{"id":3881,"date":"2008-05-16T16:44:11","date_gmt":"2008-05-16T16:44:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=3881"},"modified":"2008-05-16T16:44:11","modified_gmt":"2008-05-16T16:44:11","slug":"alimentacao-crise-outro-sintoma-da-liberalizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/05\/mundo\/alimentacao-crise-outro-sintoma-da-liberalizacao\/","title":{"rendered":"ALIMENTA\u00c7\u00c3O: Crise, outro sintoma da liberaliza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Genebra, 16\/05\/2008 &ndash; O encarecimento dos alimentos desatou dist\u00farbios em muitos pa\u00edses do Sul, da Indon\u00e9sia a Camar\u00f5es, da \u00cdndia \u00e0 Costa do Marfim, de Bangladesh ao Haiti.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_3881\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/Tierra_trabajadores_UNDPI.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3881\" class=\"size-medium wp-image-3881\" title=\" - UNDPI\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/Tierra_trabajadores_UNDPI.jpg\" alt=\" - UNDPI\" width=\"200\" height=\"135\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3881\" class=\"wp-caption-text\"> - UNDPI<\/p><\/div>  Mas, isso n\u00e3o deveria surpreender ningu\u00e9m. Trata-se apenas da mais recente de uma s\u00e9rie de conseq\u00fc\u00eancias da abertura das fronteiras praticada por muitos pa\u00edses em desenvolvimento, como parte de acordos com o Fundo Monet\u00e1rio Internacional e o Banco Mundial, medidas de ajuste estrutural que acabaram prejudicando o setor agr\u00edcola e minando sua capacidade de produzir alimento.<\/p>\n<p>Em tempos de maior controle estatal, nos anos 70 e in\u00edcio dos 80, boa parte dos mercados de alimentos nacionais do Sul estava em m\u00e3os de juntas de comercializa\u00e7\u00e3o estatais e de cooperativas. As juntas garantiam pre\u00e7os m\u00ednimos, forneciam sementes e fertilizantes, controlavam o volume importado, redistribu\u00edam alimentos quando diminu\u00eda sua produ\u00e7\u00e3o e compravam mat\u00e9rias-primas das cooperativas. Estes organismos nem sempre eram dirigidos da melhor maneira. Houve muitos casos de corrup\u00e7\u00e3o e inefici\u00eancia, mas, de todo modo, cumpriam certas fun\u00e7\u00f5es cr\u00edticas.<\/p>\n<p>Os agricultores contavam, gra\u00e7as a esses mecanismos, com mercados para vender seus produtos e garantir seu sustento. Os pre\u00e7os eram est\u00e1veis mesmo quando eram menores do que desejavam os produtores. Essas pol\u00edticas permitiam a muitos paises em desenvolvimento exportar alimentos ou, pelo menos, alcan\u00e7ar a auto-sufici\u00eancia. Tudo isso mudou nos \u00faltimos 20 anos. O apoio estatal aos agricultores caiu. Aos pequenos camponeses foi aconselhado se dedicar ao mercado internacional, enquanto os mercados nacionais se abriam a produ\u00e7\u00e3o estrangeira.<\/p>\n<p>Mais do que apoiar os alimentos tradicionais e b\u00e1sicos de cada pa\u00eds, os governos apoiavam os exportadores. Supunha-se que as \u201cvantagens comparativas\u201d dos produtos escolhidos para serem vendidos ao exterior enriqueceriam esse setor e que benef\u00edcios se espalhariam em seguida a toda a popula\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, mais do que originar riqueza, a abertura expulsou milh\u00f5es de camponeses mais pobres do mercado de seus pr\u00f3prios paises. As importa\u00e7\u00f5es substitu\u00edram o que antes se produzia em n\u00edvel nacional nestes 20 anos, as colheitas diminu\u00edram gravemente.<\/p>\n<p>O ocorrido nas Filipinas \u00e9 um exemplo cabal do resultado destas pol\u00edticas. \u201cNas d\u00e9cadas de 60 e 70, \u00e9ramos auto-suficientes\u201d, disse \u00e0 IPS Jowen Berber, do n\u00e3o-governamental Centro Saka. \u201cNesses tempos, o governo investia muito em arroz, tanto na irriga\u00e7\u00e3o e infra-estrutura quanto em apoio ao marketing com cr\u00e9ditos e insumos para a produ\u00e7\u00e3o. Mas, quando as autoridades suspenderam esses incentivos, a colheita diminuiu lentamente\u201d, afirmou Berber.\u201dO governo agora intervem, mas comprando menos de 1% da produ\u00e7\u00e3o de arroz filipino. Compra mais arroz importado do que nacional\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>O governo de Camar\u00f5es retirou seu apoio ao setor arrozeiro em 1994, ao implementar pol\u00edticas recomendadas pelo Banco Mundial e pelo FMI. Nesse contexto, entregou ao mercado de fertilizantes o setor privado. O rendimento dos campos dos agricultores pobres se precipitou, pois o fertilizante se tornou um artigo de luxo, segundo os especialistas David Pingpoh e Jean Senahoun em um estudo para a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e a Agricultura (FAO). A abertura comercial aumentou a vulnerabilidade dos paises \u00e0s pol\u00edticas dispostas por outras for\u00e7as externas.<\/p>\n<p>As importa\u00e7\u00f5es de arroz da \u00cdndia multiplicaram por quase oito em apenas um ano, entre 2001 e 2002. Por isso, muitos agricultores abandonaram a atividade. A \u00e1rea cultivada com arroz diminuiu 31,2% entre 1999 e 2004. Segundo a FAO, a Costa do Marfim tamb\u00e9m foi inundada pelas exporta\u00e7\u00f5es de alimentos. Em cumprimento aos seus compromissos com a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio, esse pa\u00eds reduziu as tarifas alfandeg\u00e1rias ao m\u00e1ximo de 15%. Como conseq\u00fc\u00eancia, as importa\u00e7\u00f5es de arroz aumentaram 6%, em m\u00e9dia, ao ano, de 470 mil toneladas para 715 mil toneladas entre 1997 e 2004. A produ\u00e7\u00e3o nacional caiu 40% no mesmo per\u00edodo.<\/p>\n<p>As importa\u00e7\u00f5es de arroz do Nepal tiveram enormes picos de aumento: quase triplicaram em 1994 e aumentaram oito vezes em 2000. Em algumas zonas, o pre\u00e7o ao consumidor caiu quase 20%. Grandes quantidades de estabelecimentos da fronteira com a \u00cdndia fecharam. O atual ciclo de encarecimento \u00e9 atribu\u00eddo \u00e0 queda das exist\u00eancias. A produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola se canaliza para a produ\u00e7\u00e3o de biocombustiveis. A seca australiana fez a sua parte, e tamb\u00e9m o jogo dos especuladores que compram a futuro. Houve dist\u00farbios e protestos em pelo menos 37 pa\u00edses. Mas, desde o Norte volta a se repetir a cantilena do livre com\u00e9rcio como panac\u00e9ia.<\/p>\n<p>Assim o fizeram no final de abril, em uma reuni\u00e3o na cidade su\u00ed\u00e7a de Berna onde foi examinada a emerg\u00eancia alimentar, o secret\u00e1rio-geral da ONU, Ban Ki-moon; o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, e o diretor-geral da OMC, Pascal Lamy. Dificilmente os agricultores ser\u00e3o convencidos de que mais do mesmo que destruiu seu meio de subsist\u00eancia durante duas d\u00e9cadas os ajuda. \u201cProteger a alimenta\u00e7\u00e3o se converteu em delito pelas leis do livre com\u00e9rcio. O protecionismo, em m\u00e1 palavra, disse Henri Saragih, coordenador internacional da rede mundial Via Camponesa. \u201cOs pa\u00edses se tornaram adeptos da importa\u00e7\u00e3o de alimentos baratos. Agora que o pre\u00e7o aumenta, a fome mostra seu rosto feio\u201d. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Genebra, 16\/05\/2008 &ndash; O encarecimento dos alimentos desatou dist\u00farbios em muitos pa\u00edses do Sul, da Indon\u00e9sia a Camar\u00f5es, da \u00cdndia \u00e0 Costa do Marfim, de Bangladesh ao Haiti. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/05\/mundo\/alimentacao-crise-outro-sintoma-da-liberalizacao\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":312,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12,5,4],"tags":[],"class_list":["post-3881","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-desenvolvimento","category-economia","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3881","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/312"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3881"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3881\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3881"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3881"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3881"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}