{"id":3182,"date":"2007-08-09T14:44:09","date_gmt":"2007-08-09T14:44:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=3182"},"modified":"2007-08-09T14:44:09","modified_gmt":"2007-08-09T14:44:09","slug":"america-central-pobreza-e-violencia-em-tempos-de-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/08\/america-latina\/america-central-pobreza-e-violencia-em-tempos-de-paz\/","title":{"rendered":"Am\u00e9rica Central: Pobreza e viol\u00eancia em tempos de paz"},"content":{"rendered":"<p>Guatemala, 09\/08\/2007 &ndash; O acordo que sentou as bases para pacificar a Am\u00e9rica Central completa 20 anos. Mas as causas econ\u00f4micas e sociais das guerras civis n\u00e3o est\u00e3o resolvidas e representam amea\u00e7as latentes de novos conflitos, afirmam analistas. Em meados dos anos 80, tr\u00eas guerras civis afetavam a regi\u00e3o. <!--more--> A mais antiga era travada desde 1960 na Guatemala sobre um substrato de interven\u00e7\u00f5es estrangeiras, luta pela terra e autoritarismo. Na Nicar\u00e1gua, as mil\u00edcias da \u201ccontra\u201d financiada pelos Estados Unidos combatiam os sandinistas que em 1979 derrubaram a ditadura din\u00e1stica da fam\u00edlia Somoza, enquanto em El Salvador guerrilhas ativas desde a d\u00e9cada de 70 e unificadas em 1980 lutavam contra um regime autorit\u00e1rio que se tornava cada vez mais violento.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a cidade guatemalteca de Esquipulas foi sede, em maio de 1986, da c\u00fapula dos ent\u00e3o presidentes de Honduras, El Salvador, Guatemala, Nicar\u00e1gua e Costa Rica, que assinaram um plano de paz promovido pelo mandat\u00e1rio costarriquenho, Oscar Arias, baseado em prop\u00f3sitos de paz, democratiza\u00e7\u00e3o, plena vig\u00eancia dos direitos humanos, seguran\u00e7a regional e coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, estabelecidas em esfor\u00e7os diplom\u00e1ticos anteriores. O processo concluiu em 7 de agosto de 1987 com a assinatura do Acordo de Paz de Esquipulas II pelos cinco governos, base dos tratados nacionais que puseram fim \u00e0s guerras. Em liberdade e democracia, \u201cos pa\u00edses da Am\u00e9rica Central adotar\u00e3o os acordos que permitam acelerar o desenvolvimento para alcan\u00e7ar sociedades mais igualit\u00e1rias e livres da mis\u00e9ria\u201d, dizia o texto.<\/p>\n<p>Ao terminar o conflito armado guatemalteco, em 1996, viveu-se uma abertura pol\u00edtica, mecanismos de di\u00e1logo e institucionaliza\u00e7\u00e3o da democracia. Mas em 2007 resta pendente a agenda fundamental: romper a marginaliza\u00e7\u00e3o e a pobreza, afirmam especialistas consultados. Em 1990, 20% da popula\u00e7\u00e3o da Guatemala viviam em extrema pobreza (com renda inferior a um d\u00f3lar por dia), propor\u00e7\u00e3o que caiu para 16% em 2000, mas em 2004 aumentou para 21,5%. Al\u00e9m disso, 48% das crian\u00e7as sofrem desnutri\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica. \u201cFome em tempos de paz. \u00c9 uma contradi\u00e7\u00e3o\u201d, disse \u00e0 IPS Karin Slowing, coordenadora do Informe de Desenvolvimento Humano do Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) na Guatemala. Desde 1979 quase n\u00e3o houve varia\u00e7\u00f5es na distribui\u00e7\u00e3o da terra, acrescentou.<\/p>\n<p>O economista Miguel Arturo Guti\u00e9rrez disse \u00e0 IPS que no tocante \u00e0 pobreza e desigualdade social \u201cpoucas coisas mudaram\u201d desde Esquipulas II e os Acordos de Paz Firme e Duradoura de 1996. Ent\u00e3o, conclu\u00edram 36 anos de conflito protagonizado pela Unidade Revolucion\u00e1ria Nacional Guatemalteca e pelo Estado, que deixou cerca de 200 mil v\u00edtimas, com o ex\u00e9rcito como respons\u00e1vel por mais de 90% das viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos, segundo a independente Comiss\u00e3o para o Esclarecimento Hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>\u201cO ex\u00e9rcito tem hoje um papel marginalizado na sociedade, mas continua havendo uma concentra\u00e7\u00e3o da riqueza e os n\u00edveis de redistribui\u00e7\u00e3o da renda n\u00e3o mudou\u201d, afirmou Guti\u00e9rrez, colaborador do II Informe de Avan\u00e7os no Cumprimento dos Objetivos do Mil\u00eanio na Guatemala, divulgado pelo Pnud em mar\u00e7o de 2006. Esse documento revela que o gasto social aumentou 3,2% no per\u00edodo 1995-2004, mas est\u00e1 abaixo das m\u00e9dias centro-americanas e latino-americanas.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 paz, mas h\u00e1 mais pobreza. A riqueza continua concentrada em m\u00e3os de uns poucos\u201d, disse \u00e0 IPS o ex-presidente Vin\u00edcio Cerezo (1986-1990), signat\u00e1rio de Esquipulas II. A marginaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social e a integra\u00e7\u00e3o regional s\u00e3o hoje os problemas fundamentais vinculados ao desenvolvimento, disse Cerezo.<\/p>\n<p>Em El Salvador, as duas d\u00e9cadas transcorridas tampouco serviram para superar esses obst\u00e1culos, disse o economista Alfonso Goitia. Ap\u00f3s o conflito, esperava-se superar a desigualdade entre ricos e pobres e melhorar a distribui\u00e7\u00e3o da renda, \u201cmas toda a pol\u00edtica implementada\u201d desde 1989 pelos governos da direitista Alian\u00e7a Republicana Nacionalista (Arena) \u201cprovocou uma desigualdade maior e alta concentra\u00e7\u00e3o da riqueza\u201d, afirmou Goitia.<\/p>\n<p>O informe \u201cTrajet\u00f3rias para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Mil\u00eanio em El Salvador\u201d, divulgado pelo Pnud em junho, indica que em 1991 havia 31,5% de lares pobres, enquanto em 2005 estes constitu\u00edam 22,8% do total. Mas seu autor, Carlos Acevedo, mostrou reservas sobre os dados governamentais e disse \u00e0 IPS que o \u00cdndice de Pre\u00e7os ao Consumidor com o qual s\u00e3o elaboradas as linhas de pobreza inclu\u00eda produtos com pre\u00e7os inferiores aos reais. Al\u00e9m disso, \u201cEl Salvador continuaria entre os 20% de paises com maiores desigualdades de renda no mundo\u201d, acrescentava o documento.<\/p>\n<p>Segundo o Pnud, \u201cem 1992, os 20% dos lares mais ricos recebiam 54,5% da renda nacional e os 20% mais pobres apenas 3,2%. Dez anos mais tarde, a renda dos 20% dos lares mais ricos aumentara para 58,3%, e a dos 20% mais pobres diminu\u00edra para 2,4%\u201d. Em janeiro de 1992, o governo de Alfredo Cristiani (1989-1994) e a insurgente Frente Farabundo Mart\u00ed para a Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (FMLN) puseram fim, no M\u00e9xico, a uma guerra de 12 anos que custou cerca de 75 mil vidas, deixou aproximadamente oito mil desaparecidos e perto de 50 mil feridos.<\/p>\n<p>\u201cAgora, tamb\u00e9m enfrentamos novamente o problema do autoritarismo, a repress\u00e3o e a persegui\u00e7\u00e3o, sob mecanismos legais ou pseudo-legais, estamos retornando a uma situa\u00e7\u00e3o que pode provocar um novo conflito social\u201d, afirmou Goitia se referindo a a\u00e7\u00f5es adotadas contra ativistas sociais e de direitos humanos. Como Guatemala e El Salvador, a Nicar\u00e1gua viu passar estes 20 anos sem se transformar em um pa\u00eds vi\u00e1vel para a maioria de seus 5,1 milh\u00f5es de habitantes, apesar do clima de paz, disse \u00e0 IPS o economista Alejandro Martinez Cuenca.<\/p>\n<p>\u201cAinda em 2005, segundo a pesquisa de N\u00edvel de Vida do Instituto Nicarag\u00fcense de Estat\u00edsticas e Censo, 70,3% da popula\u00e7\u00e3o rural continuavam pobre\u201d, disse Cuenca em um f\u00f3rum realizado em Man\u00e1gua pela Funda\u00e7\u00e3o Violeta Barrios de Chamorro para analisar o que se conseguiu desde Esquipulas II. A guerra civil chegou ao seu fim em 1990. A quase 18 anos de luta armada contra o somozismo seguiram-se em 1979 outros 11 de insurg\u00eancia \u201ccontra\u201d que pretendia desalojar do poder a Frente Sandinista de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (FSLN). O estancamento da guerrra civil, a deteriora\u00e7\u00e3o da qualidade de vida que provocou e o bloqueio comercial imposto pelos Estados Unidos levaram sandinistas e contras a cessarem o conflito, disse \u00e0 IPS o escritor Sergio Ram\u00edrez, membro da Junta de governo de Reconstru\u00e7\u00e3o Nacional desde 1979 e vice-presidente entre 1985 e 1990.<\/p>\n<p>Mas al\u00e9m dos danos econ\u00f4micos, o que p\u00f4s fim \u00e0 guerra foi a recontagem oficial de mais de meio milh\u00e3o de refugiados e cerca de 43 mil v\u00edtimas, ao ser assinado o acordo de Esquipulas, disse Ram\u00edrez, afastado da FSLN e aposentado da pol\u00edtica. Em sua opini\u00e3o, \u201co maior \u00eaxito, al\u00e9m da paz em si mesma, \u00e9 que ningu\u00e9m mais pensa que a solu\u00e7\u00e3o dos problemas \u00e9 por via das armas. As pessoas entendem que se matar por raz\u00f5es ideol\u00f3gicas \u00e9 um crime em si mesmo\u201d. Em paz, assim vive o segundo pa\u00eds mais pobre da Am\u00e9rica depois do Haiti, segundo a classifica\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas contida no \u00faltimo informe sobe a Nicar\u00e1gua, publicado em 2006. De acordo com esse estudo, este pa\u00eds avan\u00e7ou muito pouco em mat\u00e9ria de desenvolvimento. A pobreza extrema passou de 19,4% da popula\u00e7\u00e3o em 1990 para 14,9%, muito longe dos 9,7% a que se deveria chegar em 2015.<\/p>\n<p>* Com as colabora\u00e7\u00f5es de Ra\u00fal Guti\u00e9rrez (El Salvador) e Jos\u00e9 Ad\u00e1n Silva (Nicar\u00e1gua).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Guatemala, 09\/08\/2007 &ndash; O acordo que sentou as bases para pacificar a Am\u00e9rica Central completa 20 anos. Mas as causas econ\u00f4micas e sociais das guerras civis n\u00e3o est\u00e3o resolvidas e representam amea\u00e7as latentes de novos conflitos, afirmam analistas. 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