{"id":2893,"date":"2007-05-16T20:06:34","date_gmt":"2007-05-16T20:06:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2893"},"modified":"2007-05-16T20:06:34","modified_gmt":"2007-05-16T20:06:34","slug":"mexico-mais-vitimas-da-luta-antidrogas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/05\/america-latina\/mexico-mais-vitimas-da-luta-antidrogas\/","title":{"rendered":"M\u00e9xico: Mais v\u00edtimas da luta antidrogas"},"content":{"rendered":"<p>M\u00e9xico, 16\/05\/2007 &ndash; \u201cFui embora porque estava insuport\u00e1vel, esses narcotraficantes nos amea\u00e7avam e agora n\u00e3o sei se voltarei. N\u00e3o quero que me matem\u201d, diz com angustia um campon\u00eas do Estado de Michoac\u00e1n que desde novembro est\u00e1 na capital mexicana. <!--more--> \u201cN\u00e3o escreva meu nome, por favor, vai que esses canijos (desgra\u00e7ados) me encontrem aqui. S\u00e3o maus\u201d, disse \u00e0 IPS. Este campon\u00eas origin\u00e1rio do sudeste do pa\u00eds \u00e9 um, talvez entre centenas j\u00e1, dos que tiveram de abandonar suas casas e terras por causa da crescente viol\u00eancia atribu\u00edda ao narcotr\u00e1fico. Trata-se de um fen\u00f4meno que apenas estaria se manifestando.<\/p>\n<p>A guerra entre militares, policiais e narcotraficantes no M\u00e9xico deixou desde janeiro um saldo hist\u00f3rico de mais de mil mortos. Tamb\u00e9m meia centena de den\u00fancias contra uniformizados por viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos, com deten\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias e golpes injustificados. Se os militares n\u00e3o est\u00e3o preparados para lutar contra o narcotr\u00e1fico e ao mesmo tempo respeitar os direitos humanos, \u00e9 melhor que voltem para os quart\u00e9is, disse nesta ter\u00e7a-feira o presidente da estatal, e n\u00e3o independente, Comiss\u00e3o Nacional dos Direitos Humanos, Jos\u00e9 Luis Soberanes. O funcion\u00e1rio disse que recebeu 52 queixas contra uniformizados encarregados do combate ao tr\u00e1fico de drogas.<\/p>\n<p>Uma delas diz respeito a um caso de suposta viola\u00e7\u00e3o sexual contra uma jovem de 17 anos, e v\u00e1rias por deten\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias. N\u00e3o existem dados sobre esses refugiados, mas, segundo alguns observadores, j\u00e1 seriam centenas. Al\u00e9m disso, o fen\u00f4meno pode ser confundido com os processos de abandono do campo rumo \u00e0 cidade ou com a constante emigra\u00e7\u00e3o para os Estados Unidos. \u201cN\u00e3o duvido de que h\u00e1 muitos refugiados por causa da viol\u00eancia do narcotr\u00e1fico. Mas que n\u00e3o se use como mais um argumento para justificar a militariza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e a cadeia de viola\u00e7\u00f5es que isto traz\u201d, disse \u00e0 IPS o diretor da n\u00e3o-governamental Comiss\u00e3o Mexicana de Defesa e Promo\u00e7\u00e3o de Direitos Humanos, Fabi\u00e1n S\u00e1nchez.<\/p>\n<p>\u201cO governo usar\u00e1 qualquer argumento para dizer que esta militariza\u00e7\u00e3o \u00e9 v\u00e1lida e que \u00e9 o que as pessoas querem e precisam, quando, na realidade, ocorre \u00e9 que h\u00e1 zonas de ocupa\u00e7\u00e3o militar onde os direitos humanos deixaram de existir, pois s\u00e3o feitas deten\u00e7\u00f5es sem ordem judicial\u201d, denunciou S\u00e1nchez. As m\u00e1fias responderam com uma agressividade incomum a ordem do presidente Felipe Calder\u00f3n para que fossem enviados milhares de soldados a diversos Estados com o prop\u00f3sito de recuperar territ\u00f3rios arrebatados pelo narcotr\u00e1fico e deter a viol\u00eancia.<\/p>\n<p>O conservador Calder\u00f3n apelou para as For\u00e7as Armadas, um m\u00eas depois de assumir a presid\u00eancia do M\u00e9xico em dezembro, com base no que estabelece a Constitui\u00e7\u00e3o para problemas graves de seguran\u00e7a interna e na resolu\u00e7\u00e3o da Suprema Corte de Justi\u00e7a de mar\u00e7o de 1996, quando estabeleceu jurisprud\u00eancia ao indicar que os militares podiam atuar em apoio \u00e0 policia. No contexto da guerra do narcotr\u00e1fico, um grupo armado executou na segunda-feira, na capital do M\u00e9xico, Jos\u00e9 Nemesio, respons\u00e1vel pelo Centro Nacional de Planejamento, An\u00e1lise e Informa\u00e7\u00e3o para o Combate da Criminalidade. Trata-se de um dos mais altos comandantes da pol\u00edcia assassinado desde que Calder\u00f3n chegou ao governo.<\/p>\n<p>Nemesio era um especialista em trabalho de intelig\u00eancia e n\u00e3o estava vinculado a a\u00e7\u00f5es operacionais. Seu caso se soma ao de dezenas de policiais e membros das For\u00e7as Armadas que foram executados por criminosos. \u201cO narcotr\u00e1fico desafiou o Estado em n\u00edveis intoler\u00e1veis, assim, a \u00fanica resposta poss\u00edvel era usar uma for\u00e7a equivalente ao seu poder de ataque, que s\u00e3o as For\u00e7as Armadas\u201d, afirmou \u00e0 IPS Guillermo Gardu\u00f1o, especialista em seguran\u00e7a e For\u00e7as Armadas da Universidade Aut\u00f4noma do M\u00e9xico.<\/p>\n<p>Gardu\u00f1o assegura que h\u00e1 muitos refugiados por causa das amea\u00e7as do narcotr\u00e1fico e se queixa de que isso n\u00e3o aparece na imprensa. O fen\u00f4meno indica que h\u00e1 territ\u00f3rios arrebatados ao Estado, o que requer uma interven\u00e7\u00e3o decidida do governo, justificou.<\/p>\n<p>O campon\u00eas entrevistado pela IPS, que n\u00e3o quis se identificar, desde crian\u00e7a viveu em Michoac\u00e1n, onde 143 pessoas morreram neste ano em a\u00e7\u00f5es ligadas ao narcotr\u00e1fico. Agora, junto com sua mulher, e depois de vender sua terra (menos de 15 hectares) trabalha na capital e pede que n\u00e3o se revele em que nem onde. \u201cAndavam por ai, no campo, todos armados, muitos jovens, mas bem agressivos. Nos diziam que com a planta\u00e7\u00e3o de maconha far\u00edamos bom dinheiro, mas que, se n\u00e3o concord\u00e1ssemos dever\u00edamos ag\u00fcentar as conseq\u00fc\u00eancias. Assim, foi melhor sairmos\u201d, disse.<\/p>\n<p>Calder\u00f3n afirmou que se trava uma guerra contra o narcotr\u00e1fico que ser\u00e1 \u201clonga e dolorosa\u201d, e convoca a unidade nacional para enfrent\u00e1-la. Mas opositores, organiza\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias e especialistas respondem que n\u00e3o pode haver unidade nacional diante de uma estrat\u00e9gia que consideram equivocada, pois, a seu ver, n\u00e3o d\u00e1 \u00eanfase a trabalhos de intelig\u00eancia e abusa das For\u00e7as Armadas, quando \u00e9 a policia que deve estar no comando. Denise Dresser, especialista em pol\u00edtica e acad\u00eamica do Instituto Tecnol\u00f3gico Aut\u00f4nomo do M\u00e9xico, acredita que alguns dirigentes pol\u00edticos que criticam a estrat\u00e9gia de Calder\u00f3n buscam apenas tirar proveito e golpear o governo.<\/p>\n<p>Espera-se que a luta contra o narcotr\u00e1fico n\u00e3o se transforme tamb\u00e9m em uma batalha pol\u00edtica. Entretanto, S\u00e1nchez disse que a sociedade e os pol\u00edticos \u201cn\u00e3o podem cruzar os bra\u00e7os quando o governo sozinho aposta na for\u00e7a e usa os militares\u201d. O problema \u201c\u00e9 que nada est\u00e1 sendo feito para melhorar a institucionalidade das policias, para limp\u00e1-las para que sejam elas a lutarem contra o narcotr\u00e1fico, para fazer reformas em mat\u00e9ria de justi\u00e7a e melhorar a situa\u00e7\u00e3o social de milh\u00f5es de pessoas\u201d, acrescentou o diretor da Comiss\u00e3o Mexicana de Defesa e Promo\u00e7\u00e3o de Direitos Humanos.<\/p>\n<p>O governo de Calder\u00f3n afirma que trabalha em todas essas frentes, mas, argumenta em sua defesa que muitas tomar\u00e3o mais tempo. Enquanto entende que n\u00e3o se pode renunciar ao controle de territ\u00f3rios nem ceder espa\u00e7os e nem negociar com as m\u00e1fias. Com esse argumento, criou por decreto no \u00faltimo dia 9 um novo grupo de seguran\u00e7a. Trata-se do Corpo de For\u00e7as de Apoio Federal, integrado por 3.500 militares de elite que ser\u00e3o treinados para \u201clidar com situa\u00e7\u00f5es cr\u00edticas de perturba\u00e7\u00e3o ou altera\u00e7\u00e3o da paz social e da seguran\u00e7a p\u00fablica\u201d, diz o decreto.<\/p>\n<p>Os narcotraficantes mexicanos, que atuam m coordena\u00e7\u00e3o com seus colegas colombianos e de outros pa\u00edses produtores de drogas, s\u00e3o respons\u00e1veis pelo transporte de grande parte dos estupefacientes consumidos nos Estados Unidos, principal mercado mundial. Os observadores v\u00eaem na viol\u00eancia mexicana dos \u00faltimos anos o reflexo de uma guerra interna pelo controle das rotas de acesso aos Estados Unidos, mas, tamb\u00e9m pelos mercados locais, cada vez com maior demanda. \u201cCom sua estrat\u00e9gia equivocada, Calder\u00f3n est\u00e1 comprometendo e arriscando a sociedade, que agora deve se preocupar n\u00e3o s\u00f3 dos narcotraficantes, mas tamb\u00e9m dos militares que podem deter qualquer pessoa sem nenhuma ordem e violar seus direitos\u201d, advertiu o diretor da Comiss\u00e3o Mexicana de Defesa e Promo\u00e7\u00e3o de Direitos Humanos. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e9xico, 16\/05\/2007 &ndash; \u201cFui embora porque estava insuport\u00e1vel, esses narcotraficantes nos amea\u00e7avam e agora n\u00e3o sei se voltarei. 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