{"id":3656,"date":"2008-02-21T17:57:46","date_gmt":"2008-02-21T17:57:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=3656"},"modified":"2008-02-21T17:57:46","modified_gmt":"2008-02-21T17:57:46","slug":"ambiente-depois-da-seca-o-diluvio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/02\/ambiente\/ambiente-depois-da-seca-o-diluvio\/","title":{"rendered":"Ambiente: Depois da seca, o dil\u00favio"},"content":{"rendered":"<p>Lisboa, 21\/02\/2008 &ndash; Os fortes temporais que atingiram v\u00e1rios distritos de Portugal nos \u00faltimos dois dias deixaram o saldo de tr\u00eas mortos, casas e estabelecimentos comerciais inundados, planta\u00e7\u00f5es arruinadas, estradas interrompidas, \u00e1rvores ca\u00eddas e autom\u00f3veis submersos em estacionamentos subterr\u00e2neos. <!--more--> Em menos de seis horas, na madrugada de segunda-feira, no distrito de Lisboa choveu mais do que um m\u00eas de fevereiro completo no passado, e as precipita\u00e7\u00f5es aconteceram ao completar o per\u00edodo dos tr\u00eas meses mais secos em igual per\u00edodo dos \u00faltimos 91 anos. Mas, a trag\u00e9dia diluviana, que surpreendeu uma popula\u00e7\u00e3o at\u00f4nita e aterrorizada, era previs\u00edvel.<\/p>\n<p>Em 2006, a ent\u00e3o deputada Isabel de Castro, do Partido Ecologista Verde, alertou que em Portugal \u201cas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas se tornaram especialmente dram\u00e1ticas: eleva\u00e7\u00e3o da temperatura, maior freq\u00fc\u00eancia de picos de calor, altera\u00e7\u00f5es dos \u00edndices de precipita\u00e7\u00f5es, aumento do risco de inc\u00eandios florestais, mais inunda\u00e7\u00f5es e secas alternadas\u201d. \u00c9 exatamente o que aconteceu segunda e ter\u00e7a-feira, especialmente no distrito de Lisboa, que tamb\u00e9m afetou as comarcas meridionais de Set\u00fabal e \u00c9vora e Faro, de Castelo Branco, Portalegre e Santarem, no centro-sul do pa\u00eds, de Viseu, no centro-norte e na setentrional Bragan\u00e7a.<\/p>\n<p>Ontem, primeiro dia de pleno sol, a emerg\u00eancia continuou com redobradas a\u00e7\u00f5es dos bombeiros, empenhados e limpar ruas, estradas, pr\u00e9dios e casas inundadas tanto em Lisboa como em Cascais, Oeiras, Loures e Sintra, as \u00e1reas mais afetadas do distrito da capital portuguesa. Em declara\u00e7\u00f5es \u00e0 imprensa na v\u00e9spera, o ministro do Meio Ambiente, Francisco Nunes Correia, garantiu que os problemas n\u00e3o surgiram por defeitos na Pol\u00edtica de Ordenamento do Territ\u00f3rio, \u201cque j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um problema s\u00e9rio em Portugal\u201d. O ministro optou por lan\u00e7ar a culpa pela situa\u00e7\u00e3o criada pelas fortes chuvas aos munic\u00edpios respons\u00e1veis pelas estruturas urbanas, devido \u00e0 \u201cfalta de h\u00e1bito\u201d de realizar limpeza regular nos coletores de \u00e1gua pluvial para evitar as inunda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A resposta foi imediata. Maria das Dores Meira, prefeita de Set\u00fabal, 45 quil\u00f4metros ao sul da capital, acusou o ministro de fazer \u201cdeclara\u00e7\u00f5es graves e insensatas\u201d, mostrando que \u201cfala assim que nada sabe do trabalho dos munic\u00edpios, uma pessoa que est\u00e1 distante da popula\u00e7\u00e3o\u201d. A Meira uniram-se os demais prefeitos, uma posi\u00e7\u00e3o apoiada pelo presidente da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Munic\u00edpios Portugueses, Fernando Ruas, que disse estar \u201cestupefato\u201d com as acusa\u00e7\u00f5es de Nunes Correia. Tamb\u00e9m a associa\u00e7\u00e3o ambientalista Quercus considerou que \u201cs\u00e3o necess\u00e1rias medias urgentes para inverter as tend\u00eancias atuais de expans\u00e3o urbana\u201d e assim evitar que se repita a cena do come\u00e7o da semana, com \u201cuma capital e um centro econ\u00f4mico do pa\u00eds paralisados, convertidos em ref\u00e9ns do mau tempo\u201d.<\/p>\n<p>\u00c0 parte da pol\u00eamica dom\u00e9stica entre prefeitos e ministro, Isabel de Castro disse aa IPS que o problema \u00e9 muito maior e preocupante, n\u00e3o apenas para Portugal, mas para todo o mundo, porque \u201cas altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas s\u00e3o o mais grave problema ambiental que a humanidade enfrenta\u201d. A mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u201crepresenta uma amea\u00e7a ao equil\u00edbrio planet\u00e1rio, \u00e0 seguran\u00e7a, ao n\u00edvel do mar, \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade, \u00e0 escassez de \u00e1gua, com os correspondentes aumentos dos problemas de sa\u00fade associados, em suma, \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida e bem-estar\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Isabel de Castro lamenta a falta de ra\u00e7\u00e3o oficial diante \u201cdeste fen\u00f4meno que n\u00e3o se deve deixar de lado, que se manifesta no inquietante aumento da temperatura, no desaparecimento de esp\u00e9cies e na multiplica\u00e7\u00e3o de fen\u00f4menos clim\u00e1ticos extremos\u201d. Entre as conseq\u00fc\u00eancias apontadas, a ativista ambiental destaca \u201co sofrimento pelas perdas humanas e econ\u00f4micas, que contribu\u00edram para a crescente conscientiza\u00e7\u00e3o da necessidade de atuar conjuntamente para colocar os problemas ambientais em um lugar destacado na agenda pol\u00edtica internacional\u201d.<\/p>\n<p>A origem dos problemas \u201cest\u00e1 no brutal aumento da polui\u00e7\u00e3o pelos gases causadores do efeito estufa, ou seja, a irracionalidade, o fracasso do modelo de crescimento dominante e a falta de uma nova cultura energ\u00e9tica que acabe com a depend\u00eancia do petr\u00f3leo\u201d, afirmou Isabel de Castro. Um novo modelo de utiliza\u00e7\u00e3o da energia deve estar baseado \u201cna diversifica\u00e7\u00e3o das fontes, recorrendo \u00e0s renov\u00e1veis, aproveitando os recursos end\u00f3genos, na efici\u00eancia e, sobretudo, na capacidade de por em pr\u00e1tica novas formas de viver, de produzir, de consumir\u201d, ressaltou a ativista.<\/p>\n<p>As inunda\u00e7\u00f5es de Lisboa e outros pontos do pa\u00eds \u201cs\u00e3o r\u00e1pidas, concentradas em um curto tempo, perigosas e potencialmente mort\u00edferas\u201d, explicou Eus\u00e9bio Reis, pesquisador do Centro de Estudos Geogr\u00e1ficos da Universidade de Lisboa. Reis disse aos jornalistas que nunca havia chovido tanto em fevereiro, concentrado em um s\u00f3 dia. O \u00fanico precedente, desde que existem dados confi\u00e1veis, de maior quantidade de precipita\u00e7\u00e3o concentrada ocorreu em 1864. A previs\u00e3o de Reis \u00e9 preocupante: \u201cna medida em que o tempo passa, a mesma quantidade de chuva ter\u00e1 conseq\u00fc\u00eancias cada vez mais graves, especialmente nas zonas urbanas, onde h\u00e1 cada vez mais \u00e1gua circulando na superf\u00edcie e cada vez menos subterr\u00e2nea\u201d.<\/p>\n<p>Em termos semelhantes os temporais foram explicados por Catarina Ramos, do Instituto de Estudos Geogr\u00e1ficos da Universidade de Lisboa, ao afirmar que as situa\u00e7\u00f5es de chuvas fortes e intensas poder\u00e3o se repetir com freq\u00fc\u00eancia, uma opini\u00e3o compartilhada por Francisco Ferreira, dirigente da Quercus. A ge\u00f3grafa e o ativista disseram na ter\u00e7a-feira que em um futuro pr\u00f3ximo ser\u00e3o comuns as ondas de calor e dias de chuvas intensas. \u201cO clima tem a tend\u00eancia de ficar cada vez mais irregular, espera-se menos dias de chuva, mas quando esta ocorrer ser\u00e1 mais concentrada\u201d, assegura Ramos.<\/p>\n<p>A especialista lembra que \u201c\u00e9 importante n\u00e3o construir nos leitos de inunda\u00e7\u00f5es (rios e riachos), \u00e1reas que deveriam ser essencialmente de lazer\u201d, mas s\u00e3o lugares nos quais \u201cn\u00e3o s\u00e3o cumpridas as leis e se cede aos interesses imobili\u00e1rios\u201d, que constroem sem levar em conta a estrutura natural de uma cidade. Por sua vez, a Quercus tamb\u00e9m lamenta a prolifera\u00e7\u00e3o de \u00e1reas urbanas em uma Pol\u00edtica de Ordenamento do Territ\u00f3rio \u201ccada vez mais permissiva nas ultimas d\u00e9cadas\u201d, que permitiu desmatar, abrindo passagem a \u201cuma urbaniza\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica e sem crit\u00e9rios\u201d.<\/p>\n<p>A historiadora Helena Matos, que assina uma coluna semanal no jornal P\u00fablico, garante que o problema maior de Portugal s\u00e3o seus dirigentes, fustigando o ministro do Meio Ambiente por \u201clavar as m\u00e3os\u201d diante dos problemas registrados, que, segundo Nunes Correia, n\u00e3o dizem respeito ao governo, mas aos munic\u00edpios. \u201cNosso problema mais grave n\u00e3o \u00e9 o ordenamento do territ\u00f3rio, mas nossa toler\u00e2ncia diante da mediocridade, da qual o ministro \u00e9 um de seus maiores benefici\u00e1rios\u201d, disse Helena Matos. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lisboa, 21\/02\/2008 &ndash; Os fortes temporais que atingiram v\u00e1rios distritos de Portugal nos \u00faltimos dois dias deixaram o saldo de tr\u00eas mortos, casas e estabelecimentos comerciais inundados, planta\u00e7\u00f5es arruinadas, estradas interrompidas, \u00e1rvores ca\u00eddas e autom\u00f3veis submersos em estacionamentos subterr\u00e2neos. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/02\/ambiente\/ambiente-depois-da-seca-o-diluvio\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":256,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[18],"class_list":["post-3656","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","tag-europa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3656","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/256"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3656"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3656\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3656"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3656"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3656"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}