{"id":316,"date":"2005-02-16T00:00:00","date_gmt":"2005-02-16T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=316"},"modified":"2005-02-16T00:00:00","modified_gmt":"2005-02-16T00:00:00","slug":"trabalho-imprescindvel-um-plano-marshall-para-a-frica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/02\/mundo\/trabalho-imprescindvel-um-plano-marshall-para-a-frica\/","title":{"rendered":"Trabalho: &quot;&Eacute; imprescind&iacute;vel um Plano Marshall para a &Aacute;frica&quot;"},"content":{"rendered":"<p>Lisboa, 16\/02\/2005 &ndash; Quando o jovem Antonio Manuel de Oliveira Guterres recebeu seu diploma na Universidade de Lisboa com nota m&aacute;xima, tinha um futuro promissor como engenheiro. Era in&iacute;cio da d&eacute;cada de 70, Portugal vivia a festa dos capit&atilde;es do ex&eacute;rcito que haviam deposto a mais antiga desatadora europ&eacute;ia e desmantelavam um arcaico imp&eacute;rio colonial de cinco s&eacute;culos. Eram os anos da Revolu&ccedil;&atilde;o dos Cravos. Ele n&atilde;o vacilou. Trocou a engenharia pela pol&iacute;tica. Depois de ter sido primeiro-ministro de Portugal (1995-2002), Guterres agora ocupa a cadeira que nos anos 70 foi ocupada por Willy Brandt, com presidente da Internacional Socialista (IS), organiza&ccedil;&atilde;o que re&uacute;ne os partidos socialistas, social-democratas e trabalhistas de 162 pa&iacute;ses. Em entrevista &agrave; IPS, Guterres defendeu a urg&ecirc;ncia de um Plano Marshall para a &Aacute;frica e criticou a pol&iacute;tica de &quot;dois pesos e duas medidas&quot; das grandes pot&ecirc;ncias.<br \/> <!--more--> <br \/> P &#8211; Durante a presid&ecirc;ncia portuguesa da Uni&atilde;o Europ&eacute;ia o senhor defendeu a necessidade de realizar uma c&uacute;pula &Aacute;frica-Europa, o que ainda n&atilde;o foi poss&iacute;vel apesar dos esfor&ccedil;os portugueses posteriores. Passado cinco anos, continuar&aacute; insistindo agora como presidente da IS?<br \/> R &#8211; Sim porque &eacute; imprescind&iacute;vel um Plano Marshall para a &Aacute;frica, que n&atilde;o seja paternalista nem ditado pelas organiza&ccedil;&otilde;es internacionais ou pelos pa&iacute;ses mais ricos. O importante &eacute; aproveitar a din&acirc;mica integradora que est&aacute; despontando nesse continente com a Uni&atilde;o Africana e com as experi&ecirc;ncias &#8211; infelizmente ainda n&atilde;o generalizadas &#8211; dos esfor&ccedil;os pelos direitos humanos, pela democracia e pela boa governabilidade. Lamentavelmente ainda h&aacute; pa&iacute;ses africanos que vivem uma situa&ccedil;&atilde;o terr&iacute;vel, de guerra civil, com Estados quase em bancarrota ou em situa&ccedil;&otilde;es onde a corrup&ccedil;&atilde;o impera. Tudo isto funciona como um obst&aacute;culo ao desenvolvimento. Mas j&aacute; existem muitos Estados africanos que vivem uma evolu&ccedil;&atilde;o extremamente positiva, como Mo&ccedil;ambique, que necessita e merece uma mobiliza&ccedil;&atilde;o da comunidade internacional para integr&aacute;-lo na globaliza&ccedil;&atilde;o. O problema &eacute; de tal dimens&atilde;o que grande parte dos africanos est&aacute; fora da economia global, da qual participam apenas com mat&eacute;rias-primas.<\/p>\n<p> P &#8211; Entretanto, com o reduzido poder dos governos diante do que Jos&eacute; Saramago descreve como &quot;o poder antidemocr&aacute;tico&quot; do FMI, Banco Mundial e da OMC, &eacute; poss&iacute;vel que estas eventuais boas inten&ccedil;&otilde;es fracassem&#8230;<br \/> R &#8211; De fato, a margem de manobra dos governos, sobretudo dos pa&iacute;ses menores e fracos, &eacute; evidentemente reduzida. At&eacute; pa&iacute;ses maiores e de maior n&iacute;vel econ&ocirc;mico muitas vezes enfrentam grandes dificuldades para aplicar estrat&eacute;gias aut&ocirc;nomas de desenvolvimento e s&atilde;o obrigados a se submeterem a um conjunto de regras que em grande parte foram criadas na escola do pensamento &uacute;nico neoliberal.<br \/> A resposta deve ser dupla. Por um lado, tem a ver com o combate ideol&oacute;gico a esse pensamento &uacute;nico, mas encontrando estrat&eacute;gias de desenvolvimento que, sendo rigorosas do ponto de vista financeiro, levem em conta as necessidades de desenvolvimento econ&ocirc;mico, de coes&atilde;o social e de sustentabilidade ambiental das sociedades. Por outro lado, reconhecer que no mundo em que tudo se globaliza a pol&iacute;tica e a democracia tamb&eacute;m t&ecirc;m de se globalizar, o que obriga a reformar as organiza&ccedil;&otilde;es internacionais, a estabelecer um sistema multilateral de governabilidade que possa ser eficaz na coordena&ccedil;&atilde;o das estrat&eacute;gias necess&aacute;rias para humanizar essa mesma globaliza&ccedil;&atilde;o, aumentando a margem de manobra dos pr&oacute;prios governos.<\/p>\n<p> P &#8211; Em que medida as divis&otilde;es internas da IS devido &agrave; guerra do Iraque afetam sua unidade no &acirc;mbito internacional?<br \/> R &#8211; A IS sempre teve posi&ccedil;&otilde;es claras, com consenso generalizado, em defesa do multilateralismo, apesar de haver alguns partidos discordantes em um ou outro aspecto. A perspectiva da IS &eacute; a reforma da arquitetura das rela&ccedil;&otilde;es internacionais, no sentido da paz, da justi&ccedil;a e da necessidade de manejar a globaliza&ccedil;&atilde;o sem que isso aprofunde cada vez mais o fosso entre ricos e pobres. &Eacute; uma tarefa que exige um grande esfor&ccedil;o de reformas no sistema global.<\/p>\n<p> P &#8211; Uma globaliza&ccedil;&atilde;o regulamentada, &quot;de rosto humano&quot;, &eacute; defendida por europeus do pensamento socialista hist&oacute;rico, com o portugu&ecirc;s M&aacute;rio Soares ou o espanhol Raul Morodo, que consideram Tony Blair um defensor da vers&atilde;o mais liberal. Tamb&eacute;m na Am&eacute;rica Latina uma parte da esquerda critica Ricardo Lagos&#8230;<br \/> R &#8211; N&atilde;o creio que Blair ou Lagos sejam defensores de uma globaliza&ccedil;&atilde;o neoliberal. Se olharmos o programa dos brit&acirc;nicos para o Grupo dos Oito (G-8) encontraremos propostas relacionadas com o cancelamento da d&iacute;vida. Se h&aacute; algo anti-neoliberal &eacute; essa proposta. Tamb&eacute;m encontraremos uma proposta de Plano Marshall para a &Aacute;frica, bem como a inser&ccedil;&atilde;o dos problemas clim&aacute;ticos na agenda internacional, que s&atilde;o id&eacute;ias alheias &agrave; perspectiva neoliberal.<br \/> O Chile do presidente Lagos realizou um conjunto de pol&iacute;ticas sociais extremamente interessantes e no &acirc;mbito financeiro mant&eacute;m controles da entrada de capital de curto prazo. Ou seja, obedecendo as regras do mercado e, em parte, a globaliza&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o &eacute; um pa&iacute;s que segue a &quot;cartilha neoliberal&quot; e continua aplicando um conjunto de medidas que considera indispens&aacute;veis para garantir sua autonomia estrat&eacute;gica.<\/p>\n<p> P &#8211; Hoje, George Soros, um dos homens mais ricos do mundo, e o presidente conservador franc&ecirc;s Jacques Chirac s&atilde;o duas figuras de primeira linha no combate &agrave; hegemonia unilateral, enquanto alguns socialistas e social-democratas parecem aceitar esta situa&ccedil;&atilde;o. <br \/> R &#8211; Soros tem hoje um papel muito interessante, atrav&eacute;s da Funda&ccedil;&atilde;o, em especial em n&iacute;vel da transpar&ecirc;ncia e do combate &agrave; corrup&ccedil;&atilde;o. Adotou uma postura frontal contra George W. Bush dentro de sua perspectiva de uma sociedade aberta, de vis&atilde;o liberal da sociedade. Por tudo isto, &eacute; atualmente um interlocutor v&aacute;lido.<br \/> Outra coisa bem diferente &eacute; caso de Chirac, porque uma coisa &eacute; ter uma posi&ccedil;&atilde;o progressista e outra, bem diferente, &eacute; defender uma l&oacute;gica contra a hegemonia dos Estados Unidos que, neste caso, tem mais a ver com a posi&ccedil;&atilde;o tradicional da Fran&ccedil;a e est&aacute; muito distante da vis&atilde;o aberta e progressista da IS.<\/p>\n<p> P &#8211; O poder da China e seu imenso mercado que d&aacute; oportunidade de neg&oacute;cios &agrave;s grandes pot&ecirc;ncias, ao que parece &eacute; um &quot;caso encerrado&quot; na agenda internacional de defesa da democracia. Agora, entretanto, como o Sr. qualifica as discrep&acirc;ncias &#8211; tamb&eacute;m em pa&iacute;ses governados por partidos da IS &#8211; no tratamento dado a ditaduras &quot;amigas&quot; e &quot;inimigas&quot;? <br \/> R &#8211; Considero uma grande hipocrisia o fato de muitos dirigentes do chamado mundo ocidental utilizar a democracia e os direitos humanos para colocar estes nobres conceitos a servi&ccedil;o de interesses estrat&eacute;gicos de seus pa&iacute;ses. Os direitos humanos e a democracia s&atilde;o quest&otilde;es essenciais, que n&atilde;o podem ser vistas com dois pesos e duas medidas. Do mesmo modo que &eacute; repugnante o regime da Cor&eacute;ia do Norte e &eacute; preocupante o que ocorre no Ir&atilde;, pouco ou nada se fala das muito s&eacute;rias situa&ccedil;&otilde;es na Birm&acirc;nia, no Paquist&atilde;o, na Ar&aacute;bia Saudita e em muitas outras ditaduras dessa regi&atilde;o e que, pelo fato de serem amigas de certos pa&iacute;ses, s&atilde;o apagadas das listas das mais graves viola&ccedil;&otilde;es dos direitos humanos no mundo. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p> (*) Mario de Queiroz &eacute; correspondente da IPS.<\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lisboa, 16\/02\/2005 &ndash; Quando o jovem Antonio Manuel de Oliveira Guterres recebeu seu diploma na Universidade de Lisboa com nota m&aacute;xima, tinha um futuro promissor como engenheiro. Era in&iacute;cio da d&eacute;cada de 70, Portugal vivia a festa dos capit&atilde;es do ex&eacute;rcito que haviam deposto a mais antiga desatadora europ&eacute;ia e desmantelavam um arcaico imp&eacute;rio colonial de cinco s&eacute;culos. Eram os anos da Revolu&ccedil;&atilde;o dos Cravos. Ele n&atilde;o vacilou. Trocou a engenharia pela pol&iacute;tica. Depois de ter sido primeiro-ministro de Portugal (1995-2002), Guterres agora ocupa a cadeira que nos anos 70 foi ocupada por Willy Brandt, com presidente da Internacional Socialista (IS), organiza&ccedil;&atilde;o que re&uacute;ne os partidos socialistas, social-democratas e trabalhistas de 162 pa&iacute;ses. Em entrevista &agrave; IPS, Guterres defendeu a urg&ecirc;ncia de um Plano Marshall para a &Aacute;frica e criticou a pol&iacute;tica de &quot;dois pesos e duas medidas&quot; das grandes pot&ecirc;ncias.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/02\/mundo\/trabalho-imprescindvel-um-plano-marshall-para-a-frica\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":256,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-316","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/316","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/256"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=316"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/316\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=316"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=316"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=316"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}