{"id":3096,"date":"2007-07-13T16:48:55","date_gmt":"2007-07-13T16:48:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=3096"},"modified":"2007-07-13T16:48:55","modified_gmt":"2007-07-13T16:48:55","slug":"eua-a-falacia-do-poder-aereo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/07\/mundo\/eua-a-falacia-do-poder-aereo\/","title":{"rendered":"EUA: A fal\u00e1cia do poder a\u00e9reo"},"content":{"rendered":"<p>Washington, 13\/07\/2007 &ndash; No dia 18 de junho, sete crian\u00e7as morreram em um ataque a\u00e9reo realizado pelos Estados Unidos contra um suposto \u201csantu\u00e1rio\u201d da Al Qaeda no leste do Afeganist\u00e3o. Tr\u00eas dias depois, pelo menos 25 civis perderam a vida em um \u201cincidente\u201d semelhante na prov\u00edncia de Helmland, sul do pa\u00eds. <!--more--> No mesmo dia, um ataque a\u00e9reo norte-americano que tinha por objetivo uma casa na cidade de Baquba, no Iraque, atingiu acidentalmente outra resid\u00eancia, com saldo de 11 civis feridos. O Pent\u00e1gono investiga o ocorrido. Estes fatos s\u00e3o parte insepar\u00e1vel da guerra, inicialmente negados, depois chamados de \u201cacidentes\u201d, racionalizados como \u201cdano colateral\u201d, regularmente \u201csob investiga\u00e7\u00e3o\u201d e sempre \u201clament\u00e1veis\u201d.<\/p>\n<p>Entretanto, na medida em que a pol\u00edtica de escalada da guerra no Iraque decidida pelo presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, est\u00e1 patinando e as for\u00e7as da Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (Otan) lideradas por Washington se esfor\u00e7am para manter a ordem no Afeganist\u00e3o, esses incidentes prometem se repetir. As demandas, que aumentam, tanto do Congresso quanto do p\u00fablico norte-americano, para que haja uma retirada gradual das tropas pode levar \u00e0 intensifica\u00e7\u00e3o da guerra a\u00e9rea.<\/p>\n<p>Tom Engelhardt, colunista do portal da Internet Tomdispatch, escreveu: \u201cSalvo uma inesperada mudan\u00e7a de pol\u00edtica, a multiplica\u00e7\u00e3o destes incidentes \u00e9 o que surge como alternativa mais prov\u00e1vel no futuro do Afeganist\u00e3o e Iraque\u201d. As incurs\u00f5es a\u00e9reas raramente aparecem nas manchetes, ao contr\u00e1rio dos sensacionais ataques suicidas que abrem os notici\u00e1rios da noite, como no caso de um caminh\u00e3o-bomba no norte de Bagd\u00e1 que matou mais de 150 civis e foi o atentado mais sangrento desde a invas\u00e3o em 2003.<\/p>\n<p>Quando a imprensa escrita se ocupa dos ataques a\u00e9reos sempre aparecem perdidos nos par\u00e1grafos finais das mat\u00e9rias. A guerra a\u00e9rea recebe o nome eufem\u00edstico de \u201ccir\u00fargica\u201d, talvez para diminuir o impressionante e devastador poder das bombas de 900 quilos jogadas desde o ceu. Foi utilizada com efeito decisivo na fase inicial da guerra no Afeganist\u00e3o, em 2001, quando Washington ofereceu apoio a\u00e9reo \u00e0 Alian\u00e7a do Norte para tirar do poder o movimento isl\u00e2mico Talib\u00e3.<\/p>\n<p>Durante a invas\u00e3o do Iraque, em 2003, os comandantes militares dos Estados Unidos adotaram a estrat\u00e9gia de \u201ccomo\u00e7\u00e3o e intimida\u00e7\u00e3o\u201d, projetada para bombardear o ex\u00e9rcito iraquiano com uma for\u00e7a t\u00e3o esmagadora que o levasse a aceitar rapidamente a derrota. Mas, na medida em que as for\u00e7as lideradas por Washington continuam sua luta no Iraque e Afeganist\u00e3o, os bombardeios a\u00e9reos recebem crescente aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tanto por sua precis\u00e3o milim\u00e9trica, mas pelo n\u00famero de civis mortos.<\/p>\n<p>O governo afeg\u00e3o, entidade de direitos humanos e organiza\u00e7\u00f5es de ajuda humanit\u00e1ria dizem que mais de 300 civis morrera este ano devido a opera\u00e7\u00f5es da coaliz\u00e3o liderada pelos Estados Unidos. A maior parte dos casos ocorreu, segundo uma mat\u00e9ria divulgada pela ag\u00eancia de not\u00edcias Reuters, quando a for\u00e7a a\u00e9rea foi chamada em aux\u00edlio de tropas terrestres. \u201cEstamos analisando nossas opera\u00e7\u00f5es a\u00e9reas, mas, n\u00e3o se trata de algo que pensemos modificar no momento\u201d, disse a imprensa em Cabul, em junho, o porta-voz da coaliz\u00e3o, tenente-coronel Maria Carl. \u201cO uso da for\u00e7a a\u00e9rea nos oferece a oportunidade de cobrir uma \u00e1rea muito maior do que poder\u00edamos fazer com uma limitada quantidade de tropas\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>H\u00e1 quase seis anos da invas\u00e3o do Afeganist\u00e3o comandada por Washington, a freq\u00fcente escassez de tropas terrestres, tanto quanto a avers\u00e3o a sofrer baixas, for\u00e7a os chefes militares a aumentarem sua depend\u00eancia do poder a\u00e9reo. O n\u00famero de mortos em ataques da avia\u00e7\u00e3o continua aumentando. No \u00faltimo dia 2, 45 civis perderam a vida em uma incurs\u00e3o sobre Hyderabad. Sul do Afeganist\u00e3o, o que levou o presidente desse pa\u00eds, Hamid Karzai, a reclamar publicamente uma investiga\u00e7\u00e3o do acidente.<\/p>\n<p>Karzai condenou o uso de \u201cescudos humanos\u201d pelos talib\u00e3s, mas, ao mesmo tempo, afirmou que os soldados estrangeiros n\u00e3o d\u00e3o valor \u00e0 vida dos afeg\u00e3os. Al\u00e9m disso, quatro anos depois de iniciada a invas\u00e3o do Iraque a campanha a\u00e9rea de \u201ccomo\u00e7\u00e3o e intimida\u00e7\u00e3o\u201d, que supostamente acabaria com Saddam Hussein e levaria paz ao pa\u00eds, n\u00e3o deu resultado. Os avi\u00f5es de combate dos Estados Unidos aumentaram novamente seus ataques e deixaram cair mais do dobro de bombas do que no ano passado, segundo a ag\u00eancia noticiosa Associated Press (AP).<\/p>\n<p>Em 2007, a avia\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos lan\u00e7ou 237 bombas e m\u00edsseis em apoio \u00e0s for\u00e7as de terra. No ano passado, foram 229, segundo dados da For\u00e7a A\u00e9rea obtidos pela AP. se a tend\u00eancia sugere algo \u00e9 que uma retirada ou redu\u00e7\u00e3o das tropas ser\u00e1 acompanhada por uma maior utiliza\u00e7\u00e3o do fogo a\u00e9reo. J\u00e1 existe o antecedente do Vietn\u00e3, quando o ex-presidente Richard Nixon (1969-1974) anunciou sua pol\u00edtica de \u201cvietnamiza\u00e7\u00e3o\u201d do conflito. Por esse plano, o Vietn\u00e3 do Sul receberia armas, equipamentos e assessoramento militar enquanto as tropas dos Estados Unidos se retiravam. Nesse mesmo per\u00edodo, Nixon autorizou bombardeios em massa no Camboja e Laos, bem como a maior campanha a\u00e9rea de toda essa guerra: a Opera\u00e7\u00e3o Proud Deep.<\/p>\n<p>Nela, bombardeiros B-52, entre outros, efetuaram mais de mil miss\u00f5es sobre o Vietn\u00e3 do Norte. Inclusive durante a presid\u00eancia do antecessor de Nixon, Lyndon Johnson (1963-1969), o bombardeio maci\u00e7o sobre o Vietn\u00e3 do Sul foi justificado como ferramenta para for\u00e7ar os camponeses que apoiavam a guerrilha comunista do Vietcong a abandonarem suas terras e irem para as cidades. A id\u00e9ia contou com apoio de um destacado assessor do presidente, Samuel P. Huntington, que ganhou notoriedade p\u00fablica na d\u00e9cada de 90 com seu livro \u201cO choque das civiliza\u00e7\u00f5es\u201d, no qual exp\u00f5e a teoria das diferen\u00e7as culturais irreconcili\u00e1veis entre as sociedades ocidentais e as baseadas em outros sistemas de valores, fundamentalmente as que professam a religi\u00e3o isl\u00e2mica.<\/p>\n<p>Segundo Huntington, for\u00e7ando uma migra\u00e7\u00e3o maci\u00e7a do campo para as cidades seria menos prov\u00e1vel os vietnamitas apoiarem uma revolu\u00e7\u00e3o camponesa comunista. No mutante panorama da arte da guerra do s\u00e9culo XXI, a superioridade t\u00e9cnica dos Estados Unidos teve de se adaptar \u00e0s t\u00e1ticas de contrainsurg\u00eancia. A guerra de guerrilhas acontece nas ruas das cidades, freq\u00fcentemente entre a popula\u00e7\u00e3o civil. Assim, o poder a\u00e9reo jamais poderia ser um substituo efetivo do combate terrestre.<\/p>\n<p>Isto foi comprovado na pr\u00e1tica em 2006, na guerra entre Israel e a mil\u00edcia libanesa Hezbol\u00e1. Por quatro semanas, os israelense bombardearam sem descanso objetivos no L\u00edbano, destruindo grande parte da infra-estrutura do pa\u00eds. Mas, a inten\u00e7\u00e3o de eliminar a amea\u00e7a do Hezbol\u00e1 n\u00e3o foi alcan\u00e7ada. \u201cOs historiadores militares t\u00eam um nome para o argumento subjacente na campanha militar de Israel no L\u00edbano. A \u2018fal\u00e1cia do bombardeio estrat\u00e9gico\u2019 \u00e9 o termo que utilizam\u201d, escreveu o acad\u00eamico do centro de estudos norte-americanos Brookings Institution, Philip H. Gordon, em uma coluna para o jornal The Washington Post.<\/p>\n<p>\u201cLonge de enfraquecer o oponente, os bombardeios tendem a unir as pessoas em torno de seus l\u00edderes, levando-as a se entrincheirar contra os estrangeiros que, sem importar suas raz\u00f5es, est\u00e3o destruindo seu pa\u00eds\u201d, acrescentou Gordon. Na medida em que se reduz a toler\u00e2ncia do povo norte-americano \u00e0s baixas de seus soldados no Afeganist\u00e3o e Iraque, o governo Bush se encontra em uma posi\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria. A confian\u00e7a no poder a\u00e9reo e o efeito acumulativo das v\u00edtimas civis configuram um futuro agourento para os objetivos pol\u00edticos de Washington nessas regi\u00f5es do mundo. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Washington, 13\/07\/2007 &ndash; No dia 18 de junho, sete crian\u00e7as morreram em um ataque a\u00e9reo realizado pelos Estados Unidos contra um suposto \u201csantu\u00e1rio\u201d da Al Qaeda no leste do Afeganist\u00e3o. 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