{"id":3392,"date":"2007-10-23T19:41:29","date_gmt":"2007-10-23T19:41:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=3392"},"modified":"2007-10-23T19:41:29","modified_gmt":"2007-10-23T19:41:29","slug":"ambiente-brasil-sorvetes-para-salvar-o-cerrado-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/10\/america-latina\/ambiente-brasil-sorvetes-para-salvar-o-cerrado-brasileiro\/","title":{"rendered":"Ambiente-Brasil: Sorvetes para salvar o cerrado brasileiro"},"content":{"rendered":"<p>Goi\u00e2nia, 23\/10\/2007 &ndash; A capital de Goi\u00e1s tenta os turistas com tr\u00eas sorveterias. N\u00e3o s\u00f3 atraem mais consumidores dia a dia pelo sabor ex\u00f3tico das frutas nativas como tamb\u00e9m promovem a biodiversidade. Um quarto estabelecimento ser\u00e1 aberto em duas semanas em Goi\u00e2nia, que tem 1, 4 milh\u00e3o de habitantes. <!--more--> Todas as lojas s\u00e3o abastecidas pela fam\u00edlia de Cl\u00f3vis de Almeida, um campon\u00eas de 54 anos que encontrou a fortuna gra\u00e7as ao conhecimento bot\u00e2nico acumulado em sua inf\u00e2ncia e juventude vivida em terras long\u00ednquas de Goi\u00e1s.<\/p>\n<p>Houve tempos mais dif\u00edceis. Para chegar ao povoado mais pr\u00f3ximo, a 60 quil\u00f4metros de distancia, and\u00e1vamos dois dias a cavalo\u201d. N\u00e3o havia farm\u00e1cias, \u201ctudo era curado com medicamentos da floresta e abr\u00edamos as estradas a golpes de enxad\u00e3o\u201d, recordou Almeida. Ele se mudou para Goi\u00e2nia, onde manteve sua fam\u00edlia, com tr\u00eas filhos, vendendo sorvetes \u201ccomuns\u201d em carrinhos que empurrava pelas ruas da cidade. Em 1990 quebrou, ao ser pego de surpresa pelo plano antiinflacion\u00e1rio que bloqueou a poupan\u00e7a de toda a popula\u00e7\u00e3o. Como avalista de tr\u00eas amigos, ficou com d\u00edvidas impag\u00e1veis.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, come\u00e7ou a recorrer aos seus conhecimentos das frutas nativas, desenvolvendo os sorvetes que, mais tarde, passou a produzir industrialmente em sua empresa, a Milka Frutos do Cerrado. Hoje s\u00e3o vendidas sob franquia nas sorveterias de Goi\u00e2nia e outras cidades do interior de Goi\u00e1s e da vizinha Minas Gerais. \u201cFicamos lotados nos finais de semana\u201d, mesmo no inverno, disse \u00e0 IPS Antonio Neto, gerente da sorveteria de 19 mesas e mais de 90 cadeiras na larga Avenida 85 de Goi\u00e2nia. Caj\u00e1-manga \u00e9 o preferido entre os 46 sabores de picol\u00e9 e 23 de massa.<\/p>\n<p>As variedades tamb\u00e9m incluem sabores como chocolate e morango, \u201cporque temos de atender as crian\u00e7as\u201d acostumadas a sorvetes da grande ind\u00fastria, admitiu Neto. Milhares de pessoas consomem diariamente os picol\u00e9s com a marca Frutos do Cerrado e os clientes se multiplicam no ver\u00e3o, ao que devem ser somadas as lojas e as vendas de rua que s\u00e3o uma tradi\u00e7\u00e3o em Goi\u00e2nia. H\u00e1 muitos candidatos \u00e0 franquia no Brasil, e tamb\u00e9m estrangeiros. O neg\u00f3cio, que emprega mais de 200 pessoas na fabrica, cumpre tamb\u00e9m outra miss\u00e3o assumida por Almeida: preservar e valorizar a biodiversidade do cerrado.<\/p>\n<p>Caj\u00e1-mangua, gabiroba, araticum, buriti, jatob\u00e1 e jenipapo s\u00e3o palavras que v\u00e3o se incorporando ao vocabul\u00e1rio e gosto da popula\u00e7\u00e3o urbana jovem ou s\u00e3o uma recorda\u00e7\u00e3o aos adultos de origem rural atrav\u00e9s dos sorvetes. Almeida \u00e9 um apaixonado pelo cerrado, a ponto de ser convidado para dar palestras em universidades gra\u00e7as aos seus conhecimentos pr\u00e1ticos. O bioma ou ecossistema concentra a maior riqueza do Brasil, por suas frutas e plantas medicinais e porque ali nascem os rios que formam as tr\u00eas maiores bacias do pa\u00eds, incluindo a Amaz\u00f4nia, disse \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>\u201cQuem tem terra no cerrado possui uma mina de ouro\u201d, acrescentou, j\u00e1 que com um hectare produzindo as frutas locais pode-se ganhar US$ 165 mil por ano, enquanto um hectare de soja rende apenas US$ 4.400. Almeida critica a irracionalidade do desmatamento para usar essas terras com fins agr\u00edcolas. Seu entusiasmo se baseia em seu neg\u00f3cio, cuja expans\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 limitada pela falta de demanda, mas pela dificuldade em conseguir mat\u00e9ria-prima. A seca deste ano em Goi\u00e1s obrigou sua empresa a \u201cbuscar frutas em \u00e1reas distantes, at\u00e9 no Piau\u00ed\u201d, lamentou.<\/p>\n<p>O Estado do Piau\u00ed, que fica a cerca de dois mil quil\u00f4metros de Goi\u00e2nia, fica em um extremo do cerrado, a savana que se estende por um quarto do territ\u00f3rio brasileiro, com uma biodiversidade compar\u00e1vel \u00e0 amaz\u00f4nica, embora pouco reconhecida e protegida. Um estudo feito em 2004 pela Conserva\u00e7\u00e3o Internacional (CI) estimou que esse bioma estar\u00e1 totalmente destru\u00eddo at\u00e9 2030, considerando que apenas 34% de sua extens\u00e3o manteria a vegeta\u00e7\u00e3o nativa e que a perda anual, baseada em uma m\u00e9dia obtida entre 1984 e 2002, \u00e9 de 1,1%, diante do avan\u00e7o da pecu\u00e1ria e da agricultura.<\/p>\n<p>Uma nova avalia\u00e7\u00e3o, com imagens obtidas via sat\u00e9lite de melhor resolu\u00e7\u00e3o dever\u00e1 estar pronta no pr\u00f3ximo semestre, disse \u00e0 IPS Ricardo Machado, diretor do Programa Cerrado, da CI. Oscila\u00e7\u00f5es no mercado internacional da soja e a exposi\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno dos biocombust\u00edveis provavelmente alteraram o ritmo do desmatamento. O problema \u00e9 a vis\u00e3o tradicional que considera o cerrado como um ecossistema pobre e \u201cdescart\u00e1vel\u201d, por sua paisagem sem florestas exuberantes, dominado por vegeta\u00e7\u00e3o baixa e arbustos retorcidos. A Constitui\u00e7\u00e3o brasileira de 1988 excluiu o cerrado dos patrim\u00f4nios nacionais contemplando apenas a Amaz\u00f4nia, Mata Atl\u00e2ntica, Pantanal Matogrossense e a zona costeira.<\/p>\n<p>O cerrado tamb\u00e9m era menosprezado por sua baixa fertilidade natural, mas os avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos e a fertiliza\u00e7\u00e3o o converteram em fronteira de expans\u00e3o agr\u00edcola nas tr\u00eas \u00faltimas d\u00e9cadas, acentuando sua devasta\u00e7\u00e3o. A intensa aplica\u00e7\u00e3o de cal para corrigir a acidez alterou quimicamente o solo, em detrimento da vegeta\u00e7\u00e3o original. Aproveitar economicamente a biodiversidade do cerrado, hoje reconhecida como rica em esp\u00e9cies medicinais, alimentares e fornecedoras de insumos para a ind\u00fastria cosm\u00e9tica, \u00e9 um caminho para preserva a parte remanescente do bioma, segundo Machado.<\/p>\n<p>O uso de frutas nativas na fabrica\u00e7\u00e3o de sorvetes, sucos e doces \u201c\u00e9 interessante\u201d para popularizar as esp\u00e9cies do cerrado, agregando-lhes valor e gerando muitos empregos, embora seja insuficiente para conter o desmatamento, disse Machado. \u00c9 um caminho j\u00e1 percorrido com sucesso no caso de algumas esp\u00e9cies amaz\u00f4nicas, como o a\u00e7a\u00ed e o cupua\u00e7u. \u00c9 necess\u00e1rio, segundo este ativista, ampliar o uso sustent\u00e1vel dessa biodiversidade por parte de comunidades locais organizadas e estimular outras iniciativas, inclusive com pol\u00edticas governamentais e financiamentos favorecidos. N\u00e3o se deve ficar no limite da extra\u00e7\u00e3o de frutas, mas passar ao cultivo \u201cem pequena escala\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>A Associa\u00e7\u00e3o dos Produtores e Beneficiadores de Frutas do Cerrado (Benfruc), fundada por 10 pessoas em 2004 em Damian\u00f3polis, pequeno munic\u00edpio de quatro mil habitantes no nordeste de Goi\u00e1s, somou-se a este esfor\u00e7o. Colhe e processa 30 toneladas por ano, que passaram a cem com uma nova unidade que ser\u00e1 inaugurada ainda este ano. Toda a polpa produzida das frutas \u00e9 vendida para a Sorb\u00e9, uma sorveteria de Bras\u00edlia, a 300 quil\u00f4metros de Damian\u00f3polis, e se produz doce de pequi, fruta abundante em Goi\u00e1s, para o com\u00e9rcio de Goi\u00e2nia, a 535 quil\u00f4metros.<\/p>\n<p>A associa\u00e7\u00e3o surgiu porque em \u201cDamian\u00f3polis n\u00e3o h\u00e1 trabalho. Apenas a escola e a prefeitura oferecem empregos\u201d, explicou Giovanda de Souza Brand\u00e3o, presidente da Benfruc. \u201cQueremos agora uma reserva extrativista\u201d, j\u00e1 proposta ao Instituto Brasileiro de Meio Ambiente, com 27 mil hectares que permitam ampliar a colheita de frutas, produtos medicinais e mel. H\u00e1 demanda, \u00e9 a coleta de frutas que limita a cadeia produtiva, afirmou. Reserva extrativista (Resex) \u00e9 uma \u00e1rea destinada \u00e0 colheita controlada de frutas da floresta, sem afetar sua capacidade de reprodu\u00e7\u00e3o nem o equil\u00edbrio ecol\u00f3gico. A id\u00e9ia nasceu na Amaz\u00f4nia, por iniciativa de Chico Mendes, l\u00edder dos seringueiros e her\u00f3i de lutas ambientais, cujo assassinato em 1988 teve repercuss\u00e3o mundial.<\/p>\n<p>A Benfruc, cujos membros colhem e processam as frutas, est\u00e1 capacitando 90 fam\u00edlias para a amplia\u00e7\u00e3o do neg\u00f3cio. Seus associados tamb\u00e9m plantam novas \u00e1rvores e arbustos frut\u00edferos, mas enfrentam o problema da escassez de terras. Sua atividade somente progredir\u00e1 de fato com a Resex, que garantiria terras amplas e cr\u00e9dito oficial, afirmou Brand\u00e3o, ex-camponesa de 40 anos, com dois filhos, que sonha um dia comprar uma fazenda para destinar cinco ou 10 hectares exclusivamente ao cultivo de frutas do cerrado.<\/p>\n<p>(Envolverde\/ IPS)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Goi\u00e2nia, 23\/10\/2007 &ndash; A capital de Goi\u00e1s tenta os turistas com tr\u00eas sorveterias. N\u00e3o s\u00f3 atraem mais consumidores dia a dia pelo sabor ex\u00f3tico das frutas nativas como tamb\u00e9m promovem a biodiversidade. 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