{"id":3242,"date":"2007-08-29T13:36:44","date_gmt":"2007-08-29T13:36:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=3242"},"modified":"2007-08-29T13:36:44","modified_gmt":"2007-08-29T13:36:44","slug":"indigenas-argentina-desastre-humanitario-no-chaco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/08\/america-latina\/indigenas-argentina-desastre-humanitario-no-chaco\/","title":{"rendered":"Ind\u00edgenas-Argentina: Desastre humanit\u00e1rio no Chaco"},"content":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 29\/08\/2007 &ndash; Cercadas pela expans\u00e3o agropecu\u00e1ria e indiferen\u00e7a do Estado, comunidades ind\u00edgenas da prov\u00edncia argentina de Chaco encontram dificuldades para ter acesso \u00e0 \u00e1gua, \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o e aos medicamentos naturais e, assim, caminham para a extin\u00e7\u00e3o. <!--more--> As imagens de corpos adultos degradados pela fome e a tuberculose no munic\u00edpio de Villa Rio Bermejito, noroeste da prov\u00edncia, s\u00e3o apenas o ep\u00edlogo de uma longa hist\u00f3ria de abandono e reclama\u00e7\u00f5es n\u00e3o ouvidas de ind\u00edgenas toba, wichi e mocov\u00ed do Chaco, 700 quil\u00f4metros ao norte de Buenos Aires.<\/p>\n<p>Mais de um ano ap\u00f3s uma greve de fome de um m\u00eas protagonizada por ind\u00edgenas em protesto por graves irregularidades na concess\u00e3o de terras fiscais, o Centro de Estudos e Pesquisa Social Nelson Mandela denunciou que 13 membros dessas comunidades morreram nos \u00faltimos meses. As mortes foram conseq\u00fc\u00eancia de desnutri\u00e7\u00e3o aguda associada, na maioria dos casos, com tuberculose e outras enfermidades como parasitose, mal de Chagas e c\u00e2ncer. \u201cEstamos diante de um desastre humanit\u00e1rio\u201d, disse \u00e0 IPS Rolando N\u00fa\u00f1ez, diretor do Centro Mandela.<\/p>\n<p>A entidade afirmou que um estudo feito pelo governo nacional em Villa Rio Bermejito detectou este m\u00eas 92 casos de desnutri\u00e7\u00e3o de diversos graus. O governo da prov\u00edncia, da opositora Uni\u00e3o C\u00edvica Radical, considera que nas den\u00fancias \u201ch\u00e1 inten\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d por parte de Buenos Aires. \u201cNunca escondemos a fome, a mis\u00e9ria nem a pobreza\u201d, defende-se o governador Roy Nikisch. \u201cSabemos perfeitamente que por sua pr\u00f3pria cultura e idiossincrasia os ind\u00edgenas n\u00e3o deixam que o Estado os atenda corretamente, n\u00e3o usam os rem\u00e9dios e rejeitam os tratamentos\u201d, afirmou Nikisch.<\/p>\n<p>Em um informe apresentado este m\u00eas perante a Suprema Corte de Justi\u00e7a da Na\u00e7\u00e3o, o Centro Mandela alertou que \u201ca subtra\u00e7\u00e3o maci\u00e7a de terras fiscais e o desmatamento irracional de floresta nativa\u201d est\u00e3o provocando a enfermidade e morte de popula\u00e7\u00f5es \u201cfam\u00e9licas\u201d no Chaco. \u201cComo s\u00edntese tr\u00e1gica da sistem\u00e1tica degrada\u00e7\u00e3o institucional, pol\u00edtica, social, econ\u00f4mica e educativa da prov\u00edncia, est\u00e3o as comunidades ind\u00edgenas que vivem na extrema pobreza, sob um regime de fome perp\u00e9tuo e cont\u00ednuo, seguido de enfermidades pr\u00f3prias de uma situa\u00e7\u00e3o de desastre\u201d, diz a den\u00fancia.<\/p>\n<p>Orlando Charole, presidente do Instituto do Abor\u00edgine do Chaco (Idach), coloca o problema em uma perspectiva hist\u00f3rica. \u201cPor s\u00e9culos n\u00f3s ind\u00edgenas sofremos o avassalamento integral em todo o continente com um impacto destruidor sobre centenas de povos que foram arrasados\u201d, disse \u00e0 IPS. Entretanto, as comunidades que se aferraram \u00e0 sua organiza\u00e7\u00e3o tradicional e aos seus costumes conseguiram sobreviver, acrescentou. O que est\u00e1 em jogo \u00e9 o territ\u00f3rio, base de seu modo de vida. \u201cUm povo n\u00e3o pode viver sem territ\u00f3rio\u201d, ressaltou Charole, que liderou os protestos pelo direito \u00e0 terra em 2006.<\/p>\n<p>\u201cOnde podemos viver segundo nossas cren\u00e7as? Onde ca\u00e7ar, pescar, colher alimentos? Com que fazer suco quando n\u00e3o h\u00e1 \u00e1gua? Onde obteremos nossos rem\u00e9dios?\u201d, disse Charole, de origem toba, que representa mais de 600 ind\u00edgenas do Chaco, quase 6% da popula\u00e7\u00e3o da prov\u00edncia, de 980 mil pessoas. Dados do Instituto Nacional de Estat\u00edsticas e Censos mostram que na Argentina h\u00e1 pouco mais de 600 mil ind\u00edgenas descendentes de 25 povos origin\u00e1rios. De acordo com den\u00fancias de organiza\u00e7\u00f5es sociais e ambientalistas, o desmatamento est\u00e1 causando estragos entre os que vivem mais afastados dos centros urbanos.<\/p>\n<p>A Funda\u00e7\u00e3o para a Defesa do Meio Ambiente denuncia desde 2004 a lenta extin\u00e7\u00e3o dos mbya guaranis na prov\u00edncia de Misiones. A filial argentina do Greenpeace afirma que o corte de floresta nativa para cultivo de soja em Salta, no noroeste, destr\u00f3i o habitat de comunidades wich\u00ed. \u201cCortam a floresta, colocam cercas e n\u00f3s somos estranhos em nossa pr\u00f3pria terra\u201d, resumiu Charole a respeito do Chaco. O Estado \u201cparece ter um escudo\u201d para recha\u00e7ar nossas reclama\u00e7\u00f5es, afirmou. \u201cO Minist\u00e9rio de Desenvolvimento Social manda alimentos, mas isso s\u00f3 resolve no momento. O que precisamos \u00e9 de terra, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>Charole se referia \u00e0 decis\u00e3o ministerial de enviar, desde maio e a cada dois meses, uma cesta com 30 quilos de alimentos para cada uma das duas mil fam\u00edlias da \u00e1rea mais vulner\u00e1veis, que incluem 10 quilos de farinha, tr\u00eas de macarr\u00e3o, tr\u00eas de arroz, cinco de leite em p\u00f3, dois de a\u00e7\u00facar e latas de picadinho de carne e p\u00eassego. \u201c\u00c9 uma quantidade suficiente para uma alimenta\u00e7\u00e3o modesta durante 15 dias\u201d, afirmou N\u00fa\u00f1ez, do Centro Mandela. Para conseguir uma dieta balanceada, os moradores deveriam complementar com animais de ca\u00e7a e frutos da montanha, mas o desmatamento da \u00e1rea os isola e lhes tira a possibilidade de obter estes recursos.<\/p>\n<p>Segundo a Dire\u00e7\u00e3o Nacional de Florestas, Chaco \u00e9 a terceira das 23 prov\u00edncias argentinas em porcentagem de terras desmatadas nos \u00faltimos anos, devido ao avan\u00e7o da fronteira agropecu\u00e1ria. O milho e a soja s\u00e3o os cultivos prediletos em detrimento da floresta ou de outras planta\u00e7\u00f5es tradicionais, como o algod\u00e3o. Entretanto, senadores de Chaco e outras prov\u00edncias afetadas pelo desmatamento negam-se a aprovar um projeto de lei sobre florestas j\u00e1 sancionado pela c\u00e2mara baixa que prev\u00ea suspens\u00e3o do desmatamento, ordenamento territorial e emiss\u00e3o de autoriza\u00e7\u00f5es para cortar florestas somente em casos que n\u00e3o afetem o meio ambiente e suas comunidades.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos 10 anos, a superf\u00edcie de Chaco cultivada com algod\u00e3o passou de 700 mil para 100 mil hectares, e as possibilidades que os ind\u00edgenas tinham de se empregarem como diaristas na colheita diminu\u00edram na mesma propor\u00e7\u00e3o. A falta de \u00e1gua tamb\u00e9m constitui um problema grave. O Centro Mandela afirma que pr\u00f3ximo ao munic\u00edpio de Miraflores, no Chaco, na localidade de Techat, popula\u00e7\u00f5es whic\u00ed sobrevivem condi\u00e7\u00f5es \u201ctotalmente desfavor\u00e1veis para a vida humana\u201d. Em 1996, as autoridades instalaram ali uma cisterna para bombear \u00e1gua que funcionava com energia solar. Mas depois do ato inaugural, levaram embora o motor.<\/p>\n<p>Assim, os moradores est\u00e3o condenados a beber \u00e1gua de charcos, represas e lagoas, e alguns se acostumaram a n\u00e3o beber at\u00e9 \u00e0 desidrata\u00e7\u00e3o, afirma a o Centro Mandela. A \u00fanica sala de primeiros socorros existentes na localidade est\u00e1 totalmente desabastecida e sem pessoal. Charole afirma que \u00e9 necess\u00e1ria uma pol\u00edtica do Estado nacional ind\u00edgena que permita planejar o acesso \u00e0 terra, planos de sa\u00fade que contemplem o saber da medicina tradicional e incorpora\u00e7\u00e3o de professores bil\u00edng\u00fces nas escolas. \u201cN\u00e3o se soluciona o problema com duas ou tr\u00eas cestas de alimentos\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>Em junho de 2006, os ind\u00edgenas de Chaco protestaram com uma marcha de tr\u00eas mil pessoas desde Villa Rio Bermejito at\u00e9 Resistencia, capital provincial situada a mais de 400 quil\u00f4metros. Diante da negativa das autoridades da prov\u00edncia em dialogar, os manifestantes ocuparam a sede do governo e ali iniciaram uma greve de fome. A medida, adotada por uma dezena de ind\u00edgenas, durou 32 dias e culminou com a sa\u00fade dessas pessoas gravemente deteriorada e uma promessa de solu\u00e7\u00f5es que n\u00e3o chegaram. Na oportunidade, o Centro Mandela afirmara que dos 3,9 milh\u00f5es de hectares de terras fiscais que havia na prov\u00edncia em 1995 restam pouco mais de 660 mil hectares.<\/p>\n<p>A lei provincial estabelece que essas terras devem ser cedidas a comunidades ind\u00edgenas ou a pequenos produtores em \u00e1reas familiares entre 650 e 1.200 hectares cada, acompanhadas de pol\u00edticas de fomento \u00e0 atividade produtiva. Mas nada disso ocorreu. A entidade afirmou que as concess\u00f5es beneficiaram grandes plantadores de soja e outros cultivos, alguns deles radicados em outras prov\u00edncias, e que os lotes cedidos tinham mais de 10 mil hectares cada um. Mais de um ano depois, o resultado \u00e9 mais fome, doen\u00e7a e morte. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 29\/08\/2007 &ndash; Cercadas pela expans\u00e3o agropecu\u00e1ria e indiferen\u00e7a do Estado, comunidades ind\u00edgenas da prov\u00edncia argentina de Chaco encontram dificuldades para ter acesso \u00e0 \u00e1gua, \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o e aos medicamentos naturais e, assim, caminham para a extin\u00e7\u00e3o. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/08\/america-latina\/indigenas-argentina-desastre-humanitario-no-chaco\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":129,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,5],"tags":[],"class_list":["post-3242","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-economia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3242","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/129"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3242"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3242\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3242"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3242"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3242"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}