{"id":2995,"date":"2007-06-14T16:23:49","date_gmt":"2007-06-14T16:23:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2995"},"modified":"2007-06-14T16:23:49","modified_gmt":"2007-06-14T16:23:49","slug":"agricultura-brasil-david-golias-e-a-reforma-agraria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/06\/america-latina\/agricultura-brasil-david-golias-e-a-reforma-agraria\/","title":{"rendered":"Agricultura-Brasil: David, Golias e a reforma agr\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 14\/06\/2007 &ndash; A principal organiza\u00e7\u00e3o camponesa do Brasil, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, afirmou que a reforma agr\u00e1ria est\u00e1 paralisada no Pa\u00eds. <!--more--> O MST tamb\u00e9m alertou para a \u201ceuforia\u201d pela produ\u00e7\u00e3o de biocombust\u00edveis a partir de mat\u00e9rias-primas agr\u00edcolas. O movimento afirma que se trata de uma variante do agroneg\u00f3cio que somente gera mais concentra\u00e7\u00e3o na propriedade da terra e impulsiona seu crescimento. Jo\u00e3o Pedro St\u00e9dile, membro da dire\u00e7\u00e3o nacional do MST, disse \u00e0 IPS que est\u00e3o em jogo dois modelos.<\/p>\n<p>Existe \u201co da classe dominante, dos grandes capitalistas que constru\u00edram uma alian\u00e7a. \u00c9 integrada, por um lado, por empresas multinacionais e, por outro, por grandes latifundi\u00e1rios brasileiros\u201d. O MST defende outro modelo, \u201cvoltado para as necessidades do povo, baseado no assentamento dos camponeses no meio rural, no desenvolvimento dos policultivos e na produ\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria de alimentos, sem uso de agrot\u00f3xicos\u201d, afirmou St\u00e9dile. A \u201calian\u00e7a\u201d entre as grandes empresas e os grandes propriet\u00e1rios \u2013 acrescentou \u2013 se baseia na produ\u00e7\u00e3o em grandes extens\u00f5es, com uso de agrot\u00f3xicos que degradam o meio ambiente e voltada fundamentalmente aos mercados externos.<\/p>\n<p>O MST prop\u00f5e impulsionar o modelo alternativo, ao qual se op\u00f5em \u201ca sociedade brasileira e todo o mundo\u201d, afirmou o dirigente. O Quinto Congresso Nacional do movimento, que com 18 mil delegados delibera desde segunda at\u00e9 sexta-feira em Bras\u00edlia, \u00e9 o cen\u00e1rio do debate. St\u00e9dile disse que na vis\u00e3o do MST, que tradicionalmente usa o m\u00e9todo de ocupa\u00e7\u00e3o ilegal de terras como meio de pressionar o governo para que acelere a reforma agr\u00e1ria, existe uma preocupa\u00e7\u00e3o adicional a respeito do modelo de posse da terra.<\/p>\n<p>O MST se preocupa com o auge dos biocombust\u00edveis e o impacto que o \u201cagroneg\u00f3cio\u201d tem sobre a distribui\u00e7\u00e3o da terra. \u201cPara fazer a reforma agr\u00e1ria \u00e9 necess\u00e1rio democratizar o acesso \u00e0 propriedade, dividir os latif\u00fandios e estimular o policultivo no mercado interno\u201d, afirmou. Por\u00e9m, o modelo do \u201cagroneg\u00f3cio necessita maior produ\u00e7\u00e3o em grande escala e concentra a propriedade da terra\u201d. St\u00e9dile disse que a produ\u00e7\u00e3o de etanol, biocombust\u00edvel obtido a partir da cana-de-a\u00e7\u00facar, entre outros cultivos, fomenta a concentra\u00e7\u00e3o e encarece a terra.<\/p>\n<p>\u201cO que nos chama a aten\u00e7\u00e3o e nos preocupa \u00e9 que vemos uma ofensiva de capitalistas norte-americanos. Em fun\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de etanol, est\u00e3o fazendo fortes investimentos para comprar terras e usinas no Brasil\u201d, afirmou o dirigente. St\u00e9dile se refere \u00e0 aquisi\u00e7\u00e3o de 13 usinas para a produ\u00e7\u00e3o desse combust\u00edvel, nas quais o capital majorit\u00e1rio veio dos Estados Unidos. O caso emblem\u00e1tico, &#8211; acrescentou &#8211; foi a compra pela multinacional Cargill da maior usina de etanol em Ribeir\u00e3o Preto, no interior do Estado de S\u00e3o Paulo, que conta com 356 mil hectares dedicados ao cultivo da cana-de-a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>O financista h\u00fangaro-norte-americano George Soros, que se gabou de for\u00e7ar a Gr\u00e3-Bretanha a desvalorizar a libra esterlina com suas manobras especulativas nos mercados de divisas, investir\u00e1 US$ 900 milh\u00f5es na constru\u00e7\u00e3o de tr\u00eas usinas de etanol no Mato Grosso do Sul e mais US$ 1 bilh\u00e3o, atrav\u00e9s de um fundo de investimento, na aquisi\u00e7\u00e3o de terras. \u201cIsto \u00e9 pat\u00e9tico\u201d, afirmou St\u00e9dile. O aumento no pre\u00e7o da terra devido ao auge dos biocombust\u00edveis foi confirmado por um estudo do Instituto FNP, organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos dedicada a analisar as vari\u00e1veis econ\u00f4micas agr\u00e1rias patrocinadas, entre outras institui\u00e7\u00f5es, pela consultora privada AgraFNP.<\/p>\n<p>O informe, coordenado pela engenheira agr\u00f4noma Jacqueline Dettman, ressalta que em Estados como S\u00e3o Paulo os canaviais avan\u00e7am sobre outros cultivos, como laranja ou pasto para o gado, o que, por sua vez, disparou um aumento no pre\u00e7o da terra de 70% no \u00faltimo ano. Em \u00e1reas do nordeste do Brasil, aptas para o cultivo de cana-de-a\u00e7\u00facar, o pre\u00e7o da terra alcan\u00e7ou um recorde hist\u00f3rico, com aumentos de at\u00e9 84%, diz o estudo. O ministro de Desenvolvimento Agr\u00e1rio, Guilherme Cassel, em conversa com IPS reconheceu que \u201cdeve haver algum tipo de regulamenta\u00e7\u00e3o para garantir que a produ\u00e7\u00e3o de etanol n\u00e3o se baseie na amplia\u00e7\u00e3o do latif\u00fandio e na devasta\u00e7\u00e3o do meio ambiente\u201d.<\/p>\n<p>Cassel informou que est\u00e1 produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve ser obst\u00e1culo ao desenvolvimento da agricultura familiar nem \u00e0 reforma agr\u00e1ria. \u201cCreio que a produ\u00e7\u00e3o de biocombust\u00edveis e a de alimentos s\u00e3o compat\u00edveis quando planejadas e regulamentadas, por exemplo, evitando a compra de terras por investidores estrangeiros, o que, inclusive, \u00e9 um problema de soberania nacional\u201d, afirmou. Entretanto, o ministro disse ter \u201cum pequeno desacordo e um acordo de fundo\u201d com a posi\u00e7\u00e3o do MST, segundo a qual no Brasil se imp\u00f4s o agroneg\u00f3cio sobre um modelo agr\u00edcola social.<\/p>\n<p>\u201cNo Brasil temos dois modelos, um do agroneg\u00f3cio, empresarial e patronal, assentado em grandes extens\u00f5es de terra e baseado na monocultura, e o modelo de agricultura familiar, dos assentamentos da reforma agr\u00e1ria, baseado na diversifica\u00e7\u00e3o e na prote\u00e7\u00e3o do meio ambiente\u201d, explicou o ministro. Cassel destacou que o Presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva \u201capoiou os dois modelos e ambos responderam com muita efetividade. Atualmente, o Brasil j\u00e1 n\u00e3o tem que se comprometer com a monocultura para gerar excedentes monet\u00e1rios. Ao mesmo tempo, apoiamos a reforma agr\u00e1ria e a agricultura familiar\u201d, acrescentou. Nos \u00faltimos quatro anos, o governo aumentou o cr\u00e9dito para a agricultura familiar de US$ 1,145 milh\u00e3o para cerca de US$ 6,25 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Cassel disse concordar com o MST que entre os dois modelos \u201co melhor para o meio rural brasileiro \u00e9 um com pequenas propriedades agr\u00edcolas, com muita gente trabalhando, criando muito emprego e muita renda, com um produto diversificado e com prote\u00e7\u00e3o do meio ambiente\u201d. Esta vis\u00e3o, admitiu, se op\u00f5e ao modelo \u201cque j\u00e1 concentrou terras, causou desemprego, exclus\u00e3o da gente do campo, desmatamento, trabalho escravo e viol\u00eancia\u201d. O governo, disse o ministro, est\u00e1 dando prioridade \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de biodiesel, obtido a partir de \u00f3leos vegetais, como um motor de desenvolvimento para o campo. Segundo Cassel, \u201c\u00e9 uma pol\u00edtica revolucion\u00e1ria\u201d que beneficiou 200 mil agricultores pobres no nordeste do Pa\u00eds, conforme dados do governo.<\/p>\n<p>No que ministro e St\u00e9dile concordam \u00e9 sobre os avan\u00e7os da reforma agr\u00e1ria. Para o dirigente do MST \u201cest\u00e1 praticamente paralisada\u201d desde o governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2003). St\u00e9dile disse que 65% dos assentamentos foram feitos em \u00e1reas p\u00fablicas da regi\u00e3o amaz\u00f4nica e que, portanto, \u201cn\u00e3o devem ser chamados de assentamentos, mas de coloniza\u00e7\u00e3o\u201d. Os restantes 35% &#8211; diz o MST \u2013 s\u00e3o assentamentos nos quais n\u00e3o existe uma verdadeira pol\u00edtica de reforma agr\u00e1ria, no sentido de \u201ctomar medidas para distribuir a propriedade da terra ou democratiz\u00e1-la\u201d.<\/p>\n<p>\u201cDizemos que essas pol\u00edticas de assentamento n\u00e3o constituem uma reforma agr\u00e1ria, mas que s\u00e3o medidas de contens\u00e3o social para resolver problemas conjunturais\u201d e que fazem parte de um \u201cprojeto econ\u00f4mico neoliberal\u201d que deixou para tr\u00e1s um de \u201cdesenvolvimento nacional e industrial\u201d, disse o dirigente do MST. \u201cN\u00e3o concordo com o balan\u00e7o de St\u00e9dile\u201d, afirmou Cassel. \u201cO governo brasileiro pode dizer com todas as letras que nunca assentou tanta gente em t\u00e3o pouco tempo neste Pa\u00eds\u201d. Segundo o ministro, nos \u00faltimos quatro anos foram assentadas 371 mil fam\u00edlias no campo, \u00e0s quais foram destinados32 milh\u00f5es de hectares, uma \u00e1rea \u201csuperior \u00e0s de B\u00e9lgica, Dinamarca, Holanda e Su\u00ed\u00e7a juntas\u201d, ressaltou. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 14\/06\/2007 &ndash; A principal organiza\u00e7\u00e3o camponesa do Brasil, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, afirmou que a reforma agr\u00e1ria est\u00e1 paralisada no Pa\u00eds. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/06\/america-latina\/agricultura-brasil-david-golias-e-a-reforma-agraria\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":75,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,5,11],"tags":[21],"class_list":["post-2995","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-economia","category-politica","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2995","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/75"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2995"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2995\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2995"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2995"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2995"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}