{"id":3445,"date":"2007-11-14T18:36:10","date_gmt":"2007-11-14T18:36:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=3445"},"modified":"2007-11-14T18:36:10","modified_gmt":"2007-11-14T18:36:10","slug":"ambiente-aposta-nos-guardioes-da-baia-da-guanabara","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2007\/11\/america-latina\/ambiente-aposta-nos-guardioes-da-baia-da-guanabara\/","title":{"rendered":"Ambiente: Aposta nos guardi\u00f5es da Ba\u00eda da Guanabara"},"content":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 14\/11\/2007 &ndash; Os contrastes causam impacto nos visitantes desde sua chegada \u00e0 antiga capital brasileira. J\u00e1 do avi\u00e3o pode ver a deslumbrante Ba\u00eda da Guanabara, em cuja maior ilha fica o aeroporto, mas logo dever\u00e1 passar entre um canal de \u00e1guas f\u00e9tidas e um ac\u00famulo de favelas para chegar ao centro e \u00e0 \u00e1rea tur\u00edstica. <!--more--> No Canal do Fund\u00e3o, que separa o continente de outra ilha onde foi instalada a principal universidade do Rio de Janeiro, as \u00e1guas j\u00e1 n\u00e3o circulam na maior parte de seus cinco quil\u00f4metros de comprimento, devido \u00e0 sedimenta\u00e7\u00e3o causada por dejetos industriais, lixo e esgoto de muitos bairros densamente povoados.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o poderia ser pior. Mas, nos rios que trazem o grosso dessa contamina\u00e7\u00e3o grupos de homens e mulheres estendem cabos de a\u00e7o, arames e paus de uma margem \u00e0 outra, formando improvisadas barreiras que ret\u00eam garrafas e outros vasilhames de pl\u00e1stico, papel\u00e3o e outros materiais flutuantes. S\u00e3o os Guardi\u00f5es dos rios, integrantes de um projeto criado em 2001 pela prefeitura do Rio de Janeiro, que em 1960 foi substitu\u00edda por Bras\u00edlia como capital do Pa\u00eds. Selecionados entre moradores das comunidades pobres vizinhas, os guardi\u00f5es ganham R$ 520 por m\u00eas para recolher diariamente o lixo jogado nos cursos de \u00e1gua e periodicamente plantar \u00e1rvores em suas margens.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes aparecem colch\u00f5es, equipamentos dom\u00e9sticos e m\u00f3veis, como sof\u00e1s, disse Sidnei Martins, coordenador de uma equipe de nove trabalhadores que limpam um trecho dos rios Jacar\u00e9 e Faria-Timb\u00f3, alguns quil\u00f4metros acima do Canal do Fund\u00e3o. Em agosto e setembro \u201cretiramos 35 carca\u00e7as de autom\u00f3veis\u201d, acrescentou. \u201cFalta consci\u00eancia para os moradores da regi\u00e3o que \u201cjogam de tudo nos rios\u201d, inclusive fetos resultantes de abortos, disse Martins, de 47 anos, sempre com seu uniforme verde da Secretaria Municipal de Meio Ambiente. Seu grupo foi formado h\u00e1 tr\u00eas anos, juntando moradores do conjunto Nelson Mandela, uma das favelas da \u00e1rea. \u201cNos primeiros dias recolhemos uma tonelada de lixo por dia\u201d, recordou Martins. Cerca de 90% do lixo s\u00e3o recicl\u00e1veis, mas n\u00e3o s\u00e3o aproveitados porque essa atividade n\u00e3o \u00e9 estimulada. Entretanto, um de seus ex-colegas sobrevive atualmente vendendo lixo para reciclagem.<\/p>\n<p>A melhoria depois de iniciado o projeto \u00e9 sens\u00edvel. \u201cOs rios j\u00e1 n\u00e3o provocam as inunda\u00e7\u00f5es que antes eram freq\u00fcentes, os ratos desapareceram e diminu\u00edram doen\u00e7as como dengue, diarr\u00e9ia e micose\u201d, disse Ana Paula Ferreira, que deixou o grupo de Martins onde trabalhou dois anos para entrar em um \u201cemprego est\u00e1vel\u201d em um hospital. \u201cO rio continua feio, mas menos sujo\u201d, resumiu. O projeto, destinado a limpar cursos fluviais do munic\u00edpio carioca, previa mobilizar este ano 640 pessoas em 86 comunidades, ampliando para 960 e 136, respectivamente, at\u00e9 2012. \u201cDeveria expandir mais, porque as pessoas precisam de trabalho\u201d, al\u00e9m dos benef\u00edcios sanit\u00e1rios e ambientais, disse Ana Paula, de 31 anos, tr\u00eas filhos e que vive a 30 metros do rio Jacar\u00e9.<\/p>\n<p>Saneamento em falta<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o dos guardi\u00f5es busca prevenir trag\u00e9dias urbanas. Al\u00e9m disso, evita que muitas toneladas di\u00e1rias de lixo agravem a contamina\u00e7\u00e3o da Ba\u00eda da Guanabara. Mas, \u00e9 uma gota no oceano, Atl\u00e2ntico, neste caso. \u00c9 o des\u00e1g\u00fce sem tratamento o que mais contamina a ba\u00eda, onde desembocam 35 rios que cruzam a regi\u00e3o metropolitana onde habitam 10 milh\u00f5es de pessoas, disse Dora Negreiros, presidente do n\u00e3o-governamental Instituto Ba\u00eda da Guanabara. Contra essa agress\u00e3o pouco fez o Programa de Descontamina\u00e7\u00e3o da Ba\u00eda da Guanabara (PDBG), iniciado em 1995 com um or\u00e7amento de US$ 793 milh\u00f5es baseado em cr\u00e9ditos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e do Jap\u00e3o, previsto para terminar em 1999, mas que ainda tem v\u00e1rias obras pendentes.<\/p>\n<p>O loda\u00e7al no Canal do Fund\u00e3o se constituiu em den\u00fancia permanente da inefic\u00e1cia do programa, em grande parte devido \u00e0 falta de coordena\u00e7\u00e3o entre suas a\u00e7\u00f5es. A principal esta\u00e7\u00e3o de tratamento de esgoto, denominada Alegria, \u00e9 um exemplo. Foi constru\u00edda para processar cinco mil litros por segundo, mas recebe apenas mil litros. Faltam redes de esgoto at\u00e9 a esta\u00e7\u00e3o, disse Vilmar Berna, jornalista e ambientalista que ajudou em uma investiga\u00e7\u00e3o parlamentar sobre as irregularidades do PDBG.<\/p>\n<p>Antes de come\u00e7ar esse programa estimava-se em 20 mil litros por segundo o volume de \u00e1gua suja despejado na ba\u00eda sem tratamento. Alegria atende justamente o centro e os bairros pr\u00f3ximos do Canal do Fund\u00e3o, onde vivem cerca de 1,5 milh\u00e3o de pessoas. O governo estadual n\u00e3o concretizou os investimentos de contrapartida que deveria fazer em rela\u00e7\u00e3o ao financiamento do BID para instalar as redes, denunciou Alfredo Sirkis, ex-secret\u00e1rio municipal de Meio Ambiente e Urbanismo.<\/p>\n<p>Nos bairros pobres ocorre outro problema. Foram instaladas redes de esgoto, mas faltam as liga\u00e7\u00f5es com as resid\u00eancias, j\u00e1 que as autoridades da \u00e1rea de saneamento queriam que os moradores se responsabilizassem por essa parte, como se fossem cidad\u00e3os \u201csuecos quanto \u00e0 renda e capacita\u00e7\u00e3o c\u00edvica e t\u00e9cnica\u201d, ironizou Berna em conversa com a IPS. A conseq\u00fc\u00eancia s\u00e3o esgotos nas ruas e rede sem uso.<\/p>\n<p>Em sua avalia\u00e7\u00e3o, Berna disse que o PDBG foi \u201cuma grande oportunidade perdida\u201d, por sua execu\u00e7\u00e3o errada, em uma \u00e9poca de entusiasmo nesta cidade que recebeu a C\u00fapula Mundial do Meio Ambiente em 1992. Por\u00e9m, n\u00e3o foi perda em saneamento, mas no ac\u00famulo de lixo, \u201co pior desastre\u201d, com unidades de separa\u00e7\u00e3o e compostagem que nunca operaram, enquanto \u201cgarrafas PET e pneus continuam boiando na ba\u00eda\u201d, ressaltou. Seu balan\u00e7o, entretanto, \u00e9 que se trata de um \u201csemi-fracasso, porque pode ser salvo\u201d com investimentos complementares para corrigir os erros, acrescentou.<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a<\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a de rumo positivo \u00e9 o que assegura estar fazendo o presidente da Companhia Estadual de \u00c1guas e Esgotos (Des\u00e1g\u00fce), Wagner Victer. A esta\u00e7\u00e3o Alegria j\u00e1 est\u00e1 processando 1.500 litros por segundo e em mar\u00e7o passar\u00e1 para 2.500 litros, a demanda m\u00e1xima para sua \u00e1rea e a metade de sua capacidade total, pois foi projetada com \u201cexagero\u201d e s\u00f3 poder\u00e1 ser usada no futuro, disse \u00e0 IPS. Victer reconheceu a falta de coordena\u00e7\u00e3o entre as diferentes atividades do PDBG e que \u201cseria irresponsabilidade\u201d propor uma segunda fase do programa, para obter mais cr\u00e9ditos externos, sem primeiro concluir as obras em atraso com investimentos locais.<\/p>\n<p>Agora, cada obra \u00e9 acompanhada por um cartaz anunciando a data de entrega, que ser\u00e1 cumprido, prometeu Victer. Al\u00e9m disso, ser\u00e3o efetivadas outras medidas de descontamina\u00e7\u00e3o n\u00e3o previstas no programa, como a dragagem do Canal do fund\u00e3o e tamb\u00e9m do Canal do Cunha, que leva para o primeiro as \u00e1guas sujas de v\u00e1rios rios, como o Jacar\u00e9 e o Faria-Timb\u00f3. Tudo isso \u201cn\u00e3o limpar\u00e1 a ba\u00eda, mas reduzir\u00e1 o fluxo de carga org\u00e2nica que a contamina\u201d, para que a natureza possa fazer seu trabalho de limpeza, afirmou. \u201cA Ba\u00eda da Guanabara \u00e9 a c\u00e9lula-m\u00e3e do Brasil, uma d\u00e1diva que distingue o Rio de Janeiro\u201d como um centro do desenvolvimento e da cultura nacional, por isso deve ser descontaminada, afirmou Victer, que se disse orgulhoso de ter nascido e vivido na Ilha do Governador, onde o aeroporto internacional do Rio de Janeiro e vivem 400 mil pessoas.<\/p>\n<p>Apesar dos pontos de contamina\u00e7\u00e3o extrema, como o Canal do Fund\u00e3o, a Ba\u00eda da Guanabara mant\u00e9m muita vida em seus 381 quil\u00f4metros quadrados de \u00e1rea, especialmente no nordeste resguardado por uma \u00e1rea de prote\u00e7\u00e3o ambiental. \u00c9 o que garante a sobreviv\u00eancia de 20 mil pescadores inscritos em cinco col\u00f4nias dispersas pela ba\u00eda, apesar da redu\u00e7\u00e3o de peixes devido \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o, segundo Alex dos Santos, dirigente da Associa\u00e7\u00e3o de Pescadores de Tubiacanga, na Ilha do Governador.<\/p>\n<p>A pesca sofreu um golpe com o vazamento de petr\u00f3leo ocorrido em 2000, um desastre cujos danos s\u00e3o vis\u00edveis at\u00e9 agora nos mangues. A empresa respons\u00e1vel, a Petrobras, ainda n\u00e3o pagou as indeniza\u00e7\u00f5es devidas pela perda de renda dos pescadores, que superam o equivalente a US$ 550 mil, queixou-se Santos \u00e0 IPS. Em sua opini\u00e3o, os pescadores t\u00eam \u201cas t\u00e9cnicas mais baratas e eficientes\u201d para limpar a ba\u00eda, porque \u201cningu\u00e9m a conhece melhor do que n\u00f3s\u201d, acrescentou. Mas, antes, \u00e9 preciso eliminar as fontes de contamina\u00e7\u00e3o qu\u00edmica e org\u00e2nica, atrav\u00e9s do saneamento, ressaltou. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 14\/11\/2007 &ndash; Os contrastes causam impacto nos visitantes desde sua chegada \u00e0 antiga capital brasileira. 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