregada de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 inf\u00e2ncia do Unicef, explicou que \u00e9 dif\u00edcil calcular quantas crian\u00e7as est\u00e3o nessa situa\u00e7\u00e3o, \u201cporque \u00e9 muito subjetivo\u201d.<\/p>\n<p>Melvill, que elaborou estudos de campo para o Unicef durante os \u00faltimos seis anos em lugares como Haiti, Indon\u00e9sia, Ir\u00e3 e Palestina, disse \u00e0 IPS que \u201cas rea\u00e7\u00f5es (de crian\u00e7as em zonas de guerra) podem variar amplamente. Do ponto de vista psicol\u00f3gico, podem ser retra\u00eddos, enquanto alguns s\u00e3o rebeldes. Alguns meninos s\u00e3o for\u00e7ados a assumir a chefia da fam\u00edlia, porque o pai foi assassinado, e estas crian\u00e7as n\u00e3o t\u00eam a maturidade\u201d necess\u00e1ria para desempenhar esse papel.<\/p>\n<p>De acordo com o Unicef, \u201cas crian\u00e7as em conflitos armados tamb\u00e9m experimentam de forma rotineira acontecimentos emocional e psicologicamente dolorosos, como a morte violenta de um dos pais ou parente pr\u00f3ximo, a separa\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, ou presenciar a matan\u00e7a ou tortura de pessoas queridas\u201d. Tamb\u00e9m est\u00e3o expostos \u00e0 \u201cnecessidade de abandonar a casa e o local onde vivem por causa de combates; bombardeios e outras situa\u00e7\u00f5es que amea\u00e7am a vida; abusos como seq\u00fcestro, pris\u00e3o, deten\u00e7\u00e3o, viola\u00e7\u00e3o, tortura; a altera\u00e7\u00e3o das rotinas escolares e da vida comunit\u00e1ria; a indig\u00eancia e um futuro incerto\u201d.<\/p>\n<p>Entretanto, os especialistas dizem que apenas uma pequena porcentagem destas crian\u00e7as busca se vincar pelo que sofreram. O conceito de vingan\u00e7a \u00e9 fomentado na idade madura, n\u00e3o na inf\u00e2ncia. \u201cEles percebem que a vingan\u00e7a \u00e9 negativa. Atrav\u00e9s da maturidade e da exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 vida fora do acontecimento que processaram s\u00e3o capazes de elaborar maneiras de assumir suas experi\u00eancias sem viol\u00eancia ou vingan\u00e7a\u201d, disse Charles Figley, psiquiatra que dirige o Psychological Stress Research Porgramme (Programa de Pesquisa sobre o Estresse) na Universidade da Fl\u00f3rida, em Tallahassee.<\/p>\n<p>Um dos informes apresentados pelo ex-secret\u00e1rio-geral da ONU, Kofi Annan, em seus \u00faltimos dias no cargo se referia \u00e0s crian\u00e7as em zonas de guerra. Segundo esse estudo, entre 1996 e 2006, dois milh\u00f5es de meninos e meninas foram assassinados em conflitos e seis milh\u00f5es ficaram feridos. Em raz\u00e3o desse informe, no final de novembro passado o Conselho de Seguran\u00e7a das Na\u00e7\u00f5es Unidas imp\u00f4s uma proibi\u00e7\u00e3o ao recrutamento de crian\u00e7as como soldado.<\/p>\n<p>Entre as enfermidades mentais sofridas por essas crian\u00e7as, s\u00e3o muito comuns a ansiedade e os flashes de recorda\u00e7\u00e3o, disse a psiquiatra norte-americana Teri Elliott, que trabalhou com crian\u00e7as traumatizadas na B\u00f3snia-Herzegovina. \u201cMuitas delas nasceram em zonas de guerra. E se alguma nasce num local assim, acaba se acostumando. Como uma crian\u00e7a lidar\u00e1 com uma experi\u00eancia em zona de guerra tamb\u00e9m depende da forma como seus pais lidarem. Quanto melhor manejarem a situa\u00e7\u00e3o, melhor far\u00e3o os filhos, e isso \u00e9 aplic\u00e1vel a qualquer pa\u00eds\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Figley afirmou que a doen\u00e7a mental que mais freq\u00fcentemente afetam essas crian\u00e7as \u00e9 o estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico. \u201cCoisas como cores brilhantes ou ru\u00eddos fortes podem ser alarmante para essas crian\u00e7as. Boa parte da maneira como enfrentam estas experi\u00eancias depende da idade de exposi\u00e7\u00e3o, mas, tamb\u00e9m de como passam a olhar o mundo\u201d a partir de ent\u00e3o, disse \u00e0 IPS. Figley, veterano da Guerra do Vietn\u00e3 (1965-1975), observou que, \u201cpara alguns pa\u00edses, as doen\u00e7as mentais constituem uma abstra\u00e7\u00e3o social. O que importa \u00e9 a concep\u00e7\u00e3o cultural. Por exemplo, dentro de aproximadamente uma semana estarei no Kuwait. O modo como sua popula\u00e7\u00e3o v\u00ea o mundo e tamb\u00e9m as doen\u00e7as mentais \u00e9 diferente de como s\u00e3o vistos nos Estados Unidos\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Afeganist\u00e3o e Iraque, os dois pa\u00edses mais afetados pela guerra que receberam a maior aten\u00e7\u00e3o da imprensa mundial, n\u00e3o t\u00eam estat\u00edsticas dispon\u00edveis sobre como a popula\u00e7\u00e3o infantil foi afetada. \u201cE ser\u00e1 dif\u00edcil, porque a primeira prioridade dessas pessoas s\u00e3o os elementos b\u00e1sicos: alimento, \u00e1gua limpa e abrigo. Analisar a sa\u00fade mental de uma pessoa em semelhante contexto n\u00e3o est\u00e1 em um lugar de destaque em suas listas de prioridades\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Por sua vez, Melville explicou que \u201cos tipos de problemas para estas crian\u00e7as variam de uma regi\u00e3o para outra\u201d. Na Palestina, \u201conde trabalhei, as crian\u00e7as est\u00e3o sob muita press\u00e3o social para discutir estes assuntos. Assim, n\u00f3s (do Unicef) criamos um programa mentor de equipe. Havia grupos de discuss\u00e3o para debater outras coisas al\u00e9m da situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. As crian\u00e7as queriam discutir a viol\u00eancia entre seus colegas\u201d, contou.<\/p>\n<p>Esta especialista tamb\u00e9m destacou que a unidade do Unicef com a qual trabalha incentiva \u201ca terapia da brincadeira, depois a terapia da conversa\u00e7\u00e3o e, \u00e0s vezes, dependendo da idade das crian\u00e7as, a terapia de grupo\u201d. E, embora muitos cidad\u00e3os dos Estados Unidos possam acreditar que as crian\u00e7as que se tornam social ou psicologicamente perturbadas por crescer em meio \u00e0 viol\u00eancia extrema constituam um problema distante, h\u00e1 evidencias de que tal fen\u00f4meno existe em Washington, segundo a psiquiatra Rona Fields, que fez trabalhos de campo sobre o assunto.<\/p>\n<p>A doutora Fields, professora-adjunta de psiquiatria na Universidade Howard, em Washington, com d\u00e9cadas de experi\u00eancia no assunto, disse \u00e0 IPS que realizou pesquisas sobre crian\u00e7as que presenciaram horr\u00edveis matan\u00e7as no distrito de Columbia. \u201cAlguns destes casos tinham semelhan\u00e7as com crian\u00e7as de outros pa\u00edses que viram o que acontece na guerra. A pobreza e a viol\u00eancia exacerbam a situa\u00e7\u00e3o com estas crian\u00e7as, parte do que elas v\u00eam a cada dia se assemelha ao que veria uma pessoa em uma zona de guerra\u201d, afirmou Fields. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tampa, Estados Unidos, 15\/05\/2007 &ndash; A terr\u00edvel situa\u00e7\u00e3o das meninas e dos meninos com graves traumas emocionais em zonas de guerra permanece em grande parte desconhecida, apesar dos esfor\u00e7os de entidades como o Fundo das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Inf\u00e2ncia para chegar at\u00e9 eles e \u00e0s suas fam\u00edlias. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/05\/mundo\/infancia-as-cicatrizes-da-guerra\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1476,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6,4,11],"tags":[],"class_list":["post-2890","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-direitos-humanos","category-mundo","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2890","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1476"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2890"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2890\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2890"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2890"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2890"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}