{"id":3692,"date":"2008-03-07T18:29:30","date_gmt":"2008-03-07T18:29:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=3692"},"modified":"2008-03-07T18:29:30","modified_gmt":"2008-03-07T18:29:30","slug":"brasil-portugal-divididos-apenas-pelo-idioma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/03\/america-latina\/brasil-portugal-divididos-apenas-pelo-idioma\/","title":{"rendered":"BRASIL-PORTUGAL: Divididos apenas pelo idioma"},"content":{"rendered":"<p>Lisboa, 07\/03\/2008 &ndash; Em toda visita oficial, uni\u00e3o bilateral ou f\u00f3rum internacional Brasil e Portugal insistem em se autoproclamar \u201cpa\u00edses irm\u00e3os\u201d, unidos por uma l\u00edngua comum e v\u00e1rios s\u00e9culos de hist\u00f3ria e cultura compartilhadas. <!--more--> Mas, ser\u00e1 realmente assim no que a l\u00edngua se refere? Os dois pa\u00edses j\u00e1 em 1911 estabeleceram o primeiro acordo ortogr\u00e1fico, que nunca conseguiu ser concretizado devido a uma esp\u00e9cie de \u201cGuerra dos Cem Anos\u201d idiom\u00e1tica entre ambos.<\/p>\n<p>A primeira tr\u00e9gua, ap\u00f3s oito d\u00e9cadas de hostilidades ling\u00fc\u00edsticas, se deu em 1990, quando j\u00e1 n\u00e3o eram dois, mas sete os pa\u00edses de l\u00edngua portuguesa: Brasil, Angola, Cabo Verde, Guin\u00e9-Bissau, Mo\u00e7ambique, Portugal e S\u00e3o Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe assinaram um acordo para unificar a l\u00edngua, estabelecendo prazo de quatro anos para sua ratifica\u00e7\u00e3o. Nada ocorreu passados 10 anos desde o final do prazo. Mas em 2004 houve duas novidades: foi aprovado um protocolo de altera\u00e7\u00e3o estipulando que bastaria tr\u00eas pa\u00edses ratificarem o acordo para que entrasse em vigor, e se concretizou a entrada de Timor Leste, o oitavo pa\u00eds de l\u00edngua portuguesa.<\/p>\n<p>O Brasil ratificou o protocolo nesse mesmo ano, e em 2006 o fizeram Cabo Verde, S\u00e3o Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe e Portugal. Angola, Guin\u00e9-Bissau, Mo\u00e7ambique e Timor Leste deveriam ratifica-lo antes do final de 2007, mas ainda n\u00e3o o fizeram. Especialistas no assunto afirmam que esses quatro pa\u00edses est\u00e3o na expectativa do que far\u00e1 Portugal, que n\u00e3o fez o dep\u00f3sito dos instrumentos de ratifica\u00e7\u00e3o do acordo, presumindo-se que o faria este ano.<\/p>\n<p>A dimens\u00e3o do Brasil \u2013 20 vezes Portugal em popula\u00e7\u00e3o e 150 em territ\u00f3rio \u2013 o autoriza a fazer o que bem entende com a l\u00edngua? Portugal tem a possibilidade ou o direito de se manter aferrado a um conceito conservador da ortografia, como se fosse um inexpugn\u00e1vel baluarte da identidade nacional? Estas s\u00e3o as perguntas recorrentes diante da iminente ratifica\u00e7\u00e3o do acordo ortogr\u00e1fico entre os oito pa\u00edses cujo idioma \u00e9 o portugu\u00eas, que figura em oitavo lugar entre os mais falados do mundo, e em terceiro entre as l\u00ednguas ocidentais, atr\u00e1s do espanhol e do ingl\u00eas.<\/p>\n<p>A ortografia utilizada neste pa\u00eds tamb\u00e9m \u00e9 empregada nas cinco na\u00e7\u00f5es africanas, em Timor Leste e nas chamadas \u201crel\u00edquias \u00e9tnicas\u201d de fala portuguesa da \u00cdndia (Goa, Diu e Dam\u00e3o), da Mal\u00e1sia (Malaca) e da China (Macau). Mas esses 45 milh\u00f5es de habitantes de sete na\u00e7\u00f5es e cinco territ\u00f3rios que usam o portugu\u00eas de Portugal na \u00c1frica, \u00c1sia e Europa constituem apenas 20% dos lus\u00f3fonos. Quase 190 milh\u00f5es de habitantes est\u00e3o concentrados no Brasil.<\/p>\n<p>O escritor e ensa\u00edsta Carlos Alves dos Reis estima que alguns portugueses persistem em ver o Brasil como \u201cum associado menor neste processo, ou at\u00e9 como um inimigo\u201d, diante do qual n\u00e3o se deve ceder. \u201c\u00c9 sensato ignorar o que o Brasil faz por outras vias, n\u00e3o necessariamente as do trabalho para a difus\u00e3o do idioma, para a afirma\u00e7\u00e3o internacional da l\u00edngua portuguesa?\u201d, pergunta Reis em um artigo que ser\u00e1 publicado na pr\u00f3xima semana no Jornal de Letras de Lisboa, ao qual a IPS teve acesso. O escritor prossegue com as perguntas: \u201c\u00c9 politicamente correto fingir que n\u00e3o vemos a crescente aproxima\u00e7\u00e3o, neste e em outros campos, dos pa\u00edses africanos com o Brasil, especialmente vis\u00edvel no caso de Angola?\u201d.<\/p>\n<p>A consagra\u00e7\u00e3o de um acordo ortogr\u00e1fico \u00e9, segundo Reis, \u201cuma op\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica de import\u00e2ncia capital\u201d, devido \u201c\u00e0s consider\u00e1veis vantagens de um instrumento que por certo ajuda a decidir esta coisa muito simples: queremos ou n\u00e3o queremos que a l\u00edngua portuguesa exiba a coes\u00e3o relativa que ajude a viabilizar sua exist\u00eancia?\u201d. O escritor afirma que o destino das l\u00ednguas deve ser pensado em um horizonte de s\u00e9culos e n\u00e3o de emo\u00e7\u00f5es ou interesses moment\u00e2neos, resultantes de \u201ccomplexos de inferioridade cujo obscuro motor \u00e9 a miopia que impede de reconhecer que o futuro da l\u00edngua portuguesa depende hoje mais do Brasil do que de Portugal\u201d.<\/p>\n<p>A ensa\u00edsta e cr\u00edtica liter\u00e1ria brasileira Maria L\u00facia Lepeck, catedr\u00e1tica da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, diz que o acordo n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio. \u201c\u00c9 um desperd\u00edcio de recursos, energias e dinheiro\u201d, afimou. No IX Correntes d\u2019Escritas, um encontro de escritores de fala ib\u00e9rica (espanhol, catal\u00e3o, galego, portugu\u00eas, valenciano e basco), realizado na localidade portuguesa de Povoa de Varzim no dia 16 de fevereiro, Lepecki disse que o acordo \u00e9 f\u00fatil, porque \u201cum brasileiro l\u00ea perfeitamente a ortografia portuguesa e um portugu\u00eas l\u00ea a brasileira\u201d. Al\u00e9m disso, concluiu, \u201cesta quest\u00e3o do acordo levanta alguns pruridos patri\u00f3ticos inexplic\u00e1veis nos dois lados do Atl\u00e2ntico\u201d.<\/p>\n<p>O portugu\u00eas Desid\u00e9rio Murcho, licenciado em filosofia na Universidade de Lisboa, que vive no Brasil e ensina l\u00f3gica na Universidade de Ouro Preto, afirma que \u201cno campo contr\u00e1rio ao acordo est\u00e1 o nacionalismo dos donos da l\u00edngua\u201d. Em uma coluna de opini\u00e3o publicada no jornal P\u00fablico, de Lisboa, afirmou que a id\u00e9ia b\u00e1sica dos det0ratores do acordo \u201c\u00e9 que quem quiser escrever em portugu\u00eas genu\u00edno deve fazer como eles, porque os outros escrevem em um portugu\u00eas de segunda\u201d.<\/p>\n<p>Estas posi\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias ao acordo \u201cnada t\u00eam de surpreendentes, \u00e9 o campo do velho pensamento racista e colonialista portugu\u00eas\u201d, escreveu Murcho. Mas, ao mesmo tempo, destacou que \u00e9 \u00f3bvio que \u201cum acordo ortogr\u00e1fico n\u00e3o pode unificar uma l\u00edngua, se pensarmos que a ortografia \u00e9 uma pequena parte de um idioma e as diferen\u00e7as entre o portugu\u00eas de Portugal e o do Brasil s\u00e3o gramaticais e de l\u00e9xico, n\u00e3o ortogr\u00e1ficas\u201d. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lisboa, 07\/03\/2008 &ndash; Em toda visita oficial, uni\u00e3o bilateral ou f\u00f3rum internacional Brasil e Portugal insistem em se autoproclamar \u201cpa\u00edses irm\u00e3os\u201d, unidos por uma l\u00edngua comum e v\u00e1rios s\u00e9culos de hist\u00f3ria e cultura compartilhadas. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/03\/america-latina\/brasil-portugal-divididos-apenas-pelo-idioma\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":256,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[19,18],"class_list":["post-3692","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","tag-arte-y-cultura","tag-europa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3692","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/256"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3692"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3692\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3692"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3692"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3692"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}