{"id":3655,"date":"2008-02-20T17:08:39","date_gmt":"2008-02-20T17:08:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=3655"},"modified":"2008-02-20T17:08:39","modified_gmt":"2008-02-20T17:08:39","slug":"politica-fidel-castro-o-homem-de-tres-seculos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/02\/politica\/politica-fidel-castro-o-homem-de-tres-seculos\/","title":{"rendered":"Politica: Fidel Castro, o homem de tr\u00eas s\u00e9culos"},"content":{"rendered":"<p>Santiago, 20\/02\/2008 &ndash; Ao seu modo, Fidel Castro foi o continuador da gest\u00e3o da independ\u00eancia cubana do final do s\u00e9culo XIX, gravou sua marca no s\u00e9culo XX como l\u00edder da primeira revolu\u00e7\u00e3o socialista da Am\u00e9rica Latina e deixa o poder em princ\u00edpios do s\u00e9culo XXI, levando no alto as desgastadas bandeiras da utopia comunista. <!--more--> Talvez nenhum outro personagem hist\u00f3rico seja t\u00e3o dif\u00edcil de inserir em categorias pr\u00e9-concebidas. Na hora de sua ren\u00fancia e em meio \u00e0 incerteza pelo futuro de Cuba, permanece como um excepcional homem de seu tempo, um tempo que ele mesmo prolongou com um protagonismo de mais de cinco d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia completado 27 anos quando em 26 de julho de 1953 liderou o ataque ao quartel Moncada. Uma derrota militar em toda linha, pre\u00e2mbulo de seu transcendental argumento \u201cA hist\u00f3ria me absolver\u00e1\u201d, de outubro desse mesmo ano, na fase final do julgamento em que foi condenado \u00e0 pris\u00e3o, na qual permaneceu 22 meses antes de partir em ex\u00edlio para o M\u00e9xico. Nesse texto, o jovem advogado, que se formara em 1950 na Faculdade de Leis da Universidade de Havana, invocou o poeta e pr\u00f3cer independentista Jos\u00e9 Mart\u00ed como seu mentor e \u201cautor intelectual\u201d da tentativa de rebeli\u00e3o contra a ditadura de Fulgencio Batista (1952-1959).<\/p>\n<p>\u201cCuba, primeiro territ\u00f3rio livre da Am\u00e9rica\u201d. A frase que sempre esteve presente nos discursos revolucion\u00e1rios dos anos 60 resumia o tr\u00e2nsito da \u00faltima col\u00f4nia da Espanha na Am\u00e9rica Latina, que entrou no s\u00e9culo XX como a ponta-de-lan\u00e7a do dom\u00ednio norte-americano no Caribe at\u00e9 que o ex\u00e9rcito rebelde conduzido por Castro tomou o poder em 1959. \u201cTransformar os reveses em vit\u00f3rias\u201d \u00e9 outra frase que demonstra a vontade, o empenho e, ao mesmo tempo, o g\u00eanio estrat\u00e9gico de Fidel, que com os escassos sobreviventes do desembarque do Granma, em abril de 1956, entre eles o argentino Ernesto \u201cChe\u201d Guevara, construiu a for\u00e7a guerrilheira que em tr\u00eas anos derrubou o ditador.<\/p>\n<p>O jornalista norte-americano Robert Taber, um dos primeiros que subiu at\u00e9 Serra Maestra em 1957 para entrevistar em plena campanha, adotaria a rebeli\u00e3o cubana como prot\u00f3tipo da \u201cguerra da pulga\u201d, um antol\u00f3gico tratado sobre as experi\u00eancias guerrilheiras que publicaria em 1965. A analogia das for\u00e7as irregulares com pequenos destacamentos de pulgas que se alimentam e v\u00e3o se multiplicando enquanto sangram sem pressa e sem pausa o c\u00e3o (ou seja, o Estado), era para Taber um dos maiores ensinamentos do l\u00edder chin\u00eas Mao Zedong (1949-1976), que, por sua vez, invocava Sun Tzu, o milenar mestre da arte da guerra.<\/p>\n<p>A sitematiza\u00e7\u00e3o feita em 1967 pelo intelectual franc\u00eas R\u00e9gis Debray da chamada \u201cteoria do foco\u201d em seu livro \u201cRevolu\u00e7\u00e3o na revolu\u00e7\u00e3o\u201d elevou a vari\u00e1vel cubana da \u201cguerra da pulga\u201d \u00e0 categoria de modelo revolucion\u00e1rio para a tomada do poder no Terceiro Mundo e, em particular, na Am\u00e9rica Latina. O papel de Castro, e em maior medida de Guevara, no debate sobre as estrat\u00e9gias pol\u00edticas, marcou nos anos 60 n\u00e3o apenas a ineg\u00e1vel influ\u00eancia de Cuba nos acontecimentos da regi\u00e3o, mas tamb\u00e9m enquadrou epis\u00f3dios e abriu processos de ajuste no contexto da Guerra Fria.<\/p>\n<p>Em 1961, diante da iminente invas\u00e3o da Ba\u00eda dos Porcos preparada pela Ag\u00eancia Central de Intelig\u00eancia (CIA) com o aval do governo de Jonh F. Kennedy (1961-1963), o governante cubano proclamou o car\u00e1ter marxista da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana que poucos anos antes triunfara com o benepl\u00e1cito de setores dos Estados Unidos. A interven\u00e7\u00e3o nos engenhos de a\u00e7\u00facar e outras medidas nacionalistas do governo cubano foram marcando um distanciamento com Washington que derivou em um franco confronto, decidida em primeira inst\u00e2ncia na derrota, em apenas 72 horas, da invas\u00e3o na Praia Gir\u00f3n.<\/p>\n<p>Mais tarde, em outubro de 1962, viria a \u201ccrise dos m\u00edsseis\u201d, um dos epis\u00f3dios mais tensos da Guerra Fria, que manteve o mundo \u00e0 beira de um confronto direto entre Estados Unidos e Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, evitado na \u00faltima hora por negocia\u00e7\u00f5es entre Kennedy e o l\u00edder sovi\u00e9tico Nikita Kruschov (1958-1964). A pol\u00edtica de coexist\u00eancia pac\u00edfica que acompanhou ent\u00e3o o degelo entre as duas superpot\u00eancias foi mal vista pelos destacamentos de jovens revolucion\u00e1rios latino-americanos, leitores de Debray, como uma consagra\u00e7\u00e3o das zonas de influ\u00eancia no mundo bipolar.<\/p>\n<p>Segundo esse pensamento, os partidos comunistas latino-americanos, dependentes da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e admiradores dos avan\u00e7os eleitorais de seus colegas italianos e franceses, optaram tamb\u00e9m pela sedu\u00e7\u00e3o do voto e deixavam espa\u00e7os para que o \u201cfoquismo\u201d preenchesse o vazio revolucion\u00e1rio. Em 1965, Fidel Castro havia impulsionado a cria\u00e7\u00e3o do Partido Comunista de Cuba, como fus\u00e3o do Movimento 26 de Julho, dos velos comunistas ortodoxos da ilha e dos outros grupos que se juntaram na frente que derrubou Batista. Um partido que, de m\u00e3os dadas com a guerrilha, desafiava Moscou e apostava no terceiromundismo.<\/p>\n<p>Cubas era o David dos povos enfrentando o Golias imperialista que contavam com a subordina\u00e7\u00e3o de quase todos os governos latino-americanos que em 1962 apoiaram a exclus\u00e3o da ilha da Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos (OEA) e se somaram ao embargo pol\u00edtico, econ\u00f4mico e diplom\u00e1tico contra Havana. Vistos \u00e0 dist\u00e2ncia, e com o perfil internacional de Guevara no centro, os anos 60 e 70 foram os de maior irradia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e moral do comandante Castro e da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana entre os jovens latino-americanos, que n\u00e3o no mundo parecia eternizar-se uma guerra fria que acabaria abruptamente em 1989.<\/p>\n<p>Nos primeiros tempos da revolu\u00e7\u00e3o, Castro teve a ades\u00e3o da intelectualidade progressista do mundo, admiradora da desenvoltura das cria\u00e7\u00f5es narrativas, musicais e cinematogr\u00e1ficas cubanas, em uma rela\u00e7\u00e3o que com o passar dos anos derivaria em grandes lealdades, como a de Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, ou em grandes \u00f3dios, como o de Mario Vargas Llosa, para citar apenas dois casos. Desde a multiplica\u00e7\u00e3o e o fracasso das experi\u00eancias \u201cfoquistas\u201d na Am\u00e9rica do Sul no final da d\u00e9cada de 60 ate o triunfo da Revolu\u00e7\u00e3o Sandinista na Nicar\u00e1gua em 1970, Fidel fez de Cuba uma protagonista ativa na arena internacional e nos alinhamentos no campo do socialismo.<\/p>\n<p>Em 1968, o l\u00edder cubano apoiou a interven\u00e7\u00e3o militar da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e outros pa\u00edses do Pacto de Vars\u00f3via que abortaram a \u201cPrimavera de Praga\u201d na Checoslov\u00e1quia, e em 1970 apoiou entusiasticamente a vit\u00f3ria de Salvador Allende no Chile, como demonstra\u00e7\u00e3o de que era poss\u00edvel conquistar o socialismo nas urnas e por via pacifica. Desde 1975, ap\u00f3s o desmembramento do velho imp\u00e9rio colonial portugu\u00eas na \u00c1frica, Cuba se envolveu nas guerras de liberta\u00e7\u00e3o de Mo\u00e7ambique, Guin\u00e9-Bissau e Angola, com o envio de tropas a este \u00faltimo pa\u00eds que combateram junto ao Movimento Popular de Liberta\u00e7\u00e3o de Angola (MPLA), pr\u00f3-sovi\u00e9tico.<\/p>\n<p>Isto fez com que Cuba se distanciasse definitivamente da China, que apoiava a guerrilha da Uni\u00e3o Nacional pela Independ\u00eancia Total de Angola (Unita) e tamb\u00e9m acusava Castro de usar seus soldados como \u201ccarne de canh\u00e3o\u201d para defender interesses estrat\u00e9gicos de Moscou na \u00c1frica. O l\u00edder cubano alegava em seu favor o internacionalismo, um preceito que acompanhou o marxismo desde suas origens, encarnado nas gestas de Guevara na \u00c1frica e na Bol\u00edvia, como tamb\u00e9m na ajuda externa humanit\u00e1ria em educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade que Cuba mant\u00e9m at\u00e9 hoje como uma marca pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Nos 49 anos em que comandou seu pa\u00eds, o comandante-em-chefe, como \u00e9 chamado por seus compatriotas, foi ator de primeira linha em um cen\u00e1rio internacional que evoluiu desde a descoloniza\u00e7\u00e3o posterior \u00e0 Segunda Guerra Mundial e a instala\u00e7\u00e3o e auge da Guerra Fria, at\u00e9 a bancarrota dos regimes socialistas e o in\u00edcio de uma suposta nova era unipolar e globalizada. Tamb\u00e9m foi uma refer\u00eancia das pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es dos projetos revolucion\u00e1rios, como o condutor capaz de lutar, no in\u00edcio dos anos 90, \u201csozinho contra o mundo\u201d desde sua ilha cercada pelo embargo e pela falta de petr\u00f3leo, enquanto seus antigos aliados da Europa oriental abra\u00e7avam o capitalismo.<\/p>\n<p>Essa resist\u00eancia foi vista como her\u00f3ica por uns, e por outros como demonstra\u00e7\u00e3o de tenacidade por um modelo de muito centralismo e pouca democracia, cujos v\u00edcios burocr\u00e1ticos ficaram evidentes na queda sem d\u00f3 da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e demais expoentes do chamado \u201csocialismo real\u201d. A pr\u00f3pria imagem de Fidel come\u00e7ou a se apagar nas simbologias revolucion\u00e1rias, com novas gera\u00e7\u00f5es contestat\u00f3rias, mas ao mesmo tempo iconoclastas, que j\u00e1 n\u00e3o viam nele o vigoroso e quase venerado l\u00edder antiimperialista de antes, mas um velho pat\u00e9tico, aferrado a um poder extremamente personalista.<\/p>\n<p>O endurecimento da repress\u00e3o contra os dissidentes, especialmente em abril de 2003, foi um ponto contra o l\u00edder cubano entre vastos setores humanit\u00e1rios de todo o mundo que condenaram a dicotomia for\u00e7ada dos seguidores de Fidel de que ou se estava a favor do governo de Cuba ou a favor do embargo norte-americano. Uma dicotomia imposta tamb\u00e9m pelo presidente George W. Bush, que em sua proclamada cruzada antiterrorista retomou contra Cuba e a esquerda latino-americana as velhas id\u00e9ias de \u201cdestino manifesto\u201d do final do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Assim, e mesmo sobre o desgaste de seu l\u00edder, a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana pode continuar sendo uma causa defens\u00e1vel diante do af\u00e3 de Washington, enquanto a roda da hist\u00f3ria come\u00e7ava a marcar no inicio do mil\u00eanio outro desgaste mais acelerado: o do modelo neoliberal. E enquanto as receitas do Congresso norte-americno se mostraram incapazes de acabar com a desigualdade e multiplicavam a extrema pobreza na regi\u00e3o, Havana se ufanava de \u00eaxitos na educa\u00e7\u00e3o e na sa\u00fade, apesar do bloqueio dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Quando Fidel Castro saiu da cena pol\u00edtica em julho de 2006 devido a uma grave doen\u00e7a, Cuba se preparava para um ano excepcional de crescimento econ\u00f4mico, enquanto no campo pol\u00edtico a causa antiimperialista ganhava adeptos com triunfos da esquerda em quase todas as elei\u00e7\u00f5es presidenciais latino-americanas. Fiel aliado e disc\u00edpulo de Castro, o presidente da Venezuela, Hugo Ch\u00e1vez, quer ser o novo guia da esquerda da Am\u00e9rica Latina com seu proclamado \u201csocialismo do s\u00e9culo XXI\u201d, embora haja quem tema que se limite a ser um emulo deslavado do cubano na aplica\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tica do mesmo modelo centralizador e autorit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Como o futuro pol\u00edtico n\u00e3o tem categorias absolutas, haver\u00e1 os que dir\u00e3o que a hist\u00f3ria absolveu largamente o jovem advogado que em 26 de julho de 1953 irrompeu na vida p\u00fablica com um ataque suicida a um quartel militar. Para outros, sua partida deixar\u00e1 em evid\u00eancia, uma vez mais, as grandezas e mis\u00e9rias do poder e das utopias que o alimentam. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Santiago, 20\/02\/2008 &ndash; Ao seu modo, Fidel Castro foi o continuador da gest\u00e3o da independ\u00eancia cubana do final do s\u00e9culo XIX, gravou sua marca no s\u00e9culo XX como l\u00edder da primeira revolu\u00e7\u00e3o socialista da Am\u00e9rica Latina e deixa o poder em princ\u00edpios do s\u00e9culo XXI, levando no alto as desgastadas bandeiras da utopia comunista. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/02\/politica\/politica-fidel-castro-o-homem-de-tres-seculos\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1004,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[15],"class_list":["post-3655","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-politica","tag-caribe"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3655","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1004"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3655"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3655\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3655"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3655"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3655"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}