{"id":2947,"date":"2007-06-04T15:08:54","date_gmt":"2007-06-04T15:08:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2947"},"modified":"2007-06-04T15:08:54","modified_gmt":"2007-06-04T15:08:54","slug":"america-latina-a-razao-populista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/06\/america-latina\/america-latina-a-razao-populista\/","title":{"rendered":"Am\u00e9rica Latina: A raz\u00e3o populista"},"content":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 04\/06\/2007 &ndash; Ap\u00f3s a frustra\u00e7\u00e3o deixada pelo modelo neoliberal, a Am\u00e9rica Latina oferece um leque de op\u00e7\u00f5es progressistas que os especialistas procuram classificar. Nesse debate, a categoria mais controvertida \u00e9 o populismo. <!--more--> Para o fil\u00f3sofo argentino Ernesto Laclau, radicado em Londres, o populismo \u00e9 uma forma de constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica leg\u00edtima \u201cdesacreditada por um discurso direitista que rejeita a mobiliza\u00e7\u00e3o popular\u201d. Para Laclau, \u201cn\u00e3o \u00e9 um conceito pejorativo e n\u00e3o deve ser comparado \u00e0 demagogia\u201d, esclareceu \u00e0 IPS durante sua \u00faltima visita \u00e0 Argentina deste professor da Universidade de Essex e autor de \u201cA raz\u00e3o populista\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO populismo n\u00e3o \u00e9 bom nem ruim, \u00e9 um processo que resulta de um conjunto de demandas sociais insatisfeitas, interpretadas por um l\u00edder que simboliza essas reclama\u00e7\u00f5es\u201d, acrescentou Laclau. Neste sentido, pode adquirir formas direitistas como \u00e9 o caso do presidente \u00c1lvaro Uribe, da Col\u00f4mbia, que unificou demandas de ordem. Ou de esquerda, como ocorre na Venezuela com Hugo Ch\u00e1vez, ressaltou o fil\u00f3sofo argentino.<\/p>\n<p>\u201cPor\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 um perigo para a democracia. O perigo para as democracias na regi\u00e3o est\u00e3o no neoliberalismo\u201d, acrescentou Laclau. O debate em torno das novas formas pol\u00edticas que surgem na regi\u00e3o concentrou a aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m de outros especialistas latino-americanos, que expuseram no semin\u00e1rio \u201cEsquerda, populismo e democracia na Argentina e Ibero-am\u00e9rica\u201d, organizado na capital argentina pelo Programa de Hist\u00f3ria Pol\u00edtica da Universidade de Buenos Aires.<\/p>\n<p>O soci\u00f3logo argentino Marcos Novaro, professor da Universidade de Buenos Aires, considerou nesse \u00e2mbito que na regi\u00e3o existem dois modelos de esquerda definidos. O de Ch\u00e1vez, que \u00e9 populista, antiliberal, estatista e anti-Estados Unidos, e o mais moderado do modelo chileno encarnado hoje na presidente Michelle Bachelet. No meio se encontra o governo argentino de N\u00e9stor Kirchner, proveniente da ala centro-esquerda do Partido Justicialista (peronista), que se mostra eq\u00fcidistante destes dois modelos, embora \u201ccom tra\u00e7os populistas\u201d, disse \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Novaro rejeita a desqualifica\u00e7\u00e3o do populismo e atribui este desprezo a setores econ\u00f4micos que questionam certo intervencionismo e desvios da ortodoxia neoliberal. Para este especialista, o populismo pode ser uma ferramenta apta para gerar consenso, incluir e organizar setores exclu\u00eddos. Mas tamb\u00e9m alerta que \u201cpode ter conseq\u00fc\u00eancias negativas\u201d, pois seus l\u00edderes desprezam as media\u00e7\u00f5es institucionais e isso d\u00e1 lugar a certa manipula\u00e7\u00e3o da vontade dos cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>Nesse encontro em Buenos Aires o especialista pol\u00edtico Jorge Lanzaro, da estatal Universidade de la Rep\u00fablica, definiu o momento hist\u00f3rico como uma \u201cterceira onda\u201d de esquerda latino-americana com modelos que v\u00e3o do populismo \u00e0 social-democracia e um terceiro modelo progressista baseado em partidos de tradi\u00e7\u00e3o nacional e popular. Esta nova tend\u00eancia na regi\u00e3o obriga a renovar a discuss\u00e3o te\u00f3rica, reelaborar conceitos e propor uma nova tipologia, desafiou. \u201cO novo ciclo da Am\u00e9rica Latina est\u00e1 marcado por um giro \u00e0 esquerda que abre um leque de manifesta\u00e7\u00f5es e se comp\u00f5e, pela primeira vez na hist\u00f3ria, com uma s\u00e9rie importante de governos que se situam entre as formas renovadas do populismo e a estr\u00e9ia da social-democracia crioula\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>O mal-estar pelo fiasco neoliberal foi capitalizado em alguns pa\u00edses pela esquerda que canalizou as demandas. \u00c9 o caso do Uruguai, onde desde mar\u00e7o de 2005 governa a coaliz\u00e3o Frente Ampla, composta por setores procedentes das mais variadas correntes desse pensamento, ou do Brasil, com Partido dos Trabalhadores, e do Chile, administrado por um acordo entre socialistas e democrata-crist\u00e3os. Mas nos pa\u00edses onde n\u00e3o havia uma tradi\u00e7\u00e3o de partidos progressistas ou naqueles onde essas agrupa\u00e7\u00f5es entraram em colapso ou ficaram ultrapassadas pela onda neoliberal, teve mais possibilidades de prosperar a lideran\u00e7a populista, disse Lanzaro.<\/p>\n<p>Convidado pela Universidade Nacional de San Mart\u00edn, que o nomeou diretor honor\u00e1rio de seu Centro de Estudos do Discurso e das Identidades S\u00f3cio-pol\u00edticas, Laclau admitiu que \u201co populismo tem imprensa ruim\u201d na regi\u00e3o e atribuiu esse descr\u00e9dito ao discurso direitista que teme a politiza\u00e7\u00e3o das demandas. Para este acad\u00eamico, ap\u00f3s a frustra\u00e7\u00e3o causada pelo neoliberalismo, a mobiliza\u00e7\u00e3o social contribuiu para o surgimento de populismos de esquerda na Venezuela, Bol\u00edvia e no Equador, que representam uma ruptura com o estabelecido e que podem ser a base de uma nova inser\u00e7\u00e3o latino-americana no mundo.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 dif\u00edcil pensar em um populismo sem uma fase de personaliza\u00e7\u00e3o do poder, porque para liderar um processo de ruptura \u00e9 preciso centralizar\u201d, afirmou o filosofo diante das cr\u00edticas por est\u00e1 tend\u00eancia adquirida pelo modelo. \u201cNaturalmente, se depois n\u00e3o h\u00e1 uma institucionaliza\u00e7\u00e3o o fen\u00f4meno se esgota\u201d, ressaltou. Por outro lado, v\u00ea em Argentina, Brasil, Chile, Peru e Uruguai emergirem estruturas distintas.<\/p>\n<p>Na Argentina, depois do colapso econ\u00f4mico e pol\u00edtico de 2001, houve uma enorme expans\u00e3o do protesto social que, apesar de conter uma forte rejei\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 classe pol\u00edtica tradicional, se resolveu no contexto de partidos existentes, explicou Laclau. Para este fil\u00f3sofo, Kirchner, eleito no come\u00e7o de 2003, encontrou a maneira de canalizar as demandas sociais. Mas as duas matrizes pol\u00edticas fundamentais, o Partido Justicialista e a Uni\u00e3o C\u00edvica Radical, \u201cest\u00e3o chegando ao seu fim e \u00e9 preciso recompor o imagin\u00e1rio em torno de novas op\u00e7\u00f5es\u201d, alertou.<\/p>\n<p>Ao lado do populismo, que se baseia na mobiliza\u00e7\u00e3o contra setores tradicionais, Laclau observa \u201cformas social-democratas desviadas\u201d no Chile, Peru e Uruguai. O caso do Brasil ele deixa \u00e0 parte. Embora o governo do Presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva seja \u201ccentrista\u201d, evitou entrar na hoje paralisada \u00c1rea de Livre Com\u00e9rcio das Am\u00e9ricas defendida por Washington. Entre o populismo e estas formas de social-democracia est\u00e3o hoje as op\u00e7\u00f5es dos governos latino-americanos diante do fim da hegemonia sem questionamento dos Estados Unidos, afirmou. \u201cChina e \u00cdndia s\u00e3o novas pot\u00eancias, a Uni\u00e3o Europ\u00e9ia \u00e9 outro fator, e neste cen\u00e1rio multipolar a Am\u00e9rica Latina deve integrar-se com base em governos acompanhados por uma forte mobiliza\u00e7\u00e3o popular como condi\u00e7\u00e3o para qualquer avan\u00e7o hist\u00f3rico\u201d, destacou. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 04\/06\/2007 &ndash; Ap\u00f3s a frustra\u00e7\u00e3o deixada pelo modelo neoliberal, a Am\u00e9rica Latina oferece um leque de op\u00e7\u00f5es progressistas que os especialistas procuram classificar. 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