{"id":3073,"date":"2007-07-06T17:14:46","date_gmt":"2007-07-06T17:14:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=3073"},"modified":"2007-07-06T17:14:46","modified_gmt":"2007-07-06T17:14:46","slug":"brasil-o-dificil-combate-ao-trabalho-escravo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/07\/america-latina\/brasil-o-dificil-combate-ao-trabalho-escravo\/","title":{"rendered":"Brasil: O dif\u00edcil combate ao trabalho escravo"},"content":{"rendered":"<p>A\u00e7ail\u00e2ndia, 06\/07\/2007 &ndash; Jos\u00e9 Alves, de 30 anos e tr\u00eas filhos, conserva como recorda\u00e7\u00e3o a velha bicicleta, hoje uma estrutura sem rodas, com a qual viajou centenas de quil\u00f4metros na Amaz\u00f4nia oriental brasileira \u201cca\u00e7ando trabalho para melhorar a vida\u201d, mas caindo na armadilha da escravid\u00e3o.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_3073\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/FabricajuguetesnotaesclavitudOSava.JPG\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3073\" class=\"size-medium wp-image-3073\" title=\" - Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos de A\u00e7ail\u00e2ndia\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/FabricajuguetesnotaesclavitudOSava.JPG\" alt=\" - Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos de A\u00e7ail\u00e2ndia\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3073\" class=\"wp-caption-text\"> - Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos de A\u00e7ail\u00e2ndia<\/p><\/div>  Alves \u00e9 um exemplo de que a necessidade muitas vezes \u00e9 mais forte do que a cautela. \u00d3rf\u00e3o de pai em uma fam\u00edlia de 10 filhos, tinha de ajudar a m\u00e3e e tr\u00eas irm\u00e3os menores. Sofreu a viol\u00eancia da escravid\u00e3o moderna tanto em seu Estado natal, Maranh\u00e3o, quanto no Par\u00e1.<\/p>\n<p>Alves cortou \u00e1rvores e capinou \u201ccom a for\u00e7a dos bra\u00e7os\u201d e cavou po\u00e7os, teve um patr\u00e3o que pagava apenas a metade do sal\u00e1rio m\u00ednimo e abandonava os empregados no meio da selva, comendo pescado dos rios \u201cpara n\u00e3o morrer de fome\u201d, e um outro que os mantinha ref\u00e9ns com guardas armados. \u201cNem gosto de lembrar\u201d, afirma, assinalando que agora vive no para\u00edso. Alves coordena a produ\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o reciclado em uma das duas unidades da Cooperativa para a Dignidade do Maranh\u00e3o (Codigma), um projeto do Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos de A\u00e7ail\u00e2ndia (CDVDH) iniciado h\u00e1 um ano.<\/p>\n<p>Como subir ao c\u00e9u<\/p>\n<p>O carv\u00e3o reciclado, ideal para uso dom\u00e9stico ou em churrascarias porque n\u00e3o produz fuma\u00e7a nem cinzas, \u00e9 obtido misturando res\u00edduos de carv\u00e3o vegetal, jogados fora pela ind\u00fastria sider\u00fargica local, com argila e f\u00e9cula de mandioca em pequenas propor\u00e7\u00f5es, passando o material por v\u00e1rios equipamentos e deixando secar ao sol depois de cortado em peda\u00e7os pequenos. A produ\u00e7\u00e3o de quatro toneladas por m\u00eas permite uma renda de apenas R$ 150 para os 10 trabalhadores da unidades, mas Alves espera dobr\u00e1-la a partir de agosto, com a constru\u00e7\u00e3o de uma nova \u00e1rea de secagem. \u201cMat\u00e9ria-prima existe de sobra\u201d, porque a Codigma, instalada em Vila Ildemar, um bairro pobre de A\u00e7ail\u00e2ncia, fica perto de cinco usinas sider\u00fargicas.<\/p>\n<p>\u201cO come\u00e7o foi dif\u00edcil, mas agora podemos subir ao c\u00e9u sem escada\u201d, afirma Alves. Dos 20 associados em sua unidade restam apenas 10, porque os demais n\u00e3o puderam ag\u00fcentar mais ganhando apenas uma \u201cajuda\u201d de R$ 150 e cesta b\u00e1sica de alimentos oferecidos pelo projeto, e tiveram de buscar outras ocupa\u00e7\u00f5es. Mas essa deser\u00e7\u00e3o \u00e9 tempor\u00e1ria, acredita Alves, assim com os participantes da unidade que faz jogos educativos a partir de restos de madeira jogados fora pelas serrarias, que come\u00e7ou com 28 pessoas e agora tem apenas 16.<\/p>\n<p>A Codigma busca evitar a reca\u00edda no trabalho escravo. Seus s\u00f3cios s\u00e3o todos ex-escravos ou familiares de trabalhadores que j\u00e1 estiveram presos em locais selvagens, impedidos de sair sob pretexto de uma falsa d\u00edvida com os patr\u00f5es, somando custos de transporte, instrumentos de trabalho, comida e alojamento, em geral insalubres. A iniciativa responde \u00e0 constata\u00e7\u00e3o de que a repress\u00e3o e as campanhas de informa\u00e7\u00e3o s\u00e3o insuficientes para erradicar o trabalho escravo, que persiste especialmente na Amaz\u00f4nia oriental e no nordeste do Pa\u00eds, \u00e1reas de popula\u00e7\u00e3o muito pobre.<\/p>\n<p>O Grupo M\u00f3vel de Inspe\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio do Trabalho j\u00e1 libertou mais de 24 mil escravizados desde sua cria\u00e7\u00e3o em 1995, inspecionando quase duas mil fazendas e empresas, impondo o pagamento de todos os direitos trabalhistas violados, indeniza\u00e7\u00f5es e multas. Alguns empregadores enfrentam a\u00e7\u00f5es judiciais que podem custar-lhes de quatro a oito anos de pris\u00e3o. Apesar da repress\u00e3o intensificada nesta d\u00e9cada, a Comiss\u00e3o Pastoral da Terra, que se destacou em denunciar a exist\u00eancia do problema, mant\u00e9m sua estimativa da d\u00e9cada anterior de 25 mil brasileiros submetidos ao trabalho degradante e for\u00e7ado, principalmente em fazendas de gado e carvoarias afastadas das cidades. A extrema pobreza e o desemprego empurram os trabalhadores para os \u201cgatos\u201d, recrutadores informais de m\u00e3o-de-obra para empres\u00e1rios sem compromisso com a legalidade.<\/p>\n<p>Em vias de regenera\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>As 14 sider\u00fargicas que utilizam ferro da Serra de Caraj\u00e1s, 380 quil\u00f4metros a oeste de A\u00e7ail\u00e2ndia, criaram em 2004, o Instituto Carv\u00e3o Cidad\u00e3o para erradicar o trabalho escravo entre seus fornecedores de carv\u00e3o vegetal. Algumas ind\u00fastrias haviam sido acusadas desse crime. Essas empresas, que antes jogavam toda a culpa nos carvoeiros, \u201cmudaram, assumiram a responsabilidade\u201d nos fatos ocorridos na cadeia produtiva e buscam melhorar sua imagem prejudicada, reconhece Ornedson Carneiro, presidente do ICC, com sede em Imperatriz, a maior cidade da \u00e1rea de influ\u00eancia de Caraj\u00e1s.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de monitorar o cumprimento das leis trabalhistas pelas carvoarias, que j\u00e1 resultou na exclus\u00e3o de 312 fornecedores, o ICC come\u00e7ou em mar\u00e7o a oferecer empregos formais aos trabalhadores resgatados da escravid\u00e3o. \u201cJ\u00e1 empregados 56 e a meta \u00e9 chegar a 300 este ano\u201d, diz Carneiro. As empregadoras s\u00e3o as pr\u00f3prias sider\u00fargicas e carvoarias. Depois de libertados, esses trabalhadores recebem os sal\u00e1rios atrasados e outros direitos, como f\u00e9rias e bonifica\u00e7\u00f5es, al\u00e9m de tr\u00eas meses de seguro desemprego no valor de um sal\u00e1rio m\u00ednimo, mas depois de gastar esse dinheiro lhes restam \u201capenas duas alternativas, roubar ou voltar ao trabalho escravo\u201d, acrescentou Carneiro.<\/p>\n<p>O projeto procura contatar trabalhadores de uma lista de resgatados e capacit\u00e1-los, em muitos casos alfabetizando, antes de coloc\u00e1-los em uma empresa. Para este trabalho foi contratada como consultora Telci Teod\u2019Oro, mestra em educa\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento sustent\u00e1vel. \u00c9 dif\u00edcil descobrir onde vivem os poss\u00edveis beneficiados pelo projeto, sendo que de muitos deles se conhece o apelido ou endere\u00e7os incompletos ou que n\u00e3o existem, observou a consultora em sua primeira expedi\u00e7\u00e3o por munic\u00edpios pr\u00f3ximos de Marab\u00e1, cidade que concentra sete sider\u00fargicas, algumas delas oferecendo empregos a ex-escravos. Um deles deu como endere\u00e7o o \u201cCabar\u00e9 Cora\u00e7\u00e3o de M\u00e3e\u201d, contou Telci.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, alguns rejeitam um emprego formal, alegando que desejam \u201ctrabalhar para si mesmos\u201d ou suspeitam que a oferta seja outro convite que acaba em trabalho escravo. Outras dificuldades \u00e9 capacit\u00e1-los para um trabalho regular, com disciplina e hor\u00e1rios a cumprir. Um grupo de 17 rec\u00e9m-contratados de uma sider\u00fargica, por exemplo, decidiu por conta pr\u00f3pria sair de f\u00e9rias, porque \u201cviam pouco suas fam\u00edlias\u201d. Com s\u00e3o analfabetos absolutos ou funcionais, suas possibilidades de trabalho na ind\u00fastria se limitam \u00e0 limpeza ou jardinagem. Mas h\u00e1 casos de \u00eaxito, como o de um jovem que se alfabetizou e converteu-se em um exemplar condutor de ve\u00edculos, destaca Telci.<\/p>\n<p>Trabalho entre iguais<\/p>\n<p>S\u00e3o distintos os problemas da Codigma, onde os mesmos trabalhadores, em conjunto ou como iguais, procuram tornar seu neg\u00f3cio rent\u00e1vel. Enquanto o carv\u00e3o reciclado tem mercado garantido, mas depende de investimentos para aumentar a produ\u00e7\u00e3o, vender brinquedos \u00e9 muito mais dif\u00edcil, por causa da forte competi\u00e7\u00e3o. A unidade escolheu sete brinquedos de formas conhecidas, com trem e caminh\u00e3o, com cores vivas e, em alguns casos, com movimentos, com a montanha-russa. Um esfor\u00e7o de venda \u00e9 feito em lojas de A\u00e7ail\u00e2ndia e cidades vizinhas, e tamb\u00e9m via Internet com apoio da Rep\u00f3rter Brasil, uma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental nascida em 2001 para divulgar situa\u00e7\u00f5es de injusti\u00e7a, especialmente o trabalho escravo.<\/p>\n<p>Seus s\u00f3cios sonham em alcan\u00e7ar a renda de um sal\u00e1rio m\u00ednimo, dividindo o produto das vendas. \u201cDaria para sobreviver\u201d, acredita Lenilde Fernandes, que sustenta um filho de 17 anos epil\u00e9ptico, que embora n\u00e3o precise mais de rem\u00e9dios est\u00e1 atrasado na escola. Ela lava roupa para fora a fim de completar o que ganha na cooperativa. Mas \u201cnunca mais cozinharei para os outros\u201d, afirma, recordando o trabalho for\u00e7ado ao qual foi submetida durante cinco anos em uma fazenda do Par\u00e1.<\/p>\n<p>Outras mulheres, como Roseni Lima, com seis filhos pequenos, e Francisca Souza, de 21 anos e um filho, tiveram seus maridos submetidos a condi\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0 escravid\u00e3o. Elas permanecem na cooperativa enquanto eles a deixaram em busca de renda adicional em trabalhos espor\u00e1dicos. Orleilson Ribeiro, de 30 anos e dois filhos, continua na unidade de brinquedos desde o in\u00edcio, em maio de 2006. \u201cAqui temos futuro\u201d, afirmou, ap\u00f3s recordar as humilha\u00e7\u00f5es, amea\u00e7as e a fuga de uma carvoaria onde esteve escravizado h\u00e1 cinco anos.<\/p>\n<p>A cooperativa \u00e9 uma gota, mas tamb\u00e9m \u00e9 um novo caminho em um lugar onde as grandes investimentos, concentrados em pecu\u00e1ria, minera\u00e7\u00e3o e siderurgia, geram escassos empregos e desenvolvimento local. A Codigma est\u00e1 criando duas unidades, para produtos de limpeza e utilidades dom\u00e9sticas, informou Carmen Bascar\u00e1n, presidente do CDVDH, que tamb\u00e9m acredita nas atividades culturais. Dos mais de 600 jovens de A\u00e7ail\u00e2ndia participantes de grupos de dan\u00e7a, teatro e capoeira, muitos j\u00e1 s\u00e3o profissionais, atuam em espet\u00e1culos e como instrutores em v\u00e1rios n\u00facleos criados pelo Centro. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A\u00e7ail\u00e2ndia, 06\/07\/2007 &ndash; Jos\u00e9 Alves, de 30 anos e tr\u00eas filhos, conserva como recorda\u00e7\u00e3o a velha bicicleta, hoje uma estrutura sem rodas, com a qual viajou centenas de quil\u00f4metros na Amaz\u00f4nia oriental brasileira \u201cca\u00e7ando trabalho para melhorar a vida\u201d, mas caindo na armadilha da escravid\u00e3o. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/07\/america-latina\/brasil-o-dificil-combate-ao-trabalho-escravo\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":131,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,12],"tags":[21],"class_list":["post-3073","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-desenvolvimento","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3073","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/131"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3073"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3073\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3073"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3073"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3073"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}