{"id":3578,"date":"2008-01-16T17:39:29","date_gmt":"2008-01-16T17:39:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=3578"},"modified":"2008-01-16T17:39:29","modified_gmt":"2008-01-16T17:39:29","slug":"ruanda-o-genocidio-nao-deixa-de-fazer-vitimas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/01\/africa\/ruanda-o-genocidio-nao-deixa-de-fazer-vitimas\/","title":{"rendered":"RUANDA: O genoc\u00eddio n\u00e3o deixa de fazer v\u00edtimas"},"content":{"rendered":"<p>Kigali, 16\/01\/2008 &ndash; O que Gilbert Nshimyumukiza lembra do genoc\u00eddio de Ruanda \u00e9 que come\u00e7ou a chover enquanto ele e seus irm\u00e3os tentavam levar para dentro de casa o pai ferido. <!--more--> O terreno estava escorregadio pelo barro e o homem era muito pesado. Depois o cobriram com um len\u00e7ol e esperaram que morresse. \u201cA chuva ca\u00eda. Sentei e comecei a chorar. Era muito jovem. Mas ningu\u00e9m apareceu\u201d, contou. Milhares de crian\u00e7as e adolescentes ruandenses se viram em situa\u00e7\u00e3o id\u00eantica \u00e0 de Nshimyumukiza. \u00d3rf\u00e3os, sem pa\u00eds que os aconselhassem, muitos nem mesmo pensaram o que significaria para seu futuro abandonar a escola.<\/p>\n<p>Nshimyumukiza tinha 9 anos durante os cem dias de 1994 durante os quais cerca de 800 mil membros das etnias tutsi e hutu moderados foram massacrados pelas mil\u00edcias conhecidas como \u201cinterahamwe\u201d, e inclusive cidad\u00e3os comuns, empurrados \u00e0 matan\u00e7a pelo regime hutu de linha dura. Agora ele tem 21 anos e est\u00e1 desempregado. Tampouco estuda. Admite que suas perspectivas de futuro s\u00e3o desanimadoras. N\u00e3o se trata apenas dos problemas f\u00edsicos ou psicol\u00f3gicos, mas de seu baixo n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o formal. \u201cO governo admite na universidade os que se graduaram na escola secundaria com m\u00e9dia de pelo menos tr\u00eas pontos. A minha foi 2,8\u201d, disse \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Depois do genoc\u00eddio, Nshimyumukiza tinha dificuldade em se preocupar com as aulas ou prestar aten\u00e7\u00e3o aos professores. \u201cO governo deu aos sobreviventes dinheiro para as despesas escolares. Mas, n\u00e3o t\u00ednhamos comida, roupa, sapatos. Consegui um trabalho, cortando cabelo na rua, e isto me impedia de ir \u00e0 escola, \u00e0s vezes durante mais de uma semana\u201d, recordou.<\/p>\n<p>Noel Munyarwa, aos 10 anos, era um aluno da escola prim\u00e1ria que se destacava tanto em matem\u00e1ticas quanto nas travessuras e sonhava ter, algum dia, um carro. Agora trabalha como empregado dom\u00e9stico, cozinhando e limpando para expatriados, muitos de sua idade, em uma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental de Ruanda. Ganha US$ 40 por m\u00eas, mais alojamento e comida. Quando come\u00e7aram os assassinatos na aldeia, sua fam\u00edlia se refugiou na igreja, onde esperavam estar a salvo. Mas as mil\u00edcias hutu cercaram o templo e jogaram granadas atrav\u00e9s das janelas. \u201cUma matou minha m\u00e3e e duas minhas duas irm\u00e3s\u201d, disse \u00e0 IPS com voz apenas aud\u00edvel, seu rosto transformado em uma m\u00e1scara de dor. \u201cConsegui fugir com minha irm\u00e3 mais nova e acompanhamos outras pessoas par ao Burundi\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Quando retornaram, seis meses depois, ir \u00e0 escola estava fora de quest\u00e3o. O governo apenas oferecia ajuda para as matr\u00edculas, nada mais. \u201cPrecisava de sapatos e l\u00e1pis e comida para depois da aula\u201d, contou. Sua fam\u00edlia adotiva n\u00e3o podia enfrentar esse gasto, por isso Munyarwa come\u00e7ou a vender cigarros e biscoitos na rua, junto com outros \u00f3rf\u00e3os. Mais tarde encontraram trabalho em resid\u00eancias, para cozinhar, lavar pratos e fazer a limpeza geral.<\/p>\n<p>Emmanuel Ngabanziza sempre desejou \u201cse comportar mal\u201d na escola prim\u00e1ria, mas, apanhava de seu pai se n\u00e3o estivesse entre os primeiros da classe. Quando come\u00e7ou a matan\u00e7a, sua m\u00e3e e seu pai foram fuzilados diante dele, que fugiu junto com seus seis irm\u00e3os e irm\u00e3s. Quatro deles foram metralhados. Ngabanziz e duas irm\u00e3s conseguiram chegar ao Burundi com outras pessoas de sua aldeia. \u201c\u00c9ramos mais de 150 fugindo atrav\u00e9s dos campos. Mas as mil\u00edcias tamb\u00e9m estavam ali, com fac\u00f5es. Creio que 50 chegaram. Os outros foram assassinados\u201d, disse \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s quatro meses em um acampamento de refugiados na fronteira com Burundi, regressou a Ruanda, e \u00e0 escola, mas n\u00e3o foi bem. \u201cMe sentia miser\u00e1vel. Estava muito triste. Ningu\u00e9m cuidada de mim. Sentia que estivera longe da escola por muito tempo\u201d, contou.<\/p>\n<p>Alguns jovens ruandeses que conseguiram sobreviver ao genoc\u00eddio conseguir continuar suas vidas em melhores condi\u00e7\u00f5es. Serge Rwigamba, de 26 anos, considera que sua vida consta de tr\u00eas fases: a despreocupada antes do genoc\u00eddio, a terr\u00edvel durante a matan\u00e7a e a atual, a das seq\u00fcelas. Quando estava na escola prim\u00e1ria n\u00e3o pensava em sua origem \u00e9tnica. Uma vez, quando um professor pediu que os alunos hutu ficassem de p\u00e9, ele tamb\u00e9m se levantou. Eram os melhores jogadores de futebol do col\u00e9gio e os admirava. Somente quando o professor, um hutu, lhe ordenou rispidamente que se sentasse foi que tomou consci\u00eancia de que \u00e9 era um tutsi.<\/p>\n<p>Durante o genoc\u00eddio, Rwigambam, que tinha 13 anos, ficou escondido na igreja cat\u00f3lica Sagrada Fam\u00edlia de Kigali, enquanto outros tutsis eram arrastados para fora dela para serem mortos a tiros ou com fac\u00f5es pelas mil\u00edcias. Escapou da morte cobrindo o rosto com p\u00f3 para passar por menina. Seu pai e seu irm\u00e3o n\u00e3o tiveram essa sorte. Agora, estuda na Universidade Livre de Kigali e trabalha como guia no Museu do Genoc\u00eddio da capital, mas ainda luta com lembran\u00e7as aterradoras. \u201cMeu pai e meu irm\u00e3o est\u00e3o enterrados aqui, em algum lugar\u201d, disse, enquanto percorria seu local de trabalho, onde 258 mil v\u00edtimas est\u00e3o enterradas em 14 fossas comuns. \u201cTenho sorte. Posso visit\u00e1-los todos os dias\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Como a maioria dos ruandeses jovens, Rwigambam \u00e9 muito mais reticente que seus compatriotas mais velhos quando perguntado se est\u00e1 disposto a perdoar os respons\u00e1veis pelo genoc\u00eddio. \u201cSomos apenas humanos, n\u00e3o somos anjos. Quando nos dizem para perdoarmos, nos pedem para agir como se n\u00e3o f\u00f4ssemos humanos\u201d, afirmou. \u00c9 mais afortunado do que muitos sobreviventes. Sua m\u00e3e consegui escapar e depois voltou ao seu trabalho na Cruz Vermelha. Agora est\u00e1 aposentada e n\u00e3o pode pagar o custo de sua educa\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria, mas o emprego no museu lhe rende US$ 240 mensais, suficientes para seus gastos.<\/p>\n<p>Rwigamba admite que teve sorte e se identifica com os demais sobreviventes, mas, acredita que devem ser respons\u00e1veis por si mesmos. \u201c\u00c9 preciso incentiv\u00e1-los a realizar pequenos trabalhos, precisam tomar a iniciativa\u201d, afirmou. Muitos lhe respondem que \u00e9 mais f\u00e1cil dizer do que fazer e ressaltam que est\u00e3o sem rumo e sem guia. \u201cTomara minha vida fosse diferente, mas n\u00e3o sei a que lugar perten\u00e7o\u201d, disse Munyarwa. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Kigali, 16\/01\/2008 &ndash; O que Gilbert Nshimyumukiza lembra do genoc\u00eddio de Ruanda \u00e9 que come\u00e7ou a chover enquanto ele e seus irm\u00e3os tentavam levar para dentro de casa o pai ferido. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/01\/africa\/ruanda-o-genocidio-nao-deixa-de-fazer-vitimas\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1608,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,6,11],"tags":[],"class_list":["post-3578","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa","category-direitos-humanos","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3578","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1608"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3578"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3578\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3578"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3578"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3578"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}