{"id":3672,"date":"2008-02-29T18:46:15","date_gmt":"2008-02-29T18:46:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=3672"},"modified":"2008-02-29T18:46:15","modified_gmt":"2008-02-29T18:46:15","slug":"defesa-brasil-e-argentina-abrem-era-de-cooperacao-militar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/02\/america-latina\/defesa-brasil-e-argentina-abrem-era-de-cooperacao-militar\/","title":{"rendered":"DEFESA: Brasil e Argentina abrem era de coopera\u00e7\u00e3o militar"},"content":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 29\/02\/2008 &ndash; Diante da urg\u00eancia em proteger seus recursos naturais no mar e na terra, o Brasil investe na defesa e no desenvolvimento nuclear. E o faz em um clima de coopera\u00e7\u00e3o com a vizinha Argentina, ap\u00f3s d\u00e9cadas de desconfian\u00e7a m\u00fatua. <!--more--> Nos \u00faltimos meses o governo brasileiro duplicou o or\u00e7amento militar decidido a reativar uma ind\u00fastria b\u00e9lica adormecida. Esta vontade, longe de preocupar a Argentina, resulta, no novo contexto, um motor para o desenvolvimento conjunto de avi\u00f5es, sat\u00e9lites, ve\u00edculos blindados e at\u00e9 submarinos movidos a energia nuclear.<\/p>\n<p>Os presidentes Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e Cristina Fern\u00e1ndez assinaram na \u00faltima segunda-feira quase 20 acordos de coopera\u00e7\u00e3o, a maioria deles em mat\u00e9ria de defesa e desenvolvimento nuclear com fins pac\u00edficos. Al\u00e9m dos conte\u00fados, os compromissos t\u00eam um forte valor simb\u00f3lico. At\u00e9 as \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, entre Brasil e Argentina prevaleceu a rivalidade geopol\u00edtica, e o eixo da desconfian\u00e7a esteve no desenvolvimento nuclear alcan\u00e7ado pelos dois maiores pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul. Desde a segunda metade dos anos 80, houve maior aproxima\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, que coincidiu com um per\u00edodo de redu\u00e7\u00e3o do impulso at\u00f4mico.<\/p>\n<p>Agora o Brasil est\u00e1 decidido a atualizar sua ind\u00fastria de defesa, mas evita gerar receio em seu maior s\u00f3cio do Mercosul (tamb\u00e9m integrado por Paraguai e Uruguai). \u201cO Brasil necessita investir no desenvolvimento de uma ind\u00fastria militar, mas n\u00e3o quer ser visto com suspeita, por isso busca associar-se com os vizinhos\u201d, disse \u00e0 IPS o coronel da reserva do ex\u00e9rcito argentino Ign\u00e1cio Osacar, coordenador da comiss\u00e3o de defesa do Centro de Estudos Nova Maioria (Cenm). \u201cA Argentina pode contribuir com recursos humanos e experi\u00eancia n\u00e3o-nuclear, mas n\u00e3o no or\u00e7amento, a menos que haja uma vontade pol\u00edtica muito forte nesse sentido\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>O governo brasileiro anunciou em outubro que o or\u00e7amento militar duplicar\u00e1 este ano, sem inten\u00e7\u00e3o de desatar uma corrida armamentista com seus vizinhos, os quais considera s\u00f3cios e amigos. A inten\u00e7\u00e3o declarada \u00e9 atualizar o equipamento para aumentar seu pot\u00eancia de dissuas\u00e3o e impulsionar o desenvolvimento de uma ind\u00fastria nacional de ponta. Pretende-se melhorar o controle do litoral no oceano Atl\u00e2ntico e da imensa fronteira terrestre no cora\u00e7\u00e3o do continente. O or\u00e7amento para o projeto Calha Norte, que desde a d\u00e9cada de 80 prev\u00ea intensificar a presen\u00e7a estatal na extensa faixa de fronteira da Amaz\u00f4nia, duplicou este ano.<\/p>\n<p>O ministro da Defesa, Nelson Jobim, explicou que o conceito de defesa que interessa ao Brasil \u00e9 o de \u201cinibir\u201d, e alertou: \u201cque ningu\u00e9m pense que pode entrar tranquilamente no espa\u00e7o a\u00e9reo brasileiro nem que pode concentrar for\u00e7as no mar, em \u00e1guas territoriais brasileiras\u201d. A Am\u00e9rica Latina \u00e9 a regi\u00e3o do mundo em desenvolvimento com menor n\u00edvel de conflitos. Assim indica o \u00faltimo informe do Stockholm International Peace Research Institute (Sipri), instituto especializado em estudos sobre desarmamento. Seu gasto militar representa apenas 3% do total mundial, e n\u00e3o chega a 1% na produ\u00e7\u00e3o de armas. Nesse cen\u00e1rio, Brasil, Col\u00f4mbia (com uma velha guerra civil), Venezuela e Chile s\u00e3o os que mais investem. Mas os especialistas n\u00e3o v\u00eaem uma corrida armamentista.<\/p>\n<p>\u201cO Brasil \u00e9 o \u00fanico pais latino-americano com voca\u00e7\u00e3o de ser ator global como s\u00e3o R\u00fassia, China ou \u00cdndia\u201d, disse \u00e0 IPS Rosendo Fraga, estudioso de assuntos de defesa e diretor do Cenm. \u201cPara isso conta com volume econ\u00f4mico, mas lhe falta peso estrat\u00e9gico militar para ser uma verdadeira pot\u00eancia regional\u201d, acrescentou. Por sua vez, Osacar insiste em que o \u201cBrasil n\u00e3o quer ser questionado como o Chile, a Venezuela ou a Col\u00f4mbia pelo aumento unilateral dos investimentos em armamento\u201d. Assim devem ser interpretados os acordos de coopera\u00e7\u00e3o assinados com a Argentina, que d\u00e3o prioridade \u00e0 ind\u00fastria b\u00e9lica, acrescentou Fraga.<\/p>\n<p>Brasil e Argentina acordaram criar uma planta binacional de enriquecimento de ur\u00e2nio e a fabrica\u00e7\u00e3o conjunta de um reator nuclear que dar\u00e1 propuls\u00e3o a um submarino. Tamb\u00e9m abordaram a quest\u00e3o do interc\u00e2mbio na ind\u00fastria aeron\u00e1utica. A Embraer come\u00e7ar\u00e1 a explorar formas de trabalho com a f\u00e1brica argentina \u00c1rea Material C\u00f3rdoba, com a finalidade de desenvolver avi\u00f5es de uso militar e eventualmente civil. Buenos Aires e Bras\u00edlia tamb\u00e9m se comprometeram a fabricar em s\u00e9rie um ve\u00edculo militar leve do qual j\u00e1 existe um prot\u00f3tipo. O \u201cGa\u00facho\u201d, que come\u00e7ou a nascer em 2005, foi resultado da coopera\u00e7\u00e3o entre os dois ex\u00e9rcitos. \u201cUm projeto simples que funcionou com experi\u00eancia para futuros desenvolvimentos de maior envergadura\u201d, destacou Osacar.<\/p>\n<p>Em sua visita \u00e0 Argentina, Jobim tamb\u00e9m conversou com a ministra argentina da Defesa, Nilda Garr\u00e9, sobre a id\u00e9ia de desenhar as for\u00e7as militares sul-americanas, iniciativa que atende ao interesse estrat\u00e9gico de proteger recursos regionais como \u00e1gua, biodiversidade, hidrocarbonos e a pesca. \u201cEstamos fazendo um estudo muito profundo de um projeto estrat\u00e9gico de defesa. Cremos que \u00e9 um assunto n\u00e3o apenas de nosso pa\u00eds, mas da regi\u00e3o\u201d, disse Jobim a Garr\u00e9, segundo fontes e \u00f3rg\u00e3os da imprensa argentinas. \u201cDevemos ter uma s\u00f3 voz na regi\u00e3o\u201d, disse o ministro, que teve a concord\u00e2ncia da ministra.<\/p>\n<p>Por fim, acordou-se desenvolver um sat\u00e9lite para a observa\u00e7\u00e3o dos oceanos. \u201cA Argentina tem tecnologia espacial e o Brasil est\u00e1 em um est\u00e1gio maduro no projeto de sat\u00e9lites para observa\u00e7\u00e3o terrestre\u201d, destacou Gilberto C\u00e2mara, diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). \u201cUm sat\u00e9lite conjunto nos permitiria mostrar nossa capacidade de cooperar em uma \u00e1rea de tecnologia de ponta\u201d, ressaltou ao regressar a Bras\u00edlia. As For\u00e7as Armadas do Brasil t\u00eam um papel preponderante no controle a\u00e9reo da Amaz\u00f4nia atrav\u00e9s do Sistema de Vigil\u00e2ncia da Amaz\u00f4nia (Sivam).<\/p>\n<p>O Brasil avan\u00e7a, assim, na prote\u00e7\u00e3o de seus recursos. Em novembro de 2007, o governo anunciou a descoberta de uma reserva estimada em oito bilh\u00f5es de barris de petr\u00f3leo a grande profundidade no Atl\u00e2ntico e tamb\u00e9m de uma enorme jazida de g\u00e1s. Essas descobertas, que fortalecem o pa\u00eds, devem ser preservadas, afirmam os especialistas. \u201cTodo pa\u00eds necessita ter for\u00e7as armadas em condi\u00e7\u00f5es operacionais m\u00ednimas e o Brasil precisa delas para assegurar algum controle no Atl\u00e2ntico Sul, principal rota de seu com\u00e9rcio\u201d, disse \u00e0 IPS o coronel da reserva Geraldo Cavagnari.<\/p>\n<p>Cavagnari \u00e9 fundador e pesquisador do N\u00facleo de Estudos Estrat\u00e9gicos da Universidade de Campinas (Unicamp). As grandes reservas de petr\u00f3leo rec\u00e9m-descobertas s\u00e3o \u201cum fator adicional\u201d do aumento de investimentos em equipamentos, inclu\u00edda a necessidade de reativar o projeto de submarino nuclear, disse. \u201cA vantagem destes submarinos \u00e9 que, ao contr\u00e1rio dos convencionais, s\u00e3o silenciosos, mais velozes e podem ficar submersos por mais tempo com a redu\u00e7\u00e3o da demanda por combust\u00edvel\u201d, explicou o especialista. Al\u00e9m disso, se o Brasil quer exportar ur\u00e2nio enriquecido \u201cdeve provar sua qualidade utilizando-o\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Da mesma forma, Osacar estimou que um submarino nuclear permitira ao Brasil \u201cgarantir seu litoral, sua zona econ\u00f4mica exclusiva, sua proje\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica para os pa\u00edses lusitanos da \u00c1frica e ate \u00e0 Ant\u00e1rtida\u201d, um interesse que se consolidou recentemente com a visita do Presidente Lula ao continente branco, recordou. \u201c\u00c9 compreens\u00edvel que devido \u00e0 import\u00e2ncia estrat\u00e9gica que possui a zona mar\u00edtima e costeira para o Brasil, recebe uma prioridade especial no planejamento militar de sua defesa\u201d, disse Osacar. \u201cE n\u00e3o \u00e9 o mesmo que implementar uma estrat\u00e9gia em um espa\u00e7o mar\u00edtimo com submarino nuclear ou sem ele\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>Os \u00faltimos exerc\u00edcios militares brasileiros foram realizados sob a hip\u00f3tese de uma invas\u00e3o a uma zona mar\u00edtima com reservas de g\u00e1s e petr\u00f3leo, recordou Osacar. Para a Argentina, por outro lado, os acordos representam um impulso para uma ind\u00fastria muito atrasada, onde a maior parte do equipamento est\u00e1 em manuten\u00e7\u00e3o. Este avan\u00e7o brasileiro n\u00e3o necessariamente deve ser visto com preocupa\u00e7\u00e3o pelos Estados Unidos. \u201cPara Washington, nossa regi\u00e3o deixou de ser uma prioridade h\u00e1 muito tempo, e se n\u00e3o pode encontrar um pa\u00eds confi\u00e1vel, com voca\u00e7\u00e3o e poder de controlar o que ocorre na Am\u00e9rica Latina, talvez se conven\u00e7a de que esse pa\u00eds seja o Brasil\u201d, disse o militar. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p>* Com a colabora\u00e7\u00e3o de Mario Osava (Rio de Janeiro).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 29\/02\/2008 &ndash; Diante da urg\u00eancia em proteger seus recursos naturais no mar e na terra, o Brasil investe na defesa e no desenvolvimento nuclear. 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