{"id":3156,"date":"2007-08-01T18:19:50","date_gmt":"2007-08-01T18:19:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=3156"},"modified":"2007-08-01T18:19:50","modified_gmt":"2007-08-01T18:19:50","slug":"brasil-a-violencia-tem-cara-adolescente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/08\/america-latina\/brasil-a-violencia-tem-cara-adolescente\/","title":{"rendered":"Brasil: A viol\u00eancia tem cara adolescente"},"content":{"rendered":"<p>S\u00e3o Lu\u00eds, 01\/08\/2007 &ndash; A maioria tinha entre 15 e 16 anos de idade quando formaram a gangue \u201cA falta de Deus\u201d, nome escolhido porque \u201c\u00e9ramos todos anti-Cristo\u201d. De seus 25 membros, 10 est\u00e3o mortos e 14 presos. <!--more--> \u201cS\u00f3 restou eu em liberdade\u201d, conta Elias da Silva, agora com 22 anos. Os violentos grupos juvenis que proliferaram desde os anos 90 em S\u00e3o Luis, capital do Maranh\u00e3o, revelam parte de seu car\u00e1ter e suas cren\u00e7as nos nomes escolhidos para se identificarem: \u201cMensageiros do inferno\u201d, \u201cKemadores\u201d, Noturnos terr\u00edveis\u201d, Organizadores da mente\u201d, \u201cPatos loucos\u201d.<\/p>\n<p>O grupo de Silva n\u00e3o se compunha apenas de homens, pois tamb\u00e9m tinha cinco mo\u00e7as, das quais duas est\u00e3o mortas. Dispunham de poucas armas de fogo, mas tamb\u00e9m usavam facas e fac\u00f5es em seus roubos e nas brigas contra gangues rivais que causaram 10 mortes entre os seus companheiros e n\u00e3o se sabe quantas do lado inimigo. \u201cEu mesmo recebi uma facada na barriga e tive de ficar muitos dias no hospital\u201d, confessou. Os grupos de adolescentes, como forma de socializa\u00e7\u00e3o \u00e0s vezes agressiva, s\u00e3o comuns nas grandes cidades do Brasil, mas n\u00e3o com o grau de viol\u00eancia e criminalidade que adquiriu em S\u00e3o Lu\u00eds, um fen\u00f4meno semelhante \u00e0s gangues da cidade colombiana de Medel\u00edn que tiveram seu apogeu nos anos 80 e 90, em uma propor\u00e7\u00e3o incomparavelmente mais maci\u00e7a e sangrenta.<\/p>\n<p>A crueldade e as disputas territoriais s\u00e3o semelhantes. Houve casos de inimigos esquartejados para que as partes de seus corpos fossem enterradas \u201cem meio a uma euforia ritual, com bebidas e drogas\u201d, recordou Silva. \u201cT\u00ednhamos planos de dominar parte do bairro, Vila Bessa\u201d, onde o grupo tinha uma casa como sede, \u201c\u00e0s vezes com apoio de traficantes de drogas\u201d. Aparentemente esses bandos diminu\u00edram nos \u00faltimos anos, mas a Delegacia do Adolescente Infrator de S\u00e3o Lu\u00eds registrou 329 delitos no primeiro semestre deste ano, dos quais 23 foram homic\u00eddios. Na maioria dos casos n\u00e3o havia adulto orientando ou liderando os jovens, distinguindo-se do narcotr\u00e1fico e de outros tipos de m\u00e1fias.<\/p>\n<p>Os motivos de rebeldia e ades\u00e3o a um grupo s\u00e3o variados, \u201cmuitos passam a viver nas ruas por causa dos maus-tratos na fam\u00edlia\u201d, conta Silva, que nasceu em Bras\u00edlia e logo foi \u201cabandonado na porta de um hospital\u201d. Estava h\u00e1 14 anos em um orfanato quando o pai apareceu para lev\u00e1-lo para S\u00e3o Lu\u00eds. O rapaz nunca conheceu a m\u00e3e nem sabe seu destino. O pai bebia muito, batia nele e uma vez o induziu a se embebedar at\u00e9 que sofreu coma alco\u00f3lico, disse Silva, que teve uma madrasta, cujo paradeiro tamb\u00e9m ignora, e uma irm\u00e3 mais nova que foi entregue a uma mulher que desapareceu. S\u00f3 lhe restou o caminho das ruas e das gangues.<\/p>\n<p>Depois de v\u00e1rias deten\u00e7\u00f5es e de ter sido torturado pela pol\u00edcia, ap\u00f3s passar fome nas ruas e cair no consumo de todo tipo de droga e ficar extremamente fraco, Silva se convenceu de que devia \u201ctomar outro caminho\u201d. As mudan\u00e7as vieram gradualmente. Matraca, uma ag\u00eancia jornal\u00edstica que promove os direitos da inf\u00e2ncia, o convidou, por suas qualidades de lideran\u00e7a, a participar da Rede Sou de Atitude, de jovens organizados em quase todo o pa\u00eds para reclamar e acompanhar as pol\u00edticas p\u00fablicas em favor da inf\u00e2ncia e da adolesc\u00eancia. \u201cDescobri uma nova maneira de viver\u201d, reconheceu.<\/p>\n<p>Silva tamb\u00e9m foi salvo por uma aten\u00e7\u00e3o especial que recebeu por parte da Funda\u00e7\u00e3o da Crian\u00e7a e da Adolesc\u00eancia (Funac), o \u00f3rg\u00e3o oficial de guarda de crian\u00e7as abandonadas e de \u201cinterna\u00e7\u00e3o\u201d de infratores menores de 18 anos para sua recupera\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de \u201cmedidas s\u00f3cio-educativas\u201d. A Funac, uma institui\u00e7\u00e3o cujo nome varia de Estado para Estado, em geral \u00e9 vista como uma entidade que fracassa em sua miss\u00e3o, sendo alvo de den\u00fancias de maus-tratos e de onde s\u00e3o freq\u00fcentes as fugas e as revoltas dos internos. Aos 18 anos, Silva ficou fora dessa assist\u00eancia social. \u201cNo Brasil n\u00e3o h\u00e1 pol\u00edticas para a juventude\u201d. Lamenta Marcelo Amorim, coordenador da Matraca. Assim, Silva foi internado na Fazenda Esperan\u00e7a, em Coroat\u00e1, a 250 quil\u00f4metros de S\u00e3o Lu\u00eds.<\/p>\n<p>Trata-se de um centro rural mantido pela Igreja Cat\u00f3lica para a recupera\u00e7\u00e3o de viciados. \u201cCheguei l\u00e1 pesando cerca de 50 quilos, e hoje peso 98\u201d, disse Silva, excepcionalmente alto para a popula\u00e7\u00e3o local com seus 1,85 metro. Depois de quase tr\u00eas anos de tratamento e desde ent\u00e3o contando sua experi\u00eancia em um grupo de ajuda m\u00fatua em S\u00e3o Lu\u00eds para afastar outros jovens da droga, este rapaz n\u00e3o quer voltar a um passado de \u201ctanto sofrimento\u201d. Mas enfrenta o risco do desemprego, j\u00e1 que trabalha em uma empresa pr\u00f3xima da fal\u00eancia. Com os estudos interrompidos na sexta s\u00e9rie do ensino fundamental, n\u00e3o lhe \u00e9 f\u00e1cil conseguir trabalho.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 outra amea\u00e7a, que parece coisa do passado diante do fim de sua gangue. \u201cT\u00ednhamos um pacto de n\u00e3o sair\u201d, a deser\u00e7\u00e3o era punida com a morte, e \u201ceu fui o \u00fanico que saiu\u201d, contou. Por\u00e9m, os grupos continuam aparecendo em S\u00e3o Lu\u00eds e a quantidade de adolescentes envolvidos n\u00e3o parece ter diminu\u00eddo nos \u00faltimos anos, segundo Ana Carolina Alves, assistente social que escreveu um artigo baseado em not\u00edcias da imprensa sobre os grupos juvenis, como trabalho final para sua gradua\u00e7\u00e3o no ano passado. Sua avalia\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se baseia na experi\u00eancia obtida em seu trabalho no Minist\u00e9rio P\u00fablico, onde observou a grande quantidade de adolescentes de bairros perif\u00e9ricos envolvidos nos crimes. N\u00e3o h\u00e1 pesquisas nem dados mais amplos e precisos sobre o assunto, lamentou Carolina.<\/p>\n<p>Entretanto, esses grupos diminu\u00edram nos bairros onde s\u00e3o realizadas a\u00e7\u00f5es com essa finalidade, admitiu a assistente social. Isso aconteceu em Coroadinho, conhecida com uma das zonas mais violentas de S\u00e3o Lu\u00eds, o que justificou a prioridade que lhe deu a Secretaria Estadual de Seguran\u00e7a Cidad\u00e3 em sua nova forma de atua\u00e7\u00e3o, segundo planos locais definidos em di\u00e1logo com a comunidade, representada por um Conselho de Defesa Social. Coroadinho, chamado de \u201cP\u00f3lo\u201d por reunir 17 comunidades pobres que somam cerca de 75 mil habitantes, comemorou em junho quatro meses sem assassinatos.<\/p>\n<p>Boa parte da redu\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia no bairro pode ser atribu\u00eddo ao Projeto Paz Juvenil, coordenado por Claudett Ribeiro, uma educadora e gestora do n\u00e3o-governamental Instituto de Inf\u00e2ncia (Ifan). Sua atua\u00e7\u00e3o no local come\u00e7ou no final de 2004, quando uma pesquisa identificou nove grupos juvenis que se dividiam por comunidades ou ruas do P\u00f3lo. O projeto promoveu semin\u00e1rios, outras pesquisas, cursos e um concurso liter\u00e1rio, envolvendo como protagonistas os mesmos adolescentes dos grupos violentos organizados. Em pouco tempo se comprovou que havia possibilidade de superar o estado de viol\u00eancia no bairro, com o novo enfoque do problema, sem dar-lhe um car\u00e1ter policial e dando voz aos jovens acima de preconceitos contra o \u201cbanditismo\u201d.<\/p>\n<p>As quantidades de brigas entre gangues juvenis em Coroadinho, que somaram 226 no primeiro semestre de 2004, ca\u00edram para 10 no primeiro semestre deste ano, segundo estudos do Ifan baseados em registros da Pol\u00edcia Militar. O bairro continua \u201cmuito violento, mas melhorou bastante nos \u00faltimos dois anos\u201d, reconheceu uma comerciante local, que vive ali h\u00e1 15 anos e preferiu dar apenas seu primeiro nome, Cristina. \u00c9 que agora h\u00e1 mais policiais, existem as a\u00e7\u00f5es sociais, \u201cprincipalmente a de Claudett Ribeiro\u201d, que s\u00e3o excelentes, mas em pequena escala, afirmou.<\/p>\n<p>A mesma avalia\u00e7\u00e3o faz o sargento Fran\u00e7a, h\u00e1 20 anos na PM e morador de Coroadinho, para quem as drogas s\u00e3o a principal causa da delinq\u00fc\u00eancia juvenil, agravada pela gravidez precoce de adolescentes e pela escassez de escolas e \u00e1reas de lazer, tudo o que \u201cleva os jovens para a rua\u201d. Outras v\u00e1rias iniciativas, como maior presen\u00e7a policial, a\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias e um centro de capacita\u00e7\u00e3o profissional contribu\u00edram para reduzir a criminalidade em Coroadinho, mas o Projeto Paz Juvenil foi o \u00fanico a envolver diretamente os jovens integrantes de grupos, atores que preferem se manter \u201cinvis\u00edveis\u201d, afirmou Ribeiro.<\/p>\n<p>A atividade de maior impacto do projeto foi o \u201cAtelier da escrita\u201d, que promoveu palestras e concursos de contos, poesia e versos de hip-hop, permitindo ao jovem se expressar, refletir coletivamente, melhorar sua auto-estima e as rela\u00e7\u00f5es interpessoais. A maioria dos participantes integrava gangues ou estavam em seu raio de influ\u00eancia. A partir dos concursos, dos quais participaram 68 jovens, surgiu a Revista Liter\u00e1ria Portal de Coroadinho, publicada por decis\u00e3o dos pr\u00f3prios membros do Atelier, que tamb\u00e9m promoveram uma campanha de coleta de lixo na comunidade e uma pesquisa sobre brincadeiras tradicionais.<\/p>\n<p>O resultado mais promissor, segundo Ribeiro, \u00e9 a rec\u00e9m-criada Associa\u00e7\u00e3o de Jovens Volunt\u00e1rios da Paz, onde eles assumem seu destino. O primeiro presidente da associa\u00e7\u00e3o, Marcos Santana da Silva, pretende primeiro que os jovens se conhe\u00e7am uns aos outros, superando as fronteiras dentro do pr\u00f3prio bairro impostas pelas gangues. Depois, comprometeu-se a \u201cabrir perspectivas\u201d de trabalho, promovendo cursos e eventos culturais e esportivos. Santana, premiado nos concursos liter\u00e1rios do projeto, garante que n\u00e3o caiu na \u201carmadilha da viol\u00eancia\u201d, mas tanto ele quanto seu companheiro da Associa\u00e7\u00e3o, Jos\u00e9 Ribamar Mendes, t\u00eam amigos que \u201cse perderam\u201d ou foram mortos a tiros ou com fac\u00f5es. Mendes descarta as festas desde que em uma delas foi alvo de uma pedrada que deixou uma cicatriz em seu rosto.<\/p>\n<p>O Projeto Paz Juvenil atuou diretamente junto a cerca de mil crian\u00e7as e adolescentes, mas prop\u00f5e uma alternativa comunit\u00e1ria, com efeitos preventivos e impulsionada pela energia dos pr\u00f3prios jovens,para que o resgate n\u00e3o seja t\u00e3o solit\u00e1rio e sofrido como o de Elias da Silva. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e3o Lu\u00eds, 01\/08\/2007 &ndash; A maioria tinha entre 15 e 16 anos de idade quando formaram a gangue \u201cA falta de Deus\u201d, nome escolhido porque \u201c\u00e9ramos todos anti-Cristo\u201d. De seus 25 membros, 10 est\u00e3o mortos e 14 presos. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/08\/america-latina\/brasil-a-violencia-tem-cara-adolescente\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":131,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,6],"tags":[],"class_list":["post-3156","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-direitos-humanos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3156","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/131"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3156"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3156\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3156"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3156"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3156"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}