{"id":3641,"date":"2008-02-12T18:27:20","date_gmt":"2008-02-12T18:27:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=3641"},"modified":"2008-02-12T18:27:20","modified_gmt":"2008-02-12T18:27:20","slug":"direitos-humanos-genocidio-avanca-em-terras-guaranis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/02\/america-latina\/direitos-humanos-genocidio-avanca-em-terras-guaranis\/","title":{"rendered":"Direitos Humanos: Genoc\u00eddio avan\u00e7a em terras guaranis"},"content":{"rendered":"<p>Dourados, 12\/02\/2008 &ndash; Valdelice Ver\u00f3n lamenta at\u00e9 agora n\u00e3o ter acompanhado seu pai, mas ele lhe ordenou que fosse \u00e0 cidade. Pela manh\u00e3, naquele domingo 12 de janeiro de 2003, sua filha alertou: \u201cM\u00e3e, olha o vov\u00f4 na televis\u00e3o\u201d. Era a not\u00edcia de que seu pai estava gravemente ferido em um hospital. <!--more--> Brutalmente golpeado, Marcos Ver\u00f3n morreu no dia seguinte no hospital de Dourados, no Mato Grosso do Sul. Seu sobrinho sobreviveu com um tiro na perna. Os acusados da agress\u00e3o respondem ao processo em liberdade.<\/p>\n<p>Marcos, de 70 anos, liderou nessa ocasi\u00e3o a segunda tentativa de recuperar uma \u00e1rea que considerava terra guarani, porque ali viveram seus antepassados e sua tia foi \u201cqueimada viva m 1953\u201d. Em 2001, seu grupo tampouco conseguira manter-se na fazenda, no munic\u00edpio de Juti, mas o l\u00edder n\u00e3o suportou ver sua gente acampada \u00e0s margens da estrada com \u201cdesnutri\u00e7\u00e3o e \u00e1gua suja\u201d e encabe\u00e7ou a nova \u201cretomada\u201d, lembra sua filha.<\/p>\n<p>Nessas terras localizadas no sul do Estado, na fronteira com o Paraguai, tamb\u00e9m no ano passado foram mortos a tiros Julite Lopes, de 74 anos, e Ortiz Lopes, durante tr\u00eas tentativas de recuperar a terra que os guaranis denominam Kurus\u00fa Amb\u00e1. V\u00e1rios ind\u00edgenas foram feridos e outros presos, insolitamente acusados de dispararem contra seus pr\u00f3prios parentes. Estas mortes refletem os numerosos conflitos agr\u00e1rios entre ind\u00edgenas e fazendeiros, embora sejam minoria no total de assassinato de nativos, que aumentaram muito nos \u00faltimos anos. A maioria devido \u00e0 viol\u00eancia interna nas aldeias, especialmente no Mato Grosso do Sul.<\/p>\n<p>Dos 81 ind\u00edgenas brasileiros mortos no ano passado, segundo o Conselho Indigenista Mission\u00e1rio e ainda sob revis\u00e3o, 53 eram desse Estado, onde as etnias aut\u00f3ctones somam uma popula\u00e7\u00e3o estimada em 65 mil pessoas, a maioria guaranis. Em 2006, foram 48 nativos mortos, sendo 20 guaranis.<\/p>\n<p>A morte cotidiana<\/p>\n<p>Diante desta dram\u00e1tica realidade, a se\u00e7\u00e3o estadual da Ordem dos Advogados do Brasil promoveu a campanha \u201cRespeite o ind\u00edgena, genoc\u00eddio n\u00e3o\u201d. \u201cTemos uma posi\u00e7\u00e3o: estamos ao lado dos ind\u00edgenas\u201d, afirmou seu presidente, F\u00e1bio Trad. Ao lan\u00e7ar a campanha no dia 18 de janeiro em Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul. N\u00e3o \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o consensual, porque h\u00e1 mais advogados defendendo fazendeiros do que ind\u00edgenas nos conflitos que se intensificaram nas duas ultimas d\u00e9cadas, diante das retomadas nas disputas por terras e em casos criminosos.<\/p>\n<p>O n\u00famero de mortos se acentua no Parque Ind\u00edgena de Dourados, uma \u00e1rea de 3.561 hectares espremida entre a cidade de Dourados e extensas planta\u00e7\u00f5es de soja. Ali vivem cerca de 12 mil ind\u00edgenas, a maioria guaranis do grupo kaiwo\u00e1. Em 2007, foram assassinados pelo menos 21, um \u00edndice de 175 para cada cem mil habitantes, sete vezes superior \u00e0 m\u00e9dia nacional.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, nesse lugar se registram mais suic\u00eddios de adolescentes do que em outras zonas do Pa\u00eds, uma trag\u00e9dia que atrai especial aten\u00e7\u00e3o desde o come\u00e7o da d\u00e9cada passada. Nos \u00faltimos anos tamb\u00e9m houve crise de desnutri\u00e7\u00e3o com muitas mortes de crian\u00e7as e a morte se tornou cotidiana. S\u00e3o \u201cind\u00edgenas matando ind\u00edgenas\u201d, grande parte com fac\u00f5es, usados na colheita da cana. V\u00edtimas e autores s\u00e3o majoritariamente jovens. A raz\u00e3o de tanta viol\u00eancia \u00e9 a terra limitada \u2013 0,3 hectares por pessoa \u2013 que configura um confinamento, segundo os antrop\u00f3logos.<\/p>\n<p>\u201cOs ind\u00edgenas n\u00e3o est\u00e3o preparados para t\u00e3o pouca terra\u201d, disse \u00e0 IPS Anast\u00e1cio Peralta, coordenador de Pol\u00edticas P\u00fablicas na Quest\u00e3o Ind\u00edgena da Prefeitura de Dourados. H\u00e1 muitos outros fatores que geram viol\u00eancia, entre eles \u201co \u00e1lcool, as drogas, a prostitui\u00e7\u00e3o\u201d, al\u00e9m da perda da cultura tradicional por parte dos jovens e muita influ\u00eancia externa, especialmente pela televis\u00e3o, acrescentou Peralta, um kaiwo\u00e1 que andou \u201cdesmatando\u201d em fazendas e trabalhou no transporte de cargas e na ind\u00fastria madeireira, antes de voltar, em 1994, a \u201cconvite de parentes\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO problema \u00e9 a bebida e agora come\u00e7a a entrar a droga; sem essas coisas o ind\u00edgena n\u00e3o briga\u201d, resume Renato Souza, o \u201ccapit\u00e3o\u201d da aldeia Jaguapiru, que compartilha o Parque Ind\u00edgena de Dourados com a aldeia Bororo. \u201cCapit\u00e3o\u201d \u00e9 um cargo criado pelo \u00f3rg\u00e3o indigenista oficial para regulamentar as rela\u00e7\u00f5es de cada aldeia com a sociedade vizinha, especialmente com o governo, embora ultimamente tenha perdido autoridade e reconhecimento. \u201cMas a comunidade me reconhece\u201d, afirmou Souza, eleito por sua aldeia.<\/p>\n<p>Os suic\u00eddios de devem \u00e0 \u201cfalta de terra e de trabalho\u201d, mas tamb\u00e9m ao \u201cabandono da cultura tradicional\u201d, disse Jorge da Silva, \u201crezador\u201d (l\u00edder religioso) que construiu uma grande casa de reza onde recebe sua gente para batismo de crian\u00e7as, do milho e da terra, com utens\u00edlios t\u00edpicos. \u201cResgatar a cultura guarani\u201d \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o para que as crian\u00e7as \u201cn\u00e3o sigam outro caminho\u201d equivocado, porque al\u00e9m do mais as aldeias foram invadidas por \u201cigrejas de fora\u201d, disse referindo-se \u00e0s religi\u00f5es pentecostais de forte atua\u00e7\u00e3o em Dourados e em outras terras ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia dentro das aldeias \u00e9 \u201co problema mais grave\u201d entre os guaranis, disse Antonio Brand, historiador professor da Universidade Cat\u00f3lica Don Bosco dedicado a investigar e promover a educa\u00e7\u00e3o indigna. A fome se soluciona com a distribui\u00e7\u00e3o de alimentos, como est\u00e1 se fazendo com as cestas b\u00e1sicas do governo. Mas a viol\u00eancia que afeta a organiza\u00e7\u00e3o interna complexa das aldeias leva a um \u201cbeco sem sa\u00edda\u201d, ao incrementar tens\u00e3o e desejos de vingan\u00e7a diante de cada morte, explicou. \u2018A causa original \u00e9 o confinamento\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Como deixam de lado seus l\u00edderes e recorrem \u00e0 pol\u00edcia, atualmente h\u00e1 \u201cuma quantidade impressionante de ind\u00edgenas presos\u201d, destacou Brand, apontando outro tipo de viol\u00eancia que sofrem os guaranis, especialmente os do grupo kaiwo\u00e1.<\/p>\n<p>Discrimina\u00e7\u00e3o e c\u00e1rcere<\/p>\n<p>No Mato Grosso do Sul h\u00e1 \u201cquase 500 ind\u00edgenas presos\u201d, disse \u00e0 IPS Wilton Matos, que vive na aldeia Jaguapiru. Filho de \u201cpai guarani e m\u00e3e terena\u201d, dirige a Comiss\u00e3o de Assuntos Ind\u00edgenas criada pela OAB desse Estado para cuidar dos direitos nativos na \u00e1rea judicial e nas pris\u00f5es. \u201cA viol\u00eancia interna nas aldeias se deve ao desespero e ao protesto\u201d, disse. Os ind\u00edgenas s\u00e3o presos por discrimina\u00e7\u00e3o e muitos s\u00e3o acusados de estupro, porque \u00e9 mais f\u00e1cil culp\u00e1-los de um \u201ccrime sem testemunha\u201d. Quando falha, s\u00e3o acusados de \u201catentado violento ao pudor\u2019, menos grave, mas castigado com a mesma pena, acrescentou.<\/p>\n<p>Muitas vezes se transformam em r\u00e9us confessos porque \u201cquando n\u00e3o compreende uma pergunta os kaiwo\u00e1 a respondem afirmativamente\u201d, situa\u00e7\u00e3o comum para a maioria que usa quase que exclusivamente sua l\u00edngua e conhece pouco ou nada do portugu\u00eas, acrescentou. Depois de falar \u00e0 IPS, Matos teve de socorrer um kaiwo\u00e1 preso pelo roubo de um cavalo. Denunciado por um branco, ao ser interrogado pela pol\u00edcia deu vers\u00f5es confusas sobre a origem do cavalo. O delegado ent\u00e3o entregou o animal ao acusador em cust\u00f3dia tempor\u00e1ria.<\/p>\n<p>Na noite, o ind\u00edgena foi \u00e0 casa do branco, levou o cavalo e acabou preso. Matos discutiu com o delegado por n\u00e3o ter explicado o significado de \u201ccust\u00f3dia\u201d, \u00e0 qual o acusado tinha direito e este interpretou a decis\u00e3o como definitiva e simplesmente tratou de recuperar o que considerava legitimamente seu. Ap\u00f3s esclarecer o conceito provis\u00f3rio de cust\u00f3dia com o ind\u00edgena, o advogado conseguiu sua liberdade. As pris\u00f5es arbirtr\u00e1rias e a viola\u00e7\u00e3o dos direitos ind\u00edgenas ao confin\u00e1-los com os demais presos s\u00e3o comuns no estado, segundo matos, cuja vida exemplifica as dificuldads de seu povo.<\/p>\n<p>Cortador de cana desde os 13 anos, foi alco\u00f3latra durante 14 anos e deixou o v\u00edcio h\u00e1 apenas quatro. P\u00f4de concluir o ensino b\u00e1sico e entrar na universidade apenas depois de se converter em apresentador de r\u00e1dio com excelente audi\u00eancia em Dourados, aos 37 anos, 10 anos atr\u00e1s. S\u00e3o poucos os advogados ind\u00edgenas e menos ainda os que se dedicam \u00e0 causa de seu povo, lamentou. Mas a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 mudando. Dos 500 estudantes universit\u00e1rios abor\u00edgens no mato Grosso do Sul, estima-se que 180 estudam Direito, boa parte interessada em defender os direitos de seus parentes. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dourados, 12\/02\/2008 &ndash; Valdelice Ver\u00f3n lamenta at\u00e9 agora n\u00e3o ter acompanhado seu pai, mas ele lhe ordenou que fosse \u00e0 cidade. Pela manh\u00e3, naquele domingo 12 de janeiro de 2003, sua filha alertou: \u201cM\u00e3e, olha o vov\u00f4 na televis\u00e3o\u201d. 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