{"id":327,"date":"2005-02-21T00:00:00","date_gmt":"2005-02-21T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=327"},"modified":"2005-02-21T00:00:00","modified_gmt":"2005-02-21T00:00:00","slug":"clima-a-poluio-cotada-alta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/02\/mundo\/clima-a-poluio-cotada-alta\/","title":{"rendered":"Clima: A polui&ccedil;&atilde;o cotada alta"},"content":{"rendered":"<p>Montevid&eacute;u, 21\/02\/2005 &ndash; O desejo de lucro, motor da poluente revolu&ccedil;&atilde;o industrial do Ocidente, est&aacute; na l&oacute;gica do Protocolo de Kyoto, que entrou em vigor no dia 16, para que os pa&iacute;ses ricos coloquem cota&ccedil;&atilde;o nos gases que est&atilde;o alterando o clima terrestre. Paradoxalmente, o di&oacute;xido de carbono (um dos gases que aquecem a atmosfera) j&aacute; tem cota&ccedil;&atilde;o. No mercado europeu &eacute; transacionado a 7,9 euros (US$ 10) a tonelada, e pode subir rapidamente para US$ 12, segundo operadores financeiros. Tem sentido vender e comprar gases? Tem, para as empresas de 35 na&ccedil;&otilde;es industriais obrigadas pelo Protocolo a reduzirem suas emiss&otilde;es. Sobretudo, se o esquema implica reduzir custo e obter lucro.<br \/> <!--more--> <br \/> O uso intensivo de carv&atilde;o mineral desde meados do s&eacute;culo XIX, a expans&atilde;o de ind&uacute;strias poluentes e a revolu&ccedil;&atilde;o do transporte com base em combust&iacute;veis f&oacute;sseis acumularam na atmosfera volumes imensos de subst&acirc;ncias t&oacute;xicas a um ritmo que a natureza n&atilde;o pode tolerar. As grandes pot&ecirc;ncias, particularmente os pa&iacute;ses da Europa e os Estados Unidos, mas, tamb&eacute;m outras na&ccedil;&otilde;es, como Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica, at&eacute; seu desaparecimento no in&iacute;cio dos anos 90, marcaram esse caminho do desenvolvimento, seguido, tardiamente e mal, pelo resto do mundo. Os danos n&atilde;o respeitam fronteiras. Em poucos anos a atmosfera come&ccedil;ou a dar sinais preocupantes. O buraco na camada de oz&ocirc;nio, que protege a vida de radia&ccedil;&otilde;es solares nocivas, e o aquecimento global s&atilde;o provados, medidos e estudados meticulosamente desde os anos 70.<\/p>\n<p> O tratado ambiental que deu origem ao Protocolo de Kyoto, a Conven&ccedil;&atilde;o Marco das Na&ccedil;&otilde;es Unidas sobre Mudan&ccedil;a Clim&aacute;tica, reconheceu, em 1992, que esse modelo de desenvolvimento deveria ser abolido pelo bem de todos, mas, que nem todos eram igualmente respons&aacute;veis em mitigar os preju&iacute;zos comuns. Essa l&oacute;gica levou &agrave; assinatura, em 1997, do Protocolo, que colocava em n&iacute;veis separados e com obriga&ccedil;&otilde;es diferentes as na&ccedil;&otilde;es ricas e o mundo em desenvolvimento. Mas, aquele princ&iacute;pio se mostrou insuficiente. As grandes companhias alegaram que seriam necess&aacute;rios investimentos milion&aacute;rios para mudar do petr&oacute;leo, carv&atilde;o e g&aacute;s para fontes renov&aacute;veis e mais limpas. Necessitava-se efici&ecirc;ncia no uso de energia e desest&iacute;mulo ao consumo desenfreado. O influente setor do petrol&iacute;fero e energ&eacute;tico exerceu uma consider&aacute;vel press&atilde;o sobre os governos.<\/p>\n<p> Dessa maneira, a comunidade internacional mesclou no Protocolo de Kyoto a l&oacute;gica ambiental (das responsabilidades comuns, mas diferenciadas diante da natureza) com os princ&iacute;pios de mercado. Os mecanismos flex&iacute;veis do Protocolo (com&eacute;rcio de emiss&otilde;es, implementa&ccedil;&atilde;o conjunta e Mecanismo de Desenvolvimento Limpo-MDL) permitem &agrave;s companhias negociarem entre si direitos para emitir carbono e investir em projetos limpos no Sul, enquanto ganham tempo para reduzir a contamina&ccedil;&atilde;o em casa. Se uma empresa adota uma tecnologia mais limpa em sua cadeia de produ&ccedil;&atilde;o pode emitir tais certificados, que ser&aacute; comprado por outra companhia que n&atilde;o esteja disposta a investir em um processo produtivo menos contaminante. Assim, a segunda empresa poder&aacute; continuar emitindo gases acima de sua cota, pelo menos durante um tempo.<\/p>\n<p> O MDL tamb&eacute;m incorporou o compromisso das na&ccedil;&otilde;es ricas de transferir e ajudar a desenvolver tecnologias limpas para o Sul. Mas, at&eacute; que ponto? A Espanha &eacute; um dos pa&iacute;ses que exagerou na contamina&ccedil;&atilde;o com gases causadores do efeito estufa. Suas emiss&otilde;es aumentaram 45% entre 1990 4 2004. Suas ind&uacute;strias t&ecirc;m desde a semana passada cotas precisas de redu&ccedil;&atilde;o, estabelecidas pelo governo. A companhia energ&eacute;tica espanhola Endesa acaba de anunciar investimentos de US$ 3,2 bilh&otilde;es em seis centrais hidrel&eacute;tricas da Am&eacute;rica Latina em troca dos gases expelidos por suas centrais t&eacute;rmicas na Espanha. A Endesa estima que conseguir&aacute; compensar nos pr&oacute;ximos 20 anos mais de 300 mil toneladas anuais de di&oacute;xido de carbono.<\/p>\n<p> Parece evidente que para a Espanha esse investimento &eacute; menor do que seria para reconverter as centrais t&eacute;rmicas. Tamb&eacute;m se pode inferir que um plano de investimentos de semelhante porte implicar&aacute; ganhos. Mas, quem pode medir dezenas de milhares de fontes mundiais de gases que causam o efeito estufa para saber se planos como o da Endesa funcionar&atilde;o? &quot;&Eacute; imposs&iacute;vel verificar se as emiss&otilde;es de uma usina de energia pode ser compensada atrav&eacute;s das planta&ccedil;&otilde;es de &aacute;rvores ou de outros projetos. Os investidores perder&atilde;o a confian&ccedil;a nos cr&eacute;ditos que comprarem&quot;, afirmou esta semana um comunidade da organiza&ccedil;&atilde;o Skin Swatch, com sede na Gr&atilde;-Bretanha.<\/p>\n<p> O ativista Roque Pedace, da organiza&ccedil;&atilde;o Amigos da Terra\/Argentina, disse &agrave; IPS que &quot;o MDL &eacute; um subs&iacute;dio dos pa&iacute;ses em desenvolvimento para os industrializados&quot;. As pot&ecirc;ncias industriais &quot;se atribuir&atilde;o por direito adquirido algumas cotas de emiss&atilde;o excessivas, e o com&eacute;rcio pela MDL lhes permite encontrar lugares mais baratos para cumprir com elas, &agrave;s custas da capacidade de redu&ccedil;&atilde;o futura dos pa&iacute;ses onde s&atilde;o desenvolvidos esses projetos&quot;, acrescentou. Em um sentido semelhante se pronunciou o Grupo de Durban, uma coaliz&atilde;o internacional de organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o-governamentais, cientistas e economistas preocupados com a mudan&ccedil;a do clima. &quot;O com&eacute;rcio de carbono entrega lucrativos direitos comerciais aos governos e empresas do Norte sobre o uso da capacidade natural terra em mat&eacute;ria de funcionamento do ciclo do carbono, roubando, assim, um bem p&uacute;blico da maioria dos habitantes&quot;, alegou o Grupo em carta dirigida ao secret&aacute;rio-geral da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas, Kofi Annan.<\/p>\n<p> Em outras palavras, a contamina&ccedil;&atilde;o gerada no Norte &eacute; reduzida o Sul. Mas, os mecanismos flex&iacute;veis de Kyoto t&ecirc;m limites. Os pa&iacute;ses n&atilde;o podem lan&ccedil;ar m&atilde;o deles para compensar toda sua cota de polui&ccedil;&atilde;o comprometida, e est&atilde;o obrigados a realizar a&ccedil;&otilde;es reais antes de 2012, prazo estabelecido pelo Protocolo. Al&eacute;m disso, a Conven&ccedil;&atilde;o Sobre Mudan&ccedil;a Clim&aacute;tica tem normas e organismos para garantir o cumprimento de suas metas e evitar que todo o processo acabe em um mero mercado do carbono funcionando &quot;a todo vapor&quot;. Em 2012, os 35 pa&iacute;ses industriais dever&atilde;o ter reduzido suas emiss&otilde;es em 5,2% do total que emitiam em 1990. Muito pouco, dizem os cientistas, pois seria necess&aacute;ria uma redu&ccedil;&atilde;o de 60% para deter o aquecimento global.<\/p>\n<p> Enquanto isso, estar&atilde;o se aprofundando os efeitos j&aacute; vis&iacute;veis da mudan&ccedil;a clim&aacute;tica, como inunda&ccedil;&otilde;es de regi&otilde;es costeiras, secas e tempestades mais freq&uuml;entes e intensas. &quot;Os custos dos preju&iacute;zos e da adapta&ccedil;&atilde;o &agrave; altera&ccedil;&atilde;o do clima aumentar&atilde;o muito mais rapidamente do que os investimentos necess&aacute;rios para uma transi&ccedil;&atilde;o energ&eacute;tica justa no Norte e no Sul&quot;, preveniu Pedace. Nessa ocasi&atilde;o, a comunidade internacional ter&aacute; de come&ccedil;ar a cria rum pacto que envolva o maior contaminador mundial, os Estados Unidos, e as grandes economias do Sul (China e &Iacute;ndia), hoje isentas de obriga&ccedil;&otilde;es. A quest&atilde;o continuar&aacute; sendo um modelo que desvincule o crescimento econ&ocirc;mico das emiss&otilde;es de gases contaminantes. Seguramente, o lucro n&atilde;o ficar&aacute; perdido pelo caminho. (IPS\/Envolverde) <\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Montevid&eacute;u, 21\/02\/2005 &ndash; O desejo de lucro, motor da poluente revolu&ccedil;&atilde;o industrial do Ocidente, est&aacute; na l&oacute;gica do Protocolo de Kyoto, que entrou em vigor no dia 16, para que os pa&iacute;ses ricos coloquem cota&ccedil;&atilde;o nos gases que est&atilde;o alterando o clima terrestre. Paradoxalmente, o di&oacute;xido de carbono (um dos gases que aquecem a atmosfera) j&aacute; tem cota&ccedil;&atilde;o. No mercado europeu &eacute; transacionado a 7,9 euros (US$ 10) a tonelada, e pode subir rapidamente para US$ 12, segundo operadores financeiros. Tem sentido vender e comprar gases? Tem, para as empresas de 35 na&ccedil;&otilde;es industriais obrigadas pelo Protocolo a reduzirem suas emiss&otilde;es. 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