{"id":2964,"date":"2007-06-06T16:29:11","date_gmt":"2007-06-06T16:29:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2964"},"modified":"2007-06-06T16:29:11","modified_gmt":"2007-06-06T16:29:11","slug":"ambiente-brasil-guarapiranga-um-manancial-em-perigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/06\/america-latina\/ambiente-brasil-guarapiranga-um-manancial-em-perigo\/","title":{"rendered":"Ambiente-Brasil: Guarapiranga, um manancial em perigo"},"content":{"rendered":"<p>S\u00e3o Paulo, 06\/06\/2007 &ndash; Jos\u00e9 Carlos Bezerra reconhece que o esgoto de sua casa flui para a represa de Guarapiranga, de onde se extrai \u00e1gua pra consumo humano. Mas o que fazer, pergunta, se sua renda n\u00e3o lhe permite viver em um lugar mais adequado.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_2964\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/guarapiranga_world-bank.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2964\" class=\"size-medium wp-image-2964\" title=\" - \" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/guarapiranga_world-bank.jpg\" alt=\" - \" width=\"200\" height=\"133\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2964\" class=\"wp-caption-text\"> - <\/p><\/div>  Sua casa, colada as de dois vizinhos, fica exatamente sobre o riacho Itupu, que recebe o esgoto direto de milhares de resid\u00eancias pouco antes de desembocar no rio Guarapiranga, que abastece 3,8 milh\u00f5es de habitantes da Grande S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Colunas de concreto encravadas no leito do riacho sustentam a metade posterior das casas, que t\u00eam a outra metade apoiada em terra nada firme \u00e0 beira de um barranco onde a eros\u00e3o se evidencia pela profundidade de aproximadamente tr\u00eas metros da faixa escavada pelas \u00e1guas, que sobem muito quando chove. Misturas de azulejo, madeira e pl\u00e1stico comp\u00f5em essas prec\u00e1rias moradias, que tampouco aparentam solidez. \u201cSe ca\u00edrem, construiremos outras\u201d, disse seu vizinho Luciano da Silva, que como Bezerra deixou o nordeste pobre semi-arido h\u00e1 cerca de 10 anos em busca de trabalho em S\u00e3o Paulo, acompanhado da mulher e uma filha pequena.<\/p>\n<p>Auxiliar de pedreiro em trabalhos eventuais, s\u00f3 restou a Silva viver nesse lugar inst\u00e1vel, j\u00e1 que n\u00e3o pode pagar o aluguel de uma casa mais digna, e tamb\u00e9m se nega a invadir terras alheias. N\u00e3o se arrepende de ter seguido para S\u00e3o Paulo, onde ganha por um dia de trabalho \u201ccinco vezes mais do que em Alagoas\u201d, seu Estado natal. Mas tanto Bezerra quanto Silva ter\u00e3o suas casas demolidas em breve, devido \u00e0s obras de canaliza\u00e7\u00e3o do riacho que est\u00e1 sendo feita no bairro. Suas \u00fanicas esperan\u00e7as s\u00e3o que a assist\u00eancia social do munic\u00edpio lhes ofere\u00e7a pelo menos uma \u00e1rea para poderem construir novas casas.<\/p>\n<p>Euclides Lima, de 72 anos e quatro filhos, que tamb\u00e9m deixou o nordeste, h\u00e1 40 anos, espera ter melhor sorte. Acredita que perder\u00e1 apenas um ter\u00e7o de sua casa, que fica em terra firme, mas em uma curva do riacho, compondo um obst\u00e1culo na trajet\u00f3ria do canal reto. Pedreiro aposentado e previdente, ele construiu sua casa com a possibilidade de acrescentar um novo piso sobre a parte que restar, substituindo o ter\u00e7o condenado. Estes tr\u00eas imigrantes nordestinos e suas fam\u00edlias fazem parte dos 950 mil moradores da bacia hidrogr\u00e1fica de Guarapiranga e amea\u00e7am contaminar irremediavelmente a \u00e1gua consumida por um quinto dos 19 milh\u00f5es de habitantes da Grande S\u00e3o Paulo. No censo de 1991, est\u00e1 \u00e1rea j\u00e1 era ocupada por 550 mil pessoas.<\/p>\n<p>Este explosivo aumento na popula\u00e7\u00e3o, que fez de Guarapiranga \u201cum manancial urbano\u201d, se deve \u00e0 expans\u00e3o dos chamados \u201cbairros dormit\u00f3rios\u201d nos arredores da represa, por sua proximidade com o \u201ccentro din\u00e2mico\u201d da capital paulista, que se deslocou para sul e oeste, concentrando grandes hot\u00e9is e empresas geradoras de empregos, explicou Ricardo Ara\u00fajo. \u201cN\u00e3o perder o sistema Guarapiranga\u201d, a segunda maior fonte de abastecimento local, \u00e9 crucial para garantir \u00e1gua pot\u00e1vel suficiente para a regi\u00e3o metropolitana, cuja popula\u00e7\u00e3o continuar\u00e1 crescendo at\u00e9 2025, quando, calcula-se, estar\u00e1 entre 23,5 milh\u00f5es e 24 milh\u00f5es de habitantes, segundo Ara\u00fajo, coordenador da Secretaria de Saneamento e Energia do Estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Atualmente, o abastecimento j\u00e1 est\u00e1 no limite, com oferta e demanda praticamente no mesmo volume, de aproximadamente 67 metros c\u00fabicos por segundo, que varia segundo as \u00e9pocas do ano, sem margem de seguran\u00e7a. Qualquer acidente provoca racionamentos em alguns bairros ou cidades. Por isso ser\u00e3o indispens\u00e1veis \u201cnovos mananciais\u201d, para o qual a secretaria tem planos de ampliar as duas fontes existentes na Grande S\u00e3o Paulo e buscar \u00e1gua em uma bacia externa, a do rio Ribeira, que implica altos custos de transporte, al\u00e9m de precisar ser retirada desde 180 metros de profundidade.<\/p>\n<p>O aumento total seria de 12 metros c\u00fabicos por segundo, sem acrescentar excedentes de seguran\u00e7a. Sem a Guarapiranga seria preciso buscar recursos h\u00eddricos ainda mais longe, com investimentos e custos operacionais insuport\u00e1veis para a popula\u00e7\u00e3o pobre, como energia para bombear \u00e1gua. A energia j\u00e1 representa 20% dos custos de saneamento da \u00e1rea metropolitana, destacou Ara\u00fajo. Mas, outros mananciais tamb\u00e9m est\u00e3o amea\u00e7ados pela press\u00e3o demogr\u00e1fica, como a represa Billings, com cerca de 900 mil pessoas vivendo em sua \u00e1rea.<\/p>\n<p>A regi\u00e3o da Grande S\u00e3o Paulo deixou de atrair imigrantes do interior do pa\u00eds nos anos 80, depois de d\u00e9cadas de fluxos permanentes, o que ajudou a deter o crescimento acelerado de sua popula\u00e7\u00e3o. Mas, essa situa\u00e7\u00e3o foi substitu\u00edda por uma \u201cforte migra\u00e7\u00e3o interna\u201d para a periferia da cidade, com os pobres expulsos das \u00e1reas centrais pelo alto valor dos im\u00f3veis e invadindo as bacias-chave, afirmou Marussia Whately, coordenadora do Programa Mananciais do n\u00e3o-governamental Instituto Socioambiental (ISA).<\/p>\n<p>Enquanto diminu\u00edram os moradores dos bairros centrais de S\u00e3o Paulo, munic\u00edpios do sul da \u00e1rea metropolitana, como Embu-Gua\u00e7u, registram crescimento demogr\u00e1fico de 5% a 6% ao ano, com isso multiplicando os bairros sem saneamento, afirmou Whately, baseada em estudos e a\u00e7\u00f5es do Isa na defesa da represa. \u00c9 necess\u00e1rio \u201creverter a l\u00f3gica urbana\u201d que expande e aumenta a densidade da periferia de S\u00e3o Paulo em detrimento do centro da cidade.<\/p>\n<p>Mas a tend\u00eancia centr\u00edfuga se agrava pela constru\u00e7\u00e3o do Anel Vi\u00e1rio, que o governo estadual constr\u00f3i para ligar as estradas sem que os ve\u00edculos pesados de carga cruzem localidades pr\u00f3ximas \u00e0 capital paulista, criticou a especialista. Com \u00e9 imposs\u00edvel retirar a popula\u00e7\u00e3o da zona mais afetada dos mananciais, \u00e9 preciso \u201cdesconcentr\u00e1-la\u201d e evitar que continuem contaminando a \u00e1gua, acrescentou Whateley. Entretanto, esse objetivo encontra dificuldades diante de um modelo ineficiente de saneamento, com poucas esta\u00e7\u00f5es de tratamento de esgoto, que obriga seu transporte por dezenas de quil\u00f4metros de canaliza\u00e7\u00e3o que atravessam as cidades, gerando o fen\u00f4meno das \u201cfezes cansadas\u201d, ironizou a ativista.<\/p>\n<p>Munic\u00edpios inteiros n\u00e3o t\u00eam esgoto com tratamento e a instala\u00e7\u00e3o de encanamentos apenas agrava o problema ao levar toda a contamina\u00e7\u00e3o diretamente \u00e0s represas, perdendo a capacidade de \u201cdepura\u00e7\u00e3o\u201d dos riachos, que \u00e9 limitada, mas que se poderia melhorar, lamentou Whately. Por sua vez, Ara\u00fajo reconhece a falta de adequa\u00e7\u00e3o do sistema \u201cmonop\u00f3lico\u201d de tratamento, projetado h\u00e1 quatro d\u00e9cadas e que n\u00e3o se pode reestruturar mas substituir em novos assentamentos, por\u00e9m, negou que a maior parte do esgoto v\u00e1 para o rio Guarapiranga sem tratamento.<\/p>\n<p>\u201cBoa parte est\u00e1 canalizada pra fora\u201d da bacia, garantiu. O problema \u00e9 que a separa\u00e7\u00e3o entre esgoto e \u00e1gua da chuva, adotada no Brasil, n\u00e3o se cumpre especialmente nos bairros pobres, explicou Ara\u00fajo. Sobre os efeitos do Anel Vi\u00e1rio, que inclui pontes sobre as represas de Guarapiranga e Billings, disse acreditar que n\u00e3o atrair\u00e1 muitos moradores, porque os est\u00edmulos para essa emigra\u00e7\u00e3o para a periferia j\u00e1 foram oferecidos pelas estradas a serem conectadas. Por outro lado, essa obra ir\u00e1 promover uma melhora economia na regi\u00e3o metropolitana, reduzindo a press\u00e3o contaminadora sobre os mananciais, acrescentou.<\/p>\n<p>Em sua avalia\u00e7\u00e3o, a pobreza \u00e9 o principal fator de deteriora\u00e7\u00e3o ambiental nas bacias, com ocupa\u00e7\u00f5es ilegais que dificultam um saneamento completo. A contamina\u00e7\u00e3o dos mananciais, de fato, constitui \u201cum problema s\u00f3cio-ambiental\u201d, afirmou Marco Antonio Lucena, administrador do Parque Ecol\u00f3gico de Guarapiranga, criado em 1999 para proteger dois dos 28 quil\u00f4metros das margens da represa, conservando 250 hectares de florestas. Um esfor\u00e7o de educa\u00e7\u00e3o ambiental e atividades culturais, desportivas e sociais desenvolvidas no parte procura conquistar a popula\u00e7\u00e3o vizinha, muito pobre, a defender o recurso natural do qual depende toda a popula\u00e7\u00e3o metropolitana.<\/p>\n<p>Os trabalhadores s\u00e3o recrutados quase todos nos bairros locais. Nos campos de futebol jogam 16 equipes da regi\u00e3o, h\u00e1 colabora\u00e7\u00e3o com as escolas vizinhas, apresenta\u00e7\u00e3o de grupos de teatro e m\u00fasica e um telecentro para acesso da popula\u00e7\u00e3o \u00e0 Internet, explicou Lucena. Clubes desportivos que no passado atraiam as pessoas de classe m\u00e9dia s\u00e3o aliados na preserva\u00e7\u00e3o ambiental, por manterem limpa a costa a impedir sua ocupa\u00e7\u00e3o, mas lamentou que hoje estejam em decad\u00eancia porque antigos s\u00f3cios temem cruzar os bairros pobres e violentos que h\u00e1 em torno da represa.<\/p>\n<p>Mas o governo tem planos para criar cinco novos parques e recuperar atividades de lazer. A car\u00eancia de moradias para os pobres mant\u00e9m a press\u00e3o sobre os mananciais. O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, que tem como a\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria ocupar terrenos baldios na periferia para levantar assentamentos populares, manteve entre mar\u00e7o e meados de maio um acampamento de 3.500 fam\u00edlias em Itapecerica da Serra, munic\u00edpio da bacia do Guarapiranga. O MTST obteve a promessa do governo de constru\u00e7\u00e3o de casas para boa parte dos acampados.<\/p>\n<p>Essa mobiliza\u00e7\u00e3o refor\u00e7a a tend\u00eancia de expans\u00e3o da metr\u00f3pole para a periferia, com seus efeitos negativos e contrariando a necess\u00e1ria revitaliza\u00e7\u00e3o do centro de S\u00e3o Paulo, onde h\u00e1 400 mil moradias desocupadas, disse Nelson Saule, especialista do Instituto Polis. A periferia da cidade n\u00e3o disp\u00f5e da infra-estrutura f\u00edsica, dos servi\u00e7os e das oportunidades de emprego que o centro oferece, acrescentou. Est\u00e1 \u00e9 uma \u201cvis\u00e3o acad\u00eamica, dos que n\u00e3o conhecem na pr\u00e1tica o d\u00e9ficit habitacional, os bairros pobres e a necessidade real das pessoas que moram neles\u201d, disse Guilherme Boulos, um dos l\u00edderes do MTST. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p>(*) enviado especial<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e3o Paulo, 06\/06\/2007 &ndash; Jos\u00e9 Carlos Bezerra reconhece que o esgoto de sua casa flui para a represa de Guarapiranga, de onde se extrai \u00e1gua pra consumo humano. 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