{"id":3389,"date":"2007-10-22T19:28:50","date_gmt":"2007-10-22T19:28:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=3389"},"modified":"2007-10-22T19:28:50","modified_gmt":"2007-10-22T19:28:50","slug":"brasil-apos-a-euforia-preocupacao-com-os-efeitos-do-biocombustivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/10\/america-latina\/brasil-apos-a-euforia-preocupacao-com-os-efeitos-do-biocombustivel\/","title":{"rendered":"Brasil: Ap\u00f3s a euforia, preocupa\u00e7\u00e3o com os efeitos do biocombust\u00edvel"},"content":{"rendered":"<p>Belo horizonte, 22\/10\/2007 &ndash; Passada a euforia inicial do Brasil por se converter na \u201cgrande pot\u00eancia bioenerg\u00e9tica\u201d, autoridades, acad\u00eamicos e ativistas discutem solu\u00e7\u00f5es para minimizar os eventuais efeitos sociais e ambientais dos chamados \u201ccombust\u00edveis verdes\u201d. <!--more--> O sintoma dessa preocupa\u00e7\u00e3o teve reflexo na VII Confer\u00eancia Latino-americana sobre Meio Ambiente e Responsabilidade Social (Ecolatina), que aconteceu na semana passada em Belo Horizonte, e que teve como tema central os efeitos da mudan\u00e7a clim\u00e1tica na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>V\u00e1rios f\u00f3runs e semin\u00e1rios da confer\u00eancia convocaram especialistas para debater desafios e oportunidades das energias renov\u00e1veis, particularmente, os biocombust\u00edveis, \u00e1lcool combust\u00edvel e biodiesel destilado de vegetais como cana-de-a\u00e7\u00facar, milho, soja, girassol e r\u00edcino, entre outros. Dados apresentados pela Ecolatina mostram que a bioenergia \u00e9 um mercado em r\u00e1pida expans\u00e3o que nos \u00faltimos anos recebeu investimentos no valor deUS$ 21 bilh\u00f5es. O temor \u00e9 que essa vertiginosa e crescente demanda provoque aumento no pre\u00e7o dos alimentos e impactos ambientais pela expans\u00e3o de \u00e1reas de monocultura para os tamb\u00e9m chamados \u201cagrocombustiveis\u201d.<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o lan\u00e7ada inicialmente por organiza\u00e7\u00f5es camponesas e acad\u00eamicas se \u201cinstitucionalizou\u201d a partir de um informe divulgado pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Agricultura e a Alimenta\u00e7\u00e3o em junho passado. Segundo este estudo da FAO, a crescente demanda por biocombust\u00edveis pode aumentar este ano os gastos globais da importa\u00e7\u00e3o de alimentos em 5%, para chegar a um valor recorde de US$ 400 bilh\u00f5es. O estudo se refere especialmente ao pre\u00e7o dos gr\u00e3os e \u00f3leos vegetais usados em grande escala na produ\u00e7\u00e3o dos biocombust\u00edveis, como o milho nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>O Brasil produz atualmente \u00e1lcool combust\u00edvel ou etanol, que \u00e9 misturado \u00e0 gasolina, a partir da cana-de-a\u00e7\u00facar, e estuda aumentar sua produ\u00e7\u00e3o de biocombust\u00edveis, sobretudo a partir de janeiro de 2008, quando entrar\u00e1 em vigor uma lei que obriga a utiliza\u00e7\u00e3o de uma mistura de 2% de biodiesel nos ve\u00edculos que funcionam a \u00f3leo combust\u00edvel. Em termos de produ\u00e7\u00e3o, isso representar\u00e1 uma demanda de aproximadamente 850 milh\u00f5es de litros no primeiro ano, voluma que aumentar\u00e1 progressivamente at\u00e9 2013, quando a mistura obrigat\u00f3ria passar\u00e1 a ser de 5% de biodiesel, disse \u00e0 IPS Jorio Dauster, presidente da Ecodiesel, empresa que produz 55% desse tipo de combust\u00edvel no Brasil.<\/p>\n<p>Mozart Queiroz, gerente de desenvolvimento energ\u00e9tico da Petrobras, acredita que no caso do Brasil \u201c\u00e9 poss\u00edvel manter o equil\u00edbrio entre a produ\u00e7\u00e3o de alimentos e de energia\u201d. Ao contr\u00e1rio do milho utilizado nos Estados Unidos para destilar etanol, o que aumentou seu pre\u00e7o no Brasil a maior produ\u00e7\u00e3o \u00e9 obtida a partir da soja, gr\u00e3o do qual se extrai tanto a parte seca prot\u00e9ica destinada \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o humana ou animal quanto o \u00f3leo para biodiesel. \u201cO desafio \u00e9 garantir uma produ\u00e7\u00e3o de forma sustent\u00e1vel\u201d, disse \u00e0 IPS o executivo da Petrobras, empresa tradicional na \u00e1rea de petr\u00f3leo e g\u00e1s que agora tamb\u00e9m aposta nos biocombust\u00edveis.<\/p>\n<p>A opini\u00e3o \u00e9 compartilhada por Dauster, para quem o dilema \u201cbioenergia ou alimentos\u201d \u00e9 \u201cfalso\u201d. Dauster argumenta que se aumentar a demanda por biocombust\u00edveis, como no caso do obtido a partir da soja, aumentar\u00e1 na mesma propor\u00e7\u00e3o sua produ\u00e7\u00e3o alimentar porque \u201cn\u00e3o h\u00e1 como extrair seu \u00f3leo sem extrair sua farinha\u201d. O empres\u00e1rio, que conta com seis usinas de biodiesel em todo o pa\u00eds e que investe no estudo de outras fontes, como r\u00edcino e pinh\u00e3o, recordou que os dois principais motivos para estimular esse tipo de energia s\u00e3o a necessidade de substituir os combust\u00edveis f\u00f3sseis n\u00e3o renov\u00e1veis e reduzir suas emiss\u00f5es nocivas de gases causadores do efeito estufa, considerados respons\u00e1veis pelo aquecimento global.<\/p>\n<p>Embora eventualmente haja algum aumento do pre\u00e7o dos alimentos, a op\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica \u00e9 escolher o mal menor, ressaltou Dauster. \u201cSe diminuir a oferta de petr\u00f3leo \u2013 recurso f\u00f3ssil n\u00e3o renov\u00e1vel \u2013 e, portanto, seu pre\u00e7o, no futuro tamb\u00e9m haver\u00e1 um aumento no pre\u00e7o dos alimentos. E se n\u00e3o combatermos o aquecimento global, haver\u00e1 maiores secas e inunda\u00e7\u00f5es, que prejudicar\u00e3o especialmente os mais pobres\u201d, acrescentou. Esta n\u00e3o \u00e9 a mesma opini\u00e3o de outros especialistas presentes \u00e0 Ecolatina, como Roberto Smeraldi, da organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental Amigos da Terra.<\/p>\n<p>Para Smeraldi, embora tanto as planta\u00e7\u00f5es para alimentos quanto para combust\u00edveis possam ter efeitos sociais e ambientais \u201cse n\u00e3o forem cultivadas de forma sustent\u00e1vel\u201d, no caso de um aumento maci\u00e7o das \u00e1reas de cultivo para biocombust\u00edveis esses impactos podem ser ainda maiores. \u201cNos \u00faltimos dois anos houve um crescimento da pecu\u00e1ria na regi\u00e3o amaz\u00f4nica de quase dois milh\u00f5es de cabe\u00e7as ao ano e, pela primeira vez, no Estado de S\u00e3o Paulo perdemos mais de meio milh\u00e3o de animais\u201d no mesmo per\u00edodo, disse o ativista a t\u00edtulo de exemplo. O fen\u00f4meno \u00e9 atribu\u00eddo \u201csem d\u00favida\u201d a um aumento, quase na mesma propor\u00e7\u00e3o de planta\u00e7\u00f5es de cana-de-a\u00e7\u00facar em terras paulistas. Al\u00e9m disso, a crescente demanda por \u00e1reas de cultivo para esse fim \u201csem d\u00favida resulta em maior competi\u00e7\u00e3o pela terra e aumento de seu pre\u00e7o\u201d, e quando isso ocorre pode haver uma \u201cexpuls\u00e3o dos camponeses mais pobres\u201d, acrescentou Smeraldi.<\/p>\n<p>Para o diretor da Amigos da Terra, no caso do Brasil o importante \u00e9 que o governo promova uma verdadeira regulariza\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria para dar posse segura da terra aos pequenos camponeses. \u201cSem seguran\u00e7a na propriedade poderemos ter um efeito em cadeia de deslocar diferentes atividades para terras marginais\u201d, explicou Smeraldi. O governo j\u00e1 est\u00e1 consciente destes riscos. A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, disse que o Pa\u00eds \u201cest\u00e1 fazendo algo que pode ser um modelo para outras na\u00e7\u00f5es\u201d, que \u00e9 estabelecer zonas agr\u00edcolas espec\u00edficas para cultivar biocombust\u00edveis.<\/p>\n<p>\u201cO Brasil j\u00e1 tem um mapa de \u00e1reas priorit\u00e1rias para a preserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade\u201d e existe uma norma do Minist\u00e9rio da Agricultura proibindo o cultivo de cana-de-a\u00e7\u00facar na Amaz\u00f4nia, afirmou Marina Silva. \u201cTrata-se de um esfor\u00e7o para orientar a produ\u00e7\u00e3o de biocombust\u00edveis. A decis\u00e3o do governo \u00e9 que essa produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o comprometa, em hip\u00f3tese alguma, a seguran\u00e7a alimentar e que tenha uma base sustent\u00e1vel\u201d, ressaltou a ministra. Para diversificar os biocombust\u00edveis e evitar monoculturas com a da soja, o governo d\u00e1 incentivos fiscais aos produtores de biodiesel que compram mat\u00e9ria-prima de pequenos agricultores, expoentes da agricultura familiar.<\/p>\n<p>O segredo, segundo Dauster, \u00e9 criar novas alternativas bioenerg\u00e9ticas para dar op\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas tamb\u00e9m aos pequenos produtores. A pergunta ainda sem resposta \u00e9 que capacidade de oferta e competi\u00e7\u00e3o ter\u00e3o esses pequenos camponeses em rela\u00e7\u00e3o aos grandes grupos de investidores nacionais e estrangeiros que come\u00e7am a atuar em grande escala no setor bioenerg\u00e9tico brasileiro.<\/p>\n<p>(Envolverde\/ IPS)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Belo horizonte, 22\/10\/2007 &ndash; Passada a euforia inicial do Brasil por se converter na \u201cgrande pot\u00eancia bioenerg\u00e9tica\u201d, autoridades, acad\u00eamicos e ativistas discutem solu\u00e7\u00f5es para minimizar os eventuais efeitos sociais e ambientais dos chamados \u201ccombust\u00edveis verdes\u201d. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/10\/america-latina\/brasil-apos-a-euforia-preocupacao-com-os-efeitos-do-biocombustivel\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":75,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,2,12,5],"tags":[21],"class_list":["post-3389","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-america-latina","category-desenvolvimento","category-economia","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3389","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/75"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3389"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3389\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3389"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3389"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3389"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}