{"id":3557,"date":"2008-01-07T18:13:46","date_gmt":"2008-01-07T18:13:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=3557"},"modified":"2008-01-07T18:13:46","modified_gmt":"2008-01-07T18:13:46","slug":"desafios-2008-america-latina-jovens-a-margem-da-sociedade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/01\/america-latina\/desafios-2008-america-latina-jovens-a-margem-da-sociedade\/","title":{"rendered":"Desaf\u00edos 2008-Am\u00e9rica Latina: Jovens \u00e0 margem da sociedade"},"content":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 07\/01\/2008 &ndash; Sete milh\u00f5es de brasileiros e quase 800 mil argentinos engrossam um verdadeiro ex\u00e9rcito de jovens latino-americanos sem trabalho e fora do sistema educacional, que amea\u00e7am reproduzir a pobreza se n\u00e3o forem tomadas medidas contundentes para reinclu\u00ed-los, alertam especialistas. <!--more--> No Brasil esse contingente representa quase 20% da popula\u00e7\u00e3o entre 15 e 24 anos de idade, segundo o Informe de Desenvolvimento Juvenil elaborado pelo psic\u00f3logo J\u00falio Jacobo Waiselfisz.<\/p>\n<p>Jorge Werthein, diretor da Rede de Informa\u00e7\u00e3o Tecnol\u00f3gica Latino-americana (Ritla), que encomendou o estudo, aponta como causa dessa situa\u00e7\u00e3o a \u201cestrutural e hist\u00f3rica desigualdade\u201d, que, como destaca, \u201c\u00e9 uma realidade em toda a Am\u00e9rica Latina\u201d. O problema se reflete na entrada no mercado de trabalho, nos servi\u00e7os de sa\u00fade, nas altas taxas de mortalidade, na falta de acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e at\u00e9 na queda da qualidade do ensino publico, explicou \u00e0 IPS o dirigente do Ritla, um organismo internacional de coopera\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>Werthein afirmou, ainda, que \u201co aumento da vulnerabilidade traz como conseq\u00fc\u00eancia mais viol\u00eancia\u201d. Em pa\u00edses como Alemanha, Espanha e Fran\u00e7a h\u00e1 um homic\u00eddio para cada cem mil jovens, enquanto na R\u00fassia ou em na\u00e7\u00f5es latino-americanas como Brasil, Col\u00f4mbia e Venezuela s\u00e3o 50 as mortes violentas para cada cem mil jovens. Esses n\u00fameros s\u00e3o confirmados pelo Estudo brasileiro. Os jovens s\u00e3o os que mais morrem vitimas de homic\u00eddios ou em acidentes automobil\u00edsticos porque \u201cs\u00e3o os mais vulner\u00e1veis, ousados, onipotentes, os mais exclu\u00eddos da sociedade, isto \u00e9, se envolvem mais rapidamente em crimes como o trafico de drogas\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Da falta de perspectivas, esses jovens s\u00e3o contundentes ao dizer, por exemplo, \u201cprefiro ser parte do tr\u00e1fico, embora viva pouco, porque desse modo terei as coisas que outros t\u00eam, como uma moto ou um t\u00eanis de marca\u201d. \u00c9 \u201cisso que, lamentavelmente, vivemos em muitos pa\u00edses e reproduzindo em outros da Am\u00e9rica Latina com o surgimento de gangs\u201d, descreveu Werthein. A investiga\u00e7\u00e3o do soci\u00f3logo Waiselfisz tamb\u00e9m indica que 9,3% dos jovens brancos na regi\u00e3o conseguem terminar o ensino b\u00e1sico, enquanto no caso dos negros apenas 7,7% o conseguem.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, nem tudo \u00e9 t\u00e3o negativo para Werthein. O especialista afirmou que planos implementados no Brasil nos \u00faltimos tempos permitiram, por exemplo, avan\u00e7os na universaliza\u00e7\u00e3o da matr\u00edcula no ensino prim\u00e1rio, que ficou em 97%, e na luta contra o analfabetismo entre os jovens, que caiu para 2,4%. Nesse contexto de pensar o futuro, Werthein entende que \u00e9 prioridade para a regi\u00e3o a implementa\u00e7\u00e3o de planos educacionais de longo prazo (30 ou 40 anos) como a Argentina come\u00e7ou a fazer.<\/p>\n<p>O diretor da Ritla destacou que, embora no Brasil ainda n\u00e3o haja uma defini\u00e7\u00e3o nesse sentido, \u201ca novidade \u00e9 que come\u00e7ou uma verdadeira mudan\u00e7a conceitual important\u00edssima\u201d h\u00e1 dois anos, quando o governo do Presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva colocou a educa\u00e7\u00e3o como uma prioridade e lan\u00e7ou, mais recentemente, um plano educacional para os pr\u00f3ximos 15 anos. Dentro do grande guarda-chuva dessas pol\u00edticas de longo incentivo, Werthein mencionou iniciativas com as aplicadas pela Ritla, atrav\u00e9s da inclus\u00e3o digital, \u201cporque \u00e9 impressionante a atra\u00e7\u00e3o que tem sobre os jovens\u201d. Programas que n\u00e3o s\u00f3 melhoram o acesso e a qualidade da informa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m permitem a cria\u00e7\u00e3o de postos de trabalho para jovens nas \u00e1reas t\u00e9cnica ou docente.<\/p>\n<p>Werthein tamb\u00e9m se mostra otimista em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Argentina, pois percebe que existe uma aten\u00e7\u00e3o especial para reverter o ciclo de exclus\u00e3o e pobreza h\u00e1 quatro anos, quando chegou ao poder o centro-esquerdista Nestor Kirchner, substitu\u00eddo no m\u00eas passado por sua mulher, Cristina Fern\u00e1ndez. Por\u00e9m, a situa\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 dram\u00e1tica nesse pa\u00eds, alertou. Um estudo da Organiza\u00e7\u00e3o do Trabalho indica que 756 mil jovens argentinos com idades entre 18 e 25 anos n\u00e3o estudam nem trabalham, 76% deles s\u00e3o mulheres, que abandonaram o ensino secund\u00e1rio.<\/p>\n<p>Guillermo P\u00e9rez Sosto, co-autor do informe Trabalho Decente e Juventude, explicou \u00e0 IPS que mais de 70% dessas mulheres s\u00e3o de fam\u00edlias pobres, indigentes e, portanto, vulner\u00e1veis. \u201cAs mulheres, quando prov\u00eam do setor mais exclu\u00eddo, s\u00e3o muito passivas. Sup\u00f5em-se que muitas tiveram filhos ainda na adolesc\u00eancia e permanecem circunscritas ao \u00e2mbito dom\u00e9stico, por isso s\u00e3o t\u00e3o invis\u00edveis\u201d, disse Sosto. V\u00ea-se que \u00e9 \u201ccomum deixarem a escola para trabalhar, mas que em seguida perdem o emprego e n\u00e3o procuram outro\u201d.<\/p>\n<p>Como conseq\u00fc\u00eancias sociais, o especialista concorda com Werthein que \u201ca causa deste fen\u00f4meno \u00e9 a deser\u00e7\u00e3o escolar e da\u00ed caem no trabalho prec\u00e1rio\u201d, que hoje na Argentina ocupa 62% do total de jovens empregados. Como no Brasil, Sosto destacou os efeitos agravantes e nocivos do aumento da oferta consumista. Para conseguir produtos fora de seu alcance os jovens pobres e exclu\u00eddos fazem \u201ccomo os antigos lixeiros\u201d, explicou o soci\u00f3logo. \u201cV\u00e3o para as ruas sem um percurso pr\u00e9vio, v\u00e3o em \u201cbusca da moeda\u201d, como dizem, e a conseguem limpando p\u00e1ra-brisa nos sem\u00e1foros, pedindo dinheiro ou se aproveitando de algum distra\u00eddo\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Este especialista acredita que a \u00fanica forma efetiva de realizar mudan\u00e7as \u00e9 eliminando as causas com a\u00e7\u00f5es preventivas para que os jovens n\u00e3o deixem de estudar, que haja tutores para busc\u00e1-los quando abandonam as aulas, que se interessem pelo que lhes acontece, bem trabalhar para que haja menos adolescentes gr\u00e1vidas e menos viciados. Entretanto, com as mulheres \u00e9 mais f\u00e1cil, acrescentou. \u201cAs meninas n\u00e3o querem trabalhar, e n\u00e3o est\u00e1 claro se querem voltar a estudar, pois n\u00e3o dizem nada sobre isso nas entrevistas. Se o sistema educacional fosse mais acolhedor e o mercado de trabalho menos prec\u00e1rio, seria mais f\u00e1cil para eles e para elas\u201d, ressaltou Sosto.<\/p>\n<p>H\u00e1 experi\u00eancias de sucesso para melhorar essa situa\u00e7\u00e3o, mas \u201cque n\u00e3o chegam ao n\u00facleo duro da inatividade\u201d, disse o especialista. Entre elas, um programa implementado em conjunto em 2006 pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o da Argentina e a montadora de autom\u00f3veis Toyota. A id\u00e9ia visava jovens sem emprego e que n\u00e3o haviam terminado os estudos secund\u00e1rios para capacit\u00e1-los e inser\u00ed-los no mercado de trabalho. Enquanto se capacitavam para trabalhar na \u00e1rea de produ\u00e7\u00e3o recebiam sal\u00e1rio de 900 pesos (US$ 300) e quando terminavam o estudo entravam como oper\u00e1rios na Toyota, com sal\u00e1rio de 2.400 pesos (US$ 800). Foram criadas quotas para 300 jovens; 2.600 foram entrevistados, mas nem todos tinham o perfil requerido, que era capacidade de aprendizagem e passar nos exames psicol\u00f3gicos, por isso entraram apenas 60 pessoas, lamentou Sosto.<\/p>\n<p>O Uruguai tamb\u00e9m n\u00e3o escapa da problem\u00e1tica dos jovens sem emprego nem estudos b\u00e1sicos conclu\u00eddos. Segundo a pesquisa domiciliar de 2006 do Instituto Nacional de Estat\u00edstica, cerca de 25% dos jovens entre 18 e 24 anos est\u00e3o exclu\u00eddos do sistema de trabalho e de ensino. O ritmo de crescimento deste problema era, ent\u00e3o, de 3% ao ano. Para combater esta exclus\u00e3o juvenil, o governo esquerdista de Tabar\u00e9 V\u00e1zquez, que assumiu em 2005, lan\u00e7ou o programa Projoven, vinculado ao Minist\u00e9rio de Desenvolvimento Social, criado pela atual administra\u00e7\u00e3o, que implementa a\u00e7\u00f5es de capacita\u00e7\u00e3o para a inser\u00e7\u00e3o trabalhista com enfoque de compet\u00eancias e perspectiva de g\u00eanero. O objetivo \u00e9 capacitar os jovens para sua inser\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho e na educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEm todos os casos se trabalha a partir de uma forte articula\u00e7\u00e3o com o mercado de trabalho, com o principio de dupla pertin\u00eancia, atrav\u00e9s do qual s\u00e3o articuladas as demandas das empresas e se atende as necessidades das pessoas que se capacitam\u201d, disse em um documento entregue \u00e0 IPS o diretor da \u00c1rea de Programas do Instituto Nacional da Juventude, Ricardo Amor\u00edn. Apesar deste programa, a porcentagem, de jovens que trabalham caiu entre 2005 e 2006 de 55% para 52%. Esses n\u00fameros s\u00e3o maiores nas \u00e1reas mais vulner\u00e1veis, entre os pobres e as mulheres do interior do pa\u00eds.<\/p>\n<p>No M\u00e9xico a situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 complexa, com tr\u00eas em cada 10 jovens entre 20 e 29 anos desempregados e um em cada quatro tamb\u00e9m sem estudar, segundo a Pesquisa Nacional de Ocupa\u00e7\u00e3o e Emprego 2006. O presidente Felipe Calder\u00f3n se comprometeu a criar entre um e 1,2 milh\u00e3o de empregos por ano, quantidade de postos de trabalho necess\u00e1ria para atender a chegada de jovens ao mercado de trabalho. Para isso lan\u00e7ou, entre outras medidas, o Programa de Primeiro Emprego, que consiste em subsidiar em at\u00e9 12 meses o total da contribui\u00e7\u00e3o patronal para o Seguro Social para quem der o primeiro emprego a uma pessoa. At\u00e9 novembro, apenas 12 mil novos postos de trabalho foram criados por este plano, isto \u00e9, quase nada.<\/p>\n<p>O economista Abraham Apar\u00edcio, da Universidade Nacional Aut\u00f4noma do M\u00e9xico, disse \u00e0 IPS que esta situa\u00e7\u00e3o provoca direta e indiretamente a eros\u00e3o do capital humano e mant\u00e9m a pobreza e a brecha entre ricos e pobres. Tamb\u00e9m incentiva a economia informal, o que tem impacto na arrecada\u00e7\u00e3o do Estado. Outra conseq\u00fc\u00eancia \u00e9 o aumento da criminalidade. Apar\u00edcio citou como \u201cv\u00e1lvulas de escape\u201d o emprego na economia informal, que concentra cerca de 17 milh\u00f5es de pessoas, e a emigra\u00e7\u00e3o, considerando que cerca de 500 mil mexicanos deixam o pa\u00eds a cada ano para irem morar nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Na capital mexicana, com nove milh\u00f5es de habitantes e onde governo o esquerdista Partido da Revolu\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica desde 1997, s\u00e3o implementados programas de apoio a jovens. Um deles criou a figura do tutor social por bairro (onde h\u00e1 mais desemprego e viol\u00eancia juvenil). O tutor, cuja tarefa \u00e9 financiada pelo munic\u00edpio, cuida de atrair grupos de jovens para diversas atividades comunit\u00e1rias, esportivas e culturais. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 07\/01\/2008 &ndash; Sete milh\u00f5es de brasileiros e quase 800 mil argentinos engrossam um verdadeiro ex\u00e9rcito de jovens latino-americanos sem trabalho e fora do sistema educacional, que amea\u00e7am reproduzir a pobreza se n\u00e3o forem tomadas medidas contundentes para reinclu\u00ed-los, alertam especialistas. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/01\/america-latina\/desafios-2008-america-latina-jovens-a-margem-da-sociedade\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":75,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,12,5],"tags":[],"class_list":["post-3557","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-desenvolvimento","category-economia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3557","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/75"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3557"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3557\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3557"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3557"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3557"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}