{"id":364,"date":"2005-03-02T00:00:00","date_gmt":"2005-03-02T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=364"},"modified":"2005-03-02T00:00:00","modified_gmt":"2005-03-02T00:00:00","slug":"entrevista-com-baltasar-garzon-o-crculo-contra-a-impunidade-est-se-fechando","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/03\/mundo\/entrevista-com-baltasar-garzon-o-crculo-contra-a-impunidade-est-se-fechando\/","title":{"rendered":"Entrevista com Baltasar Garzon: &quot;O c&iacute;rculo contra a impunidade est&aacute; se fechando&quot;"},"content":{"rendered":"<p>Madri, 02\/03\/2005 &ndash; Todo ataque ou agress&atilde;o contra a popula&ccedil;&atilde;o civil &eacute; um crime de terrorismo, sejam os realizados por grupos civis, rebeldes, terroristas ou ex&eacute;rcito regulares, afirma o juiz espanhol Baltasar Garz&oacute;n, conhecido internacionalmente pelo processo que moveu contra o ex-ditador chileno General Augusto Pinochet (Londres, 1998). Tamb&eacute;m se destacou no processo de funcion&aacute;rios socialistas pela &quot;guerra suja&quot; (1983-1986), contra narcotraficantes internacionais e estrangeiros e contra o grupo terrorista ETA e suas ramifica&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas e jornal&iacute;sticas. Lutador em favor dos direitos humanos, aos 49 anos, Garz&oacute;n acaba de apresentar seu livro Um mundo sem medo, &agrave;s v&eacute;speras de viajar aos Estados Unidos onde ficar&aacute; at&eacute; o final deste ano dando cursos sobre justi&ccedil;a penal.<br \/> <!--more--> <br \/> P- Por que o senhor trata do medo em seu livro?<br \/> R- Falo que devemos conseguir um mundo sem medo, num sentido positivo. Porque &eacute; atrav&eacute;s do direito que devemos enfrentar a solu&ccedil;&atilde;o dos conflitos, sejam quais forem, e n&atilde;o tanto atrav&eacute;s da raz&atilde;o, da for&ccedil;a.<\/p>\n<p> P- Sem nunca apelar para a for&ccedil;a?<br \/> R- Nunca n&atilde;o, mas sempre tendo presente que mesmo quando esta &eacute; necess&aacute;ria deve ser aplicada agindo dentro das margens do direito internacional, que &eacute; comum a todos os povos e &eacute; a norma que deve nos guiar em qualquer tipo de a&ccedil;&atilde;o, seja jur&iacute;dica, pol&iacute;tica ou militar.<\/p>\n<p> P- O senhor acredita que ser&aacute; poss&iacute;vel eliminar o medo?<br \/> R- O medo acompanhar&aacute; normalmente o ser humano, mas deveria ficar limitado &agrave; intimidade de cada um para lidar com seus pr&oacute;prios fantasmas.<\/p>\n<p> P- Mas ent&atilde;o porque o senhor fala em acabar com o medo?<br \/> R- Me refiro ao medo imposto pelo poder, que j&aacute; n&atilde;o deveria existir, mas continua existindo, que n&atilde;o coaduna sua perman&ecirc;ncia &agrave; indiferen&ccedil;a das pessoas. &Eacute; necess&aacute;ria uma a&ccedil;&atilde;o plural para que o medo das organiza&ccedil;&otilde;es criminosas desapare&ccedil;a e que a partir das institui&ccedil;&otilde;es sejamos capazes de oferecer uma resposta positiva &agrave;s v&iacute;timas e aos cidad&atilde;os em geral.<\/p>\n<p> P- Desde que a seu pedido foi aberto um processo contra Augusto Pinochet, houve avan&ccedil;o no direito internacional penal?<br \/> R- Sem d&uacute;vida a justi&ccedil;a internacional seguiu seu curso, na Europa e na Am&eacute;rica Latina. Esse julgamento de 1998 representou um impulso que hoje em dia continua e &eacute; bom que seja assim, porque se reduz o espa&ccedil;o que a impunidade tem em casos t&atilde;o graves como os crimes contra a humanidade.<\/p>\n<p> P- &Eacute; um avan&ccedil;o efetivo a cria&ccedil;&atilde;o do Tribunal Penal Internacional?<br \/> R- Sim, embora ainda esteja em seus primeiros momentos. O importante &eacute; que est&atilde;o sendo desenvolvidas a&ccedil;&otilde;es com o objetivo de fechar o c&iacute;rculo contra a impunidade nos pa&iacute;ses que sofrem esse tipo de fatos e que o princ&iacute;pio da justi&ccedil;a internacional se afirme em cada um deles. Esta a&ccedil;&atilde;o deve se basear na vontade de que os crimes de lesa humanidade n&atilde;o prescrevam e que sejam processados em toda sua extens&atilde;o, sem obst&aacute;culos tempor&aacute;rios, como parece que est&aacute; ocorrendo no Chile em rela&ccedil;&atilde;o aos processos abertos contra a viola&ccedil;&atilde;o dos direitos humanos.<\/p>\n<p> P- O que o senhor pensa das torturas e viola&ccedil;&otilde;es dos direitos humanos denunciados contra os Estados Unidos em raz&atilde;o do que ocorre na base de Guant&acirc;namo, localizada em Cuba?<br \/> R- Nos Estados Unidos est&aacute; em vigor a Patriot Act, uma lei que permite a deten&ccedil;&atilde;o indefinida de inimigos, sejam combatentes ou n&atilde;o-combatentes. Do meu ponto de vista, &eacute; uma flagrante viola&ccedil;&atilde;o dos direitos fundamentais das pessoas e assim est&aacute; se estabelecendo nesse pa&iacute;s por sua pr&oacute;pria Suprema Corte e recentemente por alguns tribunais federais. Isso evidencia que a viola&ccedil;&atilde;o dos direitos n&atilde;o pode subsistir e que os presos de Guant&acirc;namo, como qualquer outra pessoa submetida &agrave; jurisdi&ccedil;&atilde;o norte-americana, devem ter o conjunto de direitos que exige a lei para que possam ter um julgamento justo.<\/p>\n<p> P- Ent&atilde;o o senhor &eacute; otimista sobre o futuro dos direitos humanos nos Estados Unidos?<br \/> R- Espero e desejo que evolua nesse sentido, porque a atual situa&ccedil;&atilde;o &eacute; insustent&aacute;vel,uma esp&eacute;cie de c&iacute;rculo fechado que rapidamente deve abrir-se. A &uacute;nica forma de faz&ecirc;-lo &eacute; judicializando os casos perante a Justi&ccedil;a comum, que de fato j&aacute; est&aacute; tomando essa iniciativa questionando os tribunais administrativos, algo que a pr&oacute;pria Patriot Act e seu desenvolvimento prev&ecirc;em.<\/p>\n<p> P- Na XIII C&uacute;pula Iberoamericana (Santa Cruz de la Sierra, Bol&iacute;via, 2003) o ex-presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso prop&ocirc;s o desenvolvimento e a harmoniza&ccedil;&atilde;o das legisla&ccedil;&otilde;es nacionais em setores estrat&eacute;gicos da &aacute;rea econ&ocirc;mica. O senhor acredita que o mesmo deveria ser feito em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s quest&otilde;es penais?<br \/> R- Sem d&uacute;vida alguma. Cada vez &eacute; mais evidente que em um mundo globalizado, n&atilde;o apenas no campo econ&ocirc;mico, mas tamb&eacute;m no pol&iacute;tico, especialmente nos pa&iacute;ses que fazem parte de um mesmo contexto cultural, jur&iacute;dico e pol&iacute;tico democr&aacute;tico, se deve afirmar a coordena&ccedil;&atilde;o no &acirc;mbito da justi&ccedil;a e da liberdade, com est&aacute; sendo feito na Uni&atilde;o Europ&eacute;ia.<\/p>\n<p> P- Quando se deve falar de terrorismo e quando de guerrilha ou insurrei&ccedil;&atilde;o?<br \/> R- A doutrina &eacute; perfeitamente clara sobre o que &eacute; guerrilha, insurg&ecirc;ncia e terrorismo. Quando a a&ccedil;&atilde;o de uma organiza&ccedil;&atilde;o vai contra a popula&ccedil;&atilde;o civil, n&atilde;o-combatente, afirme-se o que se afirmar, sua atividade &eacute; claramente terrorista porque afeta os pr&oacute;prios direitos da humanidade. A popula&ccedil;&atilde;o civil em nenhum caso pode ser agredida e quem o faz comete crime contra a humanidade. A insurg&ecirc;ncia guerrilheira exige um confronto entre ex&eacute;rcitos regulares ou n&atilde;o-regulares. Mas a a&ccedil;&atilde;o contra uma popula&ccedil;&atilde;o civil nunca pode ser legitimada, sejam que for que a pratique e seja qual for a justificativa que se apresente.<\/p>\n<p> P- Mesmo no caso de um ex&eacute;rcito regular que bombardeia, como ocorre na Palestina ou no Iraque?<br \/> R- O que digo &eacute; que a popula&ccedil;&atilde;o civil est&aacute; nas conven&ccedil;&otilde;es de Genebra sobre a guerra e no Estatuto do Tribunal Penal Internacional. Isso &eacute; v&aacute;lido para qualquer pessoa ou entidade que integre ou desenvolve a&ccedil;&otilde;es criminosas contra a popula&ccedil;&atilde;o civil.<\/p>\n<p> P- Para combater o terrorismo faz falta alguma organiza&ccedil;&atilde;o internacional ou basta a coordena&ccedil;&atilde;o entre os Estados?<br \/> R- O necess&aacute;rio &eacute; uma eficaz coordena&ccedil;&atilde;o e coopera&ccedil;&atilde;o, uma legisla&ccedil;&atilde;o que defina de forma uniforme, ou muito aproximada, os conceitos e o fen&ocirc;meno em si e outorgue especificamente um papel dirigente no &acirc;mbito pol&iacute;tico, diplom&aacute;tico e de instrumenta&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas,que deve ter um papel como garantidor do cumprimento do Direito Internacional. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Madri, 02\/03\/2005 &ndash; Todo ataque ou agress&atilde;o contra a popula&ccedil;&atilde;o civil &eacute; um crime de terrorismo, sejam os realizados por grupos civis, rebeldes, terroristas ou ex&eacute;rcito regulares, afirma o juiz espanhol Baltasar Garz&oacute;n, conhecido internacionalmente pelo processo que moveu contra o ex-ditador chileno General Augusto Pinochet (Londres, 1998). Tamb&eacute;m se destacou no processo de funcion&aacute;rios socialistas pela &quot;guerra suja&quot; (1983-1986), contra narcotraficantes internacionais e estrangeiros e contra o grupo terrorista ETA e suas ramifica&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas e jornal&iacute;sticas. Lutador em favor dos direitos humanos, aos 49 anos, Garz&oacute;n acaba de apresentar seu livro Um mundo sem medo, &agrave;s v&eacute;speras de viajar aos Estados Unidos onde ficar&aacute; at&eacute; o final deste ano dando cursos sobre justi&ccedil;a penal.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/03\/mundo\/entrevista-com-baltasar-garzon-o-crculo-contra-a-impunidade-est-se-fechando\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":205,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-364","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/364","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/205"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=364"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/364\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=364"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=364"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=364"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}